Pública http://www.apublica.org AGÊNCIA DE REPORTAGEM E JORNALISMO INVESTIGATIVO Fri, 17 May 2013 18:39:51 +0000 pt-BR hourly 1 http://wordpress.org/?v=3.5.1 Copyright © Agência Pública - Centro de Jornalismo Investigativo Independente 2011 viana.natalia@gmail.com (Pública) viana.natalia@gmail.com (Pública) http://apublica.org/wp-content/plugins/podpress/images/powered_by_podpress.jpg Pública http://www.apublica.org 144 144 Just another WordPress site Pública Pública viana.natalia@gmail.com no no Pública Indica 17-05-2013 http://www.apublica.org/2013/05/publica-indica-17-05-2013/ http://www.apublica.org/2013/05/publica-indica-17-05-2013/#comments Fri, 17 May 2013 15:21:28 +0000 admin http://www.apublica.org/?p=4281 http://www.apublica.org/2013/05/publica-indica-17-05-2013/feed/ 0 Dadá Maravilha: “Brasil não tem condições de falar em Copa” http://www.apublica.org/2013/05/dada-maravilha-brasil-nao-tem-condicoes-de-falar-em-copa-futebol-atletico-mg-internacional/ http://www.apublica.org/2013/05/dada-maravilha-brasil-nao-tem-condicoes-de-falar-em-copa-futebol-atletico-mg-internacional/#comments Fri, 17 May 2013 12:00:05 +0000 admin http://www.apublica.org/?p=4272 “Eu tenho propriedade para falar o que eu falo e o povo tem que me ouvir e me respeitar, se não vai ficar contra os números. E quem fica contra números é burro”.

Dadá Maravilha começou a entrevista incisivo como um cabeceio certeiro que se tornou sua marca registrada. Dos 926 gols que fez em 20 anos de jogador profissional, 499 gols foram de cabeça. Como ele gosta de lembrar é dele o recorde de gols de cabeça na história do futebol.

“A cabeça tem dois olhos, aí fica fácil de acertar né?”, brinca.

Igualmente diretas são suas críticas aos preparativos para a realização da Copa do Mundo no Brasil. “Belo Horizonte, por exemplo, para pensar em Copa do Mundo, acho que precisa pensar primeiro em metrô, pensar na saúde, na educação. E assim é no Brasil também. O negócio tá feio no Brasil. Tá feio, feio, feio…”, diz.

Dadá também usa a cabeça para criticar dirigentes, dizer que o futebol não é prioridade para o país e que se desiludiu com a Seleção Brasileira. Amparado na experiência acumulada na carreira (tricampeão do mundo em 1970, campeão brasileiro com o Atlético-MG, bicampeão brasileiro com o Internacional, campeão estadual com Sport, Náutico, Santa Cruz, Nacional-AM e Goiás), critica a qualidade técnica do jogo de hoje e diz que os atletas treinam pouco.

“Se eu jogasse hoje eu ia ganhar por baixo uns quatro milhões e ser artilheiro com 40, 45 gols no Brasileirão”, reflete o ex-camisa 9. Leia a entrevista abaixo.

O que você acha do Brasil receber a Copa do Mundo? Como você está avaliando isso?

Bom, eu como brasileiro estou super feliz. Agora, como entendedor de futebol e um pouco como uma pessoa que entende o que é uma pátria, eu não vejo o Brasil em condições normais de sediar uma Copa do Mundo. E eu estou muito preocupado com o trânsito, com os hotéis, com a infraestrutura que é necessária para a Copa do Mundo e para a própria vida do país. A vaidade, o que é normal mesmo do brasileiro, a minha vaidade como brasileiro de sediar uma Copa do Mundo está muito grande. Mas eu não tenho expectativa nem do Brasil ser campeão e nem do Brasil se dar bem na organização. Tomara que o Dadá esteja totalmente enganado…

E quais são os principais problemas que o Brasil enfrenta na preparação da Copa do Mundo fora de campo?

Fora de campo temos problemas de infraestrutura muito grandes; Belo Horizonte, por exemplo, para pensar em Copa do Mundo, acho que precisa pensar primeiro em metrô, pensar na saúde, na educação. E assim é no Brasil também. O negócio tá feio no Brasil. Tá feio, feio, feio… Os políticos não fazem alarde quanto a isso porque eles só querem fazer alarde no que é bom, o negativo eles cobrem, fingem que não vêem. Mas nós estamos carecas de saber que o povo está reclamando da saúde, da educação e enquanto isso o Brasil se dá ao luxo de sair fazendo elefantes brancos por aí, que não vão ter competições depois que justifiquem. Então eu sinceramente estou muito triste com tudo isso que está acontecendo. E o trânsito, como eu te falei, está como uma dinamite prestes a explodir. Tomara que eu esteja enganado, mas o negócio não está as mil maravilhas não.

O que você acha da Copa ser quase que inteiramente bancada com dinheiro público?

Bom, eu não concordo. Porque o país tem que ter prioridades e entre as prioridades não está o futebol. O futebol é um entretenimento, ele não pode ser por exemplo mais importante do que saúde e educação. Então estão tirando dinheiro da educação, da saúde, para investir em futebol. Estão desviando o foco. Mas independentemente disso, o brasileiro pode sofrer o que for, mas se ganhar a Copa ele vai ficar feliz. Então, já que se decidiu fazer a Copa, tomara que o Brasil ganhe a Copa para ajudar a amenizar a tristeza do povo brasileiro. Se o Brasil ganhar a Copa do Mundo, o cara vai tomar cachaça e vai esquecer que não tem nem arroz para comer. 

E dentro de campo, o que você acha da equipe, da atual safra de jogadores da Seleção Brasileira?

