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	<title>Pública &#187; Tag: #Chile</title>
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	<description>AGÊNCIA DE REPORTAGEM E JORNALISMO INVESTIGATIVO</description>
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		<title>Crimes, mentiras e telegramas</title>
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		<pubDate>Thu, 11 Apr 2013 16:45:47 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Cumplicidade de Pinochet e americanos nas violações de direitos humanos no Chile expressa-se em telegramas cínicos e cheios de gentilezas; Pinochet sugeriu ao embaixador canalizar recursos através do Brasil]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Ele liderou o bombardeio do Palácio de La Moneda por aviões da força aérea, derrubou o governo Allende e assumiu o poder no Chile durante 17 anos. Em 1977, quatro anos depois do golpe que levou o presidente eleito, Salvador Allende, ao suicídio, e instituiu a ditadura militar no Chile, seu governo foi condenado pela ONU pela crueldade – comprovada &#8211; exercida contra presos políticos. Foram 40.018 vítimas da ditadura militar &#8211; mortos, torturados e presos políticos &#8211; de acordo com a contabilidade oficial do governo do Chile, divulgada em 2011. Em 2012, quase seis anos após sua morte, uma investigação judicial no país determinou a abertura de seu testamento, revelando uma fortuna de US$ 26 milhões, dos quais somente US$ 2 milhões possuíam justificativa contábil.</p>
<p>Com essas credenciais, parecem no mínimo inadequados os adjetivos escolhidos pelo embaixador americano no Chile, Nathaniel Davis, para descrever o comportamento de Augusto Pinochet em telegrama secreto enviado em 12 de outubro de 1973, <a href="https://www.wikileaks.org/plusd/cables/1973SANTIA04992_b.html">um mês depois do golpe</a>, quando dois jornalistas americanos – Frank Teruggi, 24 anos, e Charles Horman, 31 anos, estavam oficialmente “desaparecidos”.</p>
<p>“Pinochet foi gracioso e eloquente ao expressar seu desapontamento com minha transferência”, descreveu Davis, que deixou o comando da embaixada três semanas depois e foi definitivamente substituído em fevereiro de 1974, referindo-se a uma reunião marcada a pedido do então chefe da Junta Militar no poder, que queria “um momento de tranquilidade para conversar” com o embaixador.</p>
<p>“Ele disse que o Chile precisava enormemente de nossa ajuda, tanto econômica quanto militar, acrescentando que se o governo da Junta fracassar, a tragédia do Chile será permanente”, escreve Davis.“Aproveitei para lhe falar sobre nossos problemas políticos no momento: o debate sobre a Emenda Kennedy, e o problema de direitos humanos levantado pelos casos Teruggi e Horman”.</p>
<p>Ele prossegue justificando mais um pedido de ajuda militar do ditador: “Pinochet argumentou que o governo chileno compartilha de nossas preocupações com os direitos humanos e que está fazendo o melhor possível para prevenir violações, acrescentando que não é fácil porque os extremistas de esquerda continuam a atacar oficiais e soldados e praticar atos de sabotagem. Os extremistas ainda têm metade de seu arsenal, disse Pinochet, e as fábricas de bazucas e outras armas ilícitas continuam clandestinas. Se o exército deixasse o problema escapar de controle, o resultado seria um banho de sangue bem maior do que o atual”.</p>
<p>À luz do que se sabe hoje, o relato de Davis pode ser classificado de francamente cínico e mentiroso – e com a cumplicidade do destinatário. Não há registro da resposta de Kissinger ao telegrama de Davis. Mas a referida Emenda Kennedy tinha sido proposta pelo senador democrata Ted Kennedy, que se opunha ao governo Nixon e a seu secretário de Estado, Henry Kissinger, a quem se destinava o telegrama do embaixador. Aprovada no ano seguinte, essa emenda proibia a venda de armas e/ou ajuda militar americana a governos com denúncias de violação dos direitos humanos, e foi evocada diversas vezes pelos senadores americanos para suspender o suprimento militar ao Chile, embora o secretário de Estado, Henry Kissinger, defendesse que apoio militar e direitos humanos eram “assuntos diferentes”.</p>
<p>Desde 1975, com a conclusão do Church Report, o relatório do senador americano Frank Church, a participação ativa dos Estados Unidos no golpe do Chile era conhecida. Quanto aos casos dos jornalistas desaparecidos dias depois da derrubada de Allende, a explicação é mais complexa – e bem mais comprometedora para o embaixador, principalmente depois que o caso Horman se tornou mundialmente conhecido através do filme “Desaparecido” (“Missing”) de Costa Gravas, lançado em 1982.</p>
<p>Nele, o cineasta retrata a busca desesperada do pai e da mulher de Horman e as fortes suspeitas de envolvimento da embaixada americana no desaparecimento do jornalista logo depois do golpe militar no Chile. O autor dos telegramas publicados aqui, o embaixador Nathaniel Davis, vestiu a carapuça e entrou com um processo de 150 milhões de dólares contra Costa Gravas. O filme foi proibido de ser exibido durante a disputa judicial, que terminou com a vitória do cineasta. O capitão americano Ray E. Davis, adido militar da embaixada, foi acusado de cumplicidade no assassinato de Horman e teve sua extradição dos Estados Unidos pedida em dezembro de 2011 por um juiz chileno durante investigação sobre os crimes da ditadura.</p>
<h3><b>A embaixada oculta os assassinatos dos jornalistas</b></h3>
<p>Dois meses antes do golpe, com a ajuda do jovem Teruggi, o jornalista investigativo Charles Horman havia publicado no jornal alternativo FIN uma história sobre o envolvimento da CIA na desestabilização do governo Allende. Casualmente acabou descobrindo mais detalhes em uma viagem de turismo realizada a pedido de uma amiga americana, na véspera do golpe, ao litoral chileno, onde estavam as forças de apoio da Marinha. Horman e a amiga ficaram retidos em Viña Del Mar &#8211; as estradas haviam sido bloqueadas pelos golpistas -, e voltaram à capital chilena no dia 15 de setembro de 1973, de carona com o chefe da missão militar americana, o capitão Ray E. Davis, que lhes relatou milhares de prisões e centenas de mortes na Santiago pós-golpe.</p>
<p>Dois dias depois, Charles Horman foi preso dentro de sua casa, na frente de sua mulher – e nunca mais foi visto vivo. Documentos liberados a partir de 1999 pelo governo americano incriminaram o capitão Davis e apontaram a cumplicidade da embaixada dos Estados Unidos em Santiago na ocultação do crime. No dia 9 de outubro, três dias antes do cínico telegrama de Davis – que sabia do real destino dos jornalistas – a embaixada publicou um anúncio do desaparecimento de Horman, por pressão de seu pai, que só deixou Santiago depois que o corpo do filho e de Teruggi foram “encontrados” nas ruas de Santiago com marcas de execução, no dia 18 de outubro de 1973.</p>
<p>No dia anterior, Edmund Horman, o pai do jornalista, havia visitado a Fundação Ford em Santiago e ouvido de um consultor de programas da fundação que uma fonte confiável havia lhe dito que o seu filho havia sido executado no Estádio Nacional, o centro de interrogatórios, torturas e execuções do governo chileno.</p>
<p>Só então o governo americano – que chegou a declarar que os jornalistas haviam retornado aos Estados Unidos – reconheceu a morte e emitiu a certidão de óbito de Charles Horman, cuja autópsia, assinada por um médico do necrotério do Chile, coloca como causa da morte “múltiplos ferimentos por bala”. O corpo de Teruggi, preso quatro ou cinco dias depois de Harmon, foi encontrado no mesmo dia e nas mesmas condições.</p>
<h3><b>O embaixador se entende com Pinochet: canalizando recursos pelo Brasil</b></h3>
<p>No mesmo 18 de outubro de 1973, dia em que o governo americano finalmente reconheceu o assassinato do jornalista, o embaixador Davis <a href=" https://www.wikileaks.org/plusd/cables/1973SANTIA05093_b.html ">enviou um telegrama</a> o Departamento de Estado de Kissinger com o seguinte sumário no alto da página:</p>
<p>“Convoquei o presidente da Junta, Pinochet, dia 17 de outubro. A conversa revelou a preocupação com o governo do Chile com sua imagem nos Estados Unidos. E sensibilidade para a necessidade de cautela para ambos os governos, americano e chileno, em relação ao estreitamento excessivo da identificação pública [entre os dois governos] (…). O presidente do PDC [Partido Democrata Cristão] Aylwin e o Cardeal Silva planejam visitar os Estados Unidos para tentar ajudar no problema da imagem pública do Chile”.</p>
<p>No corpo do longo telegrama secreto enviado a Kissinger, o embaixador – que não diz uma palavra sobre o reconhecimento da morte de Horman que se deu naquele mesmo dia – muda de tom. Explica que seguiu a “rotina diplomática, pedindo o encontro protocolarmente há duas semanas” e que na mesma tarde, Pinochet, que estava “relaxado e amigável”, também recebeu “outros embaixadores”.</p>
<p>Ao tratar da questão econômica no Chile e da cooperação financeira dos EUA, o embaixador conta que Pinochet falou rapidamente com o ministro de Relações Exteriores chileno, Ismael Huerta Díaz, em visita aos Estados Unidos, e que ficou com a impressão que o resultado da viagem seria positivo. “Ele sorriu e disse que entende que nós gostaríamos de ser prestativos, mas em alguns casos a ajuda deveria canalizada em breve através do Brasil ou de terceiros”, acrescentou o embaixador.</p>
<p>De fato, como revelaram os jornalistas Rubens Valente e João Carlos Magalhães, da Folha de S Paulo, em novembro daquele ano o Brasil governado pelo general Emilio Médici liberou US$ 50 milhões ao Banco Central chileno para estimular exportações do Chile. O Brasil também abriu linhas de financiamento na Carteira de Crédito para Exportação do Banco do Brasil para empresários brasileiros interessados em vender para o Chile e em adquirir cobre das jazidas chilenas.</p>
<p>Na conversa com Pinochet, o embaixador Davis prosseguiu: “Mencionando o fato que o governo americano tinha levado uma quantidade considerável de suprimentos médicos para o Chile, eu disse que seria útil divulgar essa ajuda em uma materinha na imprensa. E acrescentei que nós ficaríamos felizes em seguir qualquer preferência ou orientação de Pinochet a esse respeito. Disse que achava que seria útil naquele momento exibir nosso interesse e apoio no campo humanitário. Pinochet disse que achava uma boa ideia. Seu comentário foi o de que a publicidade deveria se restringir a coisas humanitárias e que deveríamos ficar bem quietos a respeito de nossa cooperação em outros campos”. Entre parêntesis, o embaixador acrescentou: “Comentário: Tanto em relação à canalização da ajuda através de outro país como sobre a publicidade, Pinochet está mostrando uma compreensão considerável e ao menos alguma sensibilidade aos problemas que nossos países enfrentam”.</p>
<p>Ainda sobre o assunto, o embaixador relata: “Pinochet me disse que o Cardeal Silva lhe prometeu que tentaria ajudar com o problema da imagem do Chile no exterior. Pinochet acha que talvez o cardeal possa viajar para Washington e falar com o senador Kennedy e outros políticos e religiosos dentro de uma ou duas semanas. Eu comentei que o cardeal era muito respeitado como uma liderança progressista na Igreja que ele teria uma influência considerável”. Novamente entre parêntesis, o embaixador comenta que o presidente do PDC tinha ligado pra ele na manhã daquele dia e que também estava pensando em viajar ao exterior: “Aylwin espera convencer Kennedy e outros líderes democratas de que o Chile precisa da ajuda econômica americana porque uma rápida recuperação do país permitiria que ele voltasse à democracia institucional. Mas expressou alguns escrúpulos morais sobre envolver seu partido profundamente com a Junta, principalmente porque ele teme que a Ley de Fuga esteja sendo usada para eliminar oponentes extremistas”.</p>
<h3><b>A vitória de Pinochet e seus aliados no governo americano</b></h3>
<p><a href="https://www.wikileaks.org/plusd/cables/1974SANTIA01687_b.html">Um telegrama </a>de 3 de abril de 1974,  às vésperas de Pinochet ser nomeado definitivamente presidente da República pela Junta Militar, mostra que a estratégia de Davis – a essa altura substituído por David Popper à frente da embaixada – e o general foi bem sucedida. Em uma reunião cordial de 40 minutos com o secretário americano do Tesouro, George Schultz, Pinochet agradece a “ajuda indireta” dos EUA, “sem especificar o tipo”, ressalta o embaixador que aproveita para transmitir os cumprimentos do presidente Nixon, ao que Pinochet agradece, “referindo-se calorasamente à carta que Mrs. Nixon lhe entregou em Brasília”.</p>
<p>Pinochet também promete compensar financeiramente os Estados Unidos através das minas de cobre e quando questionado por Schultz sobre direitos humanos, responde, segundo Popper que “depois dos eventos de setembro de 1973 [quando houve o golpe militar], não havia outra maneira de impedir a infiltração da esquerda”, mas que “a autoridade de seu governo sempre seria exercida dentro dos limites de respeito pelo indivíduo como ser humano”.</p>
<p>Como prova da liberdade no Chile, dá o seguinte exemplo: “Como o secretário podia ver, se a situação retratada por líderes da oposição chilena no exterior perdurasse, não haveria crianças chilenas nas ruas nem mulheres dirigindo carros”. E “enfatizou a importância que representou para todo o hemisfério livrar o Chile do atraso comunista”.<a name="13df9cc9391c3b13_13df9ca187186cc9__GoBack"></a></p>
<p>Em outro momento, <a href="https://www.wikileaks.org/plusd/cables/1974SANTIA03154_b.html">Pinochet diz a Popper</a>: “O governo do Chile é um governo cristão que, diferente dos regimes comunistas, tem respeito autêntico pela pessoa humana”. Reconhecendo que “incidentes isolados de abusos ainda ocorrem porque as pessoas ‘não são perfeitas’”, o ditador adverte que os que denunciam as violações de direitos humanos “não são anjos”, e que teriam seus próprios motivos para fazer tais denúncias.</p>
<p>Passado quase um ano do encontro com o Secretário, <a href="https://www.wikileaks.org/plusd/cables/1975SANTIA00049_b.html">em janeiro de 1975</a>, quando o Senado americano cobrava a investigação dos crimes contra dos direitos humanos cometidos no Chile e a participação americana nos delitos, Pinochet concluiria uma conversa por telefone com o embaixador Popper falando sobre “amizade”: “Um dia os Estados Unidos entenderão que o Chile é um verdadeiro amigo – provavelmente o melhor – e talvez o único verdadeiro amigo no hemisfério. No nosso caso, isso sempre foi verdade, e agora é muito tarde para mudar”.</p>
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		<title>Pesca predatória dizima peixes no sul do Pacífico</title>
		<link>http://www.apublica.org/2012/02/pesca-predatoria-dizima-peixes-sul-pacifico/</link>
		<comments>http://www.apublica.org/2012/02/pesca-predatoria-dizima-peixes-sul-pacifico/#comments</comments>
		<pubDate>Fri, 17 Feb 2012 15:24:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
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		<description><![CDATA[A situação do peixe cavala, que teve uma redução de 90% da sua população, é um prenúncio de uma crise global que está começando; o peixe pode acabar]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>O chileno Eric Pineda olhava para as 10 toneladas de cavala no porão do barco, depois ter passado quatro dias no mar durante uma pescaria tão farta que dava para encher o piso de peixe em apenas algumas horas. O agente de doca, como todos no velho porto ao sul de Santiago, cresceu comendo o peixe espinhudo e escuro que eles chamam “jurel”, que costuma nadar em grandes cardumes no Pacífico Sul.</p>
