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	<title>Pública &#187; Tag: #Araguaia</title>
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	<description>AGÊNCIA DE REPORTAGEM E JORNALISMO INVESTIGATIVO</description>
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		<title>Ligações perigosas: a DEA e as operações ilegais da PF brasileira</title>
		<link>http://www.apublica.org/2013/04/dea-caneppa-policia-federal-operacao-condo/</link>
		<comments>http://www.apublica.org/2013/04/dea-caneppa-policia-federal-operacao-condo/#comments</comments>
		<pubDate>Mon, 08 Apr 2013 19:56:47 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
				<category><![CDATA[Últimas Reportagens]]></category>
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		<description><![CDATA[Documentos mostram que o ex-diretor da PF, general Caneppa, tido como um dos primeiros líderes da Condor, efetuou prisões e extradições ilegais a pedido do departamento anti-drogas americano]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>No dia 17 de outubro de 1973, o embaixador americano no Brasil, John Crimmins, escreveu <a href="https://www.wikileaks.org/plusd/cables/1973BRASIL07101_b.html" target="_blank">um telegrama confidencial urgente</a> ao Departamento de Estado chefiado por Henry Kissinger. A aflição do embaixador é evidente ao se referir à inesperada chegada ao país de uma equipe de inspeção do GAO (US Government Accountability Office) – agência ligada ao Congresso americano, criada em 1921 e ainda em atividade – com a missão de investigar a adequação e legalidade das atividades das agências federais financiadas pelo contribuinte americano. Inicialmente marcada para o dia 3 de novembro, a antecipação da visita – que desembarcaria na noite do mesmo dia 17 no Brasil – deixou o embaixador em polvorosa. O objetivo da missão era auditar o programa anti-drogas desenvolvido pela DEA – Drug Enforcement Administration – no país.</p>
<p>Criada pelo presidente Richard Nixon em julho de 1973, com 1.470 agentes e orçamento de 75 milhões de dólares, para unificar o combate internacional anti-drogas, hoje a DEA tem 5 mil agentes e um orçamento anual de 2 bilhões de dólares. Embora mantivesse escritórios em nove países e representantes nas missões diplomáticas americanas ao redor do mundo (ainda hoje a DEA tem escritórios na embaixada em Brasília e no consulado de São Paulo), desde 1969, quando ainda atendia pelo nome de BNDD (Bureau of Narcotics and Dangerous Drugs), a missão da DEA sempre foi “<a href="www.justice.gov/dea/about/history/1970-1975.pdf" target="_blank">lidar com o problema das drogas, em ascensão, nos Estados Unidos</a>”. Sua relação com os outros países, ao menos oficialmente, não previa o combate às drogas em cada um deles; o objetivo era impedi-las de chegar à população americana.</p>
<p>Por que então Crimmins estava tão preocupado com a chegada inesperada da equipe de auditoria ao Brasil? Ele explica no<a href="https://www.wikileaks.org/plusd/cables/1973BRASIL07101_b.html" target="_blank"> mesmo telegrama</a> a Henry Kissinger: “Os oficiais da embaixada pedem instruções sobre quais os documentos dos arquivos da DEA e do Departamento do Estado, relativos a drogas, devem ser liberados para a equipe do GAO”, escreveu. “Especificamente pedimos orientação sobre os seguintes assuntos: a) os planos de ação anti-drogas, levando em conta que nem toda a estratégia sugerida nesses documentos foi aprovada pelo Comitê Interagências (Interagency Commitee) em Washington; b) tortura e abuso durante o interrogatório de prisioneiros; c) o centro de inteligência da Polícia Federal; d) os arquivos de informantes, incluindo os registros de pagamentos; e) operações confidenciais e telegramas de inteligência; f) operações clandestinas, incluindo a transferência de Toscanino do Uruguai ao Brasil; g) documentos de planejamento das alfândegas brasileiras e do departamento de polícia federal”, detalha.</p>
<p>A resposta de Kissinger não consta da base de dados do National Archives (NARA) reunidos na Biblioteca de Documentos Diplomáticos do WikiLeaks, mas a julgar por outros documentos, havia sim motivos para se preocupar. Pelo menos em relação ao único caso específico ali referido: a transferência de Toscanino do Uruguai para o Brasil.</p>
<p>Quatro meses antes da chegada dos auditores do GAO ao Brasil, Francisco Toscanino, cidadão italiano, foi condenado junto com mais cinco réus pelo tribunal de júri de Nova York, em junho de 1973, por “conspiração para tráfico de drogas”. De acordo com uma testemunha presa, que estava colaborando com a polícia em sistema de delação premiada, Toscanino, que morava no Uruguai, estava indicando compradores, em solo americano, para uma carga de heroína enviada de navio e parcialmente flagrada por agentes infiltrados da DEA nos Estados Unidos.</p>
<h3><strong>Sequestrado no Uruguai, torturado no Brasil, extraditado aos EUA</strong></h3>
<p>Em maio de 1974, porém, Toscanino entrou com recurso na Segunda Instância da Corte de Apelação dos Estados Unidos, alegando que sua prisão havia sido ilegal, de acordo com a legislação americana, por ter se baseado em monitoramento eletrônico irregular no Uruguai. Mais do que isso: ele foi sequestrado no Uruguai e torturado no Brasil antes de ser extraditado aos EUA sem comunicação prévia a autoridades italianas.</p>
<p>Os detalhes estarrecedores dessa história, reproduzidos no <a href="http://uniset.ca/other/cs5/500F2d267.html " target="_blank">documento da corte</a> parecerão estranhamente familiares aos que conhecem as ações da Operação Condor – a articulação da repressão política nesse mesmo período entre ditaduras militares na América Latina. Com exceção, talvez, da preocupação em não deixar marcas de tortura.</p>
<p>“No dia 6 de janeiro de 1973, Toscanino foi tirado de sua casa em Montevidéu por um telefonema, que partiu dos arredores ou do endereço de Hugo Campos Hermedia [na verdade, Hugo Campos Hermida]. Hermedia era – e ainda é – membro da polícia em Montevidéu. Mas, segundo a alegação de Toscanino, Hermedia estava atuando <em>ultra vires </em>[encoberto]<em> </em>como agente pago do governo americano. A chamada telefônica levou Toscanino e sua mulher, grávida de 7 meses, a uma área próxima de um boliche abandonado em Montevidéu. Quando chegaram lá, Hermedia e seis assistentes sequestraram Toscanino na frente da mulher aterrorizada, deixando-o inconsciente com uma coronhada e o jogando na traseira do carro. Depois, Toscanino – vendado e amarrado – foi levado à fronteira do Brasil por uma rota tortuosa”.</p>
<p>Segue o documento: “Em um certo momento durante a longa viagem até a fronteira brasileira houve uma discussão entre os captores de Toscanino sobre a necessidade de trocar as placas do carro para evitar sua descoberta pelas autoridades uruguaias. Em outro ponto, o carro estancou subitamente e ordenaram que Toscanino saísse. Ele foi levado para um lugar isolado, onde o mandaram deitar sem se mexer ou atirariam nele. Embora a venda o impedisse de ver, Toscanino conseguia sentir a pressão do revólver em sua cabeça e ouvir os ruídos do que parecia ser um comboio militar uruguaio. Quando o barulho se afastou, Toscanino foi colocado em outro carro e levado à fronteira. Houve combinações e, mais uma vez, com a conivência dos Estados Unidos, o carro foi tomado por um grupo de brasileiros que levaram Francisco Toscanino (…).”</p>
<p>“Sob custódia dos brasileiros, Toscanino foi conduzido a Porto Alegre onde permaneceu incomunicável por 11 horas. Seus pedidos de comunicação com o consulado italiano e com a família foram negados. Também não lhe deram comida nem água. Mais tarde, no mesmo dia, Toscanino foi levado à Brasília, onde por 17 dias foi incessantemente torturado e interrogado. Durante todo esse tempo, o governo dos Estados Unidos e a promotoria de Nova York, responsável pelo processo, tinham ciência – e inclusive recebiam relatórios – do desenrolar da investigação. Além disso, durante o período de tortura e interrogatório um membro do Bureau of Narcotics and Dangerous Drugs, do Departamento de Justiça dos Estados Unidos, estava presente em um ou mais intervalos e, na verdade, chegou a participar de partes do interrogatório. Os captores de Toscanino o privaram de sono e de qualquer forma de alimentação durante dias. A nutrição se dava por via intervenosa apenas para mantê-lo vivo. Assim como relatam nossos soldados que voltaram da Coréia e da China, Toscanino era forçado a andar para baixo e para cima por sete ou oito horas ininterruptas. Quando ele não conseguia mais ficar em pé, era chutado e espancado de forma a não deixar marcas. Se não respondia às perguntas, seus dedos eram esmagados com grampos de metal. Jogavam álcool em seus olhos e nariz, e outros fluidos eram introduzidos em seu ânus. Inacreditavelmente, os agentes do governo americano prenderam eletrodos nos lóbulos de suas orelhas, dedos e genitais e deram choques elétricos o deixando inconsciente por períodos que não consegue precisar mas, novamente, sem deixar marcas.”</p>
