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	<title>Pública &#187; Tag: #protestos</title>
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	<description>AGÊNCIA DE REPORTAGEM E JORNALISMO INVESTIGATIVO</description>
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		<title>&#8220;Foi um teatro montado para entregar o Maracanã&#8221; diz manifestante</title>
		<link>http://www.apublica.org/2012/11/foi-um-teatro-montado-para-entregar-maracana-diz-manifestante/</link>
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		<pubDate>Fri, 09 Nov 2012 17:00:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
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		<description><![CDATA[A audiência pública sobre a privatização do estádio símbolo do futebol brasileiro contada por quem estava lá]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>A reforma e a privatização do Maracanã foram tema de uma audiência pública promovida pelo governo do estado do Rio de Janeiro na última quinta-feira (8), marcada por protestos e resistência da sociedade civil e dos movimentos sociais que foram noticiadas em todo o país. Isso porque o estádio símbolo do futebol carioca (e brasileiro) está em vias de ser repassado à iniciativa privada após uma série de reformas bancadas com dinheiro público. Fora isso, várias intervenções, como as demolições da Escola Municipal Friedenreich, do Parque Aquático Julio Delamare, do Estádio de Atletismo Celso de Barros e do Museu do Índio causam revolta entre os movimentos sociais.</p>
<p><a href="http://apublica.org/2012/06/maracanosso-ou-maracadeles/" target="_blank">Maracanosso ou Maracadeles?</a></p>
<p>O <strong>Copa Pública</strong> pediu ao membro do Comitê Popular da Copa e Olimpíadas Gustavo Mehl, que participou da audiência pública, contar o que de fato aconteceu por lá. Leia:</p>
<p>&#8220;Logo no início da audiência de ontem, a gente pediu a fala. Era uma estratégia que estava combinada entre pais da Escola Municipal Friedenreich, alguns atletas, o pessoal da Aldeia Maracanã e o Comitê Popular. Eu li uma carta dizendo que a audiência não era válida porque um debate anterior deveria ter sido feito, sobre qual o tipo de gestão que o Maracanã deve ter, se pública ou privada e dizendo que a gente não iria participar desta farsa. Havia mais de 500 pessoas no lugar e todas estavam revoltadas, aplaudindo e gritando de forma unânime contra o teatro que estava montado para a entrega do Maracanã.</p>
<p>A partir daí foram duas horas de protestos, não houve audiência. Nós temos acompanhado várias audiências públicas do Estado do Rio de Janeiro e a verdade é que inverteram a lógica do que deveria ser uma conquista histórica de participação popular. São apresentados projetos, abre-se para algumas interferências e independente do que é falado, eles tocam o barco da maneira como querem. As audiências públicas são uma obrigação legal, mas estão funcionando como um rito formal para legitimar processos arbitrários.</p>
<p>Nós chegamos à audiência ontem conscientes de que esse circo iria ser armado novamente. Foram duas horas de vaias, apitaços, os ânimos estavam exaltados mas não houve violência em momento algum. De fato um indígena jogou uma sacola com fezes em direção à mesa, mas foi uma coisa dele, nós não sabíamos de nada. Alguns parlamentares concordaram que seria melhor cancelar a audiência pública e ainda assim o secretário estadual da Casa Civil, Régis Fichtner, como a gente esperava, seguiu com uma atitude extremamente patética, dizendo que “não era um pequeno grupo que iria fazer com que ele acabasse com a audiência”. E isso revoltou o pessoal ainda mais porque não era um “grupinho”, eram mais de 500 pessoas! Não existiu audiência pública. O que aconteceu foi uma grande confusão, falas da mesa ao microfone sendo abafadas pelas vaias e pelo clamor das pessoas.</p>
<p>Ainda assim, eles foram levando do jeito que dava e no fim o secretário declarou que seria uma derrota para a democracia se ele encerrasse a audiência. Mas que demoracia é essa? Nós estamos justamente criticando este processo tão arbitrário, quando o governo demoliu o Maracanã que tinha acabado de passar por duas reformas de mais de 400 milhões de dinheiro público. Era ali que deveria ter acontecido o debate. Desde o ano passado, quando o governo começou de forma mais concreta a afirmar para a imprensa que o Maracanã iria ser privatizado. Agora eles “destombam” o Julio Delamare às vésperas da minuta do edital, divulgam a nota do edital sem ter consultado a população ou os grupos afetados, fazem essa audiência pública mas na mesma semana o próprio secretário, o Sérgio Cabral e a secretária de esportes e lazer vão à imprensa para dizer que já está tudo fechado, que o modelo de privatização é esse, que a demolição da escola vai acontecer, que os equipamentos esportivos vão ser demolidos, que o Museu do Índio vai ao chão. De que adianta uma audiência Pública se as cartas já estão marcadas? Foi um escândalo, um escárnio e um grande símbolo de como a gente vive um momento muito delicado, não só no Rio de Janeiro mas em todo o país, de crise dos processos democráticos.</p>
<p>A demolição do Maracanã, a privatização e a intenção de elitizar o uso do estádio é um dos maiores crimes da história do Rio de Janeiro e da história do Brasil. Estão ignorando a nossa relação com o estádio e a vontade dos verdadeiros donos do Maracanã, as pessoas que usam, se relacionam, os torcedores brasileiros. O Maraca é nosso, não é a toa que os torcedores cantam isso. Se houve algum sentido nessa audiência pública de ontem, foi o de mostrar claramente o que a sociedade civil está dizendo sobre este processo. Não nos representa, não reconhecemos, não aceitamos e manifestamos repúdio absoluto à prepotência e autoritarismo do governo que imagina que vai tocar projetos contrários à vontade da população de forma impune.</p>
<p>Temos registros suficientes para provar que essa audiência não aconteceu. E vamos acionar os mecanismos competentes para questionar judicialmente a legitimidade dessa audiência. Não é possível que a demoracria brasileira aceite tamanho autoritarismo. Algum dia vão analisar o processo de destruição, reconstrução e venda do Maracanã, como um evento histórico emblemático da falta da participação popular e atentado à democracia&#8221;.</p>
<p><object width="560" height="315" classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param name="allowFullScreen" value="true" /><param name="allowscriptaccess" value="always" /><param name="src" value="http://www.youtube.com/v/WwuX_OmR42w?version=3&amp;hl=en_US" /><param name="allowfullscreen" value="true" /><embed width="560" height="315" type="application/x-shockwave-flash" src="http://www.youtube.com/v/WwuX_OmR42w?version=3&amp;hl=en_US" allowFullScreen="true" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" /></object></p>
<p>*Agradecimentos especiais ao fotógrafo André Mantelli que também estava lá e nos cedeu estas belas imagens</p>
<blockquote><p>O blog Copa Pública é uma experiência de jornalismo cidadão que mostra como a população brasileira tem sido afetada pelos preparativos para a Copa de 2014 – e como está se organizando para não ficar de fora.</p></blockquote>