<p>“Está indo rápido”, disse Pineda. “Nós temos que pescar muito antes que ele desapareça”. Perguntando sobre que peixe sobraria para seus filhos, ele encolhe os ombros: “Ele terá que achar outra coisa”.</p>
<p>Mas o que mais há?</p>
<p>A cavala, rica em proteína oleosa, é o alimento para um planeta com fome, um produto básico na África. Em outros lugares, as pessoas o comem sem saber. A maioria da cavala pescada é processada e vira ração para piscicultura e para criação de porcos. São necessários mais de 5 kg de cavala para engordar 1 kg de salmão de cativeiro.</p>
<p>Só que, em duas décadas, as <a href="https://www.documentcloud.org/documents/286501-sprfmo-jack-mackerel-subgroup-report2011.html" target="_blank">reservas de cavala caíram</a> de 30 milhões de toneladas para menos de 3 milhões. Os maiores barcos pesqueiros do mundo, depois de esgotarem outros oceanos, agora rumam ao sul, chegando até perto da Antártida para competirem pelo que ainda resta.</p>
<p>Uma investigação do <a href="http://www.publicintegrity.org/investigations/icij/" target="_blank">International Consortium of Investigative Journalists</a> sobre a indústria da pesca em oito países mostra porque o drama da humilde cavala é o prenúncio de um <a href="https://www.documentcloud.org/documents/286503-fao-sofia-2010.html" target="_blank">colapso progressivo</a> das reservas de peixes em todos os oceanos.</p>
<p><strong>Um problema mundial </strong></p>
<p>O destino deles reflete um panorama maior: décadas de pesca global sem regulação impulsionada por rivalidades geopolíticas, ambição, corrupção, má gerência e indiferença pública.</p>
<p>Daniel Pauly, o iminente oceanógrafo da Universidade da Colúmbia Britânica, nos EUA, vê a cavala no Pacífico Sul como um indicador alarmante.</p>
<p>“Este é o último dos moicanos”, ele disse ao ICIJ, “Quando eles se forem, tudo mais estará perdido&#8230; é a última fronteira!”</p>
<p>Até hoje, grandes barcos pescam sem nenhum tipo de fiscalização</p>
<p>Representantes de vinte países encontraram-se no dia 30 de janeiro em Santiago para discutir uma maneira de conter esse assalto. As negociações que levaram à criação da <a href="http://www.southpacificrfmo.org/international-consultations/" target="_blank">Organização da Administração da Pesca no Pacífico Sul </a>(SPRFMO) começaram em 2006 por iniciativa da Austrália e da Nova Zelândia junto com o Chile, &#8211; país que geralmente evita organismos internacionais.</p>
<p>Seu propósito é o de proteger os peixes, em especial a cavala. Mas foram necessários quase quatro anos para os 14 países adotarem os 45 artigos que têm esse objetivo. Até agora, apenas seis países ratificaram o acordo.</p>
<p>Enquanto isto, navios industriais só têm restrições puramente voluntárias na competição descontrolada pelo que resta em águas-de-ninguém no fundo do mar.</p>
<p>Apenas entre 2006 e 2011, os cientistas estimam que as reservas de cabala caíram 63%.</p>
<p>A convenção da SPRFMO precisa de oito assinaturas para ser firmada, incluindo o maior país da costa pacífica da América do Sul. O Chile, que foi proeminente ao juntar-se ao grupo inicial, ainda não ratificou a convenção.</p>
<p><a href="http://apublica.org/2012/02/senhores-da-pesca/">Leia mais. Chile: os senhores da Pesca </a></p>
<p><a href="http://apublica.org/2012/02/sumico-pescado-peru/">Leia mais. Peru: o peixe sumiu </a></p>
<p><strong>Corrida pelo que resta </strong></p>
<p>A Organização decidiu inicialmente que futuras cotas anuais seriam acordadas entre os países membros a partir da <a href="https://www.documentcloud.org/documents/286505-sprfmosignedfinalact.html" target="_blank">pesagem total </a>de cada navio entre 2007 e 2009.</p>
<p>Mas, para aumentar suas cotas, diversos navios pesqueiros correram para o sul. Pesqueiros chineses chegaram em massa, entre outros da Ásia, Europa e América Latina.</p>
<p>Um dos que acabaram de chegar a estas águas foi o Atlantic Dawn, maior navio pesqueiro no mar, com 14 mil toneladas. Construído por irlandeses, o barco foi comprado pela empresa holandesa Parlevliet &amp; Van der Plas e rebatizado como Annelies Ilena.</p>
<p>Tais “super pesqueiros” capturam a cabala com redes que medem 25m X 80m. Quando elas se arrastam, peixes são sugados para o porão por meio de tubos como grandes aspiradores de pó.</p>
<p>Gerard can Balsfoort, presidente da associação holandesa Pelagic Freezer-Trawler Association (<a href="http://www.pelagicfish.eu/nl/paginasamenstellingNIEUWS.asp?paginaID=1&amp;menuID=267" target="_blank">PFA</a>), que representa nove empresas e 25 embarcações de países da União Europeia, confirma o óbvio: os holandeses, como outros, vieram para demarcar território.</p>
<p>“Era uma das poucas áreas onde ainda dava para entrar livremente”, diz van Balsfoort. “Parecia que muitas embarcações rumariam ao sul, mas não havia escolha&#8230; Se uma empresa demorasse a ir para lá, eles poderiam fechar os portões”.</p>
<p>Em 2010, a SPFRMO <a href="http://www.southpacificrfmo.org/2010-register-of-vessels-authorised-to-fish-for-pelagic-species-in-the-sprfmo-area/" target="_blank">contabilizou</a> 75 embarcações pescando nesta região.</p>
<p>A cavala também atraiu a empresa Pacific Andes International Holdings (PacAndes), de Hong Kong. A companhia gastou 100 milhões de dólares em 2008 para transformar um petroleiro de 750 pés e 50 mil toneladas em uma fábrica flutuante chama “Lafayette”.</p>
<p>Este navio de bandeira russa, maior que dois campos de futebol, suga o peixe de pesqueiros ao redor por meio de uma mangueira gigante e os congela em blocos. Embarcações refrigeradas – “reefers” – levam a carga para portos distantes.</p>
<p>Sozinho, o Lafayette tem capacidade técnica de processar 574 mil toneladas por ano, se funcionar diariamente.</p>
<p>Em setembro de 2011, cientistas da SPRFMO concluíram que uma captura acima de 520 mil toneladas pode esgotar as reservas de cavala.</p>
<p>Cristian Canales do centro de pesquisa Instituo de Fomento Pesquero (<a href="http://www.ifop.cl/" target="_blank">Ifop</a>), no Chile, diz que um limite seguro seria de 250 mil toneladas.</p>
<p>Alguns peritos discordam, dizendo que a única maneira de restaurar as reservas de peixe é impor uma moratória total por cinco anos.</p>
<p>A espécie Trachurus murphyi, a cavala do pacífico, é pescada no oeste do Peru e do Chile, ao longo de 4.100 milhas de costa por 120 graus de longitude, a meio caminho da Nova Zelândia. São pequenos peixes de mar aberto, vitais para espécies maiores; se espalham pelo oceano, alimentando-se de planctôns e pequenos organismos e servindo de comida para peixes maiores.</p>
<p>Este peixe, que é praticamente uma pastagem dos mares, representa<a href="https://www.documentcloud.org/documents/286509-forage-fish-alder-et-al-2008.html" target="_blank"> um terço do total</a> da pesca capturada no mundo.</p>
<p>A FAO, organismo da ONU para Comida e Agricultura, <a href="http://www.fao.org/DOCREP/006/Y4849E/y4849e0l.htm" target="_blank">diz que a frota</a> pesqueira global  “é 2,5 vezes maior que a necessária”. “Esta estimativa é baseada num relatório de 1998; desde então, as frotas se expandiram. Sem regulação, elas podem rapidamente devastar a pesca”.</p>
<p><strong>Por trás da pesca, subsídios dos governos </strong></p>
<p>Especialistas apontam que muito desta sobrecarga tem sido financiada por subsídios governamentais, particularmente na Europa e Ásia.</p>
<p>Um importante <a href="https://www.documentcloud.org/documents/286510-bottumupreestimationofglobalfisheriessubsidies.html" target="_blank">relatório</a> feito por Rashid Sumaila, junto com o oceanógrafo Pauly e outros da Universidade de Colúmbia Britânica, estima que o total de subsídios globais em 2003 – os dados disponíveis mais recentes – vão de 25 a 29 bilhões de dólares.</p>
<p>Entre 15% a 30% dos subsídios são pagos em combustível que permite os navios chegarem a grandes distâncias. Outros 60% são destinados ao aumento do tamanho das embarcações e à renovação de equipamentos.</p>
<p>O estudo calcula que os subsídios chineses somam 4,14 bilhões de dólares, enquanto a Rússia destina 1,48 bilhões em apoio.</p>
<p>Um relatório do Greenpeace lançado de dezembro de 2011 analisou profundamente a associação holandesa PFA. Descobriu-se que o grupo recebeu isenções em impostos sobre combustíveis no valor de 20 a 78 milhões de euros os últimos 5 anos.</p>
<p>Estima-se que a média de lucro anual da PFA seja de cerca de 55 milhões de euros; segundo o estudo, este lucro seria de apenas 7 milhões se não contasse com a ajuda dos contribuintes. Fundos da União Europeia – e apoio financeiro da Alemanha, Grã-Bretanha e França – ajudaram a PFA construir e modernizar 15 pesqueiros, quase metade de sua frota.</p>
<p>O navio Helen Mary, por exemplo, começou pescando no Pacífico Sul em 2007. Entre 1994 e 2006, recebeu 6,4 milhões de euros em subsídios mais do que qualquer outra embarcação pesqueira segundo <a href="http://fishsubsidy.org/DE/vessel/DEU000300601/HELEN%20MARY" target="_blank">dados </a>da Comissão Europeia.</p>
<p>Van Balsfoort, o presidente da PFA, não discute números de subsídios, mas diz que isenção de impostos sobre combustíveis são rotineiros na indústria pesqueira. Segundo ele, o Helen Mary e outra embarcação irmã a ele eram pesqueiros decrépitos da Alemanha Oriental, reconstruídos com incentivo da Alemanha depois da reunificação.</p>
<p>Embarcações podem pescar livremente em áreas não governadas por acordos ratificados. Esta é uma prática internacional. Mesmo assim, a União Europeia <a href="https://www.documentcloud.org/documents/286514-eulegislation-on-sprfmo.html" target="_blank">requer que navios</a> de países membros se comprometam a seguir as medidas internas da SPRFMO. Além disso, países da UE devem dividir uma cota anual coletiva da cavala do pacífico.</p>
<p>Mas os proprietários de navios sempre acham um jeito de burlar as regras. Por exemplo, a Unimed Glory, uma subsidiária da companhia grega Laskaridis Shipping, opera três pesqueiros no Pacífico Sul. Apesar de seus donos serem da Grécia, sua bandeira é da ilha pacífica de Vanuatu, e por isso eles operam fora do controle europeu, podendo pescar mais cavala do Pacífico do que poderia.</p>
<p>O gerente norueguês do Unimed Glory, Per Pevik, contou ao ICIJ que seu peixe não pode ser vendido na Europa porque Vanuatu não atende os padrões sanitários. Então, ele vende cavala do Pacífico para a África. Perguntado se as autoridades europeias opõem-se à sua bandeira de Vanuatu, ele diz: “Não, eles não me incomodam por conta disso”.</p>
<p>Uma vez que o peixe é descarregado em navios refrigerados de longas distâncias, sua origem pode ser escondida.</p>
<p>No Pacífico Sul, embarcações industriais acham cada vez menos cavalas do Pacífico depois de anos de pesca agressiva: os navios de bandeiras da União Europeia capturaram coletivamente mais de 110 milhões de toneladas do peixe em 2009. No ano seguinte, os barcos içaram uma quantidade 40% menor do peixe. No último ano, as embarcações registraram apenas 2.261 toneladas pescadas.</p>
<p>O presidente da PFA, van Balsfoort, admite que os navios pescaram muito intensamente numa época em que os peixes estavam vulneráveis. “Houve um empenho muito grande em pouco tempo&#8230; toda a frota tem culpa nisso”.</p>
<p><a href="http://apublica.org/2012/02/senhores-da-pesca/">Leia mais. Chile: os senhores da Pesca </a></p>
<p><a href="http://apublica.org/2012/02/sumico-pescado-peru/">Leia mais. Peru: o peixe sumiu </a></p>
<p><strong>Por dentro da chinesa PacAndes </strong></p>
<p>Entender a PacAndes é como montar um quebra-cabeça. Sua nau de 50 mil toneladas brutas, o Lafayette, é registrada no nome da Investment Company Kredo em Moscou e hasteia uma bandeira russa. Por sua vez, a Kredo – via quatro outras subsidiárias – pertence ao <a href="https://www.documentcloud.org/documents/286516-cfg-ar2010.html" target="_blank">China Fishery Group</a> em Singapura, que por vez está registrada nas Ilhas Cayman.</p>
<p>Esta última empresa pertence à Pacific Andes International Holding, sediada em Hong Kong, que ainda está ligada a outra companhia registrada em Bermuda.</p>
<p>A PacAndes, que vende suas ações na bolsa de valores de Hong Kong, tem mais de 100 subsidiárias em diversos ramos, além de uma com muitas outras empresas afiliadas.</p>
<p>Um de seus maiores investidores é o grupo americano Carlyle, que comprou 150 milhões em ações em 2010.</p>
<p>A China Fishery Group <a href="https://www.documentcloud.org/documents/286520-cfg2011.html" target="_blank">relatou uma receita</a> de 685,5 milhões de dólares em 2011, valor que significa 55% dos ganhos da PacAndes.</p>
<p>A empresa <a href="https://www.documentcloud.org/documents/286521-pacandes2011.html" target="_blank">atribui </a>isto à operação intensa da frota do Pacífico Sul e ao negócio de farinha de pescado no Peru.</p>
<p>O malasiano-chinês Ng Joo Siang, de 52 anos, graduado na Louisiana State University, nos EUA, dirige a PacAndes como se fosse um negócio familiar – apesar de ser uma empresa de capital aberto. Seu pai mudou com a família para Hong Kong, e em 1986 começou um negócio de frutos do mar. Hoje em dia, o conselho executivo conta com sua mãe, seus três filhos e uma filha.</p>
<p>“Meu pai dizia que os oceanos são ilimitados”, Ng afirmou em uma entrevista, “mas este era um engano. Nós não queremos degradar os recursos, sermos culpados pelos danos. Eu não acho que os acionistas gostariam disso. Eu não acho que nossos filhos gostariam muito disso”.</p>
<p>Hoje em dia, a PacAndes enfrenta uma crise de relações públicas. Em 2002, uma empresa afiliada foi acusada de pesca ilegal na Antártida. Ng nega qualquer delito ou conexão com os barcos suspeitos. Mas seus críticos são ferozes.</p>
<p>Diplomatas da Nova Zelândia contaram ao ICIJ que um advogado da empresa teria ameaçado a família de um executivo de pesca de Auckland. Perguntando sobre o assunto, Ng diz que nada disso aconteceu.</p>
<p>Forçado a moldar uma imagem melhor, Ng contratou um novo funcionário de responsabilidade social para a empresa e diz querer colocar cientistas em seus navios para ajudar a proteger as reservas de peixes.</p>
<p>Mas ri com desdém quando fala sobre a tentativa de limitar a pesca de cavala do pacífico a 520 mil toneladas. “Baseado em quê? Nisso?”, responde, balançando o dedo molhado no ar como se estivesse checando o vento. “Isto não é ciência! A SPRFMO não possui conhecimento científico”.</p>
<p>Ng diz que o Lafayette ergue uma bandeira russa porque a maneira que ela opera é inspirada na velha concepção soviética. Mas especialistas da indústria suspeitam de outra razão para esta manobra obscura.</p>
<p>Embora Ng diga que o Lafayette não pode pescar, mas apenas acompanha outros barcos segurando um lado de uma rede de arrastão, enquanto o navio menor iça a carga, uma inspeção francesa em janeiro de 2010 <a href="https://www.documentcloud.org/documents/286523-heads-of-delegations-inspection-of-lafayette.html" target="_blank">não achou equipamentos de pesca</a> abordo do megapesqueiro.</p>
<p>Rússia e Peru declararam claramente as mesmas 40 mil toneladas de pesca de cavala. Os russos dizem que o Lafayette estava pescando e possui bandeira russa. Já os peruanos dizem que os pesqueiros de arrastão capturaram peixes sob sua bandeira.</p>
<p><strong>Jogadas políticas no Chile </strong></p>
<p>A crise da cavala do Pacífico atinge mais fortemente no Chile, onde autoridades e a própria indústria admitem excessos no que eles chamam de “corrida olímpica”.</p>
