Codó

A TV é o maior cabo eleitoral

“A televisão é o maior cabo eleitoral do Maranhão”, afirma, sem pestanejar, o piauiense Michel Marques Lopes, diretor da TV Codó, canal 13. Trata-se de um canal da prefeitura, que o prefeito Zito Rolim Filho, do PV, tratou de pôr em uso quando rompeu a aliança política que mantinha com proprietários das demais emissoras locais.

Michel é um profundo conhecedor dos meandros da comunicação e da política da cidade maranhense. Está no setor desde os 13 anos de idade, quando começou como operador de VT na Rede Meio Norte, de Teresina. Assim como outros profissionais da área, ele trabalha em televisão nos intervalos das companhas políticas. Iniciado o período eleitoral, se afasta para assessorar candidatos.

Pragmático, o diretor da TV Codó diz que toda emissora de televisão de prefeitura fica a serviço do grupo político do prefeito. “Não tem como ser diferente. O prefeito não vai deixar uma pessoa da oposição ser repórter ou apresentar um programa na emissora.”

A prefeitura possui duas outorgas de retransmissão de TV: o canal 5, que está desativado, e o 13. O prefeito anterior ocupava o canal 5, que, não se sabe por qual motivo, deixou de ser usado.

Michel Lopes tem outra certeza: quando terminar o mandato do atual prefeito, todos os 14 funcionários da TV Codó perderão o emprego e a emissora, assim como aconteceu no final da gestão anterior, será desativada.

Essa é uma realidade não só em Codó, mas em praticamente todas as cidades onde as prefeituras têm canal de TV. Há relatos sobre televisões que foram desmontadas e nunca se soube o destino dos equipamentos

O canal 13 foi a primeira emissora do interior do Maranhão a se afiliar à Rede Meio Norte, que está em rápido processo de expansão na Amazônia. Produz três programas locais: o jornal Revista Cidade da Gente, de segunda à sexta, das 12h às 14h, com entrevistas, informações tiradas da internet e matérias institucionais da prefeitura; um noticiário esportivo, de 11h ao meio-dia; e o programa de reggae Explosão da Jamaica, aos sábados. O Maranhão, como se sabe, é a capital nacional do reggae.

Codó tem mais quatro canais de televisão com programação local, todos pertencentes a políticos. A família Sarney tem uma geradora na cidade, o canal 9. O ex-prefeito Biné Figueiredo tem o canal 11, afiliado da Record. O canal 7, afiliado da Bandeirantes, pertence à família do ex-prefeito e ex-deputado federal Joaquim Araújo Filho, e o canal 3, afiliado do SBT, pertence ao maior empresário da cidade, Francisco Oliveira, cujo filho, Francisco Nagib Oliveira, foi candidato a prefeito em 2012.

“A realidade é uma só. Todos os veículos de comunicação daqui são usados politicamente. Não existe esse negócio de imparcialidade”, afirmou Miguel Lopes.

A emoção do repórter

A constatação do diretor da TV Codó é corroborada por depoimentos dos jornalistas das demais emissoras da cidade. Mas o que emociona nos relatos é que o fatalismo diante da realidade política não elimina a paixão pelo exercício do jornalismo.

Sena Queribe, de 43 anos, é repórter policial da FCTV, canal 3. Pai de três filhos, ele começou no rádio e foi para a TV em 2011. Fez curso de técnico em rádio e televisão no Senac.

O repórter se deixou levar pela emoção ao lembrar a reportagem que mais o marcou na vida: um ônibus seguia de Teresina para Codó, se desgovernou e caiu no rio. Primeiro a chegar ao local, ele ajudou várias pessoas a se salvarem, mas foi tarde demais para uma mãe e seu bebê, que morreram abraçados. Passados 15 anos do acidente, Queribe chorou ao se lembrar dos corpos sendo içados do fundo do rio.

Ele conta que vende reportagens para os blogs – que são muitos na região – para completar o salário recebido na emissora. Os principais blogs pagam R$ 100 por matéria.

Em Codó ocorre uma curiosa interação entre blogs e emissoras de TV. As televisões reproduzem as informações dos blogs e estes se alimentam com matérias fornecidas por repórteres das emissoras.

Apresentador da FCTV faz a própria maquiagem antes de entrar no ar.

Apresentador da FCTV faz a própria maquiagem antes de entrar no ar (Foto: Elvira Lobato).