<p>“Finalmente, no dia 25 de janeiro de 1973, Toscanino foi levado ao Rio de Janeiro onde foi drogado por agentes brasileiros e americanos e colocado no vôo 202 da Pan American Airways (…). Acordou nos Estados Unidos no dia 26 de janeiro, quando foi oficialmente preso dentro do avião e levado imediatamente a Thomas Puccio, assistente do procurador geral dos Estados Unidos. Em nenhum momento durante a captura de Toscanino o governo americano sequer tentou a via legal. Agiu do início ao fim de maneira ilegal, embarcando deliberadamente em um esquema criminoso de violação de leis de três países diferentes”.</p>
<p><strong>Leia mais: <a href="http://www.apublica.org/?p=4032">“Tão americano quanto João da Silva”</a></strong></p>
<p><strong>Leia mais: <a href="http://www.apublica.org/?p=4041">Para justificar assistência militar à ditadura, EUA diziam que tortura era exceção</a></strong></p>
<p><strong>Leia mais:<a href="http://www.apublica.org/2013/04/conheca-plusd-biblioteca-de-documentos-diplomaticos-wikileaks/" target="_blank"> Conheça o PlusD, a Biblioteca de Documentos Diplomáticos do WikiLeaks</a></strong></p>
<h3><strong>Hermida, o Fleury do Uruguai, e o nosso General Caneppa</strong></h3>
<p>Hugo Campos Hermida era uma espécie de Fleury uruguaio. Embora a ditadura naquele país só tenha se instalado em junho de 1973, portanto quando Toscanino já havia sido condenado nos EUA, Hermida era o chefe da chamada Brigada Gamma, um esquadrão da morte uruguaio que matava desde traficantes até tupamaros – os guerrilheiros de esquerda que atuavam antes do golpe final. Hermida também foi treinado nos Estados Unidos – inclusive pela DEA, como mostram <a href="https://www.wikileaks.org/plusd/cables/1975MONTEV00741_b.html">outros documentos do projeto PlusD</a>. Oficialmente, era chefe da Brigada de Narcóticos da Dirección Nacional de Información e Inteligencia (DNII), organismo criado em colaboração com os Estados Unidos no Uruguai. O jornal La República, do Uruguai, levantou documentos no Arquivo do Terror, no Paraguai, que comprovaram a participação de Hermida no “ninho da Condor”, a Automotores Orletti, em Buenos Aires, um centro de tortura que tinha como fachada uma oficina mecânica.</p>
<p>Do lado brasileiro, o diretor do Departamento de Polícia Federal – também montada e armada pelos americanos desde os primórdios – era o general Nilo Caneppa Silva, mais conhecido por suas assinaturas na censura de jornais, peças de teatro e filmes – já que essa também era uma atribuição oficial do órgão na ditadura, assim como o combate ao tráfico de drogas nas fronteiras. O coronel Caneppa foi promovido a general assim que a ditadura militar se instalou, e a general-de-brigada em 1971, no governo Médici, mesmo ano em que passou a chefiar o DPF em Brasília.</p>
<p>A operação de sequestro no Uruguai e tortura no Brasil do traficante Toscanino não aparece nos telegramas diplomáticos até maio de 1974, quando o italiano entrou com recurso na corte de apelações americana. A partir daí, há um troca frenética de telegramas entre as embaixadas do Brasil e de Buenos Aires com o Departamento do Estado porque a Justiça americana havia requisitado toda a documentação envolvendo o caso Toscanino em virtude da apelação – embora boa parte dela tenha continuado escondida, como comprovam os telegramas desse período constantes no PlusD. O general Nilo Caneppa, porém, era considerado peça-chave pelos Estados Unidos, como mostra<a href="https://www.wikileaks.org/plusd/cables/1973BRASIL02396_b.html" target="_blank"> um telegrama de 25 de abril de 1973</a>.</p>
<p>“O tempo do general Caneppa como diretor do Departamento de Polícia Federal encerra-se no meio de maio. Para assegurar a conclusão dos ótimos resultados obtidos pela equipe americana de analistas designados para trabalhar com a polícia federal brasileira no desenho do Centro de Inteligência de Narcóticos, pedimos que essa equipe venha ao Brasil antes de maio”, diz o relato assinado pelo antecessor de Crimmins, William Rountree. O mesmo embaixador já havia demonstrado seu apreço por Caneppa que dele “se aproximou pessoalmente para requisitar material audio-visual em português para os cursos de treinamento permanentes do BNDD (antecessor da DEA) em São Paulo”, segundo <a href="https://www.wikileaks.org/plusd/cables/1973BRASIL02680_b.html" target="_blank">outro telegrama do PlusD</a>, esse de 8 de maio de 1973, que recomendou: “Tendo em vista a cooperação do DPF em expulsar traficantes internacionais para os Estados Unidos em casos passados, e o mandato constitucional da DPF para dirigir os esforços para suprimir os traficantes de drogas, e as necessidades de treinamento dos brasileiros, a embaixada recomenda que o BNDD envie os filmes e slides para uso do escritório do BNDD em Brasília, que vai distribuir para as agências brasileiras. Esse gesto, além de ser um investimento útil de dinheiro e material, vai ajudar a estreitar ainda mais os laços entre o DPF e o BNDD”.</p>
<h3><strong>Bandeira, um general mais &#8220;tático&#8221;</strong></h3>
<p>No<a href="https://www.wikileaks.org/plusd/cables/1973BRASIL08485_b.html" target="_blank"> relatório confidencial</a> sobre a temida visita dos auditores do  GAO, porém, enviado pelo embaixador Crimmins ao Departamento de Estado americano em 13 de dezembro de 1973, o entusiasmo dos americanos havia arrefecido com a substituição de Caneppa por um general considerado mais “tático” ( “operations-minded”) &#8211; o general Antonio Bandeira, tristemente famoso pelas primeiras operações de repressão na guerrilha do Araguaia tanto pelo lado dos guerrilheiros – que passaram a ser torturados também em Brasília depois que ele assumiu a Polícia Federal – como dos militares, pelo fracasso em vencer os 70 jovens do PC do B nas matas do Pará.</p>
<p>Ainda assim, os americanos ressaltam sua gratidão por operações realizadas pela DPF chefiada por Caneppa nesse mesmo telegrama, que também relembra a temida visita do GAO dois meses antes. Segundo o telegrama, os auditores haviam feito apenas uma “investigação difusa” sobre as atividades da DEA no país: “Embora GAO não tenha problemas com a premissa do programa anti-drogas de desenvolver a competência brasileira no combate aos narcóticos, a curto prazo eles estão mais interessados em impedir o fluxo de drogas para os Estados Unidos. O coordenador do programa de narcóticos ressaltou, então, o sucesso da cooperação EUA-Brasil na Operação Springboard [nos portos, em conjunto com a Marinha Americana]<em> </em>e na apreensão no Mormac-Altair”.</p>
<p>Como relatam os jornais da época, o Mormac-Altair era um navio americano onde, em operação conjunta dos americanos e brasileiros, foi capturada uma carga de 60 quilos de heroína em outubro de 1972. Traficantes franceses que moravam no Paraguai e no Brasil foram então extraditados para os Estados Unidos pela Polícia Federal brasileira, sem avisar as autoridades francesas, como aconteceu no caso Toscanino, sempre com o general Caneppa à frente das operações.</p>
<p><a href="https://www.wikileaks.org/plusd/cables/1973BRASIL08485_b.html" target="_blank">Segue o telegrama</a> de Crimmins a Kissinger: “GAO estava interessado na possibilidade do Brasil assumir a liderança entre as nações latino-americanas no hemisfério Sul. O coordenador explicou que o Brasil se esforçava para melhorar a cooperação e a coordenação entre os órgãos policiais em outras nações latino-americanas. No entanto, as diferenças entre os sistemas hispânicos e lusitano, e a intensa rivalidade com a Argentina tornava difícil essa liderança”.</p>
