Redenção

Jornalistas entre o altar e o palanque

Nas manhãs de sexta-feira, o estúdio da TV Cidade, de Redenção, é invadido pela trupe do cantor sertanejo Simião Nogueira, que apresenta o Clube da Viola. Ele chega cedo à emissora para limpar e decorar o cenário com cachos de banana, berrante, chifres de boi e produtos dos patrocinadores. Há cuidado especial com o fogão a lenha, que precisa estar fumegante quando o programa semanal entra no ar, ao meio-dia.

O Clube da Viola mescla reportagens sobre o mundo rural preparadas pela equipe da emissora com entrevistas ao vivo, vídeos e apresentação de artistas convidados. Nada que lembre a fama da cidade de que a riqueza do agronegócio caminha de mãos dadas com o desmatamento e a exploração da mão de obra rural. O município ficou conhecido nacionalmente por estar na rota do trabalho análogo à escravidão e, internacionalmente, por sua população de índios caiapó.

Simião Nogueira nasceu em Jandaia, em Goiás, passou a infância em Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, e tinha 12 anos quando a família de dez filhos mudou-se para o Pará em busca de melhores condições de vida. O pai era trabalhador rural e levava os meninos para ajudá-lo na roça. “Meu pai vivia grudado no rádio de pilha. Me apaixonei por rádio e sonhava em ser locutor.”

Aos 17 anos, Nogueira começou a trabalhar como aprendiz em uma rádio, durante a madrugada. O locutor adoeceu e ele assumiu o trabalho do colega. “Minha faculdade foi a escola da vida. Já fui longe, mas quero mais.” O programa na TV é uma vitrine para trabalhos mais rentáveis, como shows e apresentação de eventos. O cantor leva os patrocinadores para dar seus recados ao vivo e divulga cantores menos conhecidos.

Filho de trabalhador rural, Simião Nogueira apresenta o "Clube da Viola" na TV Cidade, de Redenção.

Filho de trabalhador rural, Simião Nogueira apresenta o “Clube da Viola” na TV Cidade, de Redenção (Foto: Elvira Lobato).

 

Redenção tem oito retransmissoras de televisão, mas só três geram conteúdo local: as afiliadas do SBT, da Record e da Record News.

A TV Cidade, onde Simião Nogueira trabalha, retransmite o SBT e pertence ao vice-prefeito Carlos Iavé, do PMDB. A retransmissora da Record é do ex-prefeito Wagner Fontes, do PTB, e a da Record News, segundo informações locais, é de um pastor em parceria com a prefeitura.

No início de 2015, o vice-prefeito passou a comandar também a retransmissora da Bandeirantes, a pedido do senador Jader Barbalho, do PMDB, que tem a outorga do canal. Assim, quem chega à TV Cidade se depara também com a placa, a antena e os carros da Band. Não é uma situação inédita na cidade. O ex-prefeito Wagner Fontes também possui dois canais de retransmissão de TV, o 11 e o 3, mas só o primeiro está no ar, afiliado à Record.

Sonho de ser pastora

A equipe de jornalismo da TV Cidade é formada por profissionais que se formaram como Simião Nogueira, “na escola da vida”, aprenderam com a prática, e, de certa forma, caíram na profissão por acaso. A equipe tem vários evangélicos.

Erleide Xavier é âncora do principal programa noticioso da emissora, o Sul do Pará em Revista, e sonha em se tornar pastora da Igreja Casa da Bênção. Aos 30 anos, ela é uma profissional experiente. Contou que começou criança, na Rádio Cristalina FM, de Ourilândia do Norte, a 260 quilômetros de Redenção: “O dono da rádio me viu cantando, me achou desinibida”.

Erleide começou com uma pequena participação, lendo textos, depois ganhou um programa próprio. Trabalhou na rádio até os 19 anos, sem carteira assinada. A jovem teve uma rápida passagem como apresentadora de TV em Tucumã e chegou a Redenção aos 20 anos. Foi repórter e produtora na TV Cidade. Ficou famosa na região, mas não quer continuar jornalista.

“Estou jornalista. Não pretendo ficar por muito mais tempo na profissão. A profissão me fascinou estes anos todos, mas agora tenho outros planos. Não quero ir para cidades maiores nem ser apresentadora de uma rede nacional. Sonho com uma vida espiritual e quero usar meu talento para ser pastora”, disse ela.

