Canaã dos Carajás

Amigo da polícia, inimigo de bandido

Canaã dos Carajás, no sul do Pará, é uma cidade dormitório que abriga milhares de trabalhadores terceirizados das minas da Companhia Vale. Lembra o Velho Oeste norte-americano: empoeirada, com maioria da população masculina e onde tudo parece estar em construção.

“Aqui tem gente de todo lugar do Brasil. Pessoas que vêm trabalhar, outras que vêm roubar. Isto gera informação, gera notícia”, disse Patrick Siqueira, o Chocolate, 21 anos de idade, apresentador da TV Serra Azul, afiliada da Record. Ousado, hiperativo e autoconfiante, ele é a síntese do jovem profissional de televisão daquela área.

A emissora em que Chocolate trabalha pertence a Valdemar da Pavinorte, empresário e político do PSDB que disputou a eleição para prefeito várias vezes, sem nunca ter sido eleito. No dia 22 de agosto de 2015, quando este capítulo foi escrito, Valdemar acabara de ser preso pela Polícia Federal, sob a suspeita de superfaturar o transporte escolar público em Marabá.

Com cerca de 33 mil habitantes, Canaã dos Carajás tem três retransmissoras de TV, mas só a Serra Azul tem programação local. A prefeitura possui um canal que está cedido em comodato (empréstimo) por dez anos para retransmissão da Bandeirantes. O terceiro canal pertence à família do prefeito de Curionópolis e está em implantação.

A prefeitura de Canaã, comandada por Jeová Andrade, do PMDB, diz que não explora sua outorga por ter necessidades mais urgentes do que implantar uma televisão. O assessor de Comunicação municipal, Carlos Magno Oliveira, acusou a TV Serra Azul de fazer “um jornalismo rasteiro, baixo e comprometido”, e disse que o proprietário usa o canal para atacar os adversários políticos.

Enquanto isso, na televisão

“Palavras verdadeiras aumentam meu pedigree”

Encontrei Patrick Siqueira, o Chocolate, em um evento público em Canaã dos Carajás. Ele iria se apresentar com sua banda gospel e deixou o palco por instantes para a seguinte entrevista:

Fale um pouco sobre você.
Tenho experiência com rádio e televisão. Hoje pela manhã, fiz um programa ao vivo na Rádio Correio FM. Aprendi a fazer jornalismo na caminhada da vida, de televisão em televisão, pelo estado do Pará. Já passei por emissoras do SBT, pela RBA [rede de TV do senador Jader Barbalho, afiliada da Bandeirantes], e agora estou na Record. Nasci em Tucuruí e cheguei a Canaã dos Carajás aos 16 anos. Estudei até o ensino médio.

Como você se tornou apresentador de TV?
Tudo começou quando fui trabalhar com um carro de som, fazendo anúncios pela cidade. O dono tinha uma rádio pirata, achou que eu levava jeito para a comunicação e me levou para a emissora. O começo foi difícil, mas com o tempo fui ganhando fama. Eu apontava os políticos corruptos no meu programa e fui ameaçado de morte. Passei perto da morte.

Pode contar como foi?
Eu ficava no estúdio e falava dos vereadores que não trabalhavam. Tinha fontes nas ruas. Fontes seguras, com informações contundentes.

Quem te ameaçou?
Um vereador. Por ética não vou dizer o nome. Hoje somos  melhores amigos. Ele chegou à rádio junto com um pistoleiro. Eu abri o microfone, e ele se intimidou. Eu o coloquei no ar. Ali começou nossa amizade. Eu o havia chamado de corrupto e ladrão.

Recebeu outras ameaças?
Até hoje recebo. Sou um apresentador de jornal. Todos os jornalistas aqui são coagidos.

Por quanto tempo ficou na rádio?
Por três anos.

De onde vem esse apelido de Chocolate?
Eu ainda estava só na rádio e surgiu a oportunidade de fazer propaganda de uma farmácia na TV. Me apresentei como Patrick Chocolate. Entrava na farmácia, perguntava a um garotinho se tinha determinado remédio. Ele dizia: “Só na Bigfarma é que tem”. Deu certo. Passei a ser requisitado pelo comércio. Sou o único garoto propaganda do município. Faço comercial de materiais de construção, de loja de artigos para escritório, lojas de roupas e de automóveis.

Daí se tornou apresentador do jornal da afiliada da Record?
Meu primeiro trabalho na TV foi em um programa de produção independente para a RBA. Em seguida, apresentei um programa aos domingos. Depois passei a fazer reportagens e a apresentar o Balanço Geral, com transmissão ao vivo. Hoje sou só âncora do jornal.

E seu estilo mudou do rádio para a TV?
Continuo com o mesmo estilo. Sou um cara ativo. Não tenho temor da situação, e o pessoal confia em mim. Minhas palavras são verdadeiras e isso faz meu pedigree crescer mais e mais.

Você é muito garoto ainda.
Muito novo para estar com esta onda toda, não é? Mas já estou cansado. Sou muito vivido. Vivido mesmo!

Como você define seu estilo?
Amigo da polícia. Bandido não gosta de mim.

Qual é a linha do noticiário que apresenta?
Chocolate: É um noticiário sério, com padrão de qualidade da Record de São Paulo.

Agora que está famoso, quando fatura por mês?
R$ 2.800 com carteira assinada como apresentador e jornalista. Fora isso, tenho uma borracharia e casa própria. Tenho mulher e dois filhos. Fui pai aos 17 e aos 19 anos.

Você vende anúncios?
Eu não vendo anúncios. Eu faço anúncios para a televisão. Tenho de anunciar para ter meu salário no final do mês. Se não tiver anúncio, o salário fica atrasado.

O Valdemar da Pavinorte concorreu várias vezes a prefeito e nunca se elegeu. Isso mostra que a televisão não garante eleição?
[Silêncio]

Como é seu trabalho durante a campanha eleitoral?
A gente busca divulgar o candidato dono da TV. Chamar a atenção do povo e mostrar que ele está fazendo alguma coisa. Isso é difícil, cara. Ele dá entrevistas na TV. Eu o entrevisto nas festas.

E você não pode criticá-lo?
Chocolate: Jamais.

Como é a relação da TV com o prefeito?
O Valdemar é do PSDB e o prefeito, Jeová Andrade, é do PMDB. A prefeitura nos discrimina. Não dá entrevista à TV.

Se o prefeito fizer algo bom, a televisão não pode mostrar?
O dono da emissora é que decide se a matéria vai para o ar ou não. As retransmissoras do SBT e da Bandeirantes não têm jornalismo local, e veiculam comerciais da prefeitura.

A prefeitura não anuncia na emissora do Pavinorte?
Não.

Como é viver em Canaã dos Carajás?
É uma cidade cheia de homens. Há muitas empresas de mão de obra terceirizada, que prestam serviços para a Vale. Aqui tem gente de todo lugar do Brasil. Pessoas que vêm trabalhar, outras que vêm roubar. Isto gera informação, gera notícia. Não há estrutura de lazer, só bar, bar e bar.

O que você acha do jornalismo?
Ele nos dá a oportunidade de conhecer a comunidade de perto. Financeiramente, não tenho do que reclamar. Me ajudou 100%. Estou pronto para sobreviver em qualquer cidade. Estou pronto para a vida.

Pensa em concorrer a algum cargo político?
Penso em concorrer a vereador, mas ainda não tenho partido.

Comentários

Comentários