Ninguém pode dizer hoje que o Brasil é o favorito para a Copa do Mundo, que o Brasil é um bom time, ou vai cair no ridículo. A verdade, infelizmente, é que nós estamos correndo o risco de passar uma vergonha dentro do nosso país. Duvidar do futebol brasileiro, eu não duvido não. Futebol brasileiro é o melhor que tem no mundo, só que antigamente nós éramos copiados, hoje a gente copia os outros times. Não estamos mais fazendo o nosso futebol de toque de bola, o nosso futebol de molecagem. Quando eu falo em molecagem estou falando sobre dribles, dar caneta, dar chapéu, enervar o adversário e botar a bola lá dentro. E o Brasil sabe dar olé, mas não está sabendo botar a bola lá dentro. Aqui é um nascedouro de craques, não dá para dizer o contrário. Mas o que eu acho é que você tem que avaliar os ideais de cada um. Por exemplo, na minha época o ideal da gente em primeiro lugar era vestir a camisa da seleção. Hoje não. O cara quer saber só de dinheiro. O bom hoje é quem tem dinheiro, quem não tem dinheiro é porque não é bom. Hoje o cara vende o corpo, a alma por dinheiro. Futebol o Brasil tem, só não tem é patriotismo mais. O cara vai lá para a Europa, é chamado para a Seleção, mas não vem porque o Brasil vai dar 5 mil de bicho [premiação paga, geralmente em dinheiro vivo, por resultados positivos com uma equipe ou seleção] e lá dá 15, 20. Falta patriotismo.

Mas você não acha que também há falta de vínculo do torcedor com a Seleção, e não só dos jogadores?

Eu, por exemplo, o Dario, o Dadá Maravilha. Eu sou mais atleticano do que brasileiro hoje. Torço mais para o Atlético do que para o Brasil. Eu digo isso em todo lugar. Podem até me condenar, mas eu falo. Quando eu era jogador, eu era primeiro brasileiro e depois atleticano. Sempre. Eu me desiludi porque na minha época da seleção brasileira, na seleção do tri, nós éramos patriotas até a cabeça. A gente vibrava, chorava, éramos unidos pela nação. O nosso nome era nação, era Brasil. Por isso que a minha seleção de 70 é considerada até hoje a melhor seleção de todos os tempos e eu tenho essa certeza até o fim da minha vida. Eu vou morrer e não vou ver nenhuma seleção melhor que a minha.

Pra muita gente a Seleção de 82 era comparável e até melhor que aquela de 70…

Comparável eu não acho, mas ela era também muito boa. Porque infelizmente no futebol a gente compara campeões. Quem é campeão é bom, quem não é, infelizmente está sujeito a chuvas e trovoadas. Infelizmente no futebol, o bom é o campeão.

E se você jogasse hoje? O Brasil resolveria os seus problemas com a camisa 9?

Olha, se eu jogasse hoje, com a produção que eu tinha, que chegava qualquer bola e eu fazia. Começava um campeonato e o artilheiro era o Dadá. Campeão é sempre o Dadá. Eu ia fazer isso. Ia continuar fazendo. Eu hoje, se eu jogasse hoje, o meu salário ia ser miseravelmente uns R$ 4 milhões. Eu seria artilheiro do brasileiro com 40 gols, 45, mais ou menos isso.

E como você vê o Fred, o Damião, os nomes que estão aí cotados para vestirem a 9 da Seleção Brasileira?

Me empolgo. Principalmente o Fred. O Fred eu tiro o chapéu para ele como jogador. O Damião também, mas está passando uma fase mais difícil, não sei o que aconteceu com ele que ele tava tão bem, agora nem tanto. Eu não duvido do jogador brasileiro. Eu duvido da mentalidade dos jogadores e dos dirigentes brasileiros, que só falam em dinheiro.

Você falou em mentalidade… Mas em geral, o que você mudaria no futebol brasileiro agora se você pudesse?

No futebol brasileiro hoje, a ideia é sempre defender para depois atacar. E eu acho que a melhor defesa é o ataque. Se você tiver um time habilidoso do meio de campo para a frente, vai sempre ficar difícil da bola chegar na sua defesa. Então é isso. Eu vou ver os treinos de futebol hoje e dá vontade de chorar. O cara não dá cinco cabeçadas no gol e já vai embora. Eu sou um cara exigente. Eu dava cem cabeçadas por dia, chutava a bola no gol cem vezes por dia. Por isso que eu fiquei essa perfeição, esse Dadá Maravilha. Eu treinei. Não me caiu do céu não, eu treinei muito. Por que que a bola do Dadá entrava no gol e a do outro não entrava? A coisa acontecia. Cansei de ouvir que eu tinha sorte, mas não era só isso não. Eu treinava muito e hoje os caras treinam muito pouco. Não vejo mais forquilha pro cara dar cabeçada, só vejo chutar em gol, mas assim mesmo os caras erram o gol.

E você acha que há uma deficiência técnica em curso no futebol brasileiro, comparado ao tempo em que você jogava?

Acho que há sim e estamos vivendo um problema de jogar só no contra-ataque. E como vai jogar no contra-ataque se hoje poucos jogadores brasileiros são velozes? Então temos que voltar a ter jogo de toque de bola, em agrupamento, com técnica. Como vamos esquecer o Santos do Pelé, o Botafogo do Garrincha, o Palmeiras do Ademir da Guia, o Corinthians do Rivelino? Não tem como. Esses times treinavam dar passes, lançar em velocidade. Hoje os caras treinam pouco. Na base também. 90% dos jogadores chegam no profissional com deficiências técnicas. Até porque tem a coisa do cara só chegar ao profissional se tiver um bom empresário.

Você falou no começo da entrevista que te desagradava o fato de a Copa estar sendo bancada com dinheiro público, enquanto o povo sofre em outras áreas como a saúde e a educação. Você não acha que o futebol pode acabar servindo como um escape, uma distração para o povo em relação à vida política?