<p>“A GAO também levantou a questão – baseada na investigação dos arquivos sobre as trocas de informação entre as agências de Washington durante a Operação Springboard, quando a embaixada relatava preocupações e queixas sobre o antigo chefe da Polícia Federal, General Caneppa [não se sabe a que se referem essas queixas, que teriam sido feitas por Rountree, uma vez que a atuação da PF sob Caneppa foi elogiada no parágrafo anterior e no telegrama enviado por Rountree transcrito acima, mas os militares brasileiros consideravam Caneppa “mole”, enquanto Bandeira era da “linha dura”]. O coordenador explicou que não há mais problemas similares com o atual chefe, o general Bandeira. Bandeira é mais <em>operations-minded  </em>e parece satisfeito com o nível de troca de informações embora, sem dúvida, um aprimoramento possa ser feito nesse campo. A equipe do GAO fez diversas perguntas sobre extradição e expulsão de traficantes e pareceu satisfeita com nossas explicações de que não há problemas do gênero no Brasil. O coordenador teve a impressão de que essa era a mais alta prioridade da equipe do GAO.</p>
<p>“A ideia do Centro de Inteligência de Drogas veio à tona também nessa visita, baseada no material que eles já tinham recebido. O conteúdo politicamente sensível desse assunto foi então explicado à equipe do GAO (…).” Quando o telegrama foi enviado, Juan Perón havia reassumido o poder na Argentina depois de um período de 18 anos de exílio, interrompendo a colaboração entre as polícias do Cone Sul. Os americanos – assim como a ditadura brasileira &#8211; nunca confiaram em Perón; depois que ele morreu, em 1974, e foi substituído pela mulher, Isabelita, os militares instituíram a “guerra suja” que matou mais de 30 mil pessoas, incluindo peronistas.</p>
<p>Ao final do telegrama, Crimmins revela que, embora não conste da documentação do NARA, havia recebido – e cumprido – as instruções de Kissinger depois do telegrama enviado na chegada inesperada da missão da GAO: “Nenhuma cópia de outros documentos além dos definidos por Washington foram disponibilizados para a equipe do GAO”.</p>
<h3><strong>Os generais &#8220;coniventes&#8221; e a Operação Condor</strong></h3>
<p>Tanto Bandeira como Caneppa aparecem nas listas de torturadores da ditadura, feitas a partir de documentos e denúncias de presos políticos, como “coniventes”, pelo fato de terem comandado operações que resultaram em tortura e desaparecimento de presos sem, no entanto, ter sido flagrados com “a mão na massa”, para usar uma expressão suave.</p>
<p>Suas ligações com as operações do DEA no Cone Sul, como demonstra o telegrama acima, porém, podem implicá-los – e aos Estados Unidos – em crimes internacionais em investigações posteriores, como já aconteceu no caso do general Caneppa, e não apenas nos casos Mormac-Altair e Toscanino.</p>
<p>No final do ano passado, o repórter Wagner William publicou na revista Brasileiros a reportagem <a href="http://www.revistabrasileiros.com.br/2012/12/19/o-primeiro-voo-do-condor/" target="_blank">“O primeiro vôo do Condor”</a>, relatando aquela que seria a primeira ação da operação clandestina que uniu as ditaduras militares do Cone Sul: o sequestro do coronel Jefferson Cardim de Alencar Osório, opositor da ditadura, em Buenos Aires e sua extradição para um centro de torturas no Rio de Janeiro, descrita no Informe 338, de 19 de dezembro de 1970, pelo adido militar na Embaixada do Brasil: o então coronel Nilo Caneppa.</p>
<p>O documento, obtido pelo jornal Página 12, é considerado pelo presidente do Movimento de Justiça e Direitos Humanos, o gaúcho Jair Krischke, um dos maiores investigadores da Operação Condor, como o primeiro documento da articulação clandestina e a prova de que foi o Brasil que liderou ao menos a sua formação. O repórter Wagner William teve acesso aos diários do coronel Jefferson e contou em detalhes como o coronel, seu filho e sobrinho foram interceptados em dezembro de 1970 quando viajavam do Uruguai, onde se exilaram depois do golpe, ao Chile, onde o coronel assumiria o cargo de assessor militar para a Associação Latino-Americana de Livre Comércio a convite do então presidente do Chile, Salvador Allende. Allende se suicidaria depois do golpe liderado pelo general Pinochet e articulado pelos Estados Unidos em 1973.</p>
<p>Para evitar a perseguição policial – os homens de Hermida o seguiam todo o tempo no exílio, como faziam com todos os brasileiros inimigos da ditadura, como relatou em 2003, depois de ser preso no Rio Grande do Sul por assalto a banco e tráfico de armas, o ex-policial Mario Neira Barreto, codinome Tenente Tamuz, que também pertencia à Brigada Gamma –, Jefferson planejara ir de Montevidéu a Colônia do Sacramento de carro, atravessar o rio da Prata pela balsa até Buenos Aires, de onde seguiria para Mendoza e cruzaria os Andes para o Chile.</p>
<p>Avisado pelos uruguaios, porém, o adido militar brasileiro na Argentina – Caneppa – pediu a cooperação da Direção da Coordenação Federal, o órgão de inteligência da Polícia Federal Argentina, para prender os três brasileiros, descrevendo sua aparência em detalhes. Escondido no porto, Caneppa assistiu quando o carro de Jefferson foi interceptado por dois agentes armados que saltaram de um carro preto com chapa do governo argentino anunciando: “É uma operação de rotina. Houve uma denúncia de transporte de drogas”.</p>
<p>Embora não houvesse nada no carro além de uma arma do coronel Jefferson, que apresentou seus documentos de identificação militar, os três foram levados para a coordenação da Polícia Federal argentina, encapuzados, algemados e presos no porão enquanto o subcomissário anunciava ao adido militar brasileiro o sucesso da operação. Caneppa vai pessoalmente ao prédio, acompanhado de outro militar brasileiro, adido da Aeronáutica na embaixada, onde Jefferson, seu filho e o sobrinho foram interrogados sobre o sequestro do cônsul brasileiro, Aloysio Gomide, pelos tupamaros uruguaios e sobre sua ligação com líderes peronistas argentinos.</p>
<p>Os três foram torturados – o coronel Jefferson com choques elétricos nos pés, nas pernas e nos genitais e cera de vela quente no ânus. Caneppa e o outro militar brasileiro, na sala ao lado, examinavam o material apreendido no carro de Jefferson &#8211; livros, cartas e documentos de identidade – quando um tenente-coronel do Exército argentino se apresentou e pediu desculpas pela ausência do coronel Cáceres, diretor da PF argentina, perguntando em seguida o que deveria fazer com os detidos. Caneppa queria que fossem enviados ao Brasil, e em 26 horas o presidente argentino, fantoche dos militares, assinou um decreto de extradição. De lá foram transportados discretamente por uma aeronave militar para o Centro de Informação e Segurança (CISA) no Rio de Janeiro.</p>
<p>O coronel Jefferson foi torturado dias a fio e ficou preso por seis anos. Ao sair da cadeia, em 1977, continuou a ser perseguido até 1979 quando foi beneficiado pela lei da anistia. Os militares, porém, em um ato excepcional, anularam sua anistia e ele teve que partir para o exílio, primeiro na Venezuela, depois na França, de onde só retornou em 1985, com o fim da ditadura militar.</p>
<p>Vítima da primeira ação da famigerada Operação Condor, o coronel Jefferson foi preso sob a acusação de tráfico de drogas pela Polícia Federal argentina sob as ordens do general Caneppa. O mesmo que dirigia a Polícia Federal brasileira quando o traficante Toscanino foi sequestrado por Hermida no Uruguai e entregue para ser torturado em Brasília de onde foi extraditado, em uma operação inteiramente coordenada pela DEA.</p>
<p>O coronel Caneppa foi promovido a general e assumiu a direção da Polícia Federal meses depois. Em 1972, recebeu a Medalha do Pacificador – a maior honraria do Exército, destinada aos “revolucionários” de 1964. O general Bandeira mereceu a mesma honraria. Até hoje a DEA mantém escritórios no Brasil, dentro da embaixada brasileira e dos consulados. Procurada pela Pública para saber sobre suas atividades atuais no país, a DEA encaminhou a reportagem à assessoria de imprensa da embaixada americana, que não respondeu aos pedidos de informação até a publicação dessa reportagem.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Leia mais: <a href="http://www.apublica.org/?p=4032">“Tão americano quanto João da Silva”</a></strong></p>