<p>Só em 1995, os chilenos pescaram mais de quatro milhões de toneladas – oito vezes mais do que os cientistas da SPRFMO consideram sustentável. De 2000 a 2010, o Chile pescou 72% de toda cavala do Pacífico sul.</p>
<p>Juan Vilches, “patrón de pesca”, que trabalha para uma grande empresa, é também biólogo marinho. Vilches treme quando lembra os velhos tempos. “A matança era tremenda, inacreditável”, diz.</p>
<p>“Ninguém tinha nenhuma ideia de limites. Centenas de toneladas eram jogadas fora se as redes subissem cheias demais para o porão. Navios vinham tão carregados que os peixes eram amontoados. O sangue ficava quente até eles cozinharem”.</p>
<p>A situação é melhor hoje em dia. Mesmo assim, o International Consortium of Investigative Journalists, junto com o centro investigativo chileno CIPER, descobriram que oito grupos empresariais chilenos pressionam o governo a determinar cotas além das recomendações científicas. Juntos, esses grupos têm direito a 87% da captura de cavala do Pacífico.</p>
<p>Roberto Angelini, de 63 anos, é conhecido como “O Herdeiro”. Angelini sucede seu tio, Anacleto, apontado pela revista Forbes como o homem mais rico da América do Sul em 2007, ano em que morreu.</p>
<p>Anacleto veio da Itália em 1948. Em 1976, a pesca entrou para o rol de seu império, que hoje inclui a maior empresa de combustível do Chile, minas, florestas e outros negócios. As duas empresas de pesca de Angelini detêm 29,3% da cota de cavala do Pacífico estabelecida pelo governo chileno.</p>
<p>Um <a href="https://www.documentcloud.org/documents/286527-informe-final-de-subpesca-para-determinar-cuota.html" target="_blank">relatório do governo</a> do Chile mostra que cerca de 70% da cavala do Pacífico capturada entre 1998 e 2011 no feudo de Angelini, no norte do país, estava abaixo do tamanho mínimo permitido.</p>
<p>Mas funcionários do governo dizem que capturas no norte chileno recaem na categoria especial de “pesquisa”, sendo isentas de regulações quanto ao tamanho dos peixes. Angelini não quis comentar essa história.</p>
<p>Na Universidade de Concepción, o tom de voz gentil do biólogo Eduardo Tarifeño muda quando o assunto é a pilhagem do oceano.</p>
<p>Ele diz hoje em dia o Chile só tem sardinhas em abundância. “Não temos mais cavala, merluza ou anchoveta. Reservas que produziam milhões ou mais de toneladas por ano simplesmente se esgotarame por causa da sobrepesca”.</p>
<p>Tarifeño é um dos dois cientistas no conselho nacional chileno de pesca, montado para recomendar as cotas. O voto é por maioria, mas 60% dos membros são <a href="http://www.subpesca.cl/transparencia/consejosconsultivos.html" target="_blank">representantes da indústria</a>.</p>
<p>A cada ano, o instituto oficial de pesquisa chileno, Ifop, recomenda uma cota à Subpesca, a unidade do ministério da Economia responsável pelo setor, que então propõe sua própria estimativa. Se o CNP rejeitar, o novo limite é estabelecido em 80% da cota do ano anterior.</p>
<p>Em 2009, o Ifop propôs um corte agudo para 750 mil toneladas, <a href="https://www.documentcloud.org/documents/286530-oceana-informe-cuotas-globales-jurel-agosto-2010.html" target="_blank">de acordo com a ONG Oceana</a>. A Subpesca subiu para 1,4 milhões de toneladas. A CNP aprovou.</p>
<p>Enquanto as reservas de cavala do Pacífico despencam, membros do governo e executivos da indústria culpam uns aos outros por não terem tomado as medidas certas no passado.</p>
<p>Mas Tarifeño insiste que agora é tarde para qualquer medida que não seja drástica. “Se nós não salvarmos a cavala do Pacífico hoje, não poderemos fazer isto depois. Precisamos proibir a pesca por pelo menos cinco anos”.</p>
<p>No secretariado de Pesca em Valparaiso, Italo Campodónico reflete sobre isto. “Como um biólogo marinho, eu tenho que concordar”, diz. “Devemos ter uma moratória de cinco anos. Mas como funcionário público, tenho que ser realista. Por razões econômicas e sociais, isto não acontecerá. Estrangeiros podem pescar em outras águas. Nós não.”</p>
<p><strong>A anchoveta Desaparece do Peru </strong></p>
<p>O Peru é a segunda maior nação pesqueira do mundo, depois da China. Apenas o  dilapidado porto de Chimbote – o maior do país – recebe mais peixe do que toda frota espanhola.</p>
<p>Aqui, o problema não é apenas a sobrepesca da cavala do Pacífico, mas também da anchoveta. Este é um peixe que parece uma sardinha do tamanho de uma anchova, uma fonte vital de farinha de pescado para a piscicultura.</p>
<p>A anchoveta do Peru é a maior pesca do mundo. Enquanto a exportação de farinha de pescado rende <a href="https://www.documentcloud.org/documents/286532-chile-exporta-2010.html" target="_blank">535 milhões de dólares</a> anualmente no Chile, no Peru a atividade é três vezes maior: <a href="https://www.documentcloud.org/documents/286533-exportaciones-de-harina-en-peru-2008-2010.html" target="_blank">1,6 bilhões de dólares por ano</a>.</p>
<p>Sente-se o cheiro do porto de Chimbote de longe, bem antes de avistá-lo. Uma nuvem oleosa de fumaça escura é lançada de uma fileira de chaminés. Barcos artesanais boiam em todas as direções ao redor do cais.</p>
<p>As leis peruanas estabelecem normas de procedimento para embarcações que atracam com peixe. Mas, perguntados quando viram inspetores pela última vez, alguns velhos pescadores caíram na risada.</p>
<p>O ICIJ, junto com o grupo de reportagem investigativa IDL-Reporteros em Lima, obteve documentos oficiais que mostram a extensão das fraudes dentro dos portões das fábricas.</p>
<p>Uma análise das pesagens entre 2009 e o primeiro semestre de 2011 – totalizando mais de 100 mil pesagens – mostra que a maioria das empresas peruanas de farinha de pescado sabotou sistematicamente metade dos embarques, declarando, em alguns casos, 50% a menos do que foi capturado.</p>
<p>Esta fraude permite que empresas peguem peixes além da cota, economizem impostos e taxas sobre pesagem, além de pagarem menos aos pescadores que ganham uma percentagem sobre o que é pescado.</p>
<p>No total, pelo menos 630 mil toneladas de anchoveta – o equivalente a 200 milhões de dólares em farinha de pescado – “desapareceram” no processo de pesagem em dois anos e meio. O peixe simplesmente não foi contado.</p>
<p>Os maiores contraventores são peruanos, mas o ranking também inclui a China Fishery Group da PacAndes e outras três empresas de capital norueguês.</p>
<p>O vice-ministro de Pesca do Peru, Jaime Reyes Miranda, diz estar ciente que existem “problemas graves” com balanças em usinas de farinha de pescado, e afirma que o governo está tentando achar uma solução.</p>
<p>Richard Inurritegui, presidente da Sociedade Nacional de Pescaria, minimizou os números e responsabilizou as estimativas a olho nu feitas pelos capitães dos barcos pela diferenças entre o peixe declarado nas embarcações e o peixe pesado nas usinas. A China Fishery Group não quis comentar.</p>
<p>Patricia Majluf, vice-presidente do <a href="http://www.imarpe.pe/imarpe/" target="_blank">Imarpe</a>, o prestigioso instituto oceânico do Peru, descreveu várias maneiras com que pescadores e usinas de farinha de pescado sabotam pesagens, evadem impostos e burlam as leis. Se pegas em flagrante, as empresas podem adiar as penas por quatro anos e acabar somente com uma parte das multas.</p>
<p>Apesar de sua reputação sólida, as recomendações do Imarpe para um decréscimo monitorado na pesca continuam a ser ignoradas.</p>
<p><strong>Salvar os peixes ou a indústria?</strong></p>
<p>Roberto Cesari, representante da União Europeia junto à SPFRMO, diz esperar que as ratificações só aconteçam em 2013. Ou seja: sete anos depois da redução drástica da cavala do Pacífico.</p>
<p>A organização <a href="https://www.documentcloud.org/documents/286534-2011interimmeasuresforpelagicfisheries.html" target="_blank">recomendou</a> uma redução voluntária nas cotas de pesca em 40% para 2011. Mas a China e outros países rejeitaram. Pequim <a href="https://www.documentcloud.org/documents/286535-chinas-position-on-2011.html" target="_blank">acabou concordando</a> com uma redução de 30%.</p>
<p>Segundo Cesari, a UE tenta pressionar para atingir o consenso necessário, mas sua influência é limitada. “Temos expressado nosso desapontamento oficialmente à China e Rússia, mas eles não são pequenos agentes no mundo&#8230; são gigantes”.</p>
<p>Bill Mansfield, um advogado da Nova Zelândia que presidiu a SPRFMO a partir de 2006, diz que restrições voluntárias não têm protegido as reservas de pesca, e é hora de colocar a convenção em vigor.</p>
<p>Ele disse que o encontro de Santiago deve limitar a captura para 2012 a 390 mil toneladas ou menos. “A realidade é que todo mundo precisa dar um grande passo na restrição, para esta espécie poder se recuperar”. Mansfeld não quis dar o nome de países que se recusam a adotar reduções drásticas.</p>
<p><strong>Lobos do mar </strong></p>
<p>Enquanto agentes públicos evitam dar nome aos bois, dois excêntricos ex-marinheiros meditam sobre computadores em pequenas ilhas em opostos extremos do globo – um não conhece o outro – denunciando as grandes frotas de navios pesqueiros.</p>
<p>Gunnar Album, perto de Bodø, situado no Círculo Ártico na Noruega, dirige a TM Foundation, que faz consultoria para a The Pew Charitable Trusts. Ele usa dados de satélites para rastrear embarcações pesqueiras.</p>
<p>Album diz que o apoio governamental criou uma capacidade tal que os superpesqueiros têm que pescar a todo vapor para que o investimento dê retorno. “Estas embarcações navegam os oceanos em busca de qualquer peixe disponível, causando sobrepesca e pressões enormes sobre os governos que tentam gerenciar recursos”.</p>
<p>Martini Gotje, um holandês expatriado que estava abordo do lendário navio Rainbow Warrior, do Greenpeace, quando agentes franceses o afundaram na Nova Zelândia em 1985, faz a mesma coisa mesmo a partir da idílica ilha de Waiheke, perto da capital neozelandesa.</p>
<p>Gotje organiza uma lista negra para o Greenpeace, que ajuda ativistas e autoridades. Mas, como Album, ele culpa principalmente a sobrecarga legal pela devastação.</p>
<p>Para ele, a prioridade deve ser salvar os peixes e não a indústria pesqueira. “O Lafayette levou o jogo a um padrão incrível e a Holanda está muito envolvida. Existem muitos barcos, simplesmente muitos barcos”.</p>
<p>O oceanógrafo Pauly argumenta que esta tendência global não mudará a menos que um poder maior – a União Europeia ou os Estados Unidos – tomem ações firmes. “Alguém tem que elevar os padrões e outros seguirão”.</p>
<p>Duncan Currie, advogado ambiental na Nova Zelândia, vê a cavala do pacífico como um caso clássico, porque elas nadam em um raio bem definido e são relativamente poucos e fáceis de identificar os navios que os pescam. “Se nós não podemos salvar este peixe, o que podemos salvar?”</p>
<p><a href="http://apublica.org/2012/02/senhores-da-pesca/">Leia mais. Chile: os senhores da Pesca </a></p>
<p><a href="http://apublica.org/2012/02/sumico-pescado-peru/">Leia mais. Peru: o peixe sumiu </a></p>
<p><strong>Clique aqui para ler a reportagem original em <a href="http://www.iwatchnews.org/2012/01/25/7900/free-all-decimates-fish-stocks-southern-pacific">inglês</a> e aqui para o <a href="http://ciperchile.cl/2012/01/25/sin-control-gigantes-pesqueros-diezman-el-pacifico-sur/">espanhol</a>.</strong></p>
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		<title>Chile: os senhores da pesca</title>
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		<pubDate>Fri, 17 Feb 2012 14:58:01 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Com apoio do governo chileno, um punhado de famílias poderosas têm garantido cotas de pescaria muito acima do que a realidade permite]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>São 10h30 da manhã de um domingo de agosto, sete milhas do porto Corral e a tripulação do barco Santa María II ergue a rede depois de meia hora na água. O capitão Eduardo Marzán  assiste à operação da ponte com uma feição carrancuda. À sua esquerda, outros 14 navios repetem as manobras feitas pelo  Santa María II há 4 dias, numa busca infrutífera por sardinhas.</p>
<p>O governo do Chile <a href="https://www.documentcloud.org/documents/286601-estado-de-las-principales-pesquerias-nacionales.html" target="_blank">divulgou em 2010</a> que as sardinhas ainda eram abundantes em águas chilenas enquanto o carapau encabeçava a lista de 13 espécies que estavam ameçadas. Hoje, até as sardinhas estão escassas.</p>
<p>O Santa María II pertence à Lota Protein, empresa do Koppernaes Group da Noruega que há 21 meses trava uma batalha legal com oito grupos que possuem direito a 87% do carapau em águas chilenas, além da maioria das sardinhas, anchovas e merluza. A Lota Protein afirma que um leilão pelas cotas proporcionaria uma parcela justa a outros.</p>
<p>Famílias chilenas poderosas dominam esses grupos. Eles são, essencialmente, os senhores dos peixes do Chile.</p>
<p>Uma análise pelo <a href="http://www.publicintegrity.org/investigations/icij/" target="_blank">International Consortium of Investigative Journalists</a> (ICIJ), com o centro investigativo chileno <a href="http://ciperchile.cl/" target="_blank">CIPER</a>, revela que, ao longo da última década, os governos permitiram sistematicamente que estas famílias obtivessem cotas de pescado altamente irrealistas diante das constatações científicas sobre a situação dos mares. Isto contribuiu significativamente para uma dramática queda da cavala no Pacífico Sul, que já foi um dos campos de pesca mais ricos.</p>
<p>O Santa María II procura em vão. Finalmente, o sonar aponta um cardume e a tripulação joga a rede de pesca em sua perseguição por quatro vezes. Menos de 40 toneladas entram nos tanques que suportam 850. O capitão Marzán abandona seu otimismo de costume. O resguardo de dois meses para proteger as sardinhas foi adiantado pelas autoridades e começa à meia-noite, em algumas horas.</p>
<p>O sonar não capta nenhum sinal e Marzán ordena que sua embarcação retorne para casa. Eu pergunto se ele iria voltar para pescar cavala e ele suspira pesado. Até alguns anos atrás, ele responde, ele poderia ter rumado para La Feria, um pequeno setor a 30 milhas da costa onde os barcos eram tão numerosos em noites boas que suas luzes pareciam uma cidade flutuante. Mas, aqueles dias vão longe.</p>
<p>Pelo rádio, muitos capitães que estão em águas abertas, além da zona exclusiva do Chile, contam a Marzán que eles passaram 15 dias pescando e seus compartimentos estão praticamente vazios.</p>
<p>Mario Ulloa, que pilota o Santa María II, relembra os dias de glória: “Nós apenas manejávamos e recolhiamos a rede. Enchíamos o compartimento em uma única coleta e retornávamos ao porto com uma carga completa de cavala. Saíamos, duas, três vezes por dia. Havia bastante peixe, mas ninguém sabia como cuidar dos estoques”.</p>
<p><a href="http://apublica.org/2012/02/pesca-predatoria-dizima-peixes-sul-pacifico/">Leia mais. Pesca predatória dizima peixes no sul do Pacífico</a></p>
<p><a href="http://apublica.org/2012/02/sumico-pescado-peru/">Leia mais. Peru: o peixe sumiu </a></p>
<p><strong>Controle frouxo, estoques sumindo</strong></p>
<p><a href="https://www.documentcloud.org/documents/286602-ley-de-limites-maximos-de-captura-por-armador.html" target="_blank">A lei de pesca máxima</a>, um dos dois códigos pesqueiros do Chile, data de 2001. Durante os anos 1990, os chilenos pescaram <a href="https://www.documentcloud.org/documents/286501-sprfmo-jack-mackerel-subgroup-report2011.html" target="_blank">mais de 28 milhões de toneladas</a> de cavala e o governo baixou medidas de controle. Os pescadores artesanais – são mais de 80 mil deles hoje – ganharam acesso exclusivo à cavala dentro de cinco milhas a partir da costa e 5% da cota total. As indústrias ficaram com o resto.</p>