O futebol já esteve muito ligado à política. E até ajudava a manter a situação política, como na época do militarismo. O povo estava sofrendo, mas a gente fazia coisas lindas e maravilhosas dentro de campo, o povo ficava feliz, se envolvia no futebol e esquecia todo o resto que estava vivendo. Hoje eu já acho que o futebol não tem mais esse poder porque o nosso futebol não está mais maravilhoso. Tanto que o Brasil está na vergonhosa e modesta 19ª posição no ranking mundial. Nós sempre fomos os primeiros e hoje estamos nessa posição. É uma vergonha. O futebol não está conseguindo mais esconder as coisas ruins que o torcedor, o brasileiro está vivendo.

E como você avalia, por exemplo, o futebol espanhol e alemão que são consideradas as grandes potências futebolísticas de hoje? Você gosta de ver o modo como eles jogam?

Eu gosto de ver o futebol espanhol. Eles estão passando uma fase ruim agora, mas acredito que a Espanha vai ser campeã do mundo de novo. O futebol alemão está passando uma fase muito boa, mas o futebol alemão só está fazendo o que o brasileiro fazia. Eles estão copiando o Brasil da época boa, enquanto o Brasil copia a Alemanha da época ruim.

E o que aconteceu no meio do caminho para que houvesse essa inversão? De a gente passar a copiar os europeus? 

Acho que o principal é a questão da mentalidade de pensar só em dinheiro. Ninguém pensa mais em produção, por exemplo. Então o cara chega no profissional do Palmeiras, do Corinthians, do Atlético-MG, do Cruzeiro, do Fluminense, do Vasco, do Internacional e acha que já tá bem na fita, como diz a gíria. Acontece a acomodação, porque ali dinheiro o cara já ganha muito.

E o Galo? Você está feliz com o momento do seu time?

O Atlético está jogando de uma maneira maravilhosa ultimamente. Mas o Atlético oscila muito e às vezes cai numa esparrela de reclamar muito com o juiz. Time bom não reclama com o juiz. Jogador bom não reclama com juiz. Também o time faz muita falta. O Galo hoje é muito brilhante, mas faz muita falta. O meu Atlético ficou sem ganhar um cartão amarelo ou vermelho durante 27 jogos. Joguei 27 jogos e não ganhei um cartão. E olha que era pra eu tomar cartão. Porque ninguém corria como Dadá, eles me davam pontapé. E nem pulava. Pular comigo só se tivesse uma escada de bombeiro pra chegar aonde eu chegava. Pra correr comigo tinha que pegar táxi. Então os caras passavam o jogo todinho me batendo e eu ficava tranquilo. Vou reclamar? Eu tinha que fazer gol e era isso o que eu fazia. Hoje o cara toma um pontapé, revida e é expulso. Reclama com o juiz se ele anular um gol. Juiz anulava um gol meu e eu ficava rindo. Eu pensava: “problema dele, vai ter que anular mais dois”. Ninguém enervava o Dadá, porque eu dependia da minha tranquilidade. Eu tranquilo e o beque nervoso, quem vai levar vantagem?  

E o que você acha que a Copa do Mundo pode trazer de avanço para o futebol brasileiro, para o país?

Os megaeventos vão enriquecer quem vier aqui, não vai deixar nada para o Brasil não. São esses caras que vão vir aqui, vão dizer que o Brasil é lindo, que as mulheres são bonitas e vão voltar para o lugar deles com os bolsos cheios. Nem impostos os caras vão pagar. E acho que todo brasileiro é impotente ao elogio. Elogiou a gente, a gente abre a guarda. Então eles fazem isso, nos elogiam e levam o que quiserem.

Faltou uma postura mais firme do governo com relação às exigências que a Fifa fez para a realização da Copa em solo brasileiro?

Acho que não, porque é o seguinte. O Brasil queria o privilégio de fazer a Copa e a Fifa também queria que fosse aqui e fez tudo quanto era exigência. O Brasil então para fazer uma Copa se cegou. A FIFA nos cegou. Cegaram os brasileiros, cegaram os políticos e agora nós estamos vendo a merda em que nós caímos. Agora eles estão pisando na cabeça da gente, exigindo demais e a cobrança está grande demais. Com a coisa em curso, é difícil resistir e fazer alguma coisa.

Falta mais posicionamento de pessoas de dentro do futebol com relação aos problemas estruturais que ele enfrenta?

Antigamente os dirigentes brigavam pelos clubes. Hoje eles brigam pelo interesse deles. Então os caras saem, quebram tudo e não presta conta a ninguém. Isso não é só com dirigentes não, é com os nossos governantes. O Brasil está uma vergonha dentro e fora de campo.

Você já foi discriminado por ser negro dentro do futebol?

Já. E qualquer jogador negro que falar que não foi é mentiroso.

Para fechar, o que você vê de futuro para o futebol brasileiro dentro e fora de campo? Qual o horizonte do futebol brasileiro pros próximos anos?

Se a gente analisar o futebol brasileiro, a gente tem que falar do jogador sim, mas tem que falar do torcedor. Sem torcedor não tem futebol. É o cara que compra 250 gramas de carne, poderia comprar mais, mas deixa o restante para comprar o ingresso. Tomando a birita dele, a cachaça dele e vendo o time dele jogar ele tá feliz. Mas você vê, pobre coitado do torcedor que está se acostumando com muito pouco de todo lado, no campo ou fora dele. Eu, como ex-jogador de futebol, acho que as coisas vão começar a melhorar quando houver mais amor à profissão de torcedores e dirigentes. O dinheiro não é a causa, é a consequência. Tem que haver mais respeito deles com os clubes e deles com eles mesmos. Tá cheio de jogador, por exemplo, passando pelo Atlético e não deixando marca nenhuma. Legado nenhum. Mas mesmo assim o cara tá rico, ganhou dinheiro. Isso eu acho vexatório. Tem muito ídolo de barro por aí.

O blog Copa Pública é uma experiência de jornalismo cidadão que mostra como a população brasileira tem sido afetada pelos preparativos para a Copa de 2014 – e como está se organizando para não ficar de fora.