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		<title>O Mundo Amanhã: a primavera continua</title>
		<link>http://www.apublica.org/2012/10/wikileaks-julian-assange-mundo-amanha-primavera-arabe-egito-bahrein/</link>
		<comments>http://www.apublica.org/2012/10/wikileaks-julian-assange-mundo-amanha-primavera-arabe-egito-bahrein/#comments</comments>
		<pubDate>Wed, 24 Oct 2012 19:00:24 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
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		<description><![CDATA[No quarto episódio da série, Julian Assange entrevista Alaa Abd El-Fattah e Nabeel Rajab, lideranças importantes da Primavera Árabe no Egito e no Bahrein]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Em 17 de dezembro de 2010, Mohamed Bouazizi, um jovem tunisiano de 26 anos, ateou fogo ao próprio corpo. A auto-imolação, motivada pelo descontentamento com a situação geral das condições de vida no país, tornou-se símbolo de uma revolução que, posteriormente, se espalhou por outros 16 países do Oriente Médio, numa série de eventos a qual a História chamou de “Primavera Árabe”  - e que prossegue até hoje.</p>
<p>Argélia, Egito, Líbano, Palestina, Bahrein, Irã, Iraque, Kuwait, Líbia, Israel, Marrocos, Arábia Saudita, Síria, Iêmen e Emirados Árabes seguiram o exemplo da Tunísia e articularam suas próprias mobilizações.</p>
<p>Em meio às transformações no mundo árabe, dois nomes se destacam: Alaa Abd El-Fattah, blogueiro e ativista egípcio, e Nabeel Rajab, diretor do Centro de Direitos Humanos do Bahrein.</p>
<p>Assange conversou com os dois ativistas para saber se eles acreditam que as manifestações foram bem sucedidas e também para entender o que os motiva a continuar lutando na linha de frente, mesmo sob forte repressão.</p>
<p>Antes da entrevista, Alaa havia sido repetidamente detido sob acusações que dão inveja ao Super Homem: sabotagem e roubo de tanques, assassinatos, violência contra pelotões inteiros: &#8220;eu tinha uma boa reputação e moral na prisão. Sabe, quando as pessoas são presas por roubarem carros&#8230; Mas eu fui acusado de roubar tanques&#8221;, ironizou na conversa. Hoje ele continua impedido de viajar.</p>
<p>Rajab havia sido sequestrado, torturado e preso pela sua oposição ao governo do Bahrein, país no qual atua como diretor do Centro de Direitos Humanos, causa que defende desde a década de 90. Sobre a experiência de viver num país com uma revolução em curso, Nabeel acredita que o custo que se paga pela liberdade é alto, &#8220;mas queremos pagar por mudanças pelas quais lutamos&#8221;, diz. Um dia antes da entrevista, Rajab tuitou sobre ela na sua conta no Twitter; pouco depois, sua casa foi cercada por policiais armados e ele foi intimado a comparecer à Promotoria de Justiça para prestar esclarecimentos.</p>
<p>Assista a entrevista a seguir, ou <a href="http://apublica.org/wp-content/uploads/2012/10/Entrevista-de-Julian-Assange-com-Nabeel-Rajab-e-Alaa-Adb-El-Fattah.pdf">clique aqui</a> para baixar o texto na íntegra.</p>
<p><iframe src="http://www.youtube.com/embed/io86OVt3Tfg" frameborder="0" width="560" height="315"></iframe></p>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote><p><strong>Republicadores da série O Mundo Amanhã:</strong></p>
<p><a href="http://www.anonymousbrasil.com/" target="_blank">Anonymous Brasil</a> * <a href="http://agorasustentabilidade.blogspot.com.br/">Agora Sustentabilidade</a> * <a href="http://baixacultura.org/">Baixa Cultura</a> * <a href="http://blog.brasilacademico.com/">Blog Brasil Acadêmico</a> * <a href="http://coletivocatarse.blogspot.com.br/">Coletivo Catarse</a> * <a href="http://www.coletivodigital.org.br/">Coletivo Digital</a> * <a href="http://desculpeanossafalha.com.br/">Desculpe a Nossa Falha</a> * <a href="http://www.diariosp.com.br/">Diário de S. Paulo</a> * <a href="http://www.dauroveras.com.br/">DVeras em rede</a> * <a href="http://www.ebc.com.br/tags/portal-ebc">EBC</a>* <a href="http://www.estadao.com.br/">Estadão Online</a> * <a href="http://www.em.com.br/">Estado de Minas</a> * <a href="http://www.felipecabral.com.br/">Felipe Cabral</a> * <a href="http://www.jornalinformacao.com/">Jornal Informação</a> * <a href="http://www.mercadaonline.com.br/">Jornal Mercadão</a> *<a href="http://www.notaderodape.com.br/">Nota de Rodapé</a> * <a href="http://operamundi.uol.com.br/">Opera Mundi</a> * <a href="http://papodehomem.com.br/">Papo de Homem</a> * <a href="http://www.administradores.com.br/">Portal Administradores</a> * <a href="http://desacato.info/">Portal Desacato</a> *<a href="http://www.revistababel.com.br/">Revista Babel</a> * <a href="http://revistaforum.com.br/">Revista Fórum</a> * <a href="http://revistasamuel.uol.com.br/">Revista Samuel</a> * <a href="http://www.revistasina.com.br/portal/">Revista Sina</a> * <a href="http://www.unochapeco.edu.br/unowebtv">TV Unochapecó</a> * <a href="http://www.tvt.org.br/">TVT</a> *<a href="http://br.yahoo.com/">Yahoo Brasil</a></p></blockquote>
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		<title>Ocupando os próprios corpos</title>
		<link>http://www.apublica.org/2011/10/chile-ocupando-os-proprios-corpos/</link>
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		<pubDate>Fri, 21 Oct 2011 17:51:52 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
				<category><![CDATA[Últimas Reportagens]]></category>
		<category><![CDATA[#Chile]]></category>
		<category><![CDATA[#MovimentoEstudantil]]></category>
		<category><![CDATA[#protestos]]></category>

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		<description><![CDATA[Dois meses antes dos jovens indignados ocuparem Wall Street, os estudantes chilenos ocupavam seus próprios corpos em uma longa greve de fome pela educação superior gratuita: 71 dias sem comer ]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Na noite da quinta-feira, dia 20 de outubro, cerca de 60  estudantes ocuparam por cerca de oito horas, o prédio do Congresso Nacional do Chile enquanto parlamentares debatiam com o ministro da Educação, Felipe Bulnes, o orçamento para o setor em 2012. Depois do fracasso da tentativa de negociação com o governo, que foi interrompida em meados de outubro, os estudantes querem um plebiscito sobre a reforma da educação.</p>
<p>Ao deixar o prédio, foram recebidos por um cordão de isolamento e jatos de água. São os “pingüins” ou “encapuzados” que há sete meses estão nas ruas chilenas pedindo educação superior gratuita – todas as universidades são pagas no Chile. O governo estima que pelo menos 1.700 pessoas foram presas desde o começo dos protestos.</p>
<p>No começo de outubro, os secundaristas – conhecidos como <em>pinguins</em>, por causa dos uniformes azuis-escuros e brancos –, através de seu porta-voz, Alfredo Vielma, declararam romper a mesa de negociações por considerar que o “governo se mostrou intransigente com sua postura”.</p>
<p>Mais tarde, Camila Vallejo, líder da Federação dos Estudantes da Universidade do Chile (Feich), somou-se à decisão dos pinguins alegando “a pouca capacidade de diálogo do governo”.</p>
<p>O movimento chama a atenção pela longevidade, mas também pela intensidade. São os mesmos “penguino”, jovens chilenos sem muita expectativa para um futuro promissor, que protagonizaram uma longuíssima greve de fome há cerca de um mês, em protesto pela falta de diálogo do governo.</p>