<p>Logo após da promulgação da lei, porém, o peixe grande comeu os menores. As principais companhias compraram os competidores, contratando pescadores artesanais para adquirirem cotas. Juntos, eles operam um trust pesqueiro informal, uma rede intrincada onde uns possuem a parcela que estão no nome de outros. E agem em conjunto para defender seus interesses.</p>
<p>O governo não cobra pelas cotas. Companhias pagam apenas uma pequena taxa sobre a tonelagem bruta de suas embarcações, cerca de 2% de seus ganhos com exportações, que correspondem a 30 milhões de dólares no ano. O governo pretende adotar uma política de royalties a partir de 2013, reconhecendo a pesca, como a mineração, como um recurso natural de extrativismo. A indústria tenta impedir isto.</p>
<p>Os chilenos pegaram 72% da cavala pescada no Pacífico Sul de 2000 a  2010, mas a competição se intensificou depois de 2005. Um grupo de nações formaram a South Pacific Regional Fisheries Manegement Organization (SPREMO), e as maiores embarcações pesqueiras do mundo pescam com redes de arrastão além das águas chilenas.</p>
<p>A população real de peixes em águas chilenas está tão baixa que os navios não atingem suas cotas desde 2007. Em 2010, o limite de cavala era de 1,3 milhões de toneladas; as redes pegaram menos de 465 mil. Lota Protein tem 1,4% da cota de cavala. A empresa não pescou o suficiente em 2011 para atingir estes níveis.</p>
<p>A lei que regula a quantidade máxima de pescado no Chile foi criada para durar dois anos, mas, através de um lobby pesado, os senhores da pesca a <a href="https://www.documentcloud.org/documents/286604-ley-n-19-849-prorroga-ley-de-lmca-hasta-2012.html" target="_blank">mantiveram em vigor</a>. Uma nova medida, aguardada para ser aprovada em 2012, não traz grandes mudanças. Ela permite a pesca da cavala quando abundante e maior acesso a outras espécies.</p>
<p>Autoridades chilenas propõem cotas baseadas no conselho da Ifop, o instituto governamental de pesca. Estas informações são repassadas ao Conselho Pesqueiro Nacional, o CNP, formado por funcionários, líderes sindicais, um advogado, dois engenheiros e dois biólogos marinhos. Mas 60% dos membros do CNP são da indústria e a maioria comanda.</p>
<p>Se o CNP rejeitar a proposta, a nova cota será automaticamente ajustada para o correspondente de 80% da que está em vigor. Em 2009, enquanto as reservas de cavala despencavam, <a href="https://www.documentcloud.org/documents/286530-oceana-informe-cuotas-globales-jurel-agosto-2010.html" target="_blank">o Ifop aconselhou</a> o teto de 750 mil toneladas. O governo propôs 1,4 milhões de toneladas – quase o dobro – e <a href="https://www.documentcloud.org/documents/286605-cnpapproves2009quota.html" target="_blank">o CNP aceitou</a>.</p>
<p>O biólogo marinho Eduardo Tarifeño, da Universidade de Concepción, é membro do CNP e diz que o órgão tem um pequeno impacto nas decisões. “Tudo é combinado antes que cheguemos às sessões”, ele contou ao ICIJ. “A indústria conversa com o secretário de pesca e pergunta quanto o governo pretende propor. Então, eles dizem ao governo que precisam de mais toneladas para manter a indústria trabalhando”.</p>
<p>Em 2010, o governo adotou medidas de proteção mais fortes depois que cientistas do Ifop que estimaram aproximadamente seis milhões de toneladas em águas chilenas em 2001 acharam nenhuma em 2009. O governo ordenou um corte de 76% nas cotas, resultando em um teto de 315 mil toneladas em 2011. O CNP aprovou a quantidade.</p>
<p>Mas essa atitude promissora não durou. Em 20 de dezembro do último ano, o CNP se reuniu sem Tarifeño (que estava ocupado em uma aula) e rejeitou um corte significativo para 2012.</p>
<p>Ainda que se espere uma mudança no papel do CNP, em 2013, decorrente da nova legislação, limitando a influência da indústria, as perspectivas não são boas. Tarifeño defende que seria necessário proibir a pesca da cavala durante cinco anos para salvar as reservas.</p>
<p><a href="http://apublica.org/2012/02/pesca-predatoria-dizima-peixes-sul-pacifico/">Leia mais. Pesca predatória dizima peixes no sul do Pacífico</a></p>
<p><a href="http://apublica.org/2012/02/sumico-pescado-peru/">Leia mais. Peru: o peixe sumiu </a></p>
<p><strong>Jogadas políticas e privilégios</strong></p>
<p>Enquanto a crise piora, oficiais do governo e líderes da indústria trocam acusações, cada lado culpando o outro pela diminuição dos peixes.</p>
<p>Pablo Galitea, sub-secretário de pesca, culpa as grandes companhias – e governos anteriores que eles manipularam – por capturar peixes demais.  Ele disse ao jornal El Mercurio em dezembro: “Pesqueiros foram administrados com uma visão de curto prazo, que provocou um dano irreparável aos recursos”.</p>
<p>Luis Felipe Moncada, presidente da Asipes, uma das duas maiores associações industriais, disse ao ICIJ que a culpa é das autoridades, e não do CNP. Se o governo quisesse proteger os peixes, ele disse, teria gradualmente imposto cotas menores.</p>
<p>Ele disse que o governo abusou do uso de uma polêmica categoria conhecida como “pesca de investigación”, pesca de pesquisa científica, que permite às empresas burlar limites como os de tamanho mínimo do pescado. E disse que o problema começa no norte do Chile, onde o influente empresário Roberto Angelini controla 75% da cota de cavala em uma área crucial para a reprodução. A captura de peixes menores ou muito jovens está colocando os recursos naturais em risco, disse Moncada.</p>
<p>O Chile reserva <a href="https://www.documentcloud.org/documents/286608-texto-ley-de-pesca-y-acuicultura-y-sus.html" target="_blank">mais de 3% das cotas</a> para pesquisa, sem limite de tamanho do peixe. Cientistas usam apenas uma fração dessa pesca; o resto vai para a indústria. Mas autoridades chilenas <a href="https://www.documentcloud.org/documents/286528-respuesta-de-sernapesca.html" target="_blank">confirmaram ao ICIJ</a> que por anos esta exceção tem sido aplicada à cavala. Em 2011, isso teria significado uma fatia de 17% do total das cotas para “pesquisa”, o equivalente a cerca de 48 mil toneladas.</p>
<p>Agravando a situação, <a href="https://www.documentcloud.org/documents/286609-lawchangingminimumfishsize.html" target="_blank">novas regras</a> abaixaram o limite mínimo de tamanho da cavala, no norte do Chile, de 26 centímetros para 22. <a href="https://www.documentcloud.org/documents/286610-reglamento-de-ordenamiento-pesquero-de-jurel-y.html" target="_blank">O limite no Peru</a>, por exemplo, é de 31 centímetros.</p>
<p><strong>Os herdeiros</strong></p>
<p>Além da pesca, o império de Roberto Angelini inclui a maior empresa de petróleo do Chile com 620 postos de combustível. Ele é presidente da Copec S.A., um conglomerado que abrange madeireiras, produção de celulose, minas, energia elétrica, lojas de varejo e revendas de automóveis. A família possui 60% do capital da empresa.</p>
<p>Os chilenos chamam Angelini, 63, de “o herdeiro”. Ele recebeu o império de seu tio Anacleto, que emigrou da Itália em 1948 e casou com uma chilena. No ano em que Anacleto morreu, 2007, a revista Forbes o colocou como o homem mais rico da América do Sul, com uma fortuna estimada em 6 bilhões de dólares.</p>
<p>Quando Roberto era adolescente, seus pais o mandaram viver com o tio. Ele estudou na Verbo Divino, a escola católica favorita da elite do Chile &#8211; o presidente Sebastian Piñera estudou lá. Depois de formar-se na Universidade Católica, abriu seu próprio caminho. Em dois anos, entrou nos negócios da família em um de seus principais segmentos: pescaria. Em alguns anos, Anacleto o acolheu como seu sucessor.</p>
<p>Hoje, as duas empresas pesqueiras de Angelini, Orizon e Corpesca, controlam 29,3% de toda cota da pesca da cavala. Juntas, estas companhias abastecem 5,5% do mercado de pescado no mundo.</p>
<p>Reservado, Angelini evita entrevistas e câmeras. Também não quis se pronunciar nessa reportagem. Um punhado de fotos o mostram grisalho, atlético e desenvolto, geralmente com uma gravata vermelho escura. Quando a Itália o homenageou com a Ordem do Mérito, ele se comunicou apenas com alguns seletos convidados na embaixada em Santiago.</p>
<p>Roberto Sarquis é outra figura pivô. Sua fortuna vem exclusivamente da pesca. O avô de Sarquis começou uma pequena empresa em 1961. Nos anos recentes, sua companhia comprou várias pequenas firmas de pesca e em 2011 fundiu-se com um competidor para criar a Blumar S.A. O grupo tem a maior cota individual da pesca de cavala, 18,6%. Sarquis é presidente da maior associação industrial, Sonapesca. Até dezembro de 2010, ele <a href="https://www.documentcloud.org/documents/286615-cnpindustrymemberschange.html" target="_blank">era membro na CNP</a>, o influente conselho nacional de pesqueiros.</p>
<p>Roberto Izquierdo Menéndez, 71, assumiu o cargo de Sarquis na CNP. Sua família possui duas empresas pesqueiras, Alimar e Sopesa, e ele comanda um conglomerado com parte na maior companhia de telecomunicações do Chile, o jornal financeiro mais importante do país, uma grande indústria de papel, uma fábrica de polipropileno e, desde 2010, uma usina termoelétrica.</p>
<p>Jorge Fernández e os irmãos Jan e Klaus Stengel, antigos rivais, <a href="https://www.documentcloud.org/documents/286616-camanchaca-merge.html" target="_blank">fundiram</a> a maior parte de suas operações de pesca em 2011. Juntos eles controlam 17,2% da cota de pesca de cavala. Ambas as famílias têm sólidos negócios separadamente, incluindo fazendas de salmão no sul do Chile.</p>
<p>Francisco Javier Errázuriz, 69, tem uma pequena cota de pesca mas é um membro de destaque no grupo. Conhecido como “Fra-Fra”, ele foi um candidato a presidente em 1989, representando a centro direita, e depois eleito senador. Quando esteve no Congresso, foi multado e suspenso por sequestro e agressão em uma disputa por água.</p>
<p>Recentemente, Errázuriz foi acusado de tráfico humano pela importação ilegal de pelo menos 150 paraguaios para trabalhar em suas terras. Em outubro de 2011, logo depois de ser formalmente acusado pelo promotor, Errázuriz teve um derrame e não saiu mais do hospital. Ele permanece no hospital. Sua empresa não respondeu ao pedido de comentário do ICJF. Seu filho Francisco Javier tem se encarregado de negar publicamente as acusações de tráfico humano contra o pai.</p>
<p>Sarquis, Fernández e Izquierdo Menéndez também não responderam aos pedidos de entrevista.</p>
<p><strong>O mar é dos homens de negócio </strong></p>
<p>No Santa María II, Jaime Araneda fala sobre sua família de pescadores, lembrando seu avô. Ele trabalhou por 11 anos em navios de grandes empresas. Agora, teme o futuro.</p>
<p>Quando Araneda começou a pescar, barcos voltavam depois de três ou quatro dias, sempre cheios de cavalas. Hoje, ele vai para o alto-mar além das águas chilenas por no mínimo 12 dias. Os barcos voltam quase vazios.</p>
<p>“O mar não pertence mais aos chilenos”, diz Araneda. “Ele pertence aos homens de negócio. Se as coisas continuarem assim, em um ou dois anos não compensará pescar no Chile”.</p>
<p><a href="http://apublica.org/2012/02/pesca-predatoria-dizima-peixes-sul-pacifico/">Leia mais. Pesca predatória dizima peixes no sul do Pacífico</a></p>
<p><a href="http://apublica.org/2012/02/sumico-pescado-peru/">Leia mais. Peru: o peixe sumiu </a></p>
<p><strong>Leia a reportagem original em<a href="http://www.iwatchnews.org/2012/01/25/7914/lords-fish" target="_blank"> inglês</a> e em <a href="http://ciperchile.cl/2012/02/09/naciones-pesqueras-no-logran-detener-el-saqueo-del-pacifico-sur/" target="_blank">espanhol</a>.</strong></p>
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		<title>Ocupando os próprios corpos</title>
		<link>http://www.apublica.org/2011/10/chile-ocupando-os-proprios-corpos/</link>
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		<pubDate>Fri, 21 Oct 2011 17:51:52 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
				<category><![CDATA[Últimas Reportagens]]></category>
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		<category><![CDATA[#protestos]]></category>

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		<description><![CDATA[Dois meses antes dos jovens indignados ocuparem Wall Street, os estudantes chilenos ocupavam seus próprios corpos em uma longa greve de fome pela educação superior gratuita: 71 dias sem comer ]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Na noite da quinta-feira, dia 20 de outubro, cerca de 60  estudantes ocuparam por cerca de oito horas, o prédio do Congresso Nacional do Chile enquanto parlamentares debatiam com o ministro da Educação, Felipe Bulnes, o orçamento para o setor em 2012. Depois do fracasso da tentativa de negociação com o governo, que foi interrompida em meados de outubro, os estudantes querem um plebiscito sobre a reforma da educação.</p>
<p>Ao deixar o prédio, foram recebidos por um cordão de isolamento e jatos de água. São os “pingüins” ou “encapuzados” que há sete meses estão nas ruas chilenas pedindo educação superior gratuita – todas as universidades são pagas no Chile. O governo estima que pelo menos 1.700 pessoas foram presas desde o começo dos protestos.</p>
<p>No começo de outubro, os secundaristas – conhecidos como <em>pinguins</em>, por causa dos uniformes azuis-escuros e brancos –, através de seu porta-voz, Alfredo Vielma, declararam romper a mesa de negociações por considerar que o “governo se mostrou intransigente com sua postura”.</p>
<p>Mais tarde, Camila Vallejo, líder da Federação dos Estudantes da Universidade do Chile (Feich), somou-se à decisão dos pinguins alegando “a pouca capacidade de diálogo do governo”.</p>
<p>O movimento chama a atenção pela longevidade, mas também pela intensidade. São os mesmos “penguino”, jovens chilenos sem muita expectativa para um futuro promissor, que protagonizaram uma longuíssima greve de fome há cerca de um mês, em protesto pela falta de diálogo do governo.</p>
<p><strong>Enquanto não começa</strong></p>
<p>Terça-feira, 23 de agosto. Na sala atulhada de carteiras escolares, com colchonetes e lençóis bagunçados, Maura Roque olha alguns cartazes feitos em cartolinas coloridas. Passa vagarosamente os olhos por cada frase, cada palavra, cada nome: “Johanna, feia, te adoramos”; “Mami, te amo. Ass. Papo”; “Jamais nos verão calados”. São mensagens de familiares, amigos, conhecidos, conhecidos de conhecidos, mensagens que preenchem uma parede inteira.</p>
<p>Maura tem 17 anos, cabelos negros e está em greve de fome há 34 dias, juntamente com mais três estudantes do Liceu Dario Salas, localizado no centro de Santiago. Há quatro dias dois pais também se juntaram à greve. Ela usa uma máscara cirúrgica, pois sua imunidade está baixa; têm olheiras fundas, pálpebras caídas e olhos com uma expressão vazada e que se movem preguiçosamente. No jejum prolongado, o organismo adapta-se para a conservação de energia e nutrientes e, como reflexo disso, recorre à diminuição dos gastos energéticos. Daí esses olhos preguiçosos e vazados.</p>
<p>Mas a lentidão dos movimentos é o de menos, ela tem muitas outras coisas para se preocupar, como uma possível insuficiência renal, uma arritmia cardíaca ou uma acidose que pode levá-la a morte. Enquanto Maura corre os olhos sobre os cartazes, o seu corpo, na falta de glicose, consome a gordura para produzir energia; depois de gastar toda essa gordura, o organismo da adolescente poderá entrar num ciclo autofágico, usando músculos e órgãos vitais para sobreviver.</p>