<p><strong>Leia mais: <a href="http://www.apublica.org/?p=4037">Desfecho de caso Elbrick irrita Kissinger</a>           </strong></p>
<p><strong>Leia mais: <a href="http://www.apublica.org/?p=4036">Retrato em branco e preto</a></strong></p>
<p><strong>Leia mais: <a href="http://www.apublica.org/?p=4041">Para justificar assistência militar à ditadura, EUA diziam que tortura era exceção</a></strong></p>
<p><strong>Leia mais: <a href="http://www.apublica.org/2013/04/conheca-plusd-biblioteca-de-documentos-diplomaticos-wikileaks/" target="_blank">Conheça o PlusD, a Biblioteca de Documentos Diplomáticos do WikiLeaks</a></strong></p>
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		</item>
		<item>
		<title>ARAGUAIA: o massacre que as Forças Armadas querem apagar</title>
		<link>http://www.apublica.org/2011/06/araguaia-o-massacre-que-as-forcas-armadas-querem-apagar/</link>
		<comments>http://www.apublica.org/2011/06/araguaia-o-massacre-que-as-forcas-armadas-querem-apagar/#comments</comments>
		<pubDate>Mon, 20 Jun 2011 17:22:48 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Em meio ao debate sobre o sigilo eterno de documentos, a Pública revisita uma das histórias mais obscuras do período militar: a repressão à guerrilha do Araguaia]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Em três dias de pesquisa nos 149 volumes do processo judicial que investiga o desaparecimento dos guerrilheiros do Araguaia, a <em>Pública</em> coletou relatos de dezenas de moradores que foram obrigados a prender, enterrar, matar e decapitar guerrilheiros – e sofrem até hoje as consequências do que viveram nesse tempo.</p>
<p>Em entrevista exclusiva, a juíza titular da 1<sup>a</sup> Vara da Justiça Federal, Solange Salgado, diz que, passados quase 40 anos, reina o medo de se falar sobre o assunto entre os que participaram do conflito.  Mateiros e ex-militares que colaboraram com o Grupo de Trabalho Araguaia -  que investiga o caso desde 2009 em cumprimento à sentença judicial promulgada por Solange Salgado em 2003, que obriga a União a entregar os corpos dos desaparecidos às famílias  &#8211; estão recebendo ameaças.</p>
<p>Por isso, quando esteve na região no ano passado, para recolher e checar informações sobre o paradeiro dos corpos, a juíza optou por preservar o sigilo dos autores dos depoimentos. “Foi uma garantia que o Poder Judiciário deu a essas pessoas. Elas ainda estão muito apavoradas, se sentindo muito acuadas”, disse ela à <em>Pública</em>.</p>
<p>Nossa reportagem esteve em Marabá, no Pará, e conversou com ex-mateiros e ex-soldados que confirmaram a realização das chamadas “Operações Limpeza”, por meio das quais os restos mortais dos guerrilheiros foram desenterrados e transportados a outros locais. Além disso, cinco entrevistados afirmaram ter visto atuando na repressão o ex-diretor do Dops de São Paulo Romeu Tuma, falecido em outubro do ano passado.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="color: #3366ff;"><strong><a href="http://apublica.org/2011/06/video-tres-colaboradores-contam-sua-historia/"><span style="color: #3366ff;">VÍDEO: 5 MIL CRUZEIROS POR CABEÇA</span></a></strong></span></p>
<p><span style="color: #3366ff;"><strong><a href="http://apublica.org/category/documentos/"><span style="color: #3366ff;">LEIA OS DEPOIMENTOS DO PROCESSO</span></a></strong></span></p>
<p><span style="color: #3366ff;"><strong><a href="http://apublica.org/2011/06/forcados-a-matar/"><span style="color: #3366ff;">Leia mais: Forçados a Matar</span></a></strong></span></p>
<p><span style="color: #3366ff;"><strong><a href="http://apublica.org/2011/06/apagando-o-rastro/"><span style="color: #3366ff;">Leia mais: Apagando o Rastro</span></a></strong></span></p>
<p><span style="color: #3366ff;"><strong><a href="http://apublica.org/2011/06/%E2%80%9Co-terrorismo-de-estado-persiste-ate-hoje%E2%80%9D-diz-juiza/"><span style="color: #3366ff;">Leia mais: “O terrorismo de Estado persiste até hoje”, diz juíza</span></a></strong></span></p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
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		<title>FORÇADOS A MATAR</title>
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		<pubDate>Mon, 20 Jun 2011 17:09:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
				<category><![CDATA[Últimas Reportagens]]></category>
		<category><![CDATA[Nossas Investigações]]></category>
		<category><![CDATA[#Araguaia]]></category>
		<category><![CDATA[#Ditadura]]></category>
		<category><![CDATA[#tortura]]></category>

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		<description><![CDATA[No processo do Araguaia, o silêncio oficial dos militares contrasta com as muitas vozes dos camponeses sobre uma história de crueldade e medo]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Eles viviam em povoados de nomes remotos como Palestina do Pará ou Chega Com Jeito, às vezes isolados no meio da mata entre os castanhais que ajudavam no sustento das famílias, baseado nas roças de mandioca, milho, arroz, feijão. Pescavam nos igarapés do Araguaia e sabiam se orientar na floresta, seguir o rastro de um veado ou caititu &#8211; abatido com tiro de espingarda e carneado ainda quente, com as facas afiadas, para facilitar o transporte da caça até a casa, onde seria assado na brasa ou cozido lentamente no leite de castanha.</p>
<p><strong><a href="http://apublica.org/2011/06/video-tres-colaboradores-contam-sua-historia/">VEJA  O VÍDEO: 5 MIL CRUZEIROS POR CABEÇA</a></strong></p>
<p>Curavam com ervas e rezas as crises de malária, e gostaram quando os rapazes e moças chegaram da cidade grande trazendo remédios e conhecimento para socorrer um parto difícil, curar uma ferida, aliviar dores. Os “paulistas”, quase todos jovens, compravam da farinha e do mel, e pareciam à vontade em suas casas, fumando e palestrando até a lua ir alta no céu.<a href="http://apublica.org/wp-content/uploads/2011/05/guerrilha-2.jpg"><img class="alignright size-full wp-image-246" title="guerrilha 2" src="http://apublica.org/wp-content/uploads/2011/05/guerrilha-2.jpg" alt="" width="275" height="182" /></a></p>
<p>Para aquela gente abandonada pelo governo, não era difícil simpatizar com o que eles diziam sobre combater desigualdades e lutar pela posse da terra em que viviam, não raro grilada pelos donos das fazendas com ajuda do Incra – que logo abrigaria também os agentes da repressão, disfarçados de engenheiros.</p>
<p>Quando os “doutores” começaram chegar, vários camponeses já eram amigos dos “paulistas”, a quem avisaram sobre a presença de gente estranha perguntando sobre eles.  À medida que os guerrilheiros recuavam para o interior da mata, o medo crescia entre os que ali moravam, atordoados pelos helicópteros e teco-tecos sobrevoando a floresta, lançando bombas.</p>
<p>Os “doutores” já não escondiam que eram oficiais militares e se mantinham à paisana, mas cercados de soldados armados, pressionando os moradores a dizer onde estavam os “paulistas” e alertando-os sobre os riscos que corriam se não entregassem os “terroristas” às Forças Armadas.</p>
<p>Foi o início da “guerra”, como os que vivem no Araguaia se referem até hoje à primeira metade da década de 1970. Lavradores, marisqueiros, castanheiros, caçadores, garimpeiros, e até índios suruís seriam envolvidos na operação que mobilizou 6 mil militares e deixou 67 guerrilheiros e um número indeterminado – e bem maior – de camponeses mortos, sem sepultura conhecida ou certidão de óbito.</p>
<p>As marcas da crueldade exercida pelas Forças Armadas brasileiras ficaram em todos os que viveram o conflito como colaboradores, vítimas ou testemunhas, mudando para sempre a vida no sertão do Araguaia.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>PRISÕES EM MASSA</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>De acordo com testemunhos constantes nos 149 volumes do processo, no início foram perseguidos apenas os que tinham amizade com os guerrilheiros, como o barqueiro Lourival Fontes, encontrado “suicidado” na cela da delegacia de Xambioá, em 21 de maio de 1972.</p>
