Pio XII

Uma TV entre os Batalha e os Veloso

Pio XII seria apenas mais um município pequeno e pobre do Maranhão se não fosse um detalhe: desde sua emancipação, em 1977, não surgiu nenhuma força política capaz de romper a alternância de poder entre as famílias Batalha e Veloso.

O prefeito atual é Paulo Veloso, filho do patriarca Raimundo Veloso, que governou a cidade por três mandatos. Do outro lado, também com três mandatos acumulados, está Raimundo Batalha, conhecido na região por Mundiquinho.

Pio XII fica a 270 quilômetros de São Luís. Tem 21 mil habitantes e, segundo o IBGE, 31% da população com idade acima de 15 anos não sabe ler nem escrever, o que ajuda a explicar o quadro político.

Existe uma retransmissora de televisão na cidade – o canal 4, da prefeitura –, que aparece e desaparece de acordo com o rodízio das duas famílias. Quando os Batalha estão no poder, a TV é desativada. Quando assumem os Veloso, ela ressurge.

Em julho de 2015, a TV renasceu e passou a retransmitir a TV Difusora, afiliada do SBT. Quem comanda a emissora é Denis Veloso, irmão do prefeito e músico. A TV funciona com estrutura mínima: um repórter, um cinegrafista e um técnico que opera a chamada “mesa de corte”, ou seja, o equipamento que interrompe o sinal emitido pela Difusora de São Luís para que entrem os comerciais e o jornal local, este apresentado pelo assessor de imprensa da prefeitura.

O retorno da televisão foi uma resposta à chegada de um elemento novo no cenário político local: Jorge Castro, auditor da Secretaria de Fazenda do Maranhão, que instalou uma retransmissora na cidade, o canal 11, com vistas a disputar a eleição para prefeito em 2016. A TV de Castro retransmitia a Rede Meio Norte, grupo de comunicação do Piauí pertencente ao empresário Paulo Guimarães.

Enquanto isso, na televisão

Catinga de sangue

A emissora passou a apontar os erros da gestão do atual prefeito. Em uma das reportagens, sobre a precariedade do hospital municipal, entrevistou uma lavadeira do hospital, que só tinha uma pedra de sabão e um tanque comum para “tirar a catinga” do sangue grudado nos lençóis. Ela implorava por um tanquinho elétrico, a máquina de lavar mais rudimentar, como o que ganhara da filha. “Custa baratinho, quatrocentos reais”, dizia.

Para calar o incômodo, o prefeito lacrou a emissora, em julho, com a justificativa de que ela não tinha alvará de funcionamento do município. E, em seguida, tratou de recolocar no ar o canal 4, que estava adormecido desde 2004, quando sua família foi substituída no comando da prefeitura pelos Batalha.

Denis Veloso, o diretor da emissora, disse que a prefeitura comprou equipamentos simples. Os antigos, segundo ele, viraram sucata. Sobre Jorge Castro, comentou que é “um filho da terra” que ficou rico na capital e está voltando para ser político. “Mas, para se estabelecer na política, é preciso ter raiz. E aqui já tem duas raízes”, resumiu, referindo-se aos Batalha e aos Veloso.

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