<p>Em média, o jejum é considerado fatal depois de 60 dias. Alguns grevistas, no entanto, sobrevivem por mais de 100 dias consumindo apenas vitaminas, líquidos, sal e açúcar não refinado. E essa é a estratégia de Maura e dos grevistas do Liceu Dario Salas.</p>
<p>Além desse colégio, por todo o Chile, jovens interromperam sua alimentação para pressionar o governo. Alguns foram hospitalizados em estado grave de saúde.</p>
<p>No Liceu Dario Salas, Johanna Choapa entra por aquela porta, 17 anos, toca de lã, cabelos pintados de vermelho e se senta ao lado de Maura. Diz um <em>oiiii</em> estendido, que sai abafado pela máscara cirúrgica que também usa.</p>
<p>“Bem, podemos começar”.</p>
<p><strong>Começando</strong></p>
<p>Antes de começar a entrevista, vale voltar ao começo da história. E ela começa com Pinochet, que governou o país por 17 anos, até 1990. Três dias antes de entregar o poder, ele promulgou a Lei Orgânica Constitucional de Ensino, que delegou grande parte da educação chilena ao setor privado.</p>
<p>O resultado é que todo o ensino superior no Chile é pago, e caro. Para poderem cursar uma universidade, os estudantes precisam de crédito, que chegam a pagar por até 20 anos depois de formados.</p>
<p>Há mais de 4 meses, as universidades chilenas estão paradas reivindicando educação gratuita e de qualidade. Esse é considerado um dos mais fortes movimentos desde o retorno da democracia chilena. Os “penguinos” estão determinados e irredutíveis.</p>
<p>O governo chegou a apresentar propostas de reformas do sistema educacional, como a desmunicipalização da educação secundária,uma mudança constitucional que assegure a melhoria do ensino e a redução das taxas de juros dos créditos concedidos, mas os estudantes rechaçaram. Eles querem um plebiscito para que se faça uma nova Constituição.</p>
<p>O ministro Bulnes apresentou uma proposta de mais bolsas de estudo, aumento no orçamento destinado à educação e maior fiscalização, mas os estudantes insistem que estas continuam sendo medidas paliativas. Também querem uma reforma do ensino médio, que é de baixa qualidade.</p>
<p><strong>“Ocupamos nosso corpo como meio de pressão”</strong></p>
<p><a href="http://apublica.org/wp-content/uploads/2011/10/Chile-miolo.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-1084" title="Estudantes em greve de fome no Chile" src="http://apublica.org/wp-content/uploads/2011/10/Chile-miolo.jpg" alt="" width="400" height="300" /></a>Gravador ligado, outro começo.</p>
<p><em>Como explicar a um estudante brasileiro a situação que vocês vivem aqui no Chile?</em></p>
<p>MAURA: Nós ocupamos nosso corpo como meio de pressão. Levamos anos indo a marchas e não resultou em nada. Depois, recorremos a tomar os colégios, foram mais de 200 colégios tomados em nível nacional e sabe o aconteceu? Nada. Então, recorremos ao apelo mais forte da humanidade, que é a greve de fome. Mas me parece que não faz sentido nesse país, porque se passou mais de um mês e nada muda.</p>
<p>JOHANNA: Até nos colocaram um recurso de proteção, porque somos menores de idade&#8230; Mais que nada, nós estamos utilizando um meio de pressão ao governo, porque ele já não se dá conta, porque a educação não é grátis e, tampouco, de qualidade. Nós estamos lutando&#8230; E chegamos a esse ponto.</p>
<p>MAURA: É que o governo ganha muito dinheiro com a educação.</p>
<p>JOHANNA: Então não lhes convém mudar nada, porque quando lhes convém alguma coisa eles fazem assim (<em>estala os dedos</em>) e resolve. Eles não mudam as coisas porque vão perder muito dinheiro.</p>
<p>MAURA: Estamos lutando por algo que é de todos, por nossos filhos, nossos netos&#8230;  Já não é algo só dos universitários.</p>
<p><em>E o que pensam os seus pais?</em></p>
<p>MAURA: Não estão de acordo, mas respeitam a nossa decisão e, por isso, apoiam. Mas dizem que <em>(imitando uma voz de autoridade, talvez a do pai)</em> é atentar contra nossas vidas e que não-sei-o-que-mais.</p>
<p>JOHANNA <em>(Levantando as sobrancelhas)</em>: Afinal, é um suicídio lento.</p>
<p>MAURA: É&#8230; E não tem como concordar com seus filhos se matando, entende? Mas estão apoiando, todo o tempo preocupados&#8230;.</p>
<p><em>E por quanto tempo vocês acreditam que a greve de fome persistirá?</em></p>
<p>MAURA: Creio que uns meses mais.</p>
<p><em>E vocês tem algum medo?</em></p>
<p>JOHANNA: Eu acho que não<em>.</em> Não tenho nenhum medo, eu pessoalmente&#8230; <em>(Pausa, pensativa).</em> Estou lutando pelos meus direitos, eles não querem me dar e não deveria ser assim. Nós, que estamos em greve de fome, estamos dispostos a dar vida para a educação.</p>
<p>MAURA: Sempre há medo, de ser reprimido, de sumir como na época da ditadura e não ver mais a sua família. Esse medo sempre vai existir, pelo menos aqui no Chile todos sentimos.</p>
<p><strong>Como nossos filhos</strong></p>
<p>“Os médicos falaram que temos que andar com as máscaras quando temos visitas, mas não estamos acostumados com isso”, diz Sílvia Mellado, 35 anos, tirando a máscara cirúrgica. “E também as máscaras ajudam em relação à exposição: é uma desculpa para tapar o rosto”.</p>
<p>Sem a máscara, agora ela respira aliviada.</p>
<p>Ou nem tanto. Silvia é mãe de três filhos e decidiu entrar em greve de fome com os estudantes do liceu Dario Salas.</p>
<p>“Minha filha vai para a faculdade e isso nos afeta diretamente; está muito difícil assumir o pagamento da universidade deles se já nem conseguimos pagar a nossa. Estou pagando há 20 anos um curso que não pude terminar”, diz, balançando a cabeça inconformada.</p>
<p>Sergio Yañez, 47 anos, também está em greve de fome. “Não temos porque aceitar que um garoto saia da faculdade endividado por mais 20 anos de sua vida. Pense: saindo da universidade aos 26 anos ele vai pagá-la até quase seus 50. Isso não é justo. Nós, como pais, não podemos ser indiferentes a isso”.</p>
<p>Segundo pesquisa do instituto ImaginAcción, as manifestações têm apoio de 80,9% da população, enquanto o governo de Piñera conta com apenas 26%, o indicie mais baixo desde a queda de Pinochet.</p>
<p>Há uma explicação: o Chile vem crescendo economicamente há anos, mas a desigualdade cresceu em proporções semelhantes. Em 2006, 13,7% da população vivia em situação de pobreza extrema, ou seja, com menos de um dólar por dia. Três anos depois, esse número cresceu para 15,1%. Isso no período em que a economia cresceu vertiginosamente, alcançando em 2010 o PIB histórico de US$ 200 bilhões, similar a países como Irlanda, Israel e Portugal. Os 20% mais ricos aumentaram sua renda em 9%.</p>
<p>Sergio continua, gesticulando muito: “A luta passou a fronteira, já é um movimento social. Abarca não somente os estudantes, mas muitas outras coisas que descontentam os chilenos”. Ele pausa para respirar. “Quero algo que sirva para o futuro, para os filhos dos meus filhos, e a greve de fome foi uma forma que encontrei de exigir respostas rápidas e prontas”.</p>
<p>Silvia intervém “Não concordamos com o que estão fazendo, estamos em total desacordo, mas eles têm uma convicção tão grande que decidimos acompanha-los para que tenham mais força. Assim vamos encurtar o prazo desta greve”.</p>
<p>“O exemplo deles é nossa maior força; nós não fomos capazes de exercer essa força, seja na ditadura ou na transição para a democracia”, lamenta Sergio.</p>
<p>Vinte dias depois,<strong> </strong>enquanto se dirigia, em marcha, ao Ministério da Educação para conversar pessoalmente com ministro Felipe Bulnes sobre a greve de fome, Silvia Mellado foi golpeada e presa pela polícia chilena enquanto tentava tirar sua filha das mãos de um carabinero.</p>
<p>Poucos dias depois, Johanna e Maura foram internadas por desidratação e glicemia, além de apresentar problemas respiratórios. Maura se recusou a permanecer hospitalizada e saiu no dia 25 de setembro, seguindo em sua greve na Universidade do Chile.</p>
<p><strong>Fim da greve, sinal de fortaleza</strong></p>
<p>No dia 28 de setembro o governo atendeu uma exigência dos estudantes para acabarem com a greve: a assembleia coordenadora dos estudantes secundários poderia estar presente na mesa de diálogo com o governo.</p>
<p>E, com 71 dias, a greve de fome foi encerrada. Os estudantes foram encaminhados ao Hospital San Borja, para repouso e exames.</p>
<p>A doutora Tania Muñoz disse que as jovens apresentavam um “deterioramento eminente” de seus estados físicos.</p>
<p>Mesmo assim, Maura diz a greve acabou como sinal de fortaleza: “nosso lugar é nas trincheiras do povo organizado, mantendo os colégios tomados”.</p>
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		<title>A dança dos encapuzados</title>
		<link>http://www.apublica.org/2011/08/a-danca-dos-encapuzados/</link>
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		<pubDate>Wed, 31 Aug 2011 19:06:36 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Desfecho trágico para as greves e passeatas por educação gratuita: um estudante morto pela polícia. A repórter da Pública esteve lá e sentiu a violência na pele.]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><iframe width="500" height="281" src="http://www.youtube.com/embed/57HNMMh3Q-M?feature=oembed" frameborder="0" allowfullscreen></iframe></p>
<p style="text-align: left;">Na quinta-feira 25 de agosto, no pequeno café na rua Santa Magdalena, distrito chique de Providência,  Santiago do Chile, via-se pela tevê a batalha que acontecia não muito longe dali: um embate esfumaçado entre policiais uniformizados e meninos e meninas vestidos de preto, panos nos rostos e bonés. Aos clientes, o garçom dizia que não se tratava de um protesto de estudantes, mas de um pequeno grupo de baderneiros, os<em style="text-align: -webkit-auto;"> encapuzados</em><span class="Apple-style-span" style="text-align: -webkit-auto;">. “Eles se aproveitam dos protestos, atacam a polícia e destroem tudo”, comentava. “Não apoio protestos que tragam violência”.</span></p>
<p>Os &#8220;culpados&#8221;, os tais encapuzados, surgiram nas manifestações chilenas nos últimos três meses, ao mesmo tempo em que as escolas secundárias e universidades públicas foram tomadas por estudantes que pedem educação gratuita, de qualidade, e o fim do lucro na educação.</p>
<p>Segundo a imprensa, eles apareceram de repente como os jovens ingleses que surpreenderam Londres invadindo lojas para roubar bens de consumo, protestando contra ninguém sabe direito o quê. Surgem do nada, como se nunca tivessem estado ali.</p>
<p>Mas naquele dia era fácil localizar os <em>encapuzados</em>.</p>
<p>O protesto estava agendado para acontecer diante do Palácio de La Moneda, o mesmo aonde, sob um bombardeio militar, Allende suicidou-se 38 anos antes.</p>
<p>Havia quatro marchas, vindas de diferentes partes da cidade, que se reuniriam  na frente do Palácio. Os trabalhadores, conclamados pela CUT &#8211; <em>Central Unitária de Trabalhadores – </em>se juntavam aos estudantes demandando reformas trabalhistas. Segundo os jornais, as demandas eram tantas que já não se sabia o que os manifestantes queriam.</p>
<p>A avenida, no entanto, estava semi-vazia. Apenas ônibus e veículos blindados do choque, negros, andavam de um lado para outro carregando policiais uniformizados, com proteção dos pés à cabeça. Um cheiro forte ardia no ar. As marchas haviam sido interrompidas e dispersadas pelos policiais, numa operação costurada pelos quatro cantos do La Moneda.</p>
<p>A algumas quadras um único grupo continuava entoando palavras de ordem. Diferentemente do que dizia a imprensa, eram jovens, na sua maioria, e pediam o que sempre pediram: educação superior gratuita, algo inexistente no país desde a era Pinochet.</p>
<p>“<em>Vai cair&#8230; vai cair&#8230; a educação de Pinochet”</em>, entoava uma jovenzinha de não mais de 15 anos, debruçada sobre uma das grades de metal. “Estou no ensino médio e não sei o que vou fazer”, disse. “Ou se paga muito para uma universidade privada, ou ainda mais para uma boa universidade pública”. Outra estudante completava, apontando para a Universidad de Chile, pública: “Para estudar aí tem que pagar três salários mínimos. Ou mais, se você quiser fazer medicina ou odontologia. Aí são quatro”.</p>
<p>Ali, a uma quadra do palácio, ela não era a única que observava em silêncio a estranha dança que levavam os policiais do choque e os poucos manifestantes que conseguiam se reunir. Nas calçadas, uma verdadeira multidão olhava. Eram trabalhadores, senhores, turistas, meninas e rapazes. Brandindo seus celulares em silêncio, com a câmera em <em>on</em>.</p>
<p>De um lado, os “pacos” paramentados formavam-se em linha brandindo seus escudos, enquanto chegavam mais ônibus, mais policiais.<a href="http://apublica.org/wp-content/uploads/2011/08/foto-1.jpg"><img class="size-full wp-image-921 alignright" title="foto 1" src="http://apublica.org/wp-content/uploads/2011/08/foto-1.jpg" alt="" width="448" height="334" /></a> Um deles vem se aproximando com uma câmera, focando em rostos aqui e ali. Do outro, lentamente, formava-se um grupo de jovens, 50, depois 100 e 200, no meio da avenida. Brandiam bandeiras do Chile, faixas com dizeres como “pátria é educação”, apitos. Muitos tiram fotos, filmam; gravando a história no mesmo momento em que tentam fazer parte dela.</p>
<p>Até que um grupo de meninos e meninas toma a dianteira e, ali no meio da avenida, desenrola uma bandeira chilena de uns quatro metros quadrados. São cerca de dez, vestidos de cores escuras, jeans, jaquetas, xadrez, cabelos arrepiados, mochilas, tênis; e abrem-na no meio da multidão para fazer de colchão elástico para uma, depois outra estudante. Jogam-nas para o ar, voando sobre a bandeira chilena. A brincadeira vai durar ainda um pouco mais; apenas vinte minutos depois a festa vai se transformar em confronto.</p>
<p>Estes meninos e meninas, alguns têm o rosto coberto por um cachecol ou pelas suas camisetas. Aqui e ali, um vendedor anuncia limões, que retira de um saco cheio, verde claro.</p>
<p>Haverá gás lacrimogêneo e spray de pimenta; e todos sabem disso.</p>
<p><em>“E vai cair, e vai cair&#8230; a educação de Pinochet”</em></p>
<p>À medida que mais ônibus pretos estacionam atrás da barreira militar e deles saem mais e mais policiais, a multidão vai se desconcentrando. Cerca de duzentos jovens que se amontoam diante da polícia, enquanto os que esperam dos dois lados das calçadas passam de quatrocentos.</p>
<p>É quando voam as primeiras garrafas de vidro. Uma, pesada, sobrevoa a multidão, caindo pouco atrás da fileira de policiais, que agora fica mais robusta. Um grupo coeso, pequeno, decide avançar.</p>
<p>São adolescentes, têm entre doze e vinte anos, os encapuzados. Vestidos na moda. Gritam contra os policiais: “paco maricón”, “vocês têm menos educação do que nós”, “seus filhos também são estudantes”.</p>
<p>Então os policiais formam duas fileiras separadas por um pequeno espaço de não mais que quatro metros; como que convidando-os a atravessar o cordão e tomar, afinal, a avenida em frente ao palácio de La Moneda.</p>
<p>Os meninos aceitam o convite, e avançam num tumulto. O cordão se fecha, soam gritos, a polícia avança sobre eles, abrindo espaço. Em segundos, tempo ínfimo, a multidão começa a correr para todos os lados. Da direção do palácio vêm tanques com jatos de água, fortes, atirando sobre quem quer que estivesse ali, seja encapuzado ou não, estudante ou não; varre a rua e as calçadas com o ardor do spray de pimenta, misturado à água para “conter a multidão”.</p>
