Coroatá

Você conhece o tripa?

O apresentador se aproxima da câmera e em tom de suspense pergunta: “Você conhece o criminoso Tripa? Tão inteligente, tão liso que colocou dois urubus no cofo [cesto de palha] e foi para a feira. A dona de casa se interessou e quis ver as galinhas. Ele não deixou. Esperto, falou que as galinhas eram ariscas e pediu R$ 80 pela mercadoria. A mulher regateou, regateou e levou o produto por R$ 50. Quando chegou em casa e abriu o cofo, deu com os urubus.”

Estamos no estúdio do Canal Aberto, programa de maior audiência em Coroatá, no Maranhão. O apresentador é Marcílio Gonçalves, de 44 anos. O programa vai ao ar de segunda a sexta, em um horário arrendado pelo ex-prefeito Luiz da Amovelar, do PDT, na retransmissora local da TV Nazaré, da Igreja Católica.

Coroatá é conhecida em todo o Maranhão como reduto eleitoral de Ricardo Murad, ex-deputado federal, várias vezes deputado estadual e cunhado de Fernando Sarney, filho do ex-presidente José Sarney. A mulher dele, Teresa, é prefeita da cidade, e a filha Andréa é deputada estadual.

A cidade, de 64 mil habitantes, tem cinco retransmissoras de televisão. A família Murad é proprietária do canal 4, que retransmite a Record. A família Sarney retransmite a TV Mirante (Globo) no canal 9, e a família Lobão, dona da TV Difusora (SBT), arrendou a um pequeno empresário local o canal 11. Os dois canais restantes são retransmissores de redes católicas: Rede Vida e TV Nazaré.

O arrendatário do canal 11 é Haroldo Nascimento Silva, um pequeno empresário de ônibus de turismo. Ele, por sua vez, transferiu a gestão do negócio a Ezequiel Pacheco Filho. Os dois dividem o lucro da operação. Pacheco se queixou de dificuldades financeiras. Disse que o faturamento é pequeno, de cerca de R$ 9 mil por mês, e que tem de pagar R$ 3 mil mensais à Difusora pelo uso do canal. “É preciso muito jogo de cintura para sobreviver”, afirmou.

Pacheco só se deixa fotografar de óculos escuros. É uma imposição de seu contrato com a Ótica Diniz, que patrocina o jornal local do canal 11, o Programa do Pacheco.

A competição entre as emissoras de Coroatá é acirrada no horário do almoço, quando entram no ar os jornais locais do SBT, da Record e da TV Nazaré. A Globo fica de fora da concorrência no horário por não ter programação local. No duelo, não importa se a emissora é grande ou pequena em nível nacional, mas sim o carisma e o poder de comunicação do apresentador local.

Marcílio Gonçalves, apresentados do programa Canal Aberto da TV Nazaré, dá um formato novelesco à cobertura dos assuntos policiais. Se a audiência for boa, o tema fica vários dias em evidência. A história do homem que vendia urubus na feira como se fossem galinhas caipiras movimentou a cidade por vários dias seguidos, no início de julho de 2015. O preso já era conhecido da população por praticar pequenos golpes.

As pequenas emissoras do interior do Maranhão trabalham com equipes tão pequenas que não têm quem substitua o apresentador em situação de emergência. Gonçalves contou que certa vez o filho sofreu um acidente de moto e ele se viu obrigado a apresentar o noticiário como se nada estivesse acontecendo. “Se eu adoecer, o jornal sai do ar”, disse.

Enquanto isso, na televisão

“Se eu não tiver uma TV, vou ser massacrado pelos adversários”

O uso político das emissoras é admitido abertamente na cidade, como mostra a entrevista com Luiz Mendes Ferreira, o ex-prefeito Luiz da Amovelar, feita no estúdio do programa Canal Aberto. Como todos os canais comerciais pertencem ao mesmo grupo político, da família Sarney e aliados, só restou a ele arrendar um horário no canal católico, que é administrado pela diocese de Coroatá.

Como é a relação entre as TVs e os políticos?
A TV é importante para trabalhar nossa imagem politicamente. Como ex-prefeito, eu faço parte de um grupo de oposição a Murad. Hoje as duas forças estão relativamente equilibradas. Meu grupo tem apoio do governador Flávio Dino, enquanto Murad, que é do grupo Sarney, tem força junto ao governo federal e comanda todos os cargos federais no estado.

Por que o senhor arrendou horário na TV?
Se eu não tiver uma televisão, vou ser massacrado pelo adversário na televisão dele. É uma luta diária e não podemos baixar a guarda um só instante.

A prefeitura repassa verbas para a emissora da prefeita?
Não acredito que faça isso institucionalmente, porque saberíamos. Murad tem um poder econômico e político grande.

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