<p><strong>Enquanto não começa</strong></p>
<p>Terça-feira, 23 de agosto. Na sala atulhada de carteiras escolares, com colchonetes e lençóis bagunçados, Maura Roque olha alguns cartazes feitos em cartolinas coloridas. Passa vagarosamente os olhos por cada frase, cada palavra, cada nome: “Johanna, feia, te adoramos”; “Mami, te amo. Ass. Papo”; “Jamais nos verão calados”. São mensagens de familiares, amigos, conhecidos, conhecidos de conhecidos, mensagens que preenchem uma parede inteira.</p>
<p>Maura tem 17 anos, cabelos negros e está em greve de fome há 34 dias, juntamente com mais três estudantes do Liceu Dario Salas, localizado no centro de Santiago. Há quatro dias dois pais também se juntaram à greve. Ela usa uma máscara cirúrgica, pois sua imunidade está baixa; têm olheiras fundas, pálpebras caídas e olhos com uma expressão vazada e que se movem preguiçosamente. No jejum prolongado, o organismo adapta-se para a conservação de energia e nutrientes e, como reflexo disso, recorre à diminuição dos gastos energéticos. Daí esses olhos preguiçosos e vazados.</p>
<p>Mas a lentidão dos movimentos é o de menos, ela tem muitas outras coisas para se preocupar, como uma possível insuficiência renal, uma arritmia cardíaca ou uma acidose que pode levá-la a morte. Enquanto Maura corre os olhos sobre os cartazes, o seu corpo, na falta de glicose, consome a gordura para produzir energia; depois de gastar toda essa gordura, o organismo da adolescente poderá entrar num ciclo autofágico, usando músculos e órgãos vitais para sobreviver.</p>
<p>Em média, o jejum é considerado fatal depois de 60 dias. Alguns grevistas, no entanto, sobrevivem por mais de 100 dias consumindo apenas vitaminas, líquidos, sal e açúcar não refinado. E essa é a estratégia de Maura e dos grevistas do Liceu Dario Salas.</p>
<p>Além desse colégio, por todo o Chile, jovens interromperam sua alimentação para pressionar o governo. Alguns foram hospitalizados em estado grave de saúde.</p>
<p>No Liceu Dario Salas, Johanna Choapa entra por aquela porta, 17 anos, toca de lã, cabelos pintados de vermelho e se senta ao lado de Maura. Diz um <em>oiiii</em> estendido, que sai abafado pela máscara cirúrgica que também usa.</p>
<p>“Bem, podemos começar”.</p>
<p><strong>Começando</strong></p>
<p>Antes de começar a entrevista, vale voltar ao começo da história. E ela começa com Pinochet, que governou o país por 17 anos, até 1990. Três dias antes de entregar o poder, ele promulgou a Lei Orgânica Constitucional de Ensino, que delegou grande parte da educação chilena ao setor privado.</p>
<p>O resultado é que todo o ensino superior no Chile é pago, e caro. Para poderem cursar uma universidade, os estudantes precisam de crédito, que chegam a pagar por até 20 anos depois de formados.</p>
<p>Há mais de 4 meses, as universidades chilenas estão paradas reivindicando educação gratuita e de qualidade. Esse é considerado um dos mais fortes movimentos desde o retorno da democracia chilena. Os “penguinos” estão determinados e irredutíveis.</p>
<p>O governo chegou a apresentar propostas de reformas do sistema educacional, como a desmunicipalização da educação secundária,uma mudança constitucional que assegure a melhoria do ensino e a redução das taxas de juros dos créditos concedidos, mas os estudantes rechaçaram. Eles querem um plebiscito para que se faça uma nova Constituição.</p>
<p>O ministro Bulnes apresentou uma proposta de mais bolsas de estudo, aumento no orçamento destinado à educação e maior fiscalização, mas os estudantes insistem que estas continuam sendo medidas paliativas. Também querem uma reforma do ensino médio, que é de baixa qualidade.</p>
<p><strong>“Ocupamos nosso corpo como meio de pressão”</strong></p>
<p><a href="http://apublica.org/wp-content/uploads/2011/10/Chile-miolo.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-1084" title="Estudantes em greve de fome no Chile" src="http://apublica.org/wp-content/uploads/2011/10/Chile-miolo.jpg" alt="" width="400" height="300" /></a>Gravador ligado, outro começo.</p>
<p><em>Como explicar a um estudante brasileiro a situação que vocês vivem aqui no Chile?</em></p>
<p>MAURA: Nós ocupamos nosso corpo como meio de pressão. Levamos anos indo a marchas e não resultou em nada. Depois, recorremos a tomar os colégios, foram mais de 200 colégios tomados em nível nacional e sabe o aconteceu? Nada. Então, recorremos ao apelo mais forte da humanidade, que é a greve de fome. Mas me parece que não faz sentido nesse país, porque se passou mais de um mês e nada muda.</p>
<p>JOHANNA: Até nos colocaram um recurso de proteção, porque somos menores de idade&#8230; Mais que nada, nós estamos utilizando um meio de pressão ao governo, porque ele já não se dá conta, porque a educação não é grátis e, tampouco, de qualidade. Nós estamos lutando&#8230; E chegamos a esse ponto.</p>
<p>MAURA: É que o governo ganha muito dinheiro com a educação.</p>
<p>JOHANNA: Então não lhes convém mudar nada, porque quando lhes convém alguma coisa eles fazem assim (<em>estala os dedos</em>) e resolve. Eles não mudam as coisas porque vão perder muito dinheiro.</p>
<p>MAURA: Estamos lutando por algo que é de todos, por nossos filhos, nossos netos&#8230;  Já não é algo só dos universitários.</p>
<p><em>E o que pensam os seus pais?</em></p>
<p>MAURA: Não estão de acordo, mas respeitam a nossa decisão e, por isso, apoiam. Mas dizem que <em>(imitando uma voz de autoridade, talvez a do pai)</em> é atentar contra nossas vidas e que não-sei-o-que-mais.</p>
<p>JOHANNA <em>(Levantando as sobrancelhas)</em>: Afinal, é um suicídio lento.</p>
<p>MAURA: É&#8230; E não tem como concordar com seus filhos se matando, entende? Mas estão apoiando, todo o tempo preocupados&#8230;.</p>
<p><em>E por quanto tempo vocês acreditam que a greve de fome persistirá?</em></p>
<p>MAURA: Creio que uns meses mais.</p>
<p><em>E vocês tem algum medo?</em></p>
<p>JOHANNA: Eu acho que não<em>.</em> Não tenho nenhum medo, eu pessoalmente&#8230; <em>(Pausa, pensativa).</em> Estou lutando pelos meus direitos, eles não querem me dar e não deveria ser assim. Nós, que estamos em greve de fome, estamos dispostos a dar vida para a educação.</p>
<p>MAURA: Sempre há medo, de ser reprimido, de sumir como na época da ditadura e não ver mais a sua família. Esse medo sempre vai existir, pelo menos aqui no Chile todos sentimos.</p>
<p><strong>Como nossos filhos</strong></p>
<p>“Os médicos falaram que temos que andar com as máscaras quando temos visitas, mas não estamos acostumados com isso”, diz Sílvia Mellado, 35 anos, tirando a máscara cirúrgica. “E também as máscaras ajudam em relação à exposição: é uma desculpa para tapar o rosto”.</p>
<p>Sem a máscara, agora ela respira aliviada.</p>
<p>Ou nem tanto. Silvia é mãe de três filhos e decidiu entrar em greve de fome com os estudantes do liceu Dario Salas.</p>
<p>“Minha filha vai para a faculdade e isso nos afeta diretamente; está muito difícil assumir o pagamento da universidade deles se já nem conseguimos pagar a nossa. Estou pagando há 20 anos um curso que não pude terminar”, diz, balançando a cabeça inconformada.</p>
