Caxias

A guerra do fim do mundo

Quinta maior cidade do Maranhão, com 162 mil habitantes, Caxias viveu uma disputa histórica que envolveu a eleição para o governo do estado, em 2014, e a retransmissão do SBT na cidade.

De um lado, estava Edison Lobão Filho, filho do senador e ex-ministro das Minas e Energia Edison Lobão, candidato a governador pelo PMDB e proprietário da TV Difusora, afiliada do SBT. Do outro, o deputado Humberto Coutinho, do PDT, proprietário da TV Sinal Verde, que retransmitia o SBT em Caxias pelo canal 11. Ele arrendava o canal havia dez anos, e tinha contrato até 2017.

Quando Coutinho se aliou ao candidato do PC do B a governador, Flávio Dino, em junho de 2014, Edinho Lobão rompeu o contrato com a Sinal Verde e cortou o sinal do SBT. Os 52 funcionários da emissora ficaram subitamente sem ter o que fazer.

O canal 11 passou, então, a ser administrado pelo ex-deputado federal e ex-prefeito da cidade Paulo Marinho, proprietário da retransmissora local da Bandeirantes, canal 13, e que também já acumulava a administração da retransmissora da Record, o canal 5.

Humberto Coutinho, que é tio do prefeito de Caxias, Leonardo Coutinho, decidiu usar o canal 3, da prefeitura, que estava inativo. E foi feito um acordo triangular: o prefeito cedeu o canal à TV Cidade, da família do senador Roberto Rocha, do PSB, afiliada da Record no estado, e esta repassou o direito de uso do canal à Sinal Verde, que em agosto de 2014 voltou ao ar com a programação da Record.

Durante um ano, os dois grupos adversários políticos – liderados pelo ex-prefeito Paulo Marinho e pelo deputado Humberto Coutinho e seu sobrinho Leonardo – viveram uma guerra sem tréguas. Marinho procurou a Anatel e acusou o adversário de se apropriar do canal da prefeitura e de ter uma TV pirata.

A disputa atingiu o ápice em outubro de 2014, quando a Rede Record mandou uma equipe de São Paulo a Caxias para investigar a denúncia feita por Marinho de que um em cada três bebês morriam após o parto na Maternidade Carmosina Coutinho. A maternidade pertence ao deputado Coutinho, que é médico. O prefeito, sobrinho do deputado, respondeu que as mortes somavam 4,59% e não um terço. Uma tragédia sob qualquer ponto de vista.

Na ocasião, o prefeito afirmou em nota oficial que Marinho é seu “inimigo”, que perdeu o mandato de deputado federal por corrupção e que responderia a mais de 300 processos na Justiça.

Durante o conflito, a fiscalização da Anatel foi a Caxias, mas nada fez sobre outro ponto intrigante da história: há dois canais na cidade – o 5 e o 3 – com sinal da Record, o que é ilegal.

Com a eleição de Flávio Dino e o fortalecimento político de Humberto Coutinho, que em 2015 foi eleito presidente da Assembleia Legislativa maranhense, a correlação de forças no estado mudou. E um novo acordo foi costurado para a volta do SBT à TV Sinal Verde.

Mas, em vez de arrendar novamente o canal, Humberto Coutinho comprou a outorga da retransmissora da família Lobão. Enquanto ele negociava o cancelamento do contrato com a TV Cidade, o SBT local ficou fora do ar. No dia 6 de setembro, a TV Sinal Verde voltou a retransmitir o SBT pelo canal 11.

O canal 3 da prefeitura continuou retransmitindo a TV Cidade, afiliada da Record no Maranhão, mas sem programação local. E o canal 5, administrado por Paulo Marinho, continuou com a programação da Record de São Paulo.

Enquanto isso, na televisão

Repórter Puliça no ar

O programa de maior apelo popular de Caxias é o Repórter Puliça, apresentado por Gladston Silva, de 42 anos. No dia 3 de julho de 2015, quando estive na cidade, ele chegou ao estúdio do canal 13 – retransmissor da Bandeirantes, pertencente ao ex-prefeito Paulo Marinho – a poucos minutos de entrar no ar.

Além de apresentador, Gladston é o próprio “repórter puliça”. Sai a campo de óculos escuros e uniforme cinza, e seu alvo preferido sãos os “meliantes” e a administração municipal de Leonardo Coutinho, adversário de Marinho.

