Bacabal

Prefeito paga para ter nota 10 na TV

O ex-deputado federal José Vieira, do PR, é um dos maiores caciques políticos de Bacabal, cidade do Vale do Mearim, a 240 quilômetros de São Luís. A cada eleição mede forças com outro cacique local: o senador João Alberto Souza, do PMDB.

O primeiro tem nas mãos a TV Mearim, que retransmite a Bandeirantes; o segundo controla, por meio de aliados, a TV Difusora local, retransmissora do SBT. A terceira televisão de Bacabal – TV Nova Esperança, que retransmite a Record – pertence à família do senador Roberto Rocha, do PSB, e está arrendada a um pequeno empresário da cidade, José Clécio, que é secretário municipal de Cultura.

José Vieira, de 81 anos, é o típico coronel político. Nascido em Sousa, na Paraíba, foi prefeito de Bacabal de 1997 a 2004 e deputado federal de 2009 a 2014, os dois primeiros anos como suplente. Casado com Patrícia Vieira, 50 anos mais jovem, tentou transferir seu capital político para a mulher, mas não teve êxito nas duas tentativas: ela perdeu as disputas pela prefeitura, em 2012, e por uma cadeira na Assembleia maranhense, em 2014.

Enquanto isso, na televisão

Faltando cinco dias para a eleição de 2014, correram boatos em Bacabal de que Vieira teria se aliado ao prefeito da cidade, o pecuarista José Alberto Veloso, e vendido a TV Mearim. O veterano político foi pessoalmente à emissora desmentir os boatos no programa Cidade Viva. Falou por oito minutos sem ser interrompido, mencionou indignado que os cabos eleitorais do prefeito estavam fazendo campanha contra a candidatura de sua mulher, e declarou solenemente:

  • Zé Vieira não se vende.
  • Nunca fiz uma coisa errada na vida.
  • Zé Vieira tem vergonha na cara.
  • Nunca que eu ia desprezar a mulher que eu amo, que eu chamo de minha mãe porque cuida de mim.

O prefeito

Cheguei a Bacabal no dia 4 de julho de 2015. Era sábado e as repartições públicas estavam fechadas. Soube que o prefeito José Alberto Veloso acorda cedo aos domingos para conversar com populares na varanda de casa. Às 7h30 do dia seguinte, cheguei à residência de Veloso. Uma caravana já o aguardava para levá-lo à sua fazenda.

Apesar de ser filiado ao PMDB, o prefeito não é aliado do senador João Alberto Souza. Portanto, apanha tanto da TV Mearim, de José Vieira, quanto da TV Difusora, controlada por Souza. Acompanhado de Alberto Filho, que é deputado federal, o prefeito resumiu em poucas frases sua relação e seu mau humor com as emissoras locais de TV: “Aqui não tem televisão imparcial. Para mostrar as ações da prefeitura, tem de fazer contrato de parceria com a TV. A [afiliada da] Record é aliada porque a prefeitura paga um programa lá.  A prefeitura é achacada. Se der dinheiro tem nota dez. Se não der, tem nota zero. Se não pagar, só tem notícia ruim em todas as emissoras. Umas são mais brandas. Outras pegam mais pesado.”

Pela fé

Bacabal tem 102 mil habitantes. É uma cidade mal cuidada, que sofre com acúmulo de lixo e ruas esburacadas.

O Ministério das Comunicações autorizou cinco retransmissoras na cidade. A TV Mearim (Bandeirantes), a Difusora (SBT) e a Nova Esperança (Record) produzem conteúdo local. As outras – Rede Vida e Mirante – são apenas repetidoras.

Com quinze funcionários, a retransmissora do SBT pertence ao deputado estadual Roberto Costa, afilhado político do senador João Alberto Souza. Uma foto do senador na parede da emissora explicita o vínculo entre os dois.

A outorga do canal está em nome da TV Difusora, pertencente à família do senador Edison Lobão, mas a diretora comercial da empresa, Larissa Karen, confirmou que o deputado Roberto Costa é o proprietário. O principal programa é o jornal Ronda na Difusora, apresentado por Randson Lacerda, que faz o estilo policial linha-dura.

O sexto canal a se implantar em Bacabal não tem outorga do governo federal: a TV Cidade, canal 47, que retransmite a RedeTV. Na fachada do sobrado da emissora, uma frase chama a atenção: “Aqui chegamos pela fé”.

O canal pertence a Janaina Fortes, que trabalha na Assessoria de Comunicação da prefeitura. Trata-se, segundo afirmou, de um investimento dela e do marido, sem participação do prefeito. Janaina diz que entrou com o pedido de outorga no ministério em 2014, e que fiscais da Anatel teriam lhe dado prazo de dois anos e meio para conseguir a licença. “Todo político quer televisão, mas a minha não é de político. Eu quero mesmo é vendê-la”, afirmou.