<p>Sergio Yañez, 47 anos, também está em greve de fome. “Não temos porque aceitar que um garoto saia da faculdade endividado por mais 20 anos de sua vida. Pense: saindo da universidade aos 26 anos ele vai pagá-la até quase seus 50. Isso não é justo. Nós, como pais, não podemos ser indiferentes a isso”.</p>
<p>Segundo pesquisa do instituto ImaginAcción, as manifestações têm apoio de 80,9% da população, enquanto o governo de Piñera conta com apenas 26%, o indicie mais baixo desde a queda de Pinochet.</p>
<p>Há uma explicação: o Chile vem crescendo economicamente há anos, mas a desigualdade cresceu em proporções semelhantes. Em 2006, 13,7% da população vivia em situação de pobreza extrema, ou seja, com menos de um dólar por dia. Três anos depois, esse número cresceu para 15,1%. Isso no período em que a economia cresceu vertiginosamente, alcançando em 2010 o PIB histórico de US$ 200 bilhões, similar a países como Irlanda, Israel e Portugal. Os 20% mais ricos aumentaram sua renda em 9%.</p>
<p>Sergio continua, gesticulando muito: “A luta passou a fronteira, já é um movimento social. Abarca não somente os estudantes, mas muitas outras coisas que descontentam os chilenos”. Ele pausa para respirar. “Quero algo que sirva para o futuro, para os filhos dos meus filhos, e a greve de fome foi uma forma que encontrei de exigir respostas rápidas e prontas”.</p>
<p>Silvia intervém “Não concordamos com o que estão fazendo, estamos em total desacordo, mas eles têm uma convicção tão grande que decidimos acompanha-los para que tenham mais força. Assim vamos encurtar o prazo desta greve”.</p>
<p>“O exemplo deles é nossa maior força; nós não fomos capazes de exercer essa força, seja na ditadura ou na transição para a democracia”, lamenta Sergio.</p>
<p>Vinte dias depois,<strong> </strong>enquanto se dirigia, em marcha, ao Ministério da Educação para conversar pessoalmente com ministro Felipe Bulnes sobre a greve de fome, Silvia Mellado foi golpeada e presa pela polícia chilena enquanto tentava tirar sua filha das mãos de um carabinero.</p>
<p>Poucos dias depois, Johanna e Maura foram internadas por desidratação e glicemia, além de apresentar problemas respiratórios. Maura se recusou a permanecer hospitalizada e saiu no dia 25 de setembro, seguindo em sua greve na Universidade do Chile.</p>
<p><strong>Fim da greve, sinal de fortaleza</strong></p>
<p>No dia 28 de setembro o governo atendeu uma exigência dos estudantes para acabarem com a greve: a assembleia coordenadora dos estudantes secundários poderia estar presente na mesa de diálogo com o governo.</p>
<p>E, com 71 dias, a greve de fome foi encerrada. Os estudantes foram encaminhados ao Hospital San Borja, para repouso e exames.</p>
<p>A doutora Tania Muñoz disse que as jovens apresentavam um “deterioramento eminente” de seus estados físicos.</p>
<p>Mesmo assim, Maura diz a greve acabou como sinal de fortaleza: “nosso lugar é nas trincheiras do povo organizado, mantendo os colégios tomados”.</p>
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		<title>As vozes de Wall Street</title>
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		<pubDate>Mon, 10 Oct 2011 19:22:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
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		<category><![CDATA[#protestos]]></category>

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		<description><![CDATA[Nossa repórter foi até o centro financeiro dos EUA para ouvir o que os ocupantes de Wall Street querem. Eles querem diálogo.  
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				<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: left;">Orlando Jones, um pedreiro de 52 anos do Bronx, agora tem o seu próprio cantinho na Liberty Square, em Wall Street. Ele montou uma cadeira dessas de praia perto dos degraus de pedra que levam à entrada do parque, e conversa com quem estiver a fim de sentar e prosear um pouco.Para ele, as pessoas estão se juntando em Wall Street para trocar idéias.</p>
<p>“Há uma necessidade de comunicação hoje em dia. Quando eu venho para cá, não vejo as pessoas falando freneticamente nos seus celulares. Agora elas estão conversando”.</p>
<p>Orlando conta que foi levado a montar sua cadeirinha de praia em Wall Street porque já não via outra solução. “Eu nunca estudei. Aprendi a ler aos 21 anos de idade, e sempre trabalhei. Mas agora, você tem ideia de quanto está difícil achar um emprego? Eu sempre dei um jeito de ganhar a vida. Mas não agora”.</p>
<p>Milhares de norte-americanos têm histórias semelhantes. Mas aqui no movimento Occupy Wall Street, nem todo mundo está na mesma situação.</p>
<p>John Lowe é um arquiteto bem sucedido de 48 anos, nascido em Nova York, que tem um bom emprego.</p>
<p>“A cada dia que estou aqui estou perdendo uma diária de trabalho. É claro que é uma escolha difícil. Tenho a sensação que o aluguel vai atrasar este mês&#8230;”, ele diz, com um sorriso brincalhão.</p>
<p>John está sentado ao lado de Orlando próximo aos degraus de pedra. Há uma semana, John e Orlando eram completos estranhos, mas a busca por encontrar uma solução para a crise financeira os uniu. Eles vêm de mundos diferentes, mas hoje em dia compartilham um profundo desgosto com o jeito que as coisas estão.</p>
<p>Orlando acredita que “Wall Street foi construído de modo que alguns poucos lucrassem. Vamos ter que quebrar esse muro. É como o muro de Berlim, sabe? Vamos derrubar e começar tudo de novo”.</p>
<p>Nesse momento John diz a seu novo amigo que não concorda com a raiva a Wall Street. “Ah não, precisamos de instituições que levantem dinheiro. O que eu não concordo é que essas instituições agora estejam dando dinheiro só para uns poucos”.</p>
<p>São essas contradições de pontos de vista e diferenças políticas que são a essência do movimento Occupy Wall Street, segundo Ryan Venier, de 22 anos. “Isso aqui é menos um movimento que um agrupamento para reflexão”.</p>
<p>Ryan critica, como muitos aqui reunidos, a inabilidade da mídia em retratar o Occupy Wall Street como um encontro pela comunicação. Ele explica que manifestantes de todo o mundo se reúnem aqui não para fazer demandas políticas específicas, mas para chamar à atenção da mídia que “já basta”: “A mídia nos retrata como hippies loucos, mas tem gente de todo tipo aqui”.</p>
<p>É verdade. No meio da multidão está por exemplo o corretor de ações aposentado Robert Halper, que trabalhou por muitos anos em Wall Street e que agora se junta ao grupo de manifestantes.</p>
<p>O cenário é colorido por pôsteres anarquistas e socialistas, e de dentro de um saco de dormir azul salta uma pequena jovem de 20 anos para dizer que é, na realidade, uma conservadora.</p>
<p>“Veja, eu sou economicamente conservadora mas reconheço que, do jeito que as coisas vão, não teremos futuro”, diz Casey Higgins, de Richmond, na Virginia.</p>
<p>Ela decidiu entrar num ônibus rumo a Nova York com uma amiga, mesmo contra a vontade dos pais. A sua mãe trabalha na loja de departamentos JCPenny e o pai é analista de sistemas. Mas, não importa o quanto trabalhem, eles não vão conseguir pagar pela educação de Casey.</p>
<p>“O meu sonho é ir para a faculdade, mas do jeito que as coisas vão eu não vou conseguir pagar  ela educação superior até eu ter 25 anos”, diz Casey.</p>