]]>
http://www.apublica.org/2013/05/dada-maravilha-brasil-nao-tem-condicoes-de-falar-em-copa-futebol-atletico-mg-internacional/feed/ 0
Ríos Montt, o genocida http://www.apublica.org/2013/05/rios-montt-genocida/ http://www.apublica.org/2013/05/rios-montt-genocida/#comments Thu, 16 May 2013 21:14:42 +0000 admin http://www.apublica.org/?p=4266 Efraín Ríos Montt e José Mauricio Rodríguez, generais acusados, em uma sala abarrotada, calorenta, sufocante, eram apenas duas pequenas silhuetas difusas, distantes, em meio a centenas de câmeras, repórteres e pelo menos mil pessoas que haviam ido escutar a sentença contra os dois militares. Era a primeira vez, na América Latina, que chegava a jugar o delito de genocídio em uma corte local. Havia uma atmosfera de incerteza e ansiedade. Havia também rumores de que algumas questões legais, ainda que pendentes, poderiam suspender o debate. Mas não. Quando o tribunal entrou, e a presença dos três juízes criou um profundo silêncio, soube-se que haveria uma sentença. E nada podia detê-la.

Foram necessárias pouco mais de 25 audiências para se chegar a essa última parte do debate. Por este tribunal haviam marchado sobreviventes de massacres, peritos, militares aposentados, ex-guerrilheiros, familiares de centenas de vítimas, antropólogos, estatísticos, sociólogos e até jornalistas. A maioria dos convocados depôs, para que a acusação de genocídio e crimes contra a humanidade pudesse ser provada. Isso por causa da estratégia do Ministério Público e dos advogados dos reclamantes. “Mais de 10 anos de investigação”, como afirmavam eles.

A defesa, por outro lado, foi mais técnica e complicada. A cada dia de audiência, durante o debate (e desde o início do processo), advogados e jornalistas, estavam atentos à estratégia que os militares utilizariam. Liminares, recursos, mandados, reclamações… tudo na possibilidade de retroceder, suspender ou anular o debate. Mas pouquíssimas vezes com a intenção de questionar os crimes julgados.

Nesse contexto, os juízes Yassmín Barrios, Pablo Xitimul e Patricia Bustamante chegaram à última fase do debate. Anunciaram que dariam leitura de sua decisão, pedindo para não serem interrompidos. Não queriam mais intervenções dos advogados. Não. E foram categóricos ao proibir qualquer interferência. Por nada do mundo suspenderiam mais uma vez o debate, como fizeram obrigatoriamente em duas ocasiões. Uma em 19 de abril, por causa de uma sentença de anulação. E outra em 2 de maio, quando um novo advogado foi incorporado à defesa. Às quatro da tarde de 10 de maio, os juízes haviam deliberado por mais de oito horas e anunciaram que tinham uma sentença.

O veredicto que finalmente determinaria juridicamente se na Guatemala havia ou não acontecido o genocídio.

A sala vibrava entre sussurros.

Agora, tudo dependia dos juízes.

Vou contar uma história para vocês”

Apenas um dia antes do tribunal convocar à audiência para proferir a sentença, a defesa tirou sua última carta. Uma que havia sido guardada, com desconfiança, por mais de um ano no tribunal. Efraín Ríos Montt tinha sido chamado a declarar. Seria a primeira vez, desde que foi ligado ao processo em 26 de janeiro de 2012, que sua voz seria escutada para se defender. Ele nunca tinha feito isso antes.

O que eu digo ou deixo de dizer pode ser usado contra mim”, foi seu mantra para não dizer nada até o momento antes da sentença, quando já não havia possibilidade de fazer outra coisa.

Agora pedia a palavra justo no instante em que o Ministério Público e os advogados do Centro para a Ação Legal em Direitos Humanos (CALDH) e da Associação para a Justiça e Reconciliação (AJR), como autores, já haviam apresentado as conclusões que resumiam horas de depoimentos. A intervenção do Ministério Público tinha acabado. Significava, então, que ninguém – só seus próprios advogados – poderiam questionar a declaração de Ríos Montt.

A estratégia era falar sem que se fosse debatido.

Sabia, então, o enfoque exato da acusação contra ele depois de ouvir os argumentos finais a acusação. A intenção de genocídio, a cadeia de comendo, as ordens, as 1326 vítimas da etnia ixil assassinadas, as 420 ossaturas retiradas de Nebaj, Cotzal e Chajul, tudo o que foi contabilizado durante os 26 dias de duração do debate era de seu conhecimento.

Efraín Ríos Montt, com 86 anos de idade, caminhou até o tablado, lento, ainda com alguns indícios de firmeza em seu corpo envelhecido. Foi a última chance que ele teve que convencer a decisão do tribunal de julgamento. Claro, todo mundo queria ouvir.

Quando se sentou, ao seu redor, os juízes, advogados de defesa e de acusação e principalmente os jornalistas, pareciam criancinhas, muito ansiosos, à espera de ouvir um causo. “Vou contar uma história para você”, começou Efraín Ríos Montt, no tablado, perante o tribunal. Rodeado de tanta gente, parecia um avozinho que falava com seus netos.

Em contraste, o outro acusado, Mauricio Rodríguez Sánchez, ficou em absoluto silêncio. Se resumiu, como fez durante todo o processo, a manter sua cabeça baixa. Ao final, não declararia tanto como estava a ponto de fazer o ex-chefe de Estado.

Ríos Montt contaria sua história, mas acima de tudo, a história da Guatemala.

O exército dividido

O relato de Ríos Montt partiu do ano de 1973, quando ele era chefe de estudos do colégio Interamericano de Defesa. “Dali me propuseram a candidatura à presidência”, disse. Sua voz, articulada e salivosa, contou que havia ganhado as eleições em 1974. “Mas aqui havia um regime militar. Chamaram-me como oposição a esse regime militar. E ganhamos as eleições. Desgraçadamente, os deputados recontaram os votos e perdi”.