<p><a href="http://apublica.org/wp-content/uploads/2011/05/guerrilha-do-araguaia_.jpg"><img class="size-full wp-image-243 aligncenter" title="guerrilha-do-araguaia_" src="http://apublica.org/wp-content/uploads/2011/05/guerrilha-do-araguaia_.jpg" alt="" width="520" height="367" /></a>O processo revela ainda que, à medida que o número de presos crescia, alguns buracos fundos eram abertos no terreno das bases militares para servir de prisão. De lá, os camponeses eram retirados para “dançar” sobre latas abertas ou tições de fogo, forçados a beber água com sal ou sabão quando tinham sede, humilhados e espancados em rodas de “taca”(surra). Os que se prontificavam a colaborar, denunciando ou mesmo prendendo os guerrilheiros, recebiam 1.000 cruzeiros por captura. Os mateiros – que sabiam se orientar na floresta, caçar e sobreviver na natureza – também eram usados como guias nas expedições militares, às vezes, inclusive, uniformizados.</p>
<p>Nesses primeiros meses de 1972, as mortes ocorriam quase sempre em combate, ou em decorrência de torturas, a cargo de militares da região, e às vezes repetidas em outros centros de tortura como o PIC (Pelotão de Investigações Criminais) de Brasília, e os DOI-Codis, para onde os guerrilheiros eram enviados para novos interrogatórios.</p>
<p>À medida que as operações militares se sucediam, sem conseguir apanhar os guerrilheiros, os “doutores” aumentaram a pressão sobre os moradores da região para coagi-los a colaborar, realizando prisões em massa – há casos, como o da cidade de Bom Jesus do Araguaia, em que todos foram retirados de suas casas e alojados em casas de palha às margens da rodovia patrulhadas por militares. Tiraram assim o sustento das famílias, que ficaram sem os homens adultos, detidos ou enviados para missões na selva.</p>
<p>Os próprios camponeses passaram a ser encarregados de vigiar e punir vizinhos e parentes presos, de enterrar corpos dos mortos sob tortura e de emboscar os “paulistas”, que às vezes os visitavam em busca de mantimentos.</p>
<p>A partir da terceira campanha militar, que começou em outubro de 1973 com o objetivo de localizar e exterminar os guerrilheiros, os mateiros passaram a ser cada vez mais empregados nas patrulhas ou em expedições clandestinas – até mesmo sem a presença de militares, o que é ilegal em qualquer guerra, conforme a Convenção de Genebra.</p>
<p>Diversas operações que resultaram na prisão e morte de guerrilheiros atribuídas pelas Forças Armadas aos GC (grupos de combate) – e aos paraquedistas comandados pelo general Hugo Abreu – envolveram na realidade mateiros retirados da prisão e embarcados em helicópteros, de onde saltavam a mando dos militares, armados de espingarda e facão.  Na mochila, levavam um saco plástico grosso para trazer aos “doutores” as cabeças dos homens abatidos na caçada.</p>
<p>Dos 62 guerrilheiros mortos no Araguaia, de acordo com a lista do livro “Habeas Corpus – Que se apresente o corpo”, da Secretaria de Direitos Humanos, 25 teriam sido presos ou mortos com a ajuda dos mateiros (13 presos, 12 mortos).</p>
<p>Mas esse número pode ser ainda maior. Alguns mateiros, que diziam ter presenciado a morte ou enterrado os guerrilheiros, mais tarde confessaram ter participado de suas mortes,<strong> <a href="http://apublica.org/2011/06/cabecas-cortadas-corpos-insepultos/">incluindo três de quatro casos em que os corpos foram decapitados</a></strong>.</p>
<p>Recentemente também se descobriu que eles participaram das operações limpeza, promovidas pelos militares desde os anos finais da guerrilha, <strong><a href="http://apublica.org/2011/06/apagando-o-rastro/">desenterrando corpos e os levando para outros locais para dificultar as buscas</a></strong>.</p>
<p>Parte dos ex-mateiros, soldados, pequenos agricultores e moradores da região do Araguaia reivindica, na Comissão de Anistia do Ministério da Justiça, indenizações pelas torturas, prisões e prejuízos que teriam sofrido na época.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>HISTÓRIAS DE TERROR</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: left;"><a href="http://apublica.org/wp-content/uploads/2011/06/araguaia_varios-v1.jpg"><img class="size-full wp-image-375 aligncenter" title="araguaia_varios -v1" src="http://apublica.org/wp-content/uploads/2011/06/araguaia_varios-v1.jpg" alt="" width="550" height="360" /></a>Os contornos dessa história vêm de dezenas de depoimentos anexados ao processo 82.0024682-5, aberto em fevereiro de 1982, na 1a Vara da Justiça Federal, por iniciativa dos familiares de 25 guerrilheiros desaparecidos.</p>
<p>Camponeses que testemunharam ou colaboraram com a prisão, morte e enterro dos desaparecidos foram ouvidos por jornalistas, pesquisadores e defensores de direitos humanos e, mais recentemente, por  membros do Ministério Público e pela juíza Solange Salgado – a mesma que em 2003 promulgou sentença exigindo da União a localizar e entregar os corpos dos guerilheiros às famílias.</p>
<p><span style="color: #0000ff;"><strong><a href="http://apublica.org/2011/06/video-tres-colaboradores-contam-sua-historia/"><span style="color: #0000ff;">VÍDEO: 5 MIL CRUZEIROS POR CABEÇA</span></a></strong></span></p>
<p>Em 2009, depois da União esgotar todos os recursos judiciais possíveis contra a sentença, foi constituído o Grupo de Trabalho Tocantins (GTT), chefiado pelo Ministério da Defesa, com a missão de recolher documentos e depoimentos dos envolvidos na guerrilha e empreender buscas e escavações para resgatar os corpos.</p>
<p>São eles as principais fontes de informação do processo, já que os militares recusam-se a entregar seus arquivos secretos – enviando seguidamente os mesmos relatórios incompletos sobre os desaparecidos (há mais de 30 mil páginas de documentos repetidos no processo, conforme a Pública apurou). Eles também se negam a depor; os que o fizeram, optaram por fazê-lo de modo anônimo, diretamente à juíza (<span style="color: #0000ff;"><strong><a href="http://apublica.org/2011/06/%E2%80%9Co-terrorismo-de-estado-persiste-ate-hoje%E2%80%9D-diz-juiza/"><span style="color: #0000ff;">leia entrevista com a juíza Solange Salgado</span></a></strong></span>).</p>
<p>Além de esclarecer as circunstâncias da prisão e morte de diversos guerrilheiros, os depoimentos mostram que a tortura praticada contra os “terroristas” foi adaptada para destruir o caráter e a dignidade dos que se viram apanhados pelo conflito sem condições de resistir.</p>
<p>Famílias inteiras foram torturadas – como aconteceu com Oneide, mulher de Antonio Alfredo de Lima, camponês que aderiu à guerrilha, e os filhos do casal. Outro camponês/guerrilheiro, conhecido como Pedro Carretel, foi preso junto com a esposa, Joana Almeida, e exibido a ela vestido de mulher, antes de ser executado. No caso de Luiz Vieira, outro camponês que se juntou aos guerrilheiros morto pelo Exército, a família foi impedida de resgatar o corpo, embora soubesse onde estava. O seu filho, depois de preso, foi obrigado a se alistar no Exército.</p>
<p>O exemplo mais estarrecedor, no entanto, aparece no relatório do GTT de agosto de 2010, envolvendo a prisão e a morte do camponês José Ribeiro Dourado, conhecido como Zé da Madalena, e de seu filho, Deusdete.</p>
<p>Narrado pela esposa de Zé, e mãe de Deusdete, Madalena de Souza Ribeiro, e por seu neto Wecsley, filho de Deusdete, o episódio começa com a prisão do chefe de família, Zé da Madalena, em 1972, quando trabalhava em sua roça na região de Pau Preto. Ali mesmo, conta Madalena, Zé foi colocado em cima de um formigueiro por diversos dias para que confessasse seus laços com os guerrilheiros. Depois, foi levado preso até a base militar de Xambioá. Desesperada, Madalena, como muitas mulheres em sua situação, abandonou a terra e os animais para seguir com os filhos para onde tinham levado o marido.</p>
<p>Ao chegar na base, seu filho, Deusdete, foi preso. Alguns dias depois, desceria ao inferno.</p>
<p>Como confessaria a Wecsley, seu filho mais velho e neto de Zé da Madalena, Deusdete foi obrigado pelos militares “a cortar cipós, molhar na água e chicotear os presos que se encontravam em um buraco, inclusive o seu pai”.</p>
<p>Pouco antes de morrer, minado pela depressão e o alcoolismo, Deusdete também levou o filho à base militar de Xambioá e mostrou o local em que “estariam enterradas cabeças, perto de uma palmeira tucum”.</p>