<p>Sem dinheiro para arcar com a educação superior, as oportunidades vão se tornando mais restritas para a geração de Casey.</p>
<p>“Meus pais e outras pessoas ficam dizendo que estamos apenas reclamando, e que se trabalharmos duro vamos conseguir concretizar algo, mas nós estamos aqui porque vemos que isso não é mais possível. O espírito americano ainda está vivo e estamos aqui porque acreditamos nele”.</p>
<p>Casey diz que a desigualdade social nos Estados Unidos está aumentando rapidamente. “Eu por exemplo estou em algum lugar dentro da classe média agonizante”, diz ela.  “É como uma lágrima: a classe alta está acima, se tornando menor, enquanto a classe media está abaixando, tornando a base da lágrima mais grossa”.</p>
<p>Os manifestantes aqui de Wall Street estão dizendo que não podem mais ficar sentados enquanto a base da lágrima fica mais e mais grossa.</p>
<p><a href="http://apublica.org/wp-content/uploads/2011/10/SAM_2170.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-1073" title="wallst" src="http://apublica.org/wp-content/uploads/2011/10/SAM_2170-300x225.jpg" alt="" width="300" height="225" /></a></p>
<p>Matt Erickson tem 27 anos e também chegou ao fundo da lágrima. Seu pai trabalhava para uma metalúrgica chamada North Western Steel e assim ele pôde criar Matt com uma condição de classe média. Mas agora os tempos mudaram. “Naquela época, se você se candidatava a 5 empregos, recebia 4 convites para entrevistas. Agora as pessoas se candidatam a 100 vagas e nada”.</p>
<p>Hoje, Matt trabalha como terceirizado em uma pequena empresa que faz carpintaria em Illinois. Ele não recebe os benefícios que teria com carteira assinada, mas foi o único trabalho que conseguiu desde 2009, quando foi demitido do cargo de operador de máquinas em uma fábrica por chegar atrasado 3 vezes. “Eles acharam um motivo para me demitir e reduzir os custos. Eu não recebi nenhum benefício quando saí”.</p>
<p>Matt Erickson deixou sua pequena cidade em Illinois para se unir ao protesto de Wall Street logo no início, em 17 de setembro. No nono dia da ocupação, ele foi um dos que participaram da marcha que saiu da Liberty Plaza até a Union Square.</p>
<p>“No caminho a polícia estava pegando e detendo as pessoas”, lembra. “Eu ouvi gritos e quando me virei, bem na minha frente, vi um grupo de meninas que estavam sentindo dor depois de serem atingidas pela polícia”. A polícia Nova-Iorquina usou spray de pimenta para dispersar os protestantes.</p>
<p>No dia 1 de outubro, houve mais um encontro violento com a polícia. Rebekkah Olson, uma estudante de 19 anos, foi presa durante a marcha – junto com 700 pessoas.</p>
<p>“Eu marchei junto com centenas de pessoas desde a ponte do Brooklyn, e havia uma barricada policial esperando por nós no caminho. Eles nos detiveram e nos colocaram em camburões para nos levar até a cadeia”. Segundo ela, o protesto era pacífico, mas a polícia não.</p>
<p>O tenente Bhoj, da polícia nova-iorquina, responsável por fazer a segurança da Liberty Plaza ao lado de uma fila de policiais diz que não viu nenhuma violência. E não diz mais nada. “Não tenho permissão para falar dos confrontos”.</p>
<p>Enquanto isso, perto do saco de dormir azul de Casey, o arquiteto John Lowe define bem o grupo de pessoas que está se aglomerando em Wall Street: “Todo mundo está aqui”, diz ele. “Os velhos, os novos e os do meio”.</p>
<p>De fato, pouco adiante está Ward Morehouse, de 82 anos, mostrando que nunca se é velho demais para sair às ruas e protestar.</p>
<p>Ele é um ex-professor universitário e autor de diversos livros. “Eu fui detido muitas e muitas vezes por desobediência civil e planejo continuar mostrando minha opinião”.</p>
<p>Seu amigo Trent Schroyer, de 75 anos, professor no Rampo College de Nova Jersey, entra na conversa para dizer que está aqui “para conhecer pessoas e trocar ideias”.</p>
<p>Trent é mais um daqueles que garantem que a ocupação Wall Street é acima de tudo uma ação para compartilhar ideias. Ao seu lado, proveniente de outro mundo e outra geração, a jovem Moses Appleton, de 24 anos, diz que “uma comunidade que troca idéias constrói assim a ação”.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://apublica.org/wp-content/uploads/2011/10/Wlal-street-bottom.jpg"><img class="aligncenter size-large wp-image-1068" title="Protestante em Wall Street" src="http://apublica.org/wp-content/uploads/2011/10/Wlal-street-bottom-1024x687.jpg" alt="" width="819" height="550" /></a></p>
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		<title>A dança dos encapuzados</title>
		<link>http://www.apublica.org/2011/08/a-danca-dos-encapuzados/</link>
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		<pubDate>Wed, 31 Aug 2011 19:06:36 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Desfecho trágico para as greves e passeatas por educação gratuita: um estudante morto pela polícia. A repórter da Pública esteve lá e sentiu a violência na pele.]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><iframe width="500" height="281" src="http://www.youtube.com/embed/57HNMMh3Q-M?feature=oembed" frameborder="0" allowfullscreen></iframe></p>
<p style="text-align: left;">Na quinta-feira 25 de agosto, no pequeno café na rua Santa Magdalena, distrito chique de Providência,  Santiago do Chile, via-se pela tevê a batalha que acontecia não muito longe dali: um embate esfumaçado entre policiais uniformizados e meninos e meninas vestidos de preto, panos nos rostos e bonés. Aos clientes, o garçom dizia que não se tratava de um protesto de estudantes, mas de um pequeno grupo de baderneiros, os<em style="text-align: -webkit-auto;"> encapuzados</em><span class="Apple-style-span" style="text-align: -webkit-auto;">. “Eles se aproveitam dos protestos, atacam a polícia e destroem tudo”, comentava. “Não apoio protestos que tragam violência”.</span></p>
<p>Os &#8220;culpados&#8221;, os tais encapuzados, surgiram nas manifestações chilenas nos últimos três meses, ao mesmo tempo em que as escolas secundárias e universidades públicas foram tomadas por estudantes que pedem educação gratuita, de qualidade, e o fim do lucro na educação.</p>
<p>Segundo a imprensa, eles apareceram de repente como os jovens ingleses que surpreenderam Londres invadindo lojas para roubar bens de consumo, protestando contra ninguém sabe direito o quê. Surgem do nada, como se nunca tivessem estado ali.</p>
<p>Mas naquele dia era fácil localizar os <em>encapuzados</em>.</p>
<p>O protesto estava agendado para acontecer diante do Palácio de La Moneda, o mesmo aonde, sob um bombardeio militar, Allende suicidou-se 38 anos antes.</p>
<p>Havia quatro marchas, vindas de diferentes partes da cidade, que se reuniriam  na frente do Palácio. Os trabalhadores, conclamados pela CUT &#8211; <em>Central Unitária de Trabalhadores – </em>se juntavam aos estudantes demandando reformas trabalhistas. Segundo os jornais, as demandas eram tantas que já não se sabia o que os manifestantes queriam.</p>
<p>A avenida, no entanto, estava semi-vazia. Apenas ônibus e veículos blindados do choque, negros, andavam de um lado para outro carregando policiais uniformizados, com proteção dos pés à cabeça. Um cheiro forte ardia no ar. As marchas haviam sido interrompidas e dispersadas pelos policiais, numa operação costurada pelos quatro cantos do La Moneda.</p>