Nesse momento, ele se rendeu e não brigou diante da fraude eleitoral. “Os jovens de esquerda ficaram enojados comigo porque não saí às ruas para lutar. Eu disse a eles que não me fizeram comandante da guerrilha, mas candidato à presidência. Me tiraram da Guatemala. Virei adido militar na embaixada da Espanha”.

Rios Montt voltou à Guatemala depois do terremoto de 1976. Esperava sua aposentadoria do Exército, como professor de educação na escola cristã Verbo, quando tudo pelo qual hoje foi julgado estava a ponto de acontecer. Esse minuto prévio a todos os massacres contra a etnia ixil pelo qual é acusado. “Ali estava eu quando se deu o golpe de Estado de 1982. A situação política na Guatemala era séria. A subversão estava no Parque Central, já pronta para tomar o poder. O Exército, segundo um informe de um general falecido, estava cansaço de guerra”, disse ele ao tribunal.

A acusação enquadrou os crimes de genocídio e os crimes contra a humanidade, na área dos ixil, em Quiché, entre dois eventos: o golpe de Estado de 23 de março de 1982, no qual Ríos Montt foi declarado presidente, e 8 de agosto de 1983, quando foi deposto.

Quando cheguei a chefe de Estado, o grande compromisso foi ‘vamos trabalhar por uma democracia em lei’”, frisou, exaltando a voz e recuperando por breves instantes o tom característico que tinha seus discursos presidenciais e sermões dominicais. As mãos já estendidas, cheias de gestos, completavam os trejeitos de seu rosto, às vezes nervoso, outras vezes impaciente. Ríos Montt continuava mergulhado em sua história. Não olhava para o tribunal. Olhava – sentados ali, atentos, sempre como crianças de escola – para os jornalistas em frente a ele.

Tinha que reorganizar o Estado”, estalou. “O Estado era feito de compadres. Descomposto. Quebrado, porque o orçamento estava sendo executado com 7% de déficit do PIB. Isso, naturalmente, nos encurralou”.

Se contava nesse momento com uma força armada cansada, irritada e muito desanimada”, disse, “porque os jovens militares desprezavam as hierarquias superiores”.

O Ministério Público, em suas conclusões, fez ver ao tribunal que Ríos Montt comandou um exército sólido e unificado. Ele quis rebater essa afirmação: “Essa unidade granítica do exército que a acusação aponta é falsa”, rebateu. “Tínhamos a subversão na ponta do Palácio. Um Estado quebrado. Partidos políticos completamente polarizados, porque as eleições de 7 de março de 1982 tinham acabado de acontecer e ninguém tinha ido de acordo com elas. E, finalmente, nós tínhamos uma pobreza tremenda. Essas foram as circunstâncias nas quais encontrei a Guatemala”.

A cada declaração de Ríos Montt, o silêncio tomava conta da sala, como nunca antes. Em mais de um ano de audiências, antes do julgamento ser aberto contra ele, o general aposentado havia tido vários documentos em suas mãos. Entre eles, a Constituição da República, o Código Penal e outras leis. Apontava, sempre apontava. Se detinha nas partes onde se falava das funções do presidente. Anotava. Chegava à pena dos crimes de genocídio e escrevia. Talvez tivesse feito tudo isso esperando esse momento. Esperando contar sua versão da história do Exército da Guatemala.

O poder no governo

Vocês tem escutado bastante da acusação que eu era Ministro da Defesa Nacional, que era Ministro da Defesa Geral. Sim, e também o primeiro vocal era Ministro do Interior, e o segundo vocal era Ministro das Comunicações. Nós três éramos ministros porque não tínhamos dinheiro para nada. Não tínhamos orçamento. O interessante é que no Ministério da Defesa estão os acordos respectivos, no sentido de que o Ministro da Defesa era o presidente da Junta do Governo. Deixou-se por escrito que o encarregado do escritório era o vice-ministro, e se tinha que deixar por escrito, para que se pudessem fazer todos os trâmites legais, econômicos e políticos que correspondiam ao Ministério da Defesa. Então o encarregado do escritório era o vice-ministro da Defesa. Não eu.” Assim relatou seu poder de comando para o 23 de março de 1982. Acusava ser abaixo dentro da linha hierárquica.

Três meses depois de ter dado o golpe de Estado, Ríos Montt se autoproclamou presidente. O foi desde junho de 1982. Nessa data, disse o acusado, o governo tratou de fazer um marco legal que lhes servisse de referência. “Como golpe de Estado, não podíamos respeitar a Constituição, porque já estava apodrecendo, tudo se caiu. Tínhamos que fazer um Estatuto Fundamental de Governo. Esse Estatuto foi o que serviu para substituir a Constituição. E naturalmente ao Executivo deu-se o poder legislativo. Isso sempre assessoria por honoráveis advogados”.

Naquela época, o Estado tinha uma equipe formada por ministros de Estado. O chefe desses ministros era Ríos Montt. Foram organizados em três grupos: um gabinete político-social, um econômico-financeiro e um de segurança.

Mauricio Rodríguez Sánchez era parte dessa estrutura. Era o chefe de Inteligência do Ministério da Defesa. Eles chamavam de D2 e era a seção responsável por coletar todas as informações do que acontecia a nível nacional. Reportar as informações e assessorar o Presidente.

Cada ministério tinha suas características, de modo que cada gabinete fizesse estudos da situação na qual nos encontrávamos”, disse Ríos Montt.

Descobriu-se, disse, como se estivesse surpreendido, que a URNG, através de seus grupos, tinha declarado guerra ao Estado da Guatemala. “Irmãos contra irmãos, não vale uma guerra. Não é uma guerra. Queriam que se afirmasse que havia uma guerra interna para declarar territórios livres”. Referia-se a lugares que estavam sob o controle da subversão.