<p>No tumulto, abaixo-me para me proteger sob uma ilha de concreto que divide as duas faixas da avenida. É quando sinto uma pancada forte, ardida, no joelho, com um estalido abafado; e logo outra, na costela direita. As pancadas vêm de um cassetete negro ao mesmo tempo em que um policial me empurra para o outro lado da avenida. São pontuais, certeiras, programadas para atingir os pontos mais sensíveis.</p>
<p>Dolorida, com o joelho sangrando, apresso-me para sair dali. Ainda olho para o policial: queria tentar dizer algo sobre a liberdade de imprensa e expressão, mas não.</p>
<p>Em poucos minutos os tanques varreram a avenida de gente, e depois subiram aos passeios para perseguir as centenas as pessoas que correriam para as ruas laterais. E logo uma multidão de mulheres, velhos, adolescentes encapuzados, caminhavam rapidamente nas ruas próximas, e o protesto tinha fim.</p>
<p><strong>Manuel foi ver os protestos. E morreu</strong></p>
<p><a href="http://apublica.org/wp-content/uploads/2011/08/Manuel-Guti%C3%A9rrez-Reinoso.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-922" title="Manuel Gutiérrez Reinoso" src="http://apublica.org/wp-content/uploads/2011/08/Manuel-Guti%C3%A9rrez-Reinoso.jpg" alt="" width="203" height="153" /></a>Naquela noite, entre as localidades de Macul e Peñalolén, na região metropolitana de Santiago, o menino Manuel Gutiérrez Reinoso foi morto porque também foi ver os protestos. Junto com seu irmão, Manuel atravessava uma passarela acima de uma avenida, de onde policiais tentaram afastar a multidão atirando para o ar. O tiro acertou-lhe no peito. Desde então, o ministro do interior Rodrigo Hinzpeter, pediu a demissão do general dos policiais militares, Sergio Gajardo, por ter descartado “prematuramente” uma investigação sobre a morte do rapaz. E o porta-voz da Corte Suprema Chilena foi à carga: “não é tranquilizador que os funcionários estejam usando armas contra a população civil”.</p>
<p>Apenas no dia seguinte à morte de Manuel, o presidente Sebastian Piñera chamou os estudantes para uma negociação sobre as reivindicações. A reunião foi marcada para o próximo sábado, dia 3 de setembro.</p>
<p>Enquanto ela não acontece, os estudantes seguiram em diversas cidades chilenas, fazendo “panelaços”, tomando os semáforos para pedir aos motoristas que pintem seu carro pela educação.</p>
<p>Prova de que a batalha pela educação está longe de terminar.</p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>A alternativa dos estudantes chilenos é a Argentina</title>
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		<pubDate>Thu, 25 Aug 2011 12:00:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
				<category><![CDATA[Últimas Reportagens]]></category>
		<category><![CDATA[#Chile]]></category>
		<category><![CDATA[#MovimentoEstudantil]]></category>
		<category><![CDATA[#protestos]]></category>

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		<description><![CDATA[Hoje o Chile vive o segundo dia de protestos nacionais em apoio às demandas estudantis. Segundo reportagem do CIPER, estudantes migram para a Argentina para fugir das dívidas.]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Hoje há 207.256 jovens que juntos devem 514 milhões de pesos (aproximadamente 1,7 milhão de reais) ao CAE, criado em 2006, para aplacar a “rebelión de los pinguinos”, que reivindicava melhorias no sistema educacional do país.</p>
<p>No dia 30 de junho deste ano, enquanto cerca de 100 mil pessoas se manifestavam nas ruas chilenas pedindo educação de qualidade e sem fins lucrativos, uma centena de jovens fazia o mesmo nas ruas de Buenos Aires – em uma passeata que foi do Obelisco até o consulado chileno.</p>
<p>A maioria dos manifestantes tinha deixado seus lares no Chile para viver na Argentina, país onde as universidades são gratuitas. “O exílio educacional ao qual nos vemos obrigados se deve às condições injustas de custo, entrada e acesso à educação superior de qualidade no nosso país”, diz trecho da carta aberta entregue na embaixada.</p>
<p>O número de chilenos que optaram por cruzar os Andes e estudar na Argentina é incerto. Conhecemos apenas o número dos que se increveram na Embaixada da Argentina para preencher vagas oferecidas no ensino superior. Em 2011, 568 chilenos foram aceitos na graduação, o que corresponde a 40,7% das 1.400 vagas oferecidas para estudantes estrangeiros e representa um salto em relação a 2000, quando apenas 65 chilenos escolheram ir para a Argentina.</p>
<p>Mas o número pode ser ainda maior, já que existem os chilenos radicados na Argentina por outros motivos e que também têm acesso a educação gratuita – depois de algum tempo podem, inclusive, obter o DNI (Documento Nacional de Identidade), o que os torna cidadãos argentinos. Segundo os registros oficiais, os chilenos que tiraram o DNI subiram de 827 (em 2004) para 4.835 (em 2010).</p>
<p>Quantos seguiram essa rota para estudar de graça ninguém sabe e também há estudantes chilenos em universidades privadas na Argentina, que pagam mensalidades mais baixas do que nas universidades particulares no Chile.</p>
<p>A <a href="http://ciperchile.cl/" target="_blank">CIPER</a>, parceira da Pública, solicitou ao Ministério da Educação da Argentina, ao Consulado Geral Chileno em Buenos Aires e à Embaixada Chilena, as estatísticas sobre o total de chilenos que estudam no país, mas as informações não estão disponíveis.</p>
<p><strong>Fugindo da dívida</strong></p>
<p>A possibilidade de estudar jornalismo de graça levou o chileno Gustavo Ampuero, de 23 anos, a deixar o país e a família e ingressar no curso básico da Universidade de Buenos Aires. “Estudar ali sai de graça. Só preciso bancar os 150 mil pesos (516 reais) mensais que gasto para viver. No Chile era impossível viver e estudar com esse dinheiro”.</p>
<p>Gustavo estudou em colégio municipal e sua pontuação PSU (Prova de Seleção Universitária) não foi suficiente para garantir uma bolsa em seu país. Da família de cinco pessoas, apenas seu pai trabalha. O irmão mais velho está endividado e suspendeu a universidade por “falta de dinheiro”.</p>
<p><a href="http://apublica.org/wp-content/uploads/2011/08/Marcha-Estudiantes-2.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-916" title="Avô protesta no Chile" src="http://apublica.org/wp-content/uploads/2011/08/Marcha-Estudiantes-2.jpg" alt="" width="350" height="233" /></a>Por um semestre, Gustavo chegou a cursar jornalismo na UNIACC e gastava, em média, 300 mil pesos (R$1.032,00) por mês entre mensalidades, alimentação e estadia. Com cinco anos de duração o custo total seria de 18 milhões de pesos (R$62.000,00). “Era impagável para qualquer família de classe média com três filhos”, diz. “Ou deixava de estudar ou me endividava. Pensei muito, porque é difícil deixar a família. Mas foi a única saída.”</p>
<p>Os 150 mil pesos que a sua família envia por mês significa um grande esforço, mas está dentro do possível: o pai manda 100 mil pesos e a tia completa o orçamento.</p>
<p>Ao final do seu curso Gustavo terá gasto 9 milhões de pesos com sua estada na Argentina. No Chile, esse dinheiro pagaria somente algum instituto técnico profissional não reconhecido. “Não é justo que o sistema educacional chileno te deixe de fora apenas porque você não tem dinheiro para estudar o que você quer”, desabafa o estudante.</p>
<p>Apesar das saudades da família, Gustavo está contente, principalmente por estar livre da dívida que milhares de jovens chilenos carregam na mochila.</p>
<p><strong>Jovens devedores</strong></p>
<p>A SBIF (Superintendência de Bancos) registra que mais de 370 mil estudantes devem mais de um trilhão de pesos, uma média de 30 milhões de pesos (R$103.000,00) por aluno. Esses números, no entanto, não incluem os estudos do Fundo de Solidariedade, um tipo de financiamento mais barato – 2% de juros – oferecido diretamente pelo Estado.</p>
<p>A CIPER também solicitou ao SBIF e ao Ministério de Educação o número de alunos que estudam pelo Fundo de Solidariedade, mas eles não forneceram os dados.</p>
<p>Para muitos jovens a opção para estudar no Chile passa pelo acesso aos sistemas de crédito disponíveis, por isso a maioria dos estudantes estão endividados. “É inquestionável a dependência dos créditos para que mais jovens chilenos tenham acesso à educação superior”, disse Maria Paz Arzola, pesquisadora do Programa Social do Centro para Liberdade e Desenvolvimento.</p>
<p>Segundo um estudo do Banco Mundial, a população com acesso ao ensino superior (universidades, institutos técnicos e profissionais) cresceu de 200 mil alunos, em 1993, para 940 mil em 2010. Destes, cerca de 700 mil são estudantes universitários.</p>
<p>Ainda segundo os estudos do Banco Mundial, os gastos públicos com educação no Chile aumentaram 231% entre 2006 e 2010, mas apenas 15% do custo da educação superior chilena é pago com dinheiro público. Os 85% restantes são financiados pelos estudantes e seus familiares. Mesmo nos Estados Unidos, onde prevalece a educação privada, o Estado contribui com 30% do investimento, sendo os 70% restantes de responsabilidade das famílias.</p>
<p>Já no Canadá, Estado e famílias contribuem igualmente com 50% do custo educacional. No México e em outros países da OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico), a proporção é inversa: o Estado financia 70% da educação e, a família, apenas 30%.</p>
<p>Uma boa parte do valor privado gasto na educação é financiado pelas famílias chilenas por meio do já citado Crédito com Aval do Estado (CAE), o tipo de empréstimo mais questionado hoje pelo movimento estudantil.</p>
<p>Paradoxalmente, o CAE – um crédito de 10 a 15 anos para aqueles com uma média de 475 pontos no PSU – foi umas das políticas públicas adotadas pelo governo de Michele Bachelet, em 2006, para acalmar os ânimos dos estudantes naquele ano.</p>
<p>Como resultado, as matrículas cresceram – o que é avaliado positivamente pelo Banco Mundial, que considera que esse sistema teve o mérito de contemplar pessoas de baixa renda. “Toda a sociedade se beneficia ao ter mais graduados, principalmente a pessoa que estuda utilizando os créditos disponibilizados pelo Estado”, argumenta Maria Arzola.</p>
<p>Em contrapartida, segundo a SBIF e CAE, em apenas 5 anos mais de 207 mil estudantes de grupos de baixa renda acumularam a já citada dívida que ultrapassa 514 milhões de pesos, o que indica a falência da ideia de que o universitário poderia pagar sem problemas o empréstimo que o permitiria dar o salto econômico. O que está acontecendo de fato é que uma boa parte dos estudantes vulneráveis acabam endividados, sem condições de ingressar na carreira que o permitiria saldar as dívidas.</p>
<p><strong>Maurício queria ser veterinário</strong></p>
<p>O caso de Mauricio Zapata, estudante de jornalismo da Universidade Central é um exemplo do que acontece na prática. Ao deixar o Instituto Nacional em 2004, começou a estudar medicina veterinária na Universidade do Chile com 53% do curso financiado por uma bolsa do Ministério da Educação. O restante seria pago com um empréstimo do Fundo de Solidariedade – o único sistema de crédito garantido pelo Estado, extinto em 2006.</p>
<p>No entanto, o dinheiro da bolsa e do crédito não foi suficiente para pagar as despesas universitárias, o que se agravou quando o pai ficou desempregado, em 2008. “Eu era o filho mais velho, o principal responsável pelas despesas da casa depois dele. Todos os dias havia brigas em casa, relacionadas a falta de dinheiro”, diz. “Não basta pagar a mensalidade do curso, é preciso arcar com custos como transporte, alimentação, fotocópias, livros&#8230; Todos os meses, eu precisava de um reforço de 200 mil pesos”, conta.</p>
<p>Com todos esses problemas, as notas de Mauricio começaram a cair o que o fez perder a bolsa do Ministério da Educação. O resultado: muito trabalho como atendente da rede Starbucks, servente de pedreiro, além das aulas particulares para alunos que prestariam o PSU. Não adiantou o esforço. Maurício saiu da universidade em 2008 sem concluir a faculdade de Veterinária e com uma dívida de cerca de 5 milhões de pesos (R$17.000).</p>
<p>Teve que fazer novo empréstimo para voltar a estudar, agora jornalismo, na Universidade Central, e ainda não saldou a dívida do curso interrompido. “A carta dizendo que devo começar a pagar já chegou. Além de toda a papelada, tenho que provar que a minha casa foi destruída pelo terremoto. Disse a eles ‘Como vocês querem que eu consiga 5 milhões de pesos se a minha casa está destruída e ainda estou estudando? Tenham um pouco de piedade, que eu vou pagar’. Finalmente recebi um email dizendo que adiariam a dívida por um ano, mas não sei o que vai acontecer”, disse Mauricio.</p>
<p><strong>Taxas e juros</strong></p>
<p><a href="http://apublica.org/wp-content/uploads/2011/08/Protesta-estudiantil-en-Argentina.jpg"><img class="alignright size-medium wp-image-914" title="Estudantes chilenos protestam na Argentina" src="http://apublica.org/wp-content/uploads/2011/08/Protesta-estudiantil-en-Argentina-300x167.jpg" alt="" width="300" height="167" /></a>“O CAE não foi uma solução. Ao contrário, reforçou a ideia de que o ensino superior é um privilégio e que o sistema responde à lógica do mercado e não ao direito humano de todos os chilenos”, diz Rodrigo Sanchez, especialista do Observatório de Políticas Educacionais da Universidade do Chile.</p>
<p>Segundo o pesquisador, uma das principais falhas do CAE é que o crédito não cobre o custo total da educação, obrigando aos alunos negociar empréstimos suplementares com os bancos privados, com taxas de juros maiores. Ou seja, o crédito pode cobrir, por exemplo, 80% de um curso, e os outros 20% terão que ser financiados por outro tipo de crédito. “Essa diferença é o que leva os milhares de estudantes chilenos endividados a protestar nas ruas”, resume Sanchez.</p>
<p>Juan Ignácio Reculé, estudante de medicina na Universidade do Chile, paga o curso fazendo malabarismos com créditos distintos: Fundo de Solidariedade, CAE para pagar a maior parte do curso, e um crédito do CORFO para pagar seu primeiro ano.</p>
<p>Relata que quando foi prestar vestibular estava entre medicina e música. A dívida foi fundamental para sua escolha: “Sabia que se fizesse música seria muito difícil pagar os créditos”.</p>
<p>Ao terminar o curso de medicina sua dívida será de 30 milhões de pesos (R$ 103.000,00), mas ele não se preocupa: “Sei que nesses dez anos que tenho para pagar a dívida, irei me especializar e ganhar mais. Mas se minha carreira fosse outra, seria como ter uma espada de Damôcles sobre mim”, diz.</p>
<p>Todos esses cálculos de créditos e débitos levou Alfonso Meneses a ir para a Argentina há 4 anos para estudar medicina. O caçula de três irmãos não teve pontuação suficiente no PSU para entrar no curso que desejava; e sua família não tinha o dinheiro necessário.</p>
<p>A irmão e a irmã de Alfonso conseguiram bolsas de estudos em faculdades privadas (pagando 3 milhões de pesos por ano). “Com uma família com três filhos, meus pais não iriam conseguir pagar para mim”, lembra o estudante que viu na Argentina a solução dos seus problemas.</p>
<p>Em 2007 quando o número de vagas para estudantes estrangeiros chilenos subiu de 233 para 468 no país vizinho, Alfonso foi estudar medicina na Universidade de Buenos Aires (UBA). “Foi basicamente por três razões: minha pontuação no PSU, estudos complementares gratuitos e a qualidade da educação e dos professores que são indiscutíveis na UBA”, explica.</p>
<p>O investimento de Alfonso e sua família pelos estudos na Argentina corresponde a cerca de 40% do custo na Universidade do Chile e a metade do que pagaria na Pontifícia Universidade Católica (PUC). Neste mesmo ano, 107 chilenos ganharam a oportunidade de estudar medicina na Argentina, cinco na UBA.</p>