<p>Tempos depois, já com o marido e o filho morto, Madalena “soube por outros camponeses que saíram da prisão que houve uma tentativa de fuga de Zé da Madalena” e ,quando consegiram prendê-lo novamente, “os maus tratos e as torturas aumentaram, até que um determinado dia foi retirado por militares do buraco, levado para o lugar aonde os presos eram torturados”. “Que do referido buraco, os presos ouviram as pancadas e gritos até que ocorreu o disparo de uma arma e o sr. José nunca mais foi visto”, prossegue o depoimento.</p>
<p>Dona Madalena “soube também pelos camponeses presos o que ocorreu com o seu filho (Deusdete). Que além de forçado a bater nos presos, Deusdete cortou a cabeça de seu pai”.</p>
<p>Esse seria o motivo, diz ela no testemunho, do descontrole emocional do filho, que o teria levado a beber até morrer.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>BICOS DE PAPAGAIO</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>O caso – extremo – mostra o grau de desestruturação dos camponeses diante da pressão dos militares – à época, “donos” do país e da região –, e da crueldade dos métodos que se viram forçados a compartilhar, no mínimo como testemunhas.</p>
<p>Nesse sentido, é esc<a href="http://apublica.org/wp-content/uploads/2011/06/araguaia_varios_2.jpg"><img class="size-full wp-image-376 alignleft" title="araguaia_varios_2" src="http://apublica.org/wp-content/uploads/2011/06/araguaia_varios_2.jpg" alt="" width="268" height="228" /></a>larecedor o depoimento de Sinésio Martins, 86 anos, que se tornou colaborador do Exército depois da prisão, gravado em DVD pelo Ministério Público em 2008. (<span style="color: #0000ff;"><strong><a href="http://apublica.org/2011/06/video-tres-colaboradores-contam-sua-historia/"><span style="color: #0000ff;">VEJA O VÍDEO</span></a></strong></span>)</p>
<p>“Eu estava em Xambioá no meio da rua, quando fui preso por dois soldados. Não tinha motivo. Eu morava fora, na mata, tinha minha terra, gadinho, minha tropa, criação, porco, bode, tinha uma roça de arroz, feijão que era uma maravilha. Passei 18 dias dormindo no chão, pegando chuva, sol, muriçoca, sem o direito de botar ao menos um papelzinho por baixo assim da cabeça”.</p>
<p>Ele conta em, seguida que os soldados chegaram ao curral pedindo que os 44 homens presos formassem uma fila. “Chegou a minha vez e eles perguntaram: ‘Você conhece a Pedra do Almoço?’ ‘Conheço. Por cima de São Geraldo, dentro do igarapé. Quando os barqueiros saíam para buscar castanha, lá ela era lugar de almoçar por causa de uma laje muito boa”, conta com simplicidade o homem que a partir daquela conversa com o “chefe” – que se fazia chamar “doutor César” – seria incumbido de caçar, matar e entregar aos militares as cabeças cortadas de pelo menos dois guerrilheiros que ele conhecia há tempos: Arildo Valadão, 25 anos, e Jaime Petit, 28 anos.</p>
<p>Embora tenha recebido 5 mil cruzeiros por cabeça entregue, ele afirma que não havia promessa de recompensa quando ele e mais dois mateiros foram obrigados a saltar do helicóptero do Exército com uma mochila, uma espingarda e um “saco forte de plástico branco” onde deveriam depositar “os bicos de papagaio” – “para não falar as cabeças dos homens”, elucida seu Sinésio.</p>
<p>“Quando nós saímos, ele (o militar) foi na porta (do helicóptero) e fez assim ó (faz gesto de cortar a cabeça). Quis dizer que se nós fugíssemos eles cortavam as nossas cabeças”, afirma.</p>
<p>De acordo com o depoimento, seu Sinésio e os companheiros, Raimundo e Iomar Galego, combinaram não levar nada que os identificassem como agentes do Exército, pois se encontrasse os “paulistas”, diriam que também estava fugindo dos militares.</p>
<p>Em menos de três dias, localizaram os guerrilheiros Ari (Arildo), Raul (Antonio Theodoro de Castro) e Josias (Jonas) no meio da mata.</p>
<p>“Nós escutamos mexer as folhas assim, aí a gente se agasalhou, pra frente do mato, parecendo um pau. Nós não pensamos que era gente não, nós pensamos que era anta ou veado, ia arrastando aquilo com aquela força, né? Aí eu botei a espingarda, Iomar botou a espingarda e atirou no Ari, e e eu parei o outro (Raul) com a espingarda na frente e atirei, mas só pegou na mochila, e diz que tinha um prato de malto e o prato foi que recebeu o tiro, aquilo não fura, aí ele tirou a mochila assim e ó (fugiu). E o Josias nós não vimos, estava escondido. E quando ele (Ari) caiu, eu disse: “Despe o homem e tira o bico do papagaio. Porque a ordem era essa”.</p>
<p>Uma semana depois, entregaram a cabeça ao “doutor César”, que os remunerou pelo “trabalho”.</p>
<p>Seu Sinésio carregaria pelo menos mais uma morte nas costas, a de Jaime Petit, assassinado quando estava perdido e doente, morando sozinho em uma choupana de palha.<a href="http://apublica.org/wp-content/uploads/2011/06/araguaia_varios_v3.jpg"><img class="alignright size-full wp-image-377" title="araguaia_varios_v3" src="http://apublica.org/wp-content/uploads/2011/06/araguaia_varios_v3.jpg" alt="" width="270" height="237" /></a></p>
<p>“O Jaime atirou dois tiros e errou, e não atirou mais porque a bala engasgou na arma; aí a equipe – que dessa vez, além dos mateiros, tinha um sargento no comando e dois índios suruí como rastreadores – atirou muito”.</p>
<p>Mais uma vez, o corpo ficou insepulto na mata. A cabeça cortada foi na mochila de um dos mateiros para ser entregue ao dr. Augusto, que os recompensou com a mesma quantia.</p>
<p>“O Jaime estava muito magro, as pernas cheias de feridas de leishmaniose”, diz seu Sinésio, com desconcertante pesar. “Quando acabou tudo, os índios choravam e diziam: ‘Nunca mais nós vamos vir aqui’”.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Por Marina Amaral</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="color: #0000ff;"><strong><a href="http://vimeo.com/25333453/"><span style="color: #0000ff;">LEIA OS DEPOIMENTOS DO PROCESSO</span></a></strong></span></p>
<p><span style="color: #0000ff;"><strong><a href="http://vimeo.com/25333453/"><span style="color: #0000ff;"><br />
</span></a><a href="http://apublica.org/2011/06/cabecas-cortadas-corpos-insepultos/"><span style="color: #0000ff;">Leia mais: Cabeças Cortadas, Corpos Insepultos</span></a></strong></span></p>
<p><span style="color: #0000ff;"><strong><a href="http://apublica.org/2011/06/novas-informacoes-sobre-25-mortos-no-araguaia/"><span style="color: #0000ff;">Leia mais: Novas Informações sobre 25 mortos no Araguaia</span></a></strong></span></p>
<p><span style="color: #0000ff;"><strong><a href="http://apublica.org/2011/06/apagando-o-rastro/"><span style="color: #0000ff;">Leia mais: Apagando o Rastro</span></a></strong></span></p>
<p><span style="color: #0000ff;"><strong><a href="http://apublica.org/2011/06/%E2%80%9Co-terrorismo-de-estado-persiste-ate-hoje%E2%80%9D-diz-juiza/"><span style="color: #0000ff;">Leia mais: “O terrorismo de Estado persiste até hoje”, diz juíza</span></a></strong></span></p>
<p><em><br />
</em></p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.apublica.org/2011/06/forcados-a-matar/feed/</wfw:commentRss>
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		</item>
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		<title>VÍDEO: 5 mil cruzeiros por cabeça no Araguaia</title>
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		<pubDate>Mon, 20 Jun 2011 17:08:14 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Veja o vídeo produzido a partir de depoimentos de ex-colaboradores do exército. Muitos continuam calados por sofrerem ameaças até hoje.]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Em três dias de pesquisa nos 149 volumes do processo judicial que investiga o desaparecimento dos guerrilheiros do Araguaia, a Pública coletou relatos de dezenas de moradores que foram obrigados a prender, enterrar, matar e decapitar guerrilheiros – e sofrem até hoje as consequências do que viveram nesse tempo.</p>
<p><iframe width="500" height="375" src="http://www.youtube.com/embed/cygW6kw4q0w?feature=oembed" frameborder="0" allowfullscreen></iframe></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="color: #0000ff;"><strong><a href="http://apublica.org/2011/06/forcados-a-matar/"><span style="color: #0000ff;">Leia mais: Forçados a Matar</span></a></strong></span></p>