Seu relato foi pausado por vários minutos.

Rodríguez Sánchez escutava a declaração muito atento. Assentia de vez em quando.

Ríos Montt retomou sua intervenção para definir sua posição diante da acusação: “Quero manifestar que de acordo com as conclusões da acusação e dos promotores, não posso, de forma alguma, aceitar as acusações contra mim”.

Disse que aceitava que tivesse sido Chefe de Estado da Guatemala. Mas a cadeia de comando no Exército, explicou, começa pelo comandante em chefe do Exército e pelo ministro de Defesa Nacional. “Mas o comandante em chefe do Exército só faz três coisas importantes: mobilização, promoções, condecorações e pensões”.

Quase uma função decorativa.

Os argumentos de Ríos Montt para o tribunal, em sua defesa solitária, depositaram o poder sobre o Exército em comandos inferiores a seu posto. “É assim por obrigatoriedade do Estatuto Fundamental de Governo, e pela lei constitutiva do Exército”, disse. “Em troca, o ministro de Defesa Nacional, além de suas funções, tem o comando e a administração do Exército. E cumprir e fazer com que se cumpram as leis”.

Óscar Humberto Mejía Víctores era o Ministro de Defesa durante esses anos. Em janeiro de 2012 foi ordenada a cessão da ação penal contra ele, que depois também havia sido chefe de Estado, ao se considerar que sua saúde não estava em condições de enfrentar a justiça.

Ríos Montt delegou a responsabilidade para Mejía Víctores, enquanto explicava também que o poder no Exército era autônomo. “Do chefe de Estado Maior dependem os comandantes. E cada um dos comandantes, tem um território, uma jurisdição. O poder é uma autonomia”.

Quando a acusação apresentou os esquemas de comando, iam de cima a baixo, e de baixo a cima. O cargo de presidente passava por todos. Orlando López, do MP, indicou que ambos os acusados estavam informados de tudo o que acontecia. Dos massacres, da queima de casas, dos despejos na região ixil.

Ríos Montt disse que isso não poderia ser assim: “Os senhores me acusam, fizeram um trabalho ao revés. Foram perguntar para cabos e sargentos, e fizeram um estudo especial, e daí para cima começaram a construir as informações. O chefe de Estado Maior e o ministro da Defesa Nacional não me davam informes de nenhuma natureza. Eu era um chefe de Estado, ocupado em abrir espaços internacionais”.

A moralidade, a “guatemalidade” no discurso

Ríos Montt tem sido visto várias vezes na tela gigante desse tribunal. Ali não parece jovem, alegre, retórico e sorridente, com o cabelo penteado para trás e um semblante de arrogância. Um Ríos Montt, atento, tomando nota, foi visto daquele jeito em outra época. Em um vídeo gravado 31 anos atrás, que foi passado em várias audiências. Antes e durante do debate, nas partes anteriores ao processo.

Um dia antes da sentença, em sua declaração perante os juízes, Ríos Montt lembrou esse vídeo: “Provavelmente vocês se deram conta, e tem isso gravado em suas câmeras, quando me chamaram de racista quando eu disse que somos um país composto de muitas nações. E, de fato, é assim. Eu dizia a vocês, esses são qeqchíes, esses são quichés, esses são mames, esses são pocomames. Juntos fazem uma nação grande! Essa era a intenção política. Mas como eles – a parte de acusação – agarra-se à parte que lhes convém, eu quero dizer que o que interessava nesse discurso era a unidade, através da individualidade, de cada uma das nações que funcionam na Guatemala”.

É verdade, é verdade que colocamos doutrinas”, acrescentou. Essa foi a razão pela qual o governo de Ríos Montt implantou o conceito de “guatemalidade”. Segundo explicou ao tribunal, a guatemalidade significava um produto acabado de altíssima qualidade. “Era isso que queríamos entender. Não acabar com a identidade dos povos maias, mas consolida-la, equipando-os, dando infraestrutura a eles”.

Um documento que, segundo disse Ríos Montt, poderia respaldar essa visão política de integração nacional que ele tinha em 1982 como algo bom, era um informe do subsecretário das Nações Unidas para a Guatemala de então: “Não há dúvida de que as medidas estão sendo tomadas, e há um projeto, mas o que acontece é que custa muito”, disse o acusado, se lembrando daquele informe. Mas esse informe desapareceu, e nunca conseguiu coloca-lo dentro das provas a seu favor.

Seu projeto de nação para 1982 e 1983 também tinha um enfoque moral dentro do discurso. Ele queria que a moral transcendesse dentro do Estado, segundo disse. “Havia uma necessidade e uma frustração, até que mudamos a forma de pensar. Fizemos uma campanha nacional, na qual cada um dos membros do Estado eram, antes de tudo, servidores públicos, pagados pelos impostos do povo. Aprendemos com isso a exigir. Aprendemos que os empregados são servidores e não chefes. Nessa campanha de moralidade dissemos que todos os empregados públicos iam se comportar melhor. Que não iriam roubar, mentir ou enganar. Isso foi parte da campanha que fizemos para moralização do Estado. Porque o Estado não é mais que um servidor público.” Era o que, como indicou, queria estabelecer para seu governo.

A instituição armada como protagonista

Havia algo claro para Ríos Montt em seu relato sobre a história da Guatemala “Desde 1944 até 2013 todos os movimentos que foram feitos, de uma forma ou de outra, que trouxeram progresso para o país, foram guiados pelo Exército. Uns sobem e outros descem. As coisas foram se compondo de tal maneira que a instituição armada passou por mudanças. Depois colocaram uma roupagem para que todos – e eles – dissessem que fizemos esse governo”.

No dia 20 de outubro de 1944, disse, foi simplesmente uma revolta da Guarda de Honra. O 13 de novembro foi porque o general Miguel Ydígoras Fuentes estava comprometendo a Guatemala com a questão de Cuba. E o 23 de março, segundo Ríos Montt, foi porque o presidente estava muito afetado e os compromissos estruturais já não suportavam as mudanças. Não havia financiamento e a política não funcionou.