O programa começou em tom de suspense. A câmera acompanhava o repórter e a música de fundo era a do filme Caça Fantasmas. A cena havia sido gravada na madrugada anterior. Gladston percorreu as cercanias do Mercado Central de Caxias para localizar os feirantes que haviam sido banidos da frente do mercado pela prefeitura.

Na reportagem seguinte, ele acusou a prefeitura de pagar aluguel por um prédio que é mantido vazio. Em nenhum dos dois casos a prefeitura foi procurada para se manifestar.

Gladson é uma espécie de Tiririca da televisão local.

Dois auxiliares ficam com ele no estúdio e lhe dão dicas sobre os assuntos. Eles falam sem parar e o apresentador repete as melhores deixas. O cinegrafista é Paulo de Souza, de apenas 17 anos, estudante do segundo grau. Em julho, estava há seis meses na empresa.

Durante um intervalo comercial, o apresentador resumiu sua história. Começou a trabalhar numa rádio aos 22 anos e está há quatro anos na TV. Estudou até a sexta série, tem seis filhos e saiu candidato a vereador pelo PR na eleição de 2012. Não se elegeu por sete votos.

Perguntei por que não ouviu a prefeitura sobre as denúncias feitas em suas reportagens, e ele respondeu rápido: “Não são loucos de me dar entrevista”.

Um jovem esguio, com voz de locutor de rádio, apresenta o noticiário Maranhão Urgente do canal 13, que antecede o Repórter Puliça. Ricardo Rodrigues foi notícia na imprensa nacional em 2010, quando levou um soco do então presidente da Câmara Municipal de Caxias, Antônio Luiz Assunção, do PDT, que se recusava a comentar denúncias sobre as falhas no sistema público de saúde.

Em 3 de julho de 2015, a edição do Maranhão Urgente destacou duas denúncias contra a gestão do prefeito Leonardo Coutinho, sem a versão da prefeitura sobre os fatos. Ricardo Rodrigues é também o repórter, e ainda faz os anúncios publicitários durante o noticiário.

A primeira matéria foi sobre as pessoas que passam a noite na fila em busca de atendimento médico no posto de saúde. A seguinte relatou o caso de uma jovem grávida que morreu na Maternidade Carmosina Coutinho.

A emissora reprisou a reportagem sobre a mortalidade neonatal na mesma maternidade levada ao ar em outubro de 2014, que acirrou os ânimos entre o prefeito Leonardo Coutinho e Paulo Marinho.

Rodrigues explicou por que não mostrou a versão da prefeitura sobre os dois casos: “Estive na prefeitura e não me deram resposta. Depois sai um lado só e nos acusam de tendenciosos”.

O apresentador e repórter disse que já foi alvo de ameaças de morte e que sua casa foi invadida. Ricardo Rodrigues sonha alto na profissão: “Meu foco é São Paulo”.

“A democratização das comunicações passa pelas pequenas TVs”

O diretor da TV Sinal Verde, Ricardo Marques, falou sobre a crise ocorrida em Caxias na eleição de 2014, na entrevista a seguir:

Pode descrever o que ocorreu durante a campanha de 2014?
Tínhamos um contrato de retransmissão com a TV Difusora, e pagávamos R$ 10 mil por mês pelo sinal. O preço do arrendamento é definido segundo a capacidade de receita publicitária de cada município. Os equipamentos, à exceção do decodificador, eram de Humberto Coutinho. O contrato começou em 2004 e no início de 2013 foi renovado por quatro anos. Nós fornecíamos notícias locais para a Difusora em São Luís. Creio que o rompimento do contrato tenha sido uma decisão pessoal de Lobão Filho, sem consultar o pai [o senador Edison Lobão, ex-ministro de Minas e Energia], que sempre teve uma relação muito amigável com Humberto Coutinho.

Como se deu o rompimento?
Recebi um telefonema do superintendente da TV Difusora avisando que eles não tinham mais interesse na parceria, e no mesmo dia cortaram o sinal do satélite. Tínhamos 52 funcionários e ficamos fora do ar durante 45 dias. O pessoal ficou produzindo conteúdo para o portal da Sinal Verde na internet.