<p><span style="color: #0000ff;"><strong><a href="http://apublica.org/2011/06/apagando-o-rastro/"><span style="color: #0000ff;">Leia mais: Apagando o Rastro</span></a></strong></span></p>
<p><span style="color: #0000ff;"><strong><a href="http://apublica.org/2011/06/%E2%80%9Co-terrorismo-de-estado-persiste-ate-hoje%E2%80%9D-diz-juiza/"><span style="color: #0000ff;">Leia mais: “O terrorismo de Estado persiste até hoje”, diz juíza</span></a></strong></span></p>
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		<title>ARAGUAIA: Depoimento de Pedro Matos do Nascimento</title>
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		<pubDate>Mon, 20 Jun 2011 13:50:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
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				<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://apublica.org/wp-content/uploads/2011/06/Pedro-Matos-do-Nascimento-1.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-395" title="Pedro Matos do Nascimento 1" src="http://apublica.org/wp-content/uploads/2011/06/Pedro-Matos-do-Nascimento-1.jpg" alt="" width="759" height="1024" /></a></p>
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<p><a href="http://apublica.org/wp-content/uploads/2011/06/Pedro-Matos-do-Nascimento-2.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-396" title="Pedro Matos do Nascimento 2" src="http://apublica.org/wp-content/uploads/2011/06/Pedro-Matos-do-Nascimento-2.jpg" alt="" width="761" height="1024" /></a></p>
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<p><a href="http://apublica.org/wp-content/uploads/2011/06/Pedro-Matos-do-Nascimento-3.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-397" title="Pedro Matos do Nascimento 3" src="http://apublica.org/wp-content/uploads/2011/06/Pedro-Matos-do-Nascimento-3.jpg" alt="" width="744" height="1022" /></a></p>
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<p><a href="http://apublica.org/wp-content/uploads/2011/06/Pedro-Matos-do-Nascimento-4.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-398" title="Pedro Matos do Nascimento 4" src="http://apublica.org/wp-content/uploads/2011/06/Pedro-Matos-do-Nascimento-4.jpg" alt="" width="712" height="1024" /></a></p>
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<p><a href="http://apublica.org/wp-content/uploads/2011/06/Pedro-Matos-do-Nascimento-5.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-399" title="Pedro Matos do Nascimento 5" src="http://apublica.org/wp-content/uploads/2011/06/Pedro-Matos-do-Nascimento-5.jpg" alt="" width="734" height="1024" /></a></p>
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		<title>ARAGUAIA: Depoimento de Manoel Pereira Cajueiro</title>
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		<pubDate>Mon, 20 Jun 2011 13:49:26 +0000</pubDate>
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				<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://apublica.org/wp-content/uploads/2011/06/Manoel-Pereira-1.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-389" title="Manoel Pereira 1" src="http://apublica.org/wp-content/uploads/2011/06/Manoel-Pereira-1.jpg" alt="" width="729" height="1024" /></a></p>
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<p><a href="http://apublica.org/wp-content/uploads/2011/06/Manuel-Pereira-2.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-390" title="Manuel Pereira 2" src="http://apublica.org/wp-content/uploads/2011/06/Manuel-Pereira-2.jpg" alt="" width="725" height="1022" /></a></p>
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<p><a href="http://apublica.org/wp-content/uploads/2011/06/Manuel-Pereira-3.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-391" title="Manuel Pereira 3" src="http://apublica.org/wp-content/uploads/2011/06/Manuel-Pereira-3.jpg" alt="" width="730" height="1021" /></a></p>
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<p><a href="http://apublica.org/wp-content/uploads/2011/06/Manuel-Pereira-4.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-392" title="Manuel Pereira 4" src="http://apublica.org/wp-content/uploads/2011/06/Manuel-Pereira-4.jpg" alt="" width="768" height="1024" /></a></p>
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		<title>ARAGUAIA: Depoimentos de colaboradores &#8211; 1</title>
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				<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://apublica.org/wp-content/uploads/2011/06/Colaboradores-Anexo-M-11.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-402" title="Colaboradores Anexo M 1" src="http://apublica.org/wp-content/uploads/2011/06/Colaboradores-Anexo-M-11.jpg" alt="" width="753" height="1019" /></a></p>
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<p><a href="http://apublica.org/wp-content/uploads/2011/06/Colaboradores-Anexo-M-2.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-403" title="Colaboradores Anexo M 2" src="http://apublica.org/wp-content/uploads/2011/06/Colaboradores-Anexo-M-2.jpg" alt="" width="744" height="1024" /></a></p>
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		<title>ARAGUAIA: Depoimentos de colaboradores &#8211; 2</title>
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				<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://apublica.org/wp-content/uploads/2011/06/Colaboradores-Xambioá-1.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-405" title="Colaboradores Xambioá 1" src="http://apublica.org/wp-content/uploads/2011/06/Colaboradores-Xambioá-1.jpg" alt="" width="735" height="1022" /></a></p>
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<p><a href="http://apublica.org/wp-content/uploads/2011/06/Colaboradores-Xambioá-2.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-406" title="Colaboradores Xambioá 2" src="http://apublica.org/wp-content/uploads/2011/06/Colaboradores-Xambioá-2.jpg" alt="" width="728" height="1014" /></a></p>
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<p><a href="http://apublica.org/wp-content/uploads/2011/06/Colaboradores-Xambioá-3.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-407" title="Colaboradores Xambioá 3" src="http://apublica.org/wp-content/uploads/2011/06/Colaboradores-Xambioá-3.jpg" alt="" width="740" height="1024" /></a></p>
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		<title>ARAGUAIA: Depoimento de Colaboradores &#8211; 3</title>
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		<pubDate>Mon, 20 Jun 2011 13:46:26 +0000</pubDate>
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				<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://apublica.org/wp-content/uploads/2011/06/Relato-dos-Colaboradores-1.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-409" title="Relato dos Colaboradores 1" src="http://apublica.org/wp-content/uploads/2011/06/Relato-dos-Colaboradores-1.jpg" alt="" width="736" height="1024" /></a></p>
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<p><a href="http://apublica.org/wp-content/uploads/2011/06/Relato-dos-Colaboradores-21.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-413" title="Relato dos Colaboradores 2" src="http://apublica.org/wp-content/uploads/2011/06/Relato-dos-Colaboradores-21.jpg" alt="" width="727" height="1015" /></a></p>
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<p><a href="http://apublica.org/wp-content/uploads/2011/06/Relato-dos-Colaboradores-3.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-411" title="Relato dos Colaboradores 3" src="http://apublica.org/wp-content/uploads/2011/06/Relato-dos-Colaboradores-3.jpg" alt="" width="727" height="1024" /></a></p>
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<p><a href="http://apublica.org/wp-content/uploads/2011/06/Relato-dos-Colaboradores-4.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-412" title="Relato dos Colaboradores 4" src="http://apublica.org/wp-content/uploads/2011/06/Relato-dos-Colaboradores-4.jpg" alt="" width="740" height="1010" /></a></p>
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		<title>APAGANDO O RASTRO</title>