Sobre o fracasso de seu governo, Ríos Montt se referiu como “inércia política”. “É impossível, para um chefe de Estado, impedir essa inércia política. Ainda mais em um país tão dividido por diferentes problemas e pela falta de capacidade econômica e financeira que tinha de ser trabalhada”.

Mas na acusação havia se escrito que antes da inércia, o que feito em seu Governo foi dar continuidade a uma política contra a subversão, já estabelecida por outros regimes militares. A diferença consiste em que durante seu governo houve evidências de como se implantou uma estratégia militar contra a população civil. Os planos militares Victoria e Sofia 82, e o plano Firmeza 83, foram apresentados como prova de que o governo de Ríos Montt catalogou a população civil como inimiga interna.

Ríos Montt se defendeu: “Nunca autorizei, nunca assinei, nunca propus, nunca ordenei que houvesse um atentado contra uma raça, etnia ou religião. Nunca fiz isso. E de todas as provas, não há uma só que mostre a minha participação”. E mais impetuoso, acrescentou: “O plano Victoria 82 foi assinado pelo chefe do Estado Maior, general do Exército. Eu vi, e não há nenhuma pauta que tenha a intenção, o propósito, o objetivo e a ordem de destruir algum povo, etnia ou religião ou algo do tipo. Não há nada disso. Eu vi, assinado por quem estava ali. Não vi outros planos. Porque não tinha muito trabalho a nível nacional.”

A suspeita é que Rodríguez Sánchez foi o autor da redação e da implantação desses planos. Sua assinatura aparece em um dos anexos da inteligência. Ainda que tenha se defendido até o último minuto da audiência, dizendo que não tinha sido assim. “Eram apreciações. Nunca ordens”, sustentou.

O Ministério Público solicitou a condenação de Ríos Montt a 75 anos de prisão e o mesmo para Mauricio Rodríguez Sánchez. Pediu que fossem julgados por genocídio e crimes contra a humanidade, cometidos em 1982 e 1983 na área ixil.

Me declaro inocente”, disse Ríos Montt ao final de sua fala. “Nunca tive a intenção ou o propósito de destruir uma etnia nacional. Minha situação de chefe de Estado, minha ocupação, foi especificamente para retomar o rumo da nação que já estava marginalizada. A Guatemala estava um fracasso. E a guerrilha nas portas do palácio.”

Rodríguez Sánchez pôde se pronunciar até o dia seguinte, na manhã antes de escutar a sentença. Também se declarou inocente.

Se houve genocídio

Ao final (um dia depois de escutar a defensiva voz de Ríos Montt), o julgamento separará os dois acusados. Seu longo caminho juntos, no decorrer de 31 anos, às vezes para trás, às vezes para o presente, nos tribunais, acabará por revelar uma coisa: houve um genocídio na Guatemala. Os minutos passam devagar antes que o tribunal inicie se veredicto. E quando o faz, o que se escuta é uma revisão de todo o que aconteceu. Mas há uma ordem na leitura.

Primeiro: os depoimentos dos sobreviventes servem como plataforma sobre a qual o tribunal irá analisar cada um dos inquéritos.

Segundo: Realocações, matanças, casas incendiadas, violações sexuais e queima de plantações formam parte do panorama que estabelece um padrão de comportamento por parte do Estado: a destruição de um grupo étnico.

Terceiro: 5,5% da população ixil foi assassinada.

Quarto: Em qualquer atividade humana, na qual se tenha feito um planejamento, houve uma motivação prévia.

Quinto: Definir a população civil como inimiga interna.

Sexto: Os planos militares Victoria 82 e Firmeza 83 dão as diretrizes. Sofía 82 concretiza a missão.

Sétimo: “José Efraín tomou conhecimento de tudo que estava acontecendo e não deteve a ação, apesar de ter o poder de evitar sua perpetuação, além de estar a par dos planos militares Victoria 82, Firmeza 83 e da operação Sofía, os quais havia autorizado”, disse o Tribunal.

Oitavo: Um D2 não tem poder de comando. Não tem ingerência. Não se responsabiliza pelo comando.

Nono: Uma sentença contra Efraín Ríos Montt por genocídio e crimes contra a humanidade. Com a condenação a 80 anos de prisão. E a absolvição completa de José Mauricio Rodríguez Sánchez.

Décimo: A intenção imediata da defesa em apelar da decisão. Repetir a estratégia de apelações, liminares, recursos? Condenar o juiz? O que acontece com a não condenação de Mauricio Rodríguez Sánchez se não conseguem que alguma de suas estratégias anules a sentença contra Ríos Montt?

O ruído do ambiente, com Efraín Ríos Montt rodeado por centenas de jornalistas, à espera de ser conduzido para a prisão de Matamoros, são dos aplausos do público, dos poemas musicalizados de Otto René Castillo e das canções de Mercedes Sosa. É o que canta o público em coro.

Os familiares das vítimas, em ixil, agradecem ao tribunal: “Tantix, tantix”.

A voz de Efraín Ríos Montt se escuta tênue uma última vez: “O tribunal decidiu fazer de mim um genocida. Não se preocupem comigo. Cumpri com a lei e sigo sem nenhuma angústia.”

Rodríguez Sánchez ficou em silencia e não foi condenado. Ríos Montt, com sua longa história, não conseguiu convencer a nenhum dos juízes. 

Reportagem publicada pelo Plaza Publica. Clique aqui para ler o texto original em espanhol.