<p>A algumas quadras um único grupo continuava entoando palavras de ordem. Diferentemente do que dizia a imprensa, eram jovens, na sua maioria, e pediam o que sempre pediram: educação superior gratuita, algo inexistente no país desde a era Pinochet.</p>
<p>“<em>Vai cair&#8230; vai cair&#8230; a educação de Pinochet”</em>, entoava uma jovenzinha de não mais de 15 anos, debruçada sobre uma das grades de metal. “Estou no ensino médio e não sei o que vou fazer”, disse. “Ou se paga muito para uma universidade privada, ou ainda mais para uma boa universidade pública”. Outra estudante completava, apontando para a Universidad de Chile, pública: “Para estudar aí tem que pagar três salários mínimos. Ou mais, se você quiser fazer medicina ou odontologia. Aí são quatro”.</p>
<p>Ali, a uma quadra do palácio, ela não era a única que observava em silêncio a estranha dança que levavam os policiais do choque e os poucos manifestantes que conseguiam se reunir. Nas calçadas, uma verdadeira multidão olhava. Eram trabalhadores, senhores, turistas, meninas e rapazes. Brandindo seus celulares em silêncio, com a câmera em <em>on</em>.</p>
<p>De um lado, os “pacos” paramentados formavam-se em linha brandindo seus escudos, enquanto chegavam mais ônibus, mais policiais.<a href="http://apublica.org/wp-content/uploads/2011/08/foto-1.jpg"><img class="size-full wp-image-921 alignright" title="foto 1" src="http://apublica.org/wp-content/uploads/2011/08/foto-1.jpg" alt="" width="448" height="334" /></a> Um deles vem se aproximando com uma câmera, focando em rostos aqui e ali. Do outro, lentamente, formava-se um grupo de jovens, 50, depois 100 e 200, no meio da avenida. Brandiam bandeiras do Chile, faixas com dizeres como “pátria é educação”, apitos. Muitos tiram fotos, filmam; gravando a história no mesmo momento em que tentam fazer parte dela.</p>
<p>Até que um grupo de meninos e meninas toma a dianteira e, ali no meio da avenida, desenrola uma bandeira chilena de uns quatro metros quadrados. São cerca de dez, vestidos de cores escuras, jeans, jaquetas, xadrez, cabelos arrepiados, mochilas, tênis; e abrem-na no meio da multidão para fazer de colchão elástico para uma, depois outra estudante. Jogam-nas para o ar, voando sobre a bandeira chilena. A brincadeira vai durar ainda um pouco mais; apenas vinte minutos depois a festa vai se transformar em confronto.</p>
<p>Estes meninos e meninas, alguns têm o rosto coberto por um cachecol ou pelas suas camisetas. Aqui e ali, um vendedor anuncia limões, que retira de um saco cheio, verde claro.</p>
<p>Haverá gás lacrimogêneo e spray de pimenta; e todos sabem disso.</p>
<p><em>“E vai cair, e vai cair&#8230; a educação de Pinochet”</em></p>
<p>À medida que mais ônibus pretos estacionam atrás da barreira militar e deles saem mais e mais policiais, a multidão vai se desconcentrando. Cerca de duzentos jovens que se amontoam diante da polícia, enquanto os que esperam dos dois lados das calçadas passam de quatrocentos.</p>
<p>É quando voam as primeiras garrafas de vidro. Uma, pesada, sobrevoa a multidão, caindo pouco atrás da fileira de policiais, que agora fica mais robusta. Um grupo coeso, pequeno, decide avançar.</p>
<p>São adolescentes, têm entre doze e vinte anos, os encapuzados. Vestidos na moda. Gritam contra os policiais: “paco maricón”, “vocês têm menos educação do que nós”, “seus filhos também são estudantes”.</p>
<p>Então os policiais formam duas fileiras separadas por um pequeno espaço de não mais que quatro metros; como que convidando-os a atravessar o cordão e tomar, afinal, a avenida em frente ao palácio de La Moneda.</p>
<p>Os meninos aceitam o convite, e avançam num tumulto. O cordão se fecha, soam gritos, a polícia avança sobre eles, abrindo espaço. Em segundos, tempo ínfimo, a multidão começa a correr para todos os lados. Da direção do palácio vêm tanques com jatos de água, fortes, atirando sobre quem quer que estivesse ali, seja encapuzado ou não, estudante ou não; varre a rua e as calçadas com o ardor do spray de pimenta, misturado à água para “conter a multidão”.</p>
<p>No tumulto, abaixo-me para me proteger sob uma ilha de concreto que divide as duas faixas da avenida. É quando sinto uma pancada forte, ardida, no joelho, com um estalido abafado; e logo outra, na costela direita. As pancadas vêm de um cassetete negro ao mesmo tempo em que um policial me empurra para o outro lado da avenida. São pontuais, certeiras, programadas para atingir os pontos mais sensíveis.</p>
<p>Dolorida, com o joelho sangrando, apresso-me para sair dali. Ainda olho para o policial: queria tentar dizer algo sobre a liberdade de imprensa e expressão, mas não.</p>
<p>Em poucos minutos os tanques varreram a avenida de gente, e depois subiram aos passeios para perseguir as centenas as pessoas que correriam para as ruas laterais. E logo uma multidão de mulheres, velhos, adolescentes encapuzados, caminhavam rapidamente nas ruas próximas, e o protesto tinha fim.</p>
<p><strong>Manuel foi ver os protestos. E morreu</strong></p>
<p><a href="http://apublica.org/wp-content/uploads/2011/08/Manuel-Guti%C3%A9rrez-Reinoso.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-922" title="Manuel Gutiérrez Reinoso" src="http://apublica.org/wp-content/uploads/2011/08/Manuel-Guti%C3%A9rrez-Reinoso.jpg" alt="" width="203" height="153" /></a>Naquela noite, entre as localidades de Macul e Peñalolén, na região metropolitana de Santiago, o menino Manuel Gutiérrez Reinoso foi morto porque também foi ver os protestos. Junto com seu irmão, Manuel atravessava uma passarela acima de uma avenida, de onde policiais tentaram afastar a multidão atirando para o ar. O tiro acertou-lhe no peito. Desde então, o ministro do interior Rodrigo Hinzpeter, pediu a demissão do general dos policiais militares, Sergio Gajardo, por ter descartado “prematuramente” uma investigação sobre a morte do rapaz. E o porta-voz da Corte Suprema Chilena foi à carga: “não é tranquilizador que os funcionários estejam usando armas contra a população civil”.</p>
<p>Apenas no dia seguinte à morte de Manuel, o presidente Sebastian Piñera chamou os estudantes para uma negociação sobre as reivindicações. A reunião foi marcada para o próximo sábado, dia 3 de setembro.</p>
<p>Enquanto ela não acontece, os estudantes seguiram em diversas cidades chilenas, fazendo “panelaços”, tomando os semáforos para pedir aos motoristas que pintem seu carro pela educação.</p>
<p>Prova de que a batalha pela educação está longe de terminar.</p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>A alternativa dos estudantes chilenos é a Argentina</title>
		<link>http://www.apublica.org/2011/08/chile-a-alternativa-dos-estudantes-e-a-argentina/</link>
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		<pubDate>Thu, 25 Aug 2011 12:00:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Hoje o Chile vive o segundo dia de protestos nacionais em apoio às demandas estudantis. Segundo reportagem do CIPER, estudantes migram para a Argentina para fugir das dívidas.]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Hoje há 207.256 jovens que juntos devem 514 milhões de pesos (aproximadamente 1,7 milhão de reais) ao CAE, criado em 2006, para aplacar a “rebelión de los pinguinos”, que reivindicava melhorias no sistema educacional do país.</p>