Dois meses depois de minha passagem por Bacabal, mais uma retransmissora foi implantada na cidade: a TV Bacabal, canal 9, afiliada à Rede Meio Norte, pelo deputado estadual José Carlos Nobre Florêncio, do Partido Humanista da Solidariedade. O filho dele, Florêncio Neto, é pré-candidato a prefeito da cidade na próxima eleição.

Areia do deserto

No comando da TV Nova Esperança, retransmissora da Record, está o ex-bancário Salomão Duarte, de 53 anos. Ele foi gerente do Banco do Estado do Maranhão e assessor de políticos até que o destino o levou para o jornalismo, em 2013.

A emissora tem 17 empregados e funciona junto com uma rádio comunitária em uma casa verde, sem identificação na fachada. Salomão Duarte acumula as funções de diretor e de apresentador do Telejornal Fala Cidade. Ele diz que existe uma concorrência predatória entre as retransmissoras de televisão de Bacabal, o que leva à desvalorização do espaço publicitário.

A TV Nova Esperança cobra R$ 800 por mês por oito inserções diárias de 30 segundos, mas há concorrente cobrando R$ 100 por mês pelo mesmo espaço.

“O que mais dá reclamação é briga de marido e mulher”

Na entrevista a seguir, Salomão Duarte descreve como é dirigir uma TV em Bacabal.

A quem pertence essa televisão?
É uma parceria entre o José Clécio e o senador Roberto Rocha, do PSB, que tem a outorga do canal. O Clécio começou com um carro de som, anunciando eventos e empresas. Daí sentiu necessidade de uma rádio. Depois, veio a necessidade de acoplar a TV ao negócio.

Como se dá essa parceria? Ele paga pelo sinal?
Não sei como é o acerto entre eles. Sei que há um contrato, que é renovado a cada dez anos.

Mas a TV tem de apoiar o senador Roberto Rocha, certo?
Pela lógica, sim.

O senador Roberto Rocha é aliado ou adversário do atual prefeito?
Isso é muito complexo. Político é como areia do deserto. Muda toda hora. Não se pode nem dizer se são aliados ou não. Hoje eles se odeiam, amanhã eles se amam e depois eles se casam. E depois se separam.

O prefeito considera que este é um canal aliado.
A TV Nova Esperança é a única em Bacabal que pode navegar por todos os oceanos. Inclusive temos um programa da prefeitura.

O prefeito diz que, se ele não pagar, apanha nas televisões. É isso mesmo?
Na nossa emissora, se o fato é notícia, ele aparece no jornal. Mas se for só de interesse da prefeitura ou de uma empresa, é cobrada a divulgação. A prefeitura tem o programa Bacabal Agora, apresentado pelo assessor de imprensa do prefeito. Não é um jornal, é um programa institucional, que vai ao ar das 13h às 14h.

Quais são os programas locais?
Temos um programa terceirizado, o Balanço Geral, apresentado por Israel Braga, que também é repórter nosso. Ele aluga o horário por R$ 6 mil mensais, e busca anunciantes para cobrir seus custos. O Fala Cidade é o jornal da casa, que vai ao ar das 17h30 às 18h30. Sou o responsável pelo conteúdo e posso afirmar que ele é independente e imparcial. Eu dou a notícia e deixo que o telespectador tire a conclusão.

Um repórter comprou um horário na TV?
Exatamente.

Vocês sofrem ações judiciais de políticos que se sentiram ofendidos?
Estou à frente da emissora há 12 meses e não recebi nenhuma reclamação de político. O que mais dá reclamação é briga de marido e mulher. O casal briga, vai à polícia. A gente noticia, e às vezes o casal não gosta.

Como as televisões cobriram a última eleição?
Fomos a única emissora que permaneceu o tempo todo no ar e não foi lacrada pela Justiça Eleitoral. A TV Mearim e a Difusora ficaram quase uma semana fora do ar porque a baixaria estava muito grande.

Como está a disputa pela audiência com a Globo?
A Globo perde para a programação local. A Mirante [afiliada Globo] só dá notícias de Bacabal no jornal regional, editado em Caxias. O correspondente produz uma reportagem e envia para Caxias, que analisa e envia para a sede em São Luís decidir se deve ou não entrar no noticiário regional. A população quer saber o que acontece aqui. Até os casebres mais pobres têm uma anteninha comum para captar os programas locais.

As retransmissoras locais vão conseguir evoluir para a tecnologia digital?
Vamos nos adequar. O Clécio ou o senador farão o investimento. Até porque o senador Roberto Rocha tem pretensões políticas e não vai deixar a TV morrer na praia.

Comentários

Comentários