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		<pubDate>Mon, 20 Jun 2011 16:45:45 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Ex-soldados relatam as “Operações Limpeza” a fim de esconder os corpos dos guerrilheiros assassinados durante a repressão à Guerrilha do Araguaia]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Numa noite de 1976, Valdim chegou à base militar de Bacaba dirigindo a picape rural. Ele não desceu do carro, mas viu quando colocaram na carroceria um saco verde de lona grossa do Exército. A ordem era não perguntar nada. Mas o odor que vinha do saco o incomodou durante todo o trajeto até a Casa Azul, como era conhecida a sede do Departamento Nacional de Estradas de Rodagem, o DNER. “Foi horrível, era um fedor enorme, me deu até vontade de jogar fora<strong>”. </strong>A base militar de Bacaba localizava-se no município de São Domingos do Araguaia, e o DNER, em Marabá, ambos no Pará. Eram locais de prisão, repressão e</p>
<p><a href="http://apublica.org/wp-content/uploads/2011/05/guerrilha-2.jpg"><img class="alignright size-full wp-image-246" title="guerrilha 2" src="http://apublica.org/wp-content/uploads/2011/05/guerrilha-2.jpg" alt="" width="275" height="182" /></a> tortura à Guerrilha do Araguaia (1972-1975).</p>
<p>A mesma viagem de transporte dos sacos verdes de lona foi repetida outras duas vezes por Valdim Pereira de Souza, que trabalhava como motorista do Exército. Em nenhuma delas ele carregou os sacos, e em cada viagem seu acompanhante era diferente. Quando chegava à Casa Azul, a sede do DNER, famosa como local de torturas e execuções, os sacos de lona eram retirados por funcionários &#8211; era preciso duas pessoas para carregá-los.</p>
<p>Um dia, o funcionário do DNER, de apelido “Pé na Cova”, contou-lhe que dentro dos sacos havia ossos humanos e que ele os teria levado de barco até a região conhecida como “inflamável”, a parte mais funda do rio Tocantins, perto de Marabá.</p>
<p>O ex-militar conta, também, que o tenente-coronel da reserva Sebastião Rodrigues de Moura, o major Curió, apontado como um dos comandantes das operações no Araguaia, de quem foi motorista de 1976 a 1983, participou do transporte de um dos sacos. Na ocasião, teria dito: “Você não viu nada, fique cego e fique mudo”.</p>
<p>Em 1976, quando Valdim carregou sacos, a guerrilha já havia sido vencida &#8211; as tropas militares se retiraram oficialmente em janeiro de 1975. A movimentação de ossos fazia parte de uma das operações limpeza, que consistiam na retirada de restos mortais dos abatidos para dificultar uma eventual busca pelos corpos. Anos depois o Exército ainda negava a existência da guerrilha – que mobilizou 6 mil militares – e depois procurou soterrar vestígios de execuções, mortes sob tortura, <a href="http://apublica.org/2011/06/forcados-a-matar/">decapitações e assassinatos em operações clandestinas</a><strong>.</strong></p>
<p><a href="http://apublica.org/2011/06/%E2%80%9Co-terrorismo-de-estado-persiste-ate-hoje%E2%80%9D-diz-juiza/">Essas operações sucessivas de “pente fino”</a> <strong> </strong> foram realizadas de forma clandestina, por oficiais à paisana. Valdim lembra que demorou a saber que aquele “doutor Luchini” de cabelos compridos e barbudo era o major Curió. Ele conta que andava com outros “doutores”, sem saber quem era civil ou militar. Um deles, o “doutor Carlos”, ele diz ter reconhecido depois, em 1985, quando o viu na televisão ao se tornar chefe da Polícia Federal. “Era o Romeu Tuma, que chamávamos de cara de cavalo. <a href="http://apublica.org/2011/06/ex-soldados-dizem-que-romeu-tuma-participou-do-combate-a-guerrilha/">“Ele estava sempre por lá”, garante</a><strong>.</strong></p>
<p><strong> </strong>Valdim relatou os fatos ocorrido há 35 anos, apenas em maio de 2010, ao Grupo de Trabalho Tocantins (GTT) – agora, Grupo de Trabalho do Araguaia (GTA). Como ele, outros ex-militares e ex-mateiros que participaram da Operação Limpeza são ouvidos pelo GTA com objetivo de localizar o derradeiro paradeiro dos corpos em determinação à sentença da juíza Solange Salgado, da 1ª Vara Federal.</p>
<p><strong>RESTOS DA GUERRILHA</strong></p>
<p>As informações de Valdim, sobre o transporte de ossos em 1976, também se encaixam com depoimentos colhidos pela juíza Solange Salgado (veja entrevista), sobre uma das primeiras Operações Limpeza, em que militares disfarçados de familiares desenterraram ossadas na região. Mas ele também fala de uma Operação Limpeza, voltada para os vivos – os “restos da guerrilha, aquele pessoal que falava muito e ajudava os guerrilheiros”. “Muitos morreram misteriosamente”, diz. Não é o único. O ex-soldado Manoel Messias Guido Ribeiro, diz ter atuado em uma dessas operações, em 1975. Segundo ele, uma das estratégias do Exército para as capturas era promover festas “para juntar o povão. Muita gente ia e era identificada”.</p>
<p>Também há registros de operações “limpeza” em data muito posterior ao período da guerrilha. A pesquisadora Myrian Luiz Alves ouviu depoimentos de um ex-guia de que militares disfarçados retiraram restos mortais na segunda metade dos anos 1990. O livro “Habeas Corpus &#8211; Que se apresente o corpo”, da Secretaria dos Direitos Humanos, cita um relatório realizado pelo ex-ministro da Defesa, José Viegas Filho, que faz referência a “haver ocorrido, entre 1988 e 1993, a denominada ‘Operação Limpeza’. [...] Segundo depoimentos, as ossadas, após terem sido retiradas de suas covas, foram submetidas a ácidos e queimadas. Os fragmentos restantes teriam sido enterrados em local incerto ou jogados nos rios da região [...]”.</p>
<p>O livro conclui: “a multiplicidade de datas deixa transparecer que pode ter havido mais de uma ‘Operação Limpeza’”.</p>
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<p><strong>INDENIZAÇÕES</strong></p>
<p>Os ex-soldados Valdim e Guido estão entre os que reivindicam, na Comissão de Anistia do Ministério da Justiça, indenizações pelas torturas, prisões e prejuízos que teriam sofrido na época da guerrilha. Ambos relatam que passaram por treinamentos duros, sob a alegação que teriam que estar preparados para enfrentar os guerrilheiros. “O que era para aplicar nos guerrilheiros aplicavam primeiro em nós. Me lembro de coisas como ser jogado em um buraco pequeno junto com outros soldados despidos, e aí passavam uma palha com fogo queimando por cima. Faziam a gente beber lama, sangue. Bebi muito sangue de porco, de galinha. E se chorasse, era porque era mariquinha”, recorda Guido, que serviu na base de Xambioá. Os soldados também eram jogados em formigueiros para aprender a não sentir dor e colocados na “cruz”. “Amarravam os braços e pernas e ficávamos crucificados, pendurados, feito Jesus”, conta Valdim. Na região de Marabá, os moradores e ex-soldados comentam a história do soldado Messias, que após os treinamentos ficou louco e passou a matar animais para beber seu sangue.</p>
<p>Os ex-soldados também alegam sofrer ameaças, relatadas em audiência na Secretaria dos Direitos Humanos, em Brasília, em maio passado. “Meus filhos já se formaram, estão empregados. Agora eu posso falar, se me matarem não vou deixar ninguém passando fome. Há um lado da sociedade que quer descobrir tudo, e o outro quer encobrir tudo. E nós estamos no meio desses caras”, diz Valdim. Ele acredita que dentro do Exército “ninguém quer falar nada, até porque eles não vão admitir que o quartel foi um lugar de tortura”.</p>
<p>Até sobre o tipo de tortura usado nos quartéis pairam dúvidas. Uma das suspeitas é que alguns dos guerrilheiros tenham recebido injeções letais. O livro “Habeas Corpus” cita uma das expedições do GTT na qual esteve presente o ex-sargento João Santa Cruz Sacramento, participante da repressão à guerrilha, que informou estar certo de que duas militantes, Chica (Suely Nakasawa) e Tuca (Luiza Garlippe) foram mortas com injeção e sepultadas ao lado do campo de pouso da base militar de Bacaba.</p>
<p>Outro possível indício do uso da injeção seria o fato de que, durante a Operação Limpeza, a cova de Chica teria sido aberta e seu corpo encontrado intato, sem nenhum sinal de decomposição, apenas marcas de bala, de acordo com depoimento do coronel-aviador Pedro Corrêa Cabral, citado no relatório da pesquisadora Myriam Luiz Alves, que consta do processo do Araguaia examinado pela <em>Pública</em>.</p>
<p><strong>Por Tatiana Merlino, de Marabá (PA) e Brasília (DF)</strong></p>
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<p>Leia mais: testemunhas dizem ter visto ex-delegado do DOPS, Romeu Tuma, atuando no Araguaia</p>
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