Entusiasmo do diretor

Professor, graduado em filosofia, Cícero de Souza é diretor da FCTV. Ele comanda uma equipe de dois repórteres, dois editores, dois cinegrafistas, dois apresentadores, um produtor e um DJ e se tornou um entusiasta da comunicação.

Disse que entrou no ramo por acaso. Foi convidado pelo dono da emissora, de quem é amigo, dentro de um avião. “Ele estava insatisfeito com a programação e com o faturamento da TV, e perguntou se eu topava dirigir a emissora. Topei sem entender nada do assunto.”

A primeira providência, contou, foi comprar livros sobre jornalismo televisivo. Bebeu, segundo disse, na fonte de José Luiz Datena, apresentador da Band, e de Marcelo Rezende, da Record. Criou um programa diário com duas horas de duração, o Fala Codó, e botou o apresentador em pé, se movimentando no estúdio. O programa tem quadros sobre política nacional, informações de blogs locais, noticiário policial, comportamento, esportes e sobre concursos públicos.

Cícero Souza sustenta que a emissora não sofre pressão pelo fato de Joaquim Nagib Oliveira, filho do proprietário da emissora, estar na política. “Ele só aparece se for notícia, e é proibido de passar na frente da emissora durante a campanha eleitoral”, afirmou.

Segundo o diretor, a emissora fatura R$ 104 mil mensais e atinge 83% de audiência durante o jornal local.

“Nunca dá para ser imparcial quando o assunto é o adversário”

Na casa simples, entrei sem ser abordada por ninguém e caminhei até o estúdio da TV Cidade, canal 11, afiliada local da Record, onde um homem alto, de voz tonitruante, gravava o jornal Balança Codó. Ele o fazia sozinho, sem nem sequer a companhia de um cameraman. No lugar de teleprompter, duas folhas de papel com anotações, presas à câmera, o lembravam dos temas mais importantes do noticiário.

Valnei Filho é apresentador e diretor da TV Cidade. O assunto do dia era a rejeição pela Câmara Federal da redução da maioridade penal (que viria a ser aprovada, numa reviravolta, no dia seguinte). Valnei estava irritado com a votação e fez um editorial defendendo a redução da maioridade penal. Nos intervalos do noticiário, deu a seguinte entrevista:

Qual sua posição na audiência?
Tenho a perspectiva de que sou líder de audiência. Ando pelas ruas de Codó e ouço as pessoas. Aonde chego, juntam-se dez, quinze pessoas para tirar fotos comigo. Dizem gostar do meu trabalho; só denuncio fatos com documentos. Somos das emissoras mais rigorosas da cidade.

Que emissoras disputam a liderança em Codó?
Record e SBT.

Como é o relacionamento da emissora com a prefeitura?
Normal. O prefeito nunca deu entrevista, mas, se quiser dar, não tem problema.

Por que ele não dá entrevista à Record?
Talvez porque tenha a emissora dele, que retransmite da Rede Meio Norte. Sempre foi assim em Codó.

Com todos os prefeitos?
Com todos. Nenhum dá entrevista às televisões dos adversários.

Isso não prejudica o propósito de imparcialidade, que presume ouvir o outro lado?
Com certeza. A gente busca esse lado, mas não encontra. Fica só um lado, mas, se ele quiser falar, a TV está aberta.

Você é um homem de rádio. Como começou sua carreira?
Aos 17 anos, na Rádio Eldorado de Codó. Eu queria muito trabalhar em rádio. Como não havia internet, comecei lendo as notícias publicadas nos jornais. Trabalhei em várias cidades do Maranhão, e voltei para Codó há um ano. Tenho muita experiência em TV. Fui apresentador em Pinheiro, Carolina e várias outras cidades.

Qual é a realidade das televisões do Maranhão? Há imparcialidade?
Depende. Quando a televisão é de um político, nunca dá para ser imparcial quando o assunto é o adversário. E o outro age do mesmo modo. Sempre vende o peixe dele, e a razão está com ele. Sempre foi, e sempre será assim.

Como profissional você vê uma forma de lutar contra isso?
Não tem. Eu procuro fazer uma crítica construtiva. Nunca fiz nada que me desabonasse profissionalmente.

Qual é a sua equipe?
Oito pessoas, sendo dois repórteres. A emissora tem uma despesa mensal de R$ 10 mil, incluindo o meu salário. A TV não é a minha principal fonte de renda.

A emissora consegue sobreviver da venda de anúncios?
Não como gostaríamos, mas dá.

Que futuro você vê para a emissora?
É uma grande questão, a ser conversada com os proprietários. Não tenho ideia do que vai acontecer.

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