As condições comerciais com a TV Cidade foram nas mesmas bases das existentes com a Difusora?
Nas mesmas bases. Pagamos R$ 10 mil por mês pelo sinal, e passamos a gerar noticiário local para a TV Cidade São Luís. Coutinho tentou comprar a outorga do canal 57 (na mesma cidade), que está fora do ar, mas os proprietários não quiseram vender. Talvez por motivação política. Em 2015, o ex-ministro Edison Lobão ofereceu o canal 11 a Coutinho.

E como ficou o contrato que vocês tinham assinado com a TV Cidade para a retransmissão da Record?
A rescisão com a TV Cidade foi negociada. Havia uma cláusula contratual que a obrigava a impedir a repetição ilegal da Record pelo canal 5. Eles chegaram a notificar o Paulo Marinho, mas não conseguiram tirar o canal do ar. Não tivemos escolha. Precisamos de um canal para chamar de nosso, para não corrermos o risco de ficar sem o canal na próxima eleição.

Que conclusão se pode tirar deste episódio de Caxias?
Que o monopólio das comunicações é terrível para o desenvolvimento de uma cidade. Por muitos anos, Humberto Coutinho tentou comprar uma emissora de rádio em Caxias, e só conseguiu com a derrocada do grupo Sarney. Compramos uma rádio AM e uma FM do ex-presidente da Assembleia Legislativa Manoel Ribeiro, que é um político muito ligado ao ex-presidente Sarney. O ex-deputado Joaquim Haickel, também ligado a Sarney, tem concessões de rádio no estado que nunca entraram no ar. Isto foi muito ruim para o desenvolvimento do Maranhão.

Por que vocês não solicitaram uma outorga de retransmissão de TV ao Ministério das Comunicações?
Foi o que mais se tentou, desde 2001. Mas nada conseguimos. Caxias não tem nenhuma geradora de TV. Todos os canais são simples retransmissoras que estavam com o mesmo grupo.

Codó e Timon, que são cidades próximas e menores, têm geradoras. Por que Caxias não tem?
Eu acredito que Sarney não tinha interesse em que houvesse uma geradora aqui. A abertura que está acontecendo é por conta do enfraquecimento econômico de alguns políticos que integram o grupo Sarney.

Quantos jornalistas vocês empregam?
Com registro profissional, temos dez, dos quais dois são graduados em jornalismo. Um deles sou eu.

Conte-me um pouco da sua história.
Sou cearense. Cheguei aqui em novembro de 90. Trabalhei em todas as capitais do Nordeste, à exceção de São Luís e de Aracaju. Fui um pouco andarilho. Aqui conheci minha esposa e me fixei. Fui diretor do sistema de televisão de Paulo Marinho, quando retransmitia a Mirante [afiliada da Globo e propriedade da família Sarney]. Falo de Marinho com conhecimento de causa. Em 1995, fui gerente regional do Sistema Mirante. Trabalhei em todos os grupos de mídia da região.

Qual é a qualificação do jornalista na região?
Surgiu um fenômeno novo: os cursos de formação de jornalistas de nível técnico. Umas dez pessoas da minha equipe fizeram e obtiveram o registro profissional. Foi uma oportunidade surgida com o fim da obrigatoriedade do diploma de jornalismo.

Qual é a realidade do jornalista no interior do Maranhão?
Precária. Na média, é um profissional muito carente de qualificação. Mas tem boa vontade. É um autodidata. Sou favorável ao diploma universitário porque a academia qualifica. Mas não temos faculdade de jornalismo aqui.

E qual o salário médio dos jornalistas?
Nosso repórter tem salário médio de R$ 1.500 e todos têm carteira assinada. Um editor de imagem ganha R$ 1.200. E nós cumprimos a jornada de seis horas diárias. O salário do repórter está abaixo do piso salarial para o Maranhão, mas só o grupo Mirante cumpre o piso no Estado. Tem jornalista no mercado que não tem salário nenhum. A maioria é jovem que está aprendendo na prática, sem orientação.

Apesar das carências, você defende as retransmissoras locais de TV?
Defendo. Mesmo as mais precárias ajudam a resgatar a autoestima e o amor dos cidadãos por sua cidade. As pessoas gostam de ver o que acontece em suas cidades. A democratização das comunicações passa pelas pequenas TVs. Hoje, todas as grandes emissoras do Estado estão diretamente ligadas ao grupo Sarney e a seus tentáculos.

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