<p>No dia 30 de junho deste ano, enquanto cerca de 100 mil pessoas se manifestavam nas ruas chilenas pedindo educação de qualidade e sem fins lucrativos, uma centena de jovens fazia o mesmo nas ruas de Buenos Aires – em uma passeata que foi do Obelisco até o consulado chileno.</p>
<p>A maioria dos manifestantes tinha deixado seus lares no Chile para viver na Argentina, país onde as universidades são gratuitas. “O exílio educacional ao qual nos vemos obrigados se deve às condições injustas de custo, entrada e acesso à educação superior de qualidade no nosso país”, diz trecho da carta aberta entregue na embaixada.</p>
<p>O número de chilenos que optaram por cruzar os Andes e estudar na Argentina é incerto. Conhecemos apenas o número dos que se increveram na Embaixada da Argentina para preencher vagas oferecidas no ensino superior. Em 2011, 568 chilenos foram aceitos na graduação, o que corresponde a 40,7% das 1.400 vagas oferecidas para estudantes estrangeiros e representa um salto em relação a 2000, quando apenas 65 chilenos escolheram ir para a Argentina.</p>
<p>Mas o número pode ser ainda maior, já que existem os chilenos radicados na Argentina por outros motivos e que também têm acesso a educação gratuita – depois de algum tempo podem, inclusive, obter o DNI (Documento Nacional de Identidade), o que os torna cidadãos argentinos. Segundo os registros oficiais, os chilenos que tiraram o DNI subiram de 827 (em 2004) para 4.835 (em 2010).</p>
<p>Quantos seguiram essa rota para estudar de graça ninguém sabe e também há estudantes chilenos em universidades privadas na Argentina, que pagam mensalidades mais baixas do que nas universidades particulares no Chile.</p>
<p>A <a href="http://ciperchile.cl/" target="_blank">CIPER</a>, parceira da Pública, solicitou ao Ministério da Educação da Argentina, ao Consulado Geral Chileno em Buenos Aires e à Embaixada Chilena, as estatísticas sobre o total de chilenos que estudam no país, mas as informações não estão disponíveis.</p>
<p><strong>Fugindo da dívida</strong></p>
<p>A possibilidade de estudar jornalismo de graça levou o chileno Gustavo Ampuero, de 23 anos, a deixar o país e a família e ingressar no curso básico da Universidade de Buenos Aires. “Estudar ali sai de graça. Só preciso bancar os 150 mil pesos (516 reais) mensais que gasto para viver. No Chile era impossível viver e estudar com esse dinheiro”.</p>
<p>Gustavo estudou em colégio municipal e sua pontuação PSU (Prova de Seleção Universitária) não foi suficiente para garantir uma bolsa em seu país. Da família de cinco pessoas, apenas seu pai trabalha. O irmão mais velho está endividado e suspendeu a universidade por “falta de dinheiro”.</p>
<p><a href="http://apublica.org/wp-content/uploads/2011/08/Marcha-Estudiantes-2.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-916" title="Avô protesta no Chile" src="http://apublica.org/wp-content/uploads/2011/08/Marcha-Estudiantes-2.jpg" alt="" width="350" height="233" /></a>Por um semestre, Gustavo chegou a cursar jornalismo na UNIACC e gastava, em média, 300 mil pesos (R$1.032,00) por mês entre mensalidades, alimentação e estadia. Com cinco anos de duração o custo total seria de 18 milhões de pesos (R$62.000,00). “Era impagável para qualquer família de classe média com três filhos”, diz. “Ou deixava de estudar ou me endividava. Pensei muito, porque é difícil deixar a família. Mas foi a única saída.”</p>
<p>Os 150 mil pesos que a sua família envia por mês significa um grande esforço, mas está dentro do possível: o pai manda 100 mil pesos e a tia completa o orçamento.</p>
<p>Ao final do seu curso Gustavo terá gasto 9 milhões de pesos com sua estada na Argentina. No Chile, esse dinheiro pagaria somente algum instituto técnico profissional não reconhecido. “Não é justo que o sistema educacional chileno te deixe de fora apenas porque você não tem dinheiro para estudar o que você quer”, desabafa o estudante.</p>
<p>Apesar das saudades da família, Gustavo está contente, principalmente por estar livre da dívida que milhares de jovens chilenos carregam na mochila.</p>
<p><strong>Jovens devedores</strong></p>
<p>A SBIF (Superintendência de Bancos) registra que mais de 370 mil estudantes devem mais de um trilhão de pesos, uma média de 30 milhões de pesos (R$103.000,00) por aluno. Esses números, no entanto, não incluem os estudos do Fundo de Solidariedade, um tipo de financiamento mais barato – 2% de juros – oferecido diretamente pelo Estado.</p>
<p>A CIPER também solicitou ao SBIF e ao Ministério de Educação o número de alunos que estudam pelo Fundo de Solidariedade, mas eles não forneceram os dados.</p>
<p>Para muitos jovens a opção para estudar no Chile passa pelo acesso aos sistemas de crédito disponíveis, por isso a maioria dos estudantes estão endividados. “É inquestionável a dependência dos créditos para que mais jovens chilenos tenham acesso à educação superior”, disse Maria Paz Arzola, pesquisadora do Programa Social do Centro para Liberdade e Desenvolvimento.</p>
<p>Segundo um estudo do Banco Mundial, a população com acesso ao ensino superior (universidades, institutos técnicos e profissionais) cresceu de 200 mil alunos, em 1993, para 940 mil em 2010. Destes, cerca de 700 mil são estudantes universitários.</p>
<p>Ainda segundo os estudos do Banco Mundial, os gastos públicos com educação no Chile aumentaram 231% entre 2006 e 2010, mas apenas 15% do custo da educação superior chilena é pago com dinheiro público. Os 85% restantes são financiados pelos estudantes e seus familiares. Mesmo nos Estados Unidos, onde prevalece a educação privada, o Estado contribui com 30% do investimento, sendo os 70% restantes de responsabilidade das famílias.</p>
<p>Já no Canadá, Estado e famílias contribuem igualmente com 50% do custo educacional. No México e em outros países da OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico), a proporção é inversa: o Estado financia 70% da educação e, a família, apenas 30%.</p>
<p>Uma boa parte do valor privado gasto na educação é financiado pelas famílias chilenas por meio do já citado Crédito com Aval do Estado (CAE), o tipo de empréstimo mais questionado hoje pelo movimento estudantil.</p>
<p>Paradoxalmente, o CAE – um crédito de 10 a 15 anos para aqueles com uma média de 475 pontos no PSU – foi umas das políticas públicas adotadas pelo governo de Michele Bachelet, em 2006, para acalmar os ânimos dos estudantes naquele ano.</p>
<p>Como resultado, as matrículas cresceram – o que é avaliado positivamente pelo Banco Mundial, que considera que esse sistema teve o mérito de contemplar pessoas de baixa renda. “Toda a sociedade se beneficia ao ter mais graduados, principalmente a pessoa que estuda utilizando os créditos disponibilizados pelo Estado”, argumenta Maria Arzola.</p>
<p>Em contrapartida, segundo a SBIF e CAE, em apenas 5 anos mais de 207 mil estudantes de grupos de baixa renda acumularam a já citada dívida que ultrapassa 514 milhões de pesos, o que indica a falência da ideia de que o universitário poderia pagar sem problemas o empréstimo que o permitiria dar o salto econômico. O que está acontecendo de fato é que uma boa parte dos estudantes vulneráveis acabam endividados, sem condições de ingressar na carreira que o permitiria saldar as dívidas.</p>
