Guaraí

A aventura da TV Guará

É meio dia na escaldante Guaraí, uma pequena cidade do norte do Tocantins cortada pela rodovia que liga Palmas a Belém do Pará. O jovem professor de direito Nivaldo Junior ignora o calor e sobe apressado os dois lances da escada que dão acesso ao estúdio da TV Guará. Com um salto na direção da câmera, começa mais uma edição do Tribuna do Povo, uma mistura de jornalismo e entretenimento que vai ao ar no horário nobre das emissoras do interior: o do almoço.

De terno cinza escuro, Nivaldo tenta prender a atenção do telespectador com reportagens sobre crimes, editoriais e tiradas de humor. Ao chamar para o intervalo comercial, diz que vai “tomar uma aguinha para dar um susto no fígado”. O estúdio é improvisado e não tem isolamento acústico. Mas isso não parece abalar o apresentador, que apela aos telespectadores: “Abrace a TV Guará. Abrace o Nivaldo Junior. A cada dia que passa, eu me empolgo mais”.

O jornal é patrocinado pela Cordial Cosméticos, cujos produtos ficam expostos sobre uma mesa durante o programa. Para demonstrar que o sabonete líquido é perfumado, o apresentador abre a camisa e esfrega o produto no corpo. Se aproxima da câmera e sussurra: “Vem ni mim, meu povo. Tô cheiroso!”. Os comerciais exibidos na TV Guará são produzidos na própria emissora.

Canal da prefeitura

A TV Guará funciona no canal 5, que foi outorgado à prefeitura de Guaraí pelo Ministério das Comunicações em 1986. A prefeitura não implantou a retransmissora, e 28 anos depois, em 2014, transferiu o direito de uso do canal a um empresário, Expedito Nogueira.

No sistema de informações da Anatel, consta que o canal foi outorgado à prefeitura, mas não consta a autorização para o uso de radiofrequência. Neste caso, estaria no ar indevidamente.

A TV retransmite a Record News e foi inaugurada em julho de 2014, com uma festa na principal praça da cidade. O secretário de Educação do município, Gersival Lopes, lembra que foi ele quem deu o primeiro boa noite da emissora, ao vivo. O secretário apresenta um programa de entrevistas semanal.

Expedito Nogueira permaneceu pouco tempo com a emissora. No início de 2015, transferiu o contrato de direito de uso a um empresário da cidade, o contador e corretor de imóveis Nivaldo Carvalho, pai de Nivaldo Júnior. Quando lhe perguntam por que investiu em uma televisão no interior, o contador responde, sem hesitar: “Porque sou louco. E porque sou um homem de desafios”.

O prefeito de Guaraí, Júlio Pereira Sobrinho, diz que o contrato de cessão de direito de uso foi firmado por seu antecessor, e que ele apoia a decisão. “A prefeitura não tem recursos financeiros para tocar um canal de TV, e eu considero a televisão relevante para o município. Se o governo quer incentivar a cultura local, deve criar mecanismos para isto. Não basta disponibilizar um canal de TV.”

Guaraí tem 23 mil habitantes e poucos meios de comunicação: duas rádios FM (uma comunitária e outra comercial), a TV e um blog de notícias. Não possui jornal impresso e o acesso à internet é via rádio. A banda larga por cabo ainda não chegou lá.

Distribuição de antenas

A antena parabólica é o grande adversário das pequenas televisões da Amazônia Legal. A parabólica só capta os canais que estão no satélite, o que não é o caso das emissoras locais. Essa barreira foi rapidamente percebida pelo pragmático contador Nivaldo Carvalho, que comprou antenas comuns e as distribuiu gratuitamente aos moradores de Guaraí, numa tentativa de assegurar alguma audiência para sua TV. Na cidade, segundo avaliação do prefeito, 70% das casas têm parabólica.

A emissora funciona com uma estrutura muito pequena, mas tem uma jornalista com diploma universitário em comunicação. O cinegrafista e o editor aprenderam o ofício na prática. Mesmo com estrutura tão precária, produz quatro programas locais, além do jornal.

Gislei Lima, o cinegrafista, tem 21 anos e está no primeiro emprego. Diz que foi treinado por outro cinegrafista, que já deixou a cidade, e que “pegou a manha” da profissão com apenas dois ou três meses de aprendizagem. O outro integrante fixo da equipe é o editor de imagem Gabriel Borges, de 20 anos, apelido Gafanhoto. Ele também está no primeiro emprego e conta que aprendeu o ofício praticando e pesquisando na internet.

“Entrei nesse negócio por paixão”

Nivaldo Carvalho tem 62 anos e é maranhense de Alto Parnaíba. Chegou a Guaraí nos anos 90, enviado pela empresa em que trabalhava, e acabou ficando por lá. É um homem das frases de efeito, como se pode ver na entrevista a seguir:

O senhor acha mesmo que comprar uma TV no interior de Tocantins foi um ato de loucura?
Sou um homem de desafios. Vejo que televisão não é um negócio para dar dinheiro. É um desafio. Minhas outras empresas ajudam a sustentar a televisão.

O senhor vê futuro na sua televisão?
O poder de retorno de uma empresa com um raio de atuação tão pequeno é incerto. Vai chegar um ponto em que ela vai parar de crescer. Mas não entrei nesse negócio pensando em ganhar dinheiro. Entrei por paixão.

O senhor cogita entrar na política?
Absolutamente não. Se eu pudesse, nem votaria.

O senhor parece ser um homem que mede seus riscos.
Toda empresa é como cirurgia. Todas tem risco. Mas penso que avaliei bem o negócio. Uma TV com um mercado limitado, no interior, não tem espaço para voar. Não tem céu de brigadeiro pela frente. Se eu conseguir que 10% das empresas da cidade anunciem na TV, estarei satisfeito.

As antenas parabólicas estão por todo lugar. Elas limitam seu negócio?
Não vejo como uma pedra no meu caminho. Tenho a vantagem de mostrar as coisas da nossa região. Acho que telespectador vai preferir ver o que esta acontecendo em seu estado, em sua cidade, do que acompanhar as notícias de São Paulo.

A concessão do canal é da prefeitura. Isso não deixa o senhor numa situação jurídica frágil?
Entendo que eu tenho a concessão da prefeitura. Quando comprei os equipamentos do empresário que me antecedeu, automaticamente eu recebi o direito de uso da concessão.

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