<p>De acordo com dados do Departamento Cultural da Embaixada da Argentina no Chile, dos 3.307 estudantes chilenos que ingressaram entre 2000 e 2010 no ensino superior argentino pela cota de estrangeiros, 47,32% foram admitidos na UBA, cerca de 18% no Colégio Nacional de Arte, e 14,24% na Universidade Nacional de La Plata. “Outros foram para a Argentina e conseguiram o DNI o que permite ingresso em qualquer faculdade pública como residente”, diz Alfonso.</p>
<p>O que, para muitos, é melhor do que a dívida como bem sabe Mauricio Zapata, que deve 24 milhões de pesos em créditos educativos: “É como uma corrida de ratos, você não pode escapar e fica permanentemente pensando em como ganhar dinheiro para pagar as dívidas e sair desse inferno. Você não tem férias, sua cabeça não descansa. Estou sempre elocubrando sobre como ter dinheiro para mandar para minha família, pagar a faculdade e, pelo uma vez na vida, estudar tranquilo. Sei que tenho capacidade de sobra para completar um curso, por isso minha pontuação é alta. Mas o problema é que a minha capacidade é barrada pelas questões econômicas.”</p>
<p><strong>Em tempo</strong></p>
<p>Nesta quinta-feira prosseguem os protestos conclamados pela <em>Central Unitaria de Trabajadores</em> em apoio às demandas estudantis. São 48 horas de paralizações, marchas e panelaços. Ontem, os protestos geraram confrontos que, <a href="http://www.cooperativa.cl/gobierno-cifro-en-348-los-detenidos-a-nivel-nacional-por-paro-de-la-cut/prontus_nots/2011-08-24/195519.html">segundo o governo chileno</a>, feriram  17 civis e 19 policiais. Além disso, o governo estima que 348 pessoas tenham sido detidas durante o dia, <a href="http://www.google.com/hostednews/epa/article/ALeqM5hmjQ_uGaiHTh9R0oKtPqDgf07fKg?docId=1594028">além de 108 durante a madrugada</a> em todo o país.</p>
<p><strong><a href="http://ciperchile.cl/2011/08/22/los-costosos-creditos-para-la-educacion-impulsan-el-exodo-de-estudiantes-a-argentina/" target="_blank"> Clique aqui</a> para ler a reportagem original, em espanhol</strong>.</p>
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		<title>Os fantasmas que rondam a morte de Salvador Allende</title>
		<link>http://www.apublica.org/2011/06/os-fantasmas-que-rondam-a-morte-de-salvador-allende/</link>
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		<pubDate>Mon, 06 Jun 2011 22:04:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
				<category><![CDATA[Últimas Reportagens]]></category>
		<category><![CDATA[#Allende]]></category>
		<category><![CDATA[#Chile]]></category>
		<category><![CDATA[#Pinochet]]></category>

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		<description><![CDATA[Um juiz está investigando a morte de Salvador Allende para confirmar detalhes históricos sobre um dos episódios mais dramáticos da história chilena]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>No começo deste ano, quando o juiz Mario Carroza, foi encarregado de investigar a morte de Salvador Allende, uma das suas primeiras diligências foi pedir o expediente judicial de 1974 que determinou em 1974 que ele havia se suicidado.</p>
<p>Mas a Promotoria Militar negou ter o original.</p>
<p>Carroza seguiu então as pistas de um anúncio que rodou a internet oferecendo o expediente em troca de $ 2 milhões de pesos (cerca de 6.700,00 reais).</p>
<p>O anunciante era proprietário de uma empresa de demolições, e dizia tê-lo encontrado quando demolia a casa de um ex-relator da justiça militar.</p>
<p>Uma semana depois desta cópia ser entregue ao empresário, o promotor militar que investigou o caso, Joaquín Earlbaum, apareceu na sala do ministro Carroza com outra cópia. O expediente original, no entanto, jamais foi encontrado.</p>
<p>O expediente inclui elementos que podem trazer luz a um dos fatos históricos mais  controversos do século XX.</p>
<p>Entre eles, um inventário de 1973 entitulado “Relação de espécies encontradas pelo pessoal militar no local do suicídio”. Ele enumera bens como a espada de O’Higgins, o fuzil AK-47 presenteado por Fidel Castro, com o qual Allende teria se matado, seus óculos Mustang, seu relógio Jaegger LeCoultre e os dois cascos das balas que perfuraram sua cabeça.</p>
<p>A maioria destes objetos se encontram extraviados; o juiz Carroza mandou um ofício ao Exército, que deveria tê-los sob custódia, pedindo esclarecimentos.</p>
<p>O mesmo expediente contém também as primeiras declarações recolhidas entre 1973 e 1974. Uma delas é a do ex-ministro chileno de Defesa, José Tohá. Outra, a primeira declaração judicial do médico Patricio Guijón.</p>
<h2><em>A</em> testemunha oficial</h2>
<p>Patricio Guijón era o menos político dos médicos pessoais de Salvador Allende. Também era o mais distraído e ingênuo. Foi o único da equipe que não se exilou depois do golpe de Estado; seguiu vivendo na sua casa, na cidade de Vitacura.</p>
<p><a href="http://apublica.org/wp-content/uploads/2011/06/Golpe-de-estado.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-318" title="Golpe-de-estado" src="http://apublica.org/wp-content/uploads/2011/06/Golpe-de-estado.jpg" alt="" width="350" height="239" /></a>Durante a jornada de terça-feira, 11 de setembro de 1973, permaneceu trabalhando mesmo depois do presidente Allende ter liberado seus colaboradores, em virtude da proximidade de um ataque aéreo.</p>
<p>Guijón se lembra de que estava para sair quando fez algo “realmente absurdo”: voltou para buscar uma máscara de gás, que levaria como recordação para seu filho mais velho.</p>
<p>Segundo seu relato, estava nisso quando abriu as portas do salão Independência, onde Allende havia se fechado, e o viu em instantes precisos: sentado en uma cadeira, de costas para a parede, o presidente segurava um fuzil cujo cano pressionava seu queixo. Em um disparo seco, parte do crânio e do cérebro voaram pelos ares.</p>
<p>Seu depoimento, transmitido pela televisão pública em setembro de 1973, esclareceu dúvidas, mas também despertou suspeitas. Mas desde então Patricio Guijón virou <em>a</em> testemunha ocular da morte de Salvador Allende.</p>
<p>Mas, segundo a investigação do juiz Carroza, Guijón não foi nem de longe o único que viu Allende morto depois do tiro ou dos tiros. Tampouco foi o único que disse haver presenciado o momento exato em que aparentemente aconteceu o disparo.</p>
<h2>Disparos secos</h2>
<p><a href="http://apublica.org/wp-content/uploads/2011/06/Exhumacion-del-ataud-de-Salvador-Allende.jpg"><img class="alignright size-full wp-image-319" title="Exhumacion-del-ataud-de-Salvador-Allende" src="http://apublica.org/wp-content/uploads/2011/06/Exhumacion-del-ataud-de-Salvador-Allende.jpg" alt="" width="350" height="217" /></a></p>
<p>Apesar de haver quase cinquenta pessoas no La Moneda, poucas assistiram ao momento em que Allende se despediu de seus colaboradores mais próximos e se encerrou no salão da Independência. Menos ainda são os que sobrevivem para contar.</p>
<p>Um deles é o ex-detetive da Polícia de Investigações, Gustavo Basaure Barrera.</p>
<p>Basaure foi um dos 17 policiais que naquele 11 de setembro permaneceram leais junto a Allende no La Moneda. Resistiram ao assalto em condições muito desvantajosas, em um gesto mais de honra que eficaz.</p>
<p>Às duas da tarde, seu superior o informou que o presidente havia determinado que saíssem em fila indiana pela porta da rua Morandé.</p>
<p>Não havia muitas opções.</p>
<p>O La Moneda ardia em chamas, o ambiente era irrespirável e a maior parte do grupo já estava reunido naquele local. Então Basaure, que permanecia sentado em um corredor do segundo andar do palácio junto ao seu companheiro Pedro Valverde, viu Allende se despedindo e se fechando no salão Independência, afirmando que tomaria alguns minutos para meditar.</p>
<p>A três ou quatro metros da porta, o policial escutou “dois disparos secos, sem estampido”, provenientes do salão.</p>
<p>Então, diz, três ou quatro homens chegaram correndo, e abriam a porta do salão. Um deles saiu gritando que o presidente havia se matado.</p>
<p>-Eu não entrei no salão, mas como a porta ficou entreaberta eu vi, apesar de estar escuro, que o presidente estava em uma cadeira e tinha uma ferida no pescoço, apesar de não parecer ter sangue. Em cima estava um fuzil.</p>
<p>Pedro Valverde Quiñones, o companheiro de Basaure, presenciou a cena com maior detalhes, mas não vive para relatá-la.</p>
<p>Uma posição tanto ou mais privilegiada teve o também falecido policial David Garrido Gajardo.</p>
<p>Em 1987, em uma crônica da revista <em>Análisis</em>, o já ex policía Garrido recordou a cena nos seguintes termos:</p>
<p>- Estávamos no fundo do corredor, quase em frente ao living privado do presidente, quando o vi se aproximar com o superintendente Enrique Huerta, o médico Patricio Guijón e outras pessoas, que ficaram na porta quando ele entrou. Então escutei a voz do presidente que disse forte: ‘Allende não se rende’, e de imediato, dois ou três tiros. O médico disse: ‘O doutor se matou’, entrou na sala de despacho e, desde a minha posição, vi o presidente sentado, com a cabeça para trás. Havia sangue no muro.</p>
<p>Basaure não se lembra ter visto o médico Guijón na passagem do segundo piso, paralelo à rua Morandé. E, como muitos ex-policiais presentes neste dia no La Moneda, ele duvida que o médico tenha regressado para pegar uma máscara anti-gás.</p>
<p>–Não tem nenhuma lógica –diz o policial, lembrando o temor que reinava no ambiente – Nestas circunstâncias, quem iria pensar em voltar para buscar um <em>souvenir</em>?</p>
<h2>O primeiro da fila</h2>
<p>Quando se escutaram os disparos no salão Independência, os primeiros leais que resistiram junto a Allende já haviam alcançado a rua.</p>
<p>Mas contra as ordens do presidente, eles não eram liderados pela sua secretária Miria Contreras, mas pelo policial Eduardo Ellis Belmar. De bigodes espessos e pele grossa, mal abriu a porta e pôs um pé na rua, Belmar foi agarrado por um soldado, que o utilizou como escudo humano.</p>
<p>Imediatamente depois, saiu Miria Contreras.</p>
<p><a href="http://apublica.org/wp-content/uploads/2011/06/bombardeo-a-la-moneda.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-320" title="AEM06L10" src="http://apublica.org/wp-content/uploads/2011/06/bombardeo-a-la-moneda.jpg" alt="" width="350" height="241" /></a>Desde a cidade de La Reina, onde vive, o ex-detetive Ellis sustem que nenhum  militar conseguiu entrar no La Moneda pela porta da rua Morandé antes que Allende se matasse.</p>
<p>- Quando eu recebi a notícia, os militares ainda não haviam entrado em La Moneda. Esperaram que descêssemos todos pela escada que conectava a passagem do segundo andar à porta –diz.</p>
<p>A mesma certeza tem o chefe da guarda presidencial de Investigações, Juan Seoane Miranda, que deixou o La Moneda depois que soube da morte de Allende.</p>
<p>Seoane não tem dúvida que Allende se suicidou:</p>
<p>-Dou fé que os soldados não haviam entrado ainda. Estávamos somente nós.</p>
<p>As versões dos ex-policiais coincidem. Porém, a maioria são amigos e têm o hábito de reunir-se de tempos em tempos. Encontraram-se, por exemplo, pouco antes de ser intimados a fazer declarações diante o juiz Carroza.</p>
<p>A única versão discordante é a de Carlos San Martín que, segundo um dos seus antigos companheiros, deu indícios da presença de militares no momento da morte de Allende.</p>
<h2>Instante fatal</h2>
<p>Em setembro de 1984, quando sua versão era questionada pela esquerda chilena, Patricio Guijón deu uma entrevista à revista <em>Cauce</em> na qual invocou a cena.</p>
<p><a href="http://apublica.org/wp-content/uploads/2011/06/Mario-Carroza.jpg"><img class="alignright size-full wp-image-322" title="Mario-Carroza" src="http://apublica.org/wp-content/uploads/2011/06/Mario-Carroza.jpg" alt="" width="350" height="237" /></a>Ele disse que entrou no salão e tomou o pulso do presidente, constatando sua morte. Há aqui uma incoerência: o crânio de Allende estava aberto e destroçado. A massa encefálica estava à vista. Pra que tomar o pulso?</p>
<p>Logo, diz ele, em um ato instintivo, tomou o fuzil AK-47 que estava sobre o corpo de Allende e o colocou ao lado.</p>
<p>Nestes dez  quinze minutos em que permaneceu no salão até a chegada dos militares, Guijón não se lembra de ter visto nem escutado mais ninguém. No entamto são várias as testemunhas que dizem ter visto o cadáver de Allende.</p>
<p>Estas contradições levantam questões sobre a tese do suicídio.</p>
<p>Esse ano, o jornalista chileno Camilo Taufic defendeu que Allende tentou se suicidar com uma pistola, mas ficou apenas gravemente ferido. A tarefa teria sido completada pelo superintendente do palácio, Enrique Huerta.</p>
<h2>Laudos contraditórios</h2>
<p>A exumação feita no final de maio tem o objetivo de constatar a identidade do corpo. Depois disso, a equipe liderada pelo médico forense espanhol Francisco Etxeberría terá a tarefa de contrastar o resultado com as perícias originais.</p>
<p>Dois laudos realizados em 1973 foram publicados em 2000 no livro <em>La Conjura</em>, de Mónica González: <a href="http://ciperchile.cl/wp-content/uploads/Informe-de-autopsia.pdf" target="_blank">a autópsia</a> e uma <a href="http://ciperchile.cl/wp-content/uploads/Pericia-bal%C3%ADstica.pdf" target="_blank">perícia balística</a>.</p>
<p>Mas até agora, a análise de ambos pelo Serviço Médico Legal, a cargo do ministro Carroza, trouxe surpresas.</p>
<p>A perícia balística foi realizada por funcionários de Investigações que se reuniram em La Moneda na tarde de 11 de setembro.</p>
<p>Concluíram que “a morte do senhor Allende Gossens foi consequência de uma ferida de bala que tem sua entrada na região do queixo e a sua saída na região parietal esquerda. Não se descarta a possibilidade de que se trate de duas trajetórias correspondentes a dois disparos de rápida sucessão”.</p>
<p>O recente estudo do Serviço Médico Legal acusou uma “discordância a respeito da trajetória intracraneana do projétil disparado” nos dois laudos.</p>
<p>Mas será apenas depois de revelados os detalhes de exumação que a equipe poderá resolver as discrepâncias entre ambos os laudos, para enfim encerrar um capítulo da história que se arrasta há quase quatro décadas.</p>
<p><a href="http://ciperchile.cl/2011/05/24/los-fantasmas-que-rondan-la-muerte-de-allende/">Leia a reportagem original, em espanhol</a>.</p>
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		<title>Obama entre nós: Por que os Estados Unidos apostam no Chile</title>
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		<pubDate>Tue, 22 Mar 2011 17:04:48 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Em janeiro passado, Barack Obama surpreendeu com o anúncio de sua primeira viagem oficial à América Latina. Mais surpreendente era que Chile estava entre os três países eleitos. ]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<div class="excerpt">O telefone da presidente Michelle Bachelet tocou quando ela estava em Pucón, rumo à sua casa de veraneio no lago Caburgua. Era 30 de janeiro de 2009 e do outro lado da linha ela foi surpreendida por Barack Obama. A ligação foi divulgada pelo palácio de La Moneda através de um comunicado oficial e virou notícia tanto nos meios chilenos quanto estrangeiros: o novo presidente dos EUA convidava Bachelet a Washington.</div>