<p><strong>Maurício queria ser veterinário</strong></p>
<p>O caso de Mauricio Zapata, estudante de jornalismo da Universidade Central é um exemplo do que acontece na prática. Ao deixar o Instituto Nacional em 2004, começou a estudar medicina veterinária na Universidade do Chile com 53% do curso financiado por uma bolsa do Ministério da Educação. O restante seria pago com um empréstimo do Fundo de Solidariedade – o único sistema de crédito garantido pelo Estado, extinto em 2006.</p>
<p>No entanto, o dinheiro da bolsa e do crédito não foi suficiente para pagar as despesas universitárias, o que se agravou quando o pai ficou desempregado, em 2008. “Eu era o filho mais velho, o principal responsável pelas despesas da casa depois dele. Todos os dias havia brigas em casa, relacionadas a falta de dinheiro”, diz. “Não basta pagar a mensalidade do curso, é preciso arcar com custos como transporte, alimentação, fotocópias, livros&#8230; Todos os meses, eu precisava de um reforço de 200 mil pesos”, conta.</p>
<p>Com todos esses problemas, as notas de Mauricio começaram a cair o que o fez perder a bolsa do Ministério da Educação. O resultado: muito trabalho como atendente da rede Starbucks, servente de pedreiro, além das aulas particulares para alunos que prestariam o PSU. Não adiantou o esforço. Maurício saiu da universidade em 2008 sem concluir a faculdade de Veterinária e com uma dívida de cerca de 5 milhões de pesos (R$17.000).</p>
<p>Teve que fazer novo empréstimo para voltar a estudar, agora jornalismo, na Universidade Central, e ainda não saldou a dívida do curso interrompido. “A carta dizendo que devo começar a pagar já chegou. Além de toda a papelada, tenho que provar que a minha casa foi destruída pelo terremoto. Disse a eles ‘Como vocês querem que eu consiga 5 milhões de pesos se a minha casa está destruída e ainda estou estudando? Tenham um pouco de piedade, que eu vou pagar’. Finalmente recebi um email dizendo que adiariam a dívida por um ano, mas não sei o que vai acontecer”, disse Mauricio.</p>
<p><strong>Taxas e juros</strong></p>
<p><a href="http://apublica.org/wp-content/uploads/2011/08/Protesta-estudiantil-en-Argentina.jpg"><img class="alignright size-medium wp-image-914" title="Estudantes chilenos protestam na Argentina" src="http://apublica.org/wp-content/uploads/2011/08/Protesta-estudiantil-en-Argentina-300x167.jpg" alt="" width="300" height="167" /></a>“O CAE não foi uma solução. Ao contrário, reforçou a ideia de que o ensino superior é um privilégio e que o sistema responde à lógica do mercado e não ao direito humano de todos os chilenos”, diz Rodrigo Sanchez, especialista do Observatório de Políticas Educacionais da Universidade do Chile.</p>
<p>Segundo o pesquisador, uma das principais falhas do CAE é que o crédito não cobre o custo total da educação, obrigando aos alunos negociar empréstimos suplementares com os bancos privados, com taxas de juros maiores. Ou seja, o crédito pode cobrir, por exemplo, 80% de um curso, e os outros 20% terão que ser financiados por outro tipo de crédito. “Essa diferença é o que leva os milhares de estudantes chilenos endividados a protestar nas ruas”, resume Sanchez.</p>
<p>Juan Ignácio Reculé, estudante de medicina na Universidade do Chile, paga o curso fazendo malabarismos com créditos distintos: Fundo de Solidariedade, CAE para pagar a maior parte do curso, e um crédito do CORFO para pagar seu primeiro ano.</p>
<p>Relata que quando foi prestar vestibular estava entre medicina e música. A dívida foi fundamental para sua escolha: “Sabia que se fizesse música seria muito difícil pagar os créditos”.</p>
<p>Ao terminar o curso de medicina sua dívida será de 30 milhões de pesos (R$ 103.000,00), mas ele não se preocupa: “Sei que nesses dez anos que tenho para pagar a dívida, irei me especializar e ganhar mais. Mas se minha carreira fosse outra, seria como ter uma espada de Damôcles sobre mim”, diz.</p>
<p>Todos esses cálculos de créditos e débitos levou Alfonso Meneses a ir para a Argentina há 4 anos para estudar medicina. O caçula de três irmãos não teve pontuação suficiente no PSU para entrar no curso que desejava; e sua família não tinha o dinheiro necessário.</p>
<p>A irmão e a irmã de Alfonso conseguiram bolsas de estudos em faculdades privadas (pagando 3 milhões de pesos por ano). “Com uma família com três filhos, meus pais não iriam conseguir pagar para mim”, lembra o estudante que viu na Argentina a solução dos seus problemas.</p>
<p>Em 2007 quando o número de vagas para estudantes estrangeiros chilenos subiu de 233 para 468 no país vizinho, Alfonso foi estudar medicina na Universidade de Buenos Aires (UBA). “Foi basicamente por três razões: minha pontuação no PSU, estudos complementares gratuitos e a qualidade da educação e dos professores que são indiscutíveis na UBA”, explica.</p>
<p>O investimento de Alfonso e sua família pelos estudos na Argentina corresponde a cerca de 40% do custo na Universidade do Chile e a metade do que pagaria na Pontifícia Universidade Católica (PUC). Neste mesmo ano, 107 chilenos ganharam a oportunidade de estudar medicina na Argentina, cinco na UBA.</p>
<p>De acordo com dados do Departamento Cultural da Embaixada da Argentina no Chile, dos 3.307 estudantes chilenos que ingressaram entre 2000 e 2010 no ensino superior argentino pela cota de estrangeiros, 47,32% foram admitidos na UBA, cerca de 18% no Colégio Nacional de Arte, e 14,24% na Universidade Nacional de La Plata. “Outros foram para a Argentina e conseguiram o DNI o que permite ingresso em qualquer faculdade pública como residente”, diz Alfonso.</p>
<p>O que, para muitos, é melhor do que a dívida como bem sabe Mauricio Zapata, que deve 24 milhões de pesos em créditos educativos: “É como uma corrida de ratos, você não pode escapar e fica permanentemente pensando em como ganhar dinheiro para pagar as dívidas e sair desse inferno. Você não tem férias, sua cabeça não descansa. Estou sempre elocubrando sobre como ter dinheiro para mandar para minha família, pagar a faculdade e, pelo uma vez na vida, estudar tranquilo. Sei que tenho capacidade de sobra para completar um curso, por isso minha pontuação é alta. Mas o problema é que a minha capacidade é barrada pelas questões econômicas.”</p>
<p><strong>Em tempo</strong></p>
<p>Nesta quinta-feira prosseguem os protestos conclamados pela <em>Central Unitaria de Trabajadores</em> em apoio às demandas estudantis. São 48 horas de paralizações, marchas e panelaços. Ontem, os protestos geraram confrontos que, <a href="http://www.cooperativa.cl/gobierno-cifro-en-348-los-detenidos-a-nivel-nacional-por-paro-de-la-cut/prontus_nots/2011-08-24/195519.html">segundo o governo chileno</a>, feriram  17 civis e 19 policiais. Além disso, o governo estima que 348 pessoas tenham sido detidas durante o dia, <a href="http://www.google.com/hostednews/epa/article/ALeqM5hmjQ_uGaiHTh9R0oKtPqDgf07fKg?docId=1594028">além de 108 durante a madrugada</a> em todo o país.</p>
<p><strong><a href="http://ciperchile.cl/2011/08/22/los-costosos-creditos-para-la-educacion-impulsan-el-exodo-de-estudiantes-a-argentina/" target="_blank"> Clique aqui</a> para ler a reportagem original, em espanhol</strong>.</p>
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