]]>
http://www.apublica.org/2013/05/rios-montt-genocida/feed/ 0
Pública Indica 15-05-2013 http://www.apublica.org/2013/05/publica-indica-15-05-2013/ http://www.apublica.org/2013/05/publica-indica-15-05-2013/#comments Wed, 15 May 2013 21:18:47 +0000 admin http://www.apublica.org/?p=4262 http://www.apublica.org/2013/05/publica-indica-15-05-2013/feed/ 0 O Rio que viola Direitos Humanos http://www.apublica.org/2013/05/rio-viola-direitos-humanos-copa-do-mundo-2014-olimpiadas-megaeventos/ http://www.apublica.org/2013/05/rio-viola-direitos-humanos-copa-do-mundo-2014-olimpiadas-megaeventos/#comments Wed, 15 May 2013 11:56:48 +0000 admin http://www.apublica.org/?p=4250 O Comitê Popular da Copa e das Olimpíadas do Rio de Janeiro lança hoje a segunda edição do dossiê “Megaeventos e Violações dos Direitos Humanos no Rio de Janeiro”. O dossiê será lançado em evento, a partir das 16h30, na sede da ABI (Associação Brasileira de Imprensa), na Rua Araújo Porto Alegre, 71, no Centro do Rio. A Pública teve acesso ao documento e traz alguns dos principais pontos dele em primeira mão. Você também pode baixá-lo aqui.

O relatório das violações de direitos humanos divide-se em oito esferas ligadas ao interesse público: moradia, mobilidade, trabalho, esporte, meio ambiente, segurança pública, informação e participação e orçamento e finanças. Confira abaixo alguns pontos levantados pelo Comitê em cada uma delas.

Moradia

Nada menos do que 3 mil famílias residentes na cidade do Rio de Janeiro já foram removidas por conta da realização de projetos direta ou indiretamente ligados à Copa do Mundo e às Olimpíadas. O número pode chegar a quase 11 mil famílias expulsas, já que outras 7.800 famílias correm o risco de despejo. Em relação ao primeiro dossiê, nessa segunda versão foram reunidas informações mais específicas e atualizadas de modo a demonstrar detalhadamente as violações de direitos humanos ocorridas na cidade.

As comunidades envolvidas no processo de remoção foram divididas em quatro eixos específicos relacionados ao fator de risco: as obras viárias em curso no Rio de Janeiro; as obras de instalação e reforma de equipamentos esportivos; as obras de revitalização turística da zona portuária e as áreas de risco ou interesse ambiental.

Apesar da especificidade e das peculiaridades de cada região, o dossiê aponta padrões no trato do poder público, sobretudo o municipal, com as comunidades que se vêem envolvidas no contexto de remoção.  Esses são seis, presentes na ação do poder público no trato com as comunidades atingidas, segundo o comitê:

“(i) Completa ausência, ou precariedade de informação para as comunidades, acompanhada de procedimentos de pressão e coação, forçando os moradores a aceitarem as ofertas da prefeitura do Rio. Cabe frisar que as comunidades visitadas, sem exceção, não tivera acesso aos projetos de urbanização em suas áreas de moradia.

(ii) Completa ausência, ou precariedade de envolvimento das comunidades na discussão dos projetos de reurbanização promovidos pela prefeitura, bem como das possíveis alternativas para os casos onde são indicadas remoções.

(iii) As indenizações oferecidas são incapazes de garantir o acesso a outro imóvel situado na vizinhança próxima, tendo em vista que a prefeitura só indeniza o valor das benfeitorias e não a posse da terra, fato em geral agravado pela valorização imobiliária decorrente dos investimentos realizados pelo poder público. Tal situação não é revertida nem mesmo com o instrumento da compra assistida, o que gera um aumento no valor pago pelas indenizações em torno de 40%., mesmo assim insuficiente para a aquisição de um imóvel na mesma localidade. Resta a opção de transferência para um imóvel distante, nos conjuntos habitacionais que estão sendo construídos em geral na zona oeste, no âmbito do programa Minha Casa Minha Vida.

(iv) Deslegitimação das organizações comunitárias com agentes dos processos de negociação, sempre individualizados por famílias, buscando enfraquecer a capacidade de negociação dos atingidos com o poder público.

(v) Desrespeito à cidadania através de ameaças, pressão e coação.

(vi) Utilização da Justiça como ferramenta contra o cidadão. Nas ações judiciais promovidas pela procuradoria do município, o poder público tem sido “uma máquina irresponsável de despejos”, sem compromisso com a saúde e a vida das pessoas. “A prática da procuradoria do município parece ser a de castigar todos os cidadãos que recorrem à justiça para proteger os seus direitos.”

Uma comunidade que passou por um processo emblemático de remoção foi a Comunidade do Campinho. Segundo o Comitê, o primeiro contato da administração municipal com os moradores foi em janeiro de 2011. Cinco meses depois a comunidade já estava extinta. O motivo? A construção de um mergulhão do corredor Transcarioca de BRT. O dossiê afirma que houve pressão psicológica para que os moradores aceitassem um apartamento do Minha Casa Minha Vida em Cosmos, a 60 km do local. “Há relatos, com mais de uma testemunha, do recebimento de indenizações em sacos de dinheiro pagos em negociação direta com a empreiteira responsável pela obra”, diz o dossiê.

Mobilidade urbana para quem?

É essa pergunta que faz o dossiê ao tratar das intervenções de mobilidade urbana que estão em curso por conta dos megaeventos no Rio de Janeiro. “A análise dos investimentos na cidade do Rio de Janeiro indica que estes não estão voltados para o atendimento das áreas mais necessitadas e que apresentam os piores indicadores de mobilidade. Pior do que uma infraestrutura mal construída ou mal distribuída pelo território da cidade, constata-se que muitas comunidades têm sido removidas compulsoriamente ou sofrido ameaça de remoções por conta da construção da infraestrutura de transporte para Copa e Olimpíadas. Isto, por si só, constitui uma violação ao direito à moradia garantido em diversos tratados internacionais”, afirma.

Ou seja, além dos investimentos em mobilidade urbana beneficiarem as áreas que já contam com as melhores alternativas nesse aspecto, a população carente tem que lidar com