<p>No entanto, os telegramas obtidos Wikileaks relatam que o que foi percebido como uma honraria pode ter sido na verdade um mal entendido. “Os chilenos parecem haver interpretado um simples telefonema entre os presidentes Bachelet e Obama como um firme convite para que Bachelet se reúna com Obama em Washington no futuro próximo”, descreve o<strong> <span style="color: #3366ff;"><a href="http://ciperchile.cl/2011/03/18/cable-193428-canciller-subrogante-le-muestra-el-panorama-a-subsecretario-adjunto-mcmullen/" target="_blank"><span style="color: #3366ff;">telegrama Nº 193.428</span></a></span></strong>, que resume a visita do subsecretário-adjunto do Departamento de Estado para o Hemisfério Ocidental, Christopher McMullen, em fevereiro de 2009.</p>
<p>O documento afirma que o Chile estava ansioso por concretizar a visita, mas o diplomata americano sugeriu aos seus anfitriões adiá-la um pouco, tentando demonstrar que Obama estava concentrado na crise financeira. A mensagem não foi compreendida, porque o diretor de América do Norte do Ministério do Exterior, Carlos Appelgren, respondeu que a ligação havia sido tão positiva que os chilenos não queriam parecer mal-educados diante do convite de Obama.</p>
<p>Ao final, Bachelet viajou aos EUA em junho daquele ano e o mal entendido não passou de uma anedota.</p>
<p>Mas a verdade é que ao analisar os 1.600 telegramas do Departamento de Estado sobre o Chile, aos quais o Ciper teve acesso, se entende que não era descabido esperar isso de Washington. Os mesmos documentos dão pistas sobre a pergunta que muitos analistas têm feito esses dias: por que Obama elegeu o Chile entre os três países que visitará na sua primeira viagem oficial à América Latina – junto com Brasil e El Salvador?</p>
<p><img class="alignright" src="http://ciperchile.cl/wp-content/uploads/Michelle-Bachelet.jpg" alt="" width="233" height="350" /></p>
<p>Embora a relação tenha sido historicamente boa, não é óbvia a importância que a Casa Branca dá ao Chile.</p>
<p>Para além das palavras paternalistas, os documentos secretos revelam que o Chile tem sido para os Estados Unidos algo mais que um país pequeno que soube consolidar sua democracia e a estabilidade econômica.</p>
<p>Um informe preparado pela embaixada em Santiago para a participação do vice-presidente de Obama, Joe Biden, na Cúpula Progressista de março de 2009, em Vinha del Mar, resume bem a missão da diplomacia americana no país:</p>
<p>-Um de nossos principais objetivos no Chile tem sido impulsionar seu papel de liderança na América Latina e para além do hemisfério – através de instrumentos diplomáticos, militares e econômicos. O Chile tem sido pró-ativo e útil nas questões nucleares relativos ao Irã na Agência Internacional de Energia Atômica e um valioso colaborador nos fóruns da APEC y OMC. O Chile também é um importante sócio nos esforços de manutenção da paz.</p>
<p>O documento elogia a polícia chilena e a sua grande capacidade de treinamento, o que poderia ser replicado “desde o Paraguai até a América Central &#8211; e eventualmente mais longe-, no Afeganistão e no Oriente Médio”. Também diz que Bachelet buscava mudar a política dos Estados Unidos em relação a Cuba, trabalhando por uma abertura maior deste país, pois ela sabia “de primeira mão as dificuldades de lidar com o regime de Castro” – o documento se refere à polêmica pela divulgação de uma conversa privada entre ela e o líder cubano.</p>
<p>Inovação, educação, energia e meio ambiente aparecem como os “desafios do século 21” na agenda bilateral.</p>
<p>No se trata de uma declaração isolada, e tampouco foram estes os únicos âmbitos nos quais os Estados Unidos têm buscado potencializar a liderança do Chile.</p>
<p>Se o telegrama anterior leva a assinatura do embaixador Paul Simons, já em 2006 o embaixador Craig Kelly havia comentado na Academia Nacional de Estudos Políticos e Estratégicos do Ministério da Defesa que o Chile deveria buscar uma liderança mais ativa na região e no resto do mundo.</p>
<p>“O acordo recente com o Peru para estabelecer forças de paz conjuntas e a defesa que faz o chanceler Foxley de maiores laços econômicos e comerciais entre a América Latina e Ásia são bons exemplos de liderança chilena. Mas se pode alcançar ainda mais e o embaixador e os oficiais da embaixada voltarão ao tema nos próximos meses”, diz <strong><span style="color: #3366ff;"><a href="http://ciperchile.cl/2011/03/18/cable-85794-relacion-ee-uu-chile-%C2%BFpreferencia-por-el-caos-organizado/" target="_blank"><span style="color: #3366ff;">o telegrama Nº 85.794</span></a></span></strong>.</p>
<p>Apesar de ser recorrente o elogio à presença chilena nas forças de paz, isso não reduziu o interesse dos EUA em manter a parceria no negócio de armamentos. Em 2009, a embaixada calculava que o potencial de gastos em aquisições militares pelo Chile para os anos seguintes poderia chegar a 1 bilhão de dólares.</p>
<p><strong>Tudo contra Chávez</strong></p>
<p>Por que interessa aos EUA a liderança chilena? Em grande parte porque durante a última década, Washington tem visto como governos de esquerda têm se consolidado na região, ameaçando um valor fundamental para os americanos: o livre comércio.</p>
<p>Ao mesmo tempo, os Estados Unidos consideram o Chile um “líder global em liberalização comercial” e vêem o tratado de livre comércio que entrou em vigor em 2004 como “a pedra angular” da relação bilateral, graças à qual as trocas comerciais entre os países tem aumentado em mais de 200%.</p>
<p>É esse modelo que os Estados Unidos querem promover no resto da região.</p>
<p><img class="alignright" src="http://apublica.org/wp-content/uploads/2011/03/Ricardo-lagos-junto-a-George-W-Bush.jpg" alt="" width="350" height="224" /></p>
<p>Em um almoço com o conselheiro político da embaixada em 2006, o diretor para América do Norte do Ministério do exterior, Carlos Appelgren, e outro diplomata chileno comentaram que o Chile preferia uma “liderança passiva”, discreta, para não incomodar os países vizinhos. O interlocutor americano respondeu que “as propostas de livre mercado do Chile, o modelo democrático – e as soluções que trouxeram ao seu povo – se contrapõem às apostas populistas falidas e dificilmente podem ser qualificadas de intervencionistas. O Chile pode liderar com seu exemplo e com suas ações”.</p>
<p>Como pano de fundo sempre aparece a o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, como o modelo oposto, negativo.</p>
<p>Sob o título “O modo Chileno de fazer as coisas”, um telegrama confidencial de 2007 reproduz uma conversa na qual o embaixador Kelly diz ao então ministro de Defesa José Goñi que “os Estados Unidos crêem que Chávez é uma preocupação, devido à sua péssima políticas econômica, sua proximidade com o Irã, à repressão à liberdade de expressão e à oposição. Isso reforça a importância de Chile como um líder regional”. Ele conclui que, ao melhorar suas relações com os países vizinhos, a liderança do Chile promove a estabilidade regional.</p>
<p>A relação com Chávez foi particularmente dura durante a administração Bush.</p>
<p>Em junho de 2006, o embaixador Kelly enviava<strong><span style="color: #3366ff;"> <a href="http://ciperchile.cl/2011/03/18/cable-112480-una-perspectiva-del-cono-sur-para-enfrentar-a-chavez-y-reafirmar-el-liderazgo-de-ee-uu/" target="_blank"><span style="color: #3366ff;">o telegrama  Nº 112.480</span></a></span></strong> a todas as embaixadas do Cone Sul, para enfrentar ao presidente venezuelano: “Temos que convencer não só os líderes de governo, mas a sociedade civil &#8211; as pessoas comuns &#8211; de que estamos comprometidos com uma visão progressista e democrática das Américas e queremos ajudá-los a vencer seus desafios. Se pudermos, faremos ações rápidas para minar a influência de Chávez, reforçar a democracia e reafirmar a nossa própria liderança na região”, diz o documento.</p>
<p>Depois de fazer duras críticas ao governo de Chávez, Kelly faz uma análise sobre a importância de cada país na estratégia para enfrentá-lo, destacando-se o Brasil e o Chile, que ele vê como “alternativas exitosas”:</p>
<p>-Foxley busca integrar mais plenamente o Chile na economia global. O Chile não somente tem afirmado como também tem demonstrado &#8211; por exemplo, com a carta de Bachelet à líder da Câmara de Deputados Nancy Pelosi expressando o apoio chileno à ratificação dos tratados de livre comercio com Peru, Colômbia e Panamá.- a sua disposição em ajudar a elevar outros países da América Latina à esfera da economia global. Deveríamos buscar outras formas de entregar ao Chile a liderança de iniciativas importantes, mas devemos evitar que isso seja visto como se eles fossem nossas marionetes ou substitutos.</p>
<p><img class="alignright" src="http://ciperchile.cl/wp-content/uploads/Hugo-Chavez.jpg" alt="" width="277" height="350" /></p>
<p>Na época, os Estados Unidos já sabiam que não podiam contar com o Chile para todas as horas. Ainda mais depois que o ex-presidente Ricardo Lagos se opusera no Conselho de Segurança da ONU, em 2003, à intervenção no Iraque proposta por Bush. Foi um dos episódios mais duros da relação bilateral recente.</p>
<p>No entanto, a sucessão de ministros democrata cristãos no Ministério das Relaciones Exteriores assegurava a Washington certa aversão às políticas de Chávez. O <strong><span style="color: #3366ff;"><a href="http://ciperchile.cl/2011/03/18/cable-38327-visita-de-paula-desutter-escena-local/" target="_blank"><span style="color: #3366ff;">telegrama Nº38.327</span></a></span></strong>, de outubro de 2005, afirmava que embora Bachelet fosse de centro-esquerda, “o governo do Chile compartilha nossa frustração com o comportamento do líder da Venezuela, particularmente com suas ações não democráticas, e está preocupado de que sua retórica e suas ações (especialmente em relação à Bolívia) possam ser desestabilizadoras para a região”. Como exemplo, o telegrama relata que o chanceler Ignacio Walker havia se reunido com um grupo de opositores de Chávez em Santiago.</p>
<p>Dois anos mais tarde, em um telegrama que relata as despedidas do embaixador Kelly, Foxley &#8211; considerado pró-americano pela embaixada- assinala que Bachelet está reticente a criticar Chávez ou Castro, “mas está cada vez mais convencida de que o Chile tem um papel a cumprir mostrando que o caminho para a democracia e a prosperidade é digno de emulação no hemisfério”.</p>
<p>Segundo o documento, isso foi reconhecido pela própria Bachelet, que disse que o “Chile tem sido menos tímido ao falar sobre como a sua trajetória econômica tem funcionado” e depois relatou como o governo chileno tem promovido o livre comércio na região. Essa postura, segundo o embaixador, é fortemente apoiada pelos Estados Unidos.</p>
<p>Bachelet era considerada uma esquerdista moderada por Washington, uma dualidade que poderia ser muito útil na hora de exercer um papel de liderança na região, pois despertava simpatia em presidentes como Chávez, Evo Morales e Rafael Correa. Mas esse papel era também exercido em sentido contrario, tentando fazer entender aos Estados Unidos que não devia demonizar a todos os governantes de esquerda. Uma prova disso foi registrada em janeiro de 2009, durante um almoço com o secretário de Estado adjunto para Assuntos do Hemisferio Ocidental, Arturo Valenzuela, no palácio de La Moneda:</p>
<p>-A presidenta Bachelet destacou a necessidade de entender os matizes dos líderes da América Latina e seus países em lugar de classificá-los como “populistas” ou “pró-ocidente”.</p>
<p><strong>Piñera: “Um esqueleto no armário”</strong></p>
<p>A posse de Barack Obama diminuiu as fricções que a Casa Branca teve com os governos de esquerda na América Latina, mas não as eliminou. É por isso que o informe preparado para Arturo Valenzuela, em janeiro de 2010, destaca que durante a administração Bachelet se desenvolveu um compromisso conjunto em temas regionais e que como presidenta temporária da Unasur ela conseguiu abaixar o tom para o primeiro encontro que entre Obama e os líderes regionais antes da Cúpula das Américas de abril de 2009.</p>
<p>Naqueles dias, outro telegrama relatava que quando nasceu a Unasur, no ano anterior, Bachelet havia evitado que esse organismo se transformasse em um fórum anti-EUA, algo altamente valorizado por Washington.</p>
<p><img class="alignleft" src="http://apublica.org/wp-content/uploads/2011/03/Obama-junto-a-Pi%C3%B1era.jpg" alt="" width="350" height="233" /></p>
<p>Ainda assim, o governo de Obama estava consciente de que o apoio de Bachelet não era incondicional: “Chile e Estados Unidos compartilham do mesmo ponto de vista em muitos temas, mas Bachelet deixou claro que o Chile não segue cegamente os Estados Unidos aonde vá. Durante a assembleia geral da ONU de 2008, Bachelet disse que os Estados Unidos e o Chile eram ‘amigos políticos’, mas criticou os Estados Unidos pelo seu papel em precipitar a crise financeira. Ela repetiu a mesma coisa em outros eventos públicos”.</p>
<p>Durante os últimos meses da administração Bachelet, a embaixada dos Estados Unidos enviou a Washington numerosos telegramas analisando a campanha presidencial e prevendo a vitória de Piñera. Em um deles, perfilou duramente o candidato, dizendo que tinha “um esqueleto no armário”, ao recordar a multa por ter vendido suas ações na companhia aérea LAN, as acusações de mau uso de fundos no Banco de Talca, e o episódio de espionagem (“Piñeragate”). Ele também é retratado como alguém que assume riscos.</p>
<p>No final de fevereiro de 2010 a embaixada enviou um informe ao Departamento de Estado para preparar a visita de Hillary Clinton, que chegou no Chile pouco depois do terremoto. No<strong><span style="color: #3366ff;"> <a href="http://ciperchile.cl/2011/03/18/cable-205083-fin-de-curso-la-escena-local/" target="_blank"><span style="color: #3366ff;">telegrama Nº 250.820</span></a></span></strong>, um dos últimos do WikiLeaks, se reflete a confiança de que a nova administração manterá os laços criados até então:</p>
<p>-Os parâmetros gerais da política externa chilena devem se manter estáveis com Piñera, quefala inglês com habilidade, tem experiência no exterior, expertise econômica e uma postura pró-EUA/pró-livre comércio na sua diplomacia. Os assessores de Piñera nos disseram que a nova administração priorizará sua relação com os Estados Unidos e a América Latina. Alguns observadores têm especulado que Piñera tem menos paciência com os populistas da região do que Bachelet.</p>
<p>As coisas têm saído conforme o esperado. É provável que a influência de Piñera junto aos seus colegas na região seja menor do que a de Bachelet, já que as diferenças ideológicas são maiores. Mas de todo modo o presidente tem mantido relações cordiais com os países vizinhos, e só tem criticado Hugo Chávez.</p>
<p>Na sua primeira visita oficial à região, Obama tenta mostrar que a América Latina é importante para os Estados Unidos. Ao incluir o Chile, dá sinal de que o país segue sendo uma peça prioritária nesta estratégia. Ele se reuniu com Piñera pela primeira vez em abril do ano passado, na Cúpula de Segurança Nuclear, em Washington. Paradoxalmente, o uso de energia atômica para a geração de eletricidade é o tema que ameaça roubar os holofotes nesta visita, em Santiago.</p>
<p>&nbsp;</p>
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<p class="MsoNormal" style="line-height: normal;"><span lang="PT-BR">Em janeiro passado, Barack Obama surpreendeu com o anúncio de sua primeira viagem oficial à América Latina. Mais surpreendente ainda era que Chile estivesse entre os três países eleitos, ao lado de Brasil e El Salvador. Desde então, diversos analistas têm tentado responder à mesma pergunta: Por que o Chile? Os 1.600 telegramas do Departamento de Estado obtidos pelo WikiLeaks revelam que o Chile tem sido mais que um país pequeno e democrático.</span></p>
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