Também evangélica, a repórter Cinira Martins, de 37 anos, é formada em gestão empresarial e cursa Serviço Social por ensino à distância. Ela contou que se tornou repórter por insistência da diretora de jornalismo da emissora, Cleide Mendes, que, como ela, é da Igreja Batista. “Há dois anos, fiquei desempregada e acabei fazendo o teste. Uma semana depois, fiz minha primeira matéria.”

Hoje Cinira é reconhecida nas ruas e até dá autógrafos. Mas diz que a fama não a seduz e que também não pretende seguir por muito mais tempo na profissão. “Não quero isto para o resto da minha vida. É muito tenso. O trabalho mexe demais com minhas emoções.”

O diretor da TV Cidade, Jason Alves, informou que a empresa tem 15 funcionários, sendo quatro repórteres. As afiliadas SBT, segundo ele, criaram uma rede para troca de informações no Sul do Pará. Todas as afiliadas da região podem usar o conteúdo gerado pela rede.

“A maioria das TVs é apadrinhada por políticos”

O piauiense Jaris Gomes Vieira, de 35 anos, se formou em teologia, mas desde os 20 anos de idade é profissional de TV no Pará. Em 2014, foi para Redenção, onde é diretor da afiliada local da Record, que pertence ao ex-prefeito Wagner Fontes.

Redenção, na avaliação de Jaris, tem o mercado publicitário mais dinâmico do sul do Pará, superando os de Parauapebas e Canaã dos Carajás, que têm empreendimentos da Vale do Rio Doce. A entrevista com Jaris Gomes foi feita na sede da emissora.

Quais são os critérios da emissora para a escolha dos profissionais?
Os jornalistas são formados pelo próprio mercado, e nós fazemos treinamentos diários de qualificação e de estudos de conhecimentos gerais. Hoje, por exemplo, tivemos uma aula sobre Revolução Francesa. Os treinamentos seguem os padrões de jornalismo da Record.

E que padrões são esses?
Já trabalhei em afiliadas da Globo e posso dizer que os da Record não se diferenciam muito. Não damos detalhes na cobertura de chacinas, porque o caso é macabro por si só. Na apreensão de bombas caseiras, não contamos como são produzidas. Não falamos quanto o tráfico arrecada, para não influenciar as pessoas. Esses cuidados são passados no treinamento diário.
O jornalismo da Record é mais comunitário e popular. Sempre destaco nos treinamentos que o telespectador dificilmente verá um jornalista fazendo editorial na Record como o Arnaldo Jabor faz na Globo. Mas isso não significa que ela não tenha profissionais à altura. A Record pega um profissional do nível do Percival do Souza e o põe sentado numa cadeira ao lado do Marcelo Rezende, porque o povo gosta disso. Temos também treinamentos para evitar os regionalismos, sobretudo em matérias que serão reproduzidas em outros estados.

Qual o perfil da equipe?
Nenhum se formou em jornalismo. Todos entraram na profissão porque se identificam com ela. Em geral, também fazem marketing político, e a cada dois anos se afastam para assessorar campanhas eleitorais. Eu também fiz várias campanhas políticas.

Essa duplicidade contamina o jornalismo da televisão? Até que ponto vocês têm liberdade para fazer jornalismo imparcial?
Não vejo muita interferência no jornalismo que a gente coloca no ar. Na campanha política fazemos um trabalho muito mais agressivo e provocativo. Mas, quando fazemos jornalismo, só mostramos o que é real e ouvimos todas as partes.

Quando seu patrão disputa uma eleição, a TV cobre a campanha dele? O jornalismo, nesse caso, não acaba limitado?
Em 2014, o Wagner Fontes concorreu a deputado, e eu me afastei da TV para trabalhar na campanha dele. Essas coisas acontecem no Brasil inteiro. A maioria das TVs é apadrinhada por políticos.

Na campanha passada, a emissora que retransmite a Record News fez um programa de entrevistas com candidatos e não entrevistou o Wagner porque é adversário do prefeito. A gente não faria o programa se fosse para deixar um candidato de fora.

As retransmissoras de TV são importantes na economia de Redenção?
São muito importantes. Estamos vivendo o começo de uma crise econômica e a população não sabe até quando a recessão vai perdurar. Mas os empresários continuam investindo em publicidade porque sabem que ficará pior se deixarem de investir em TV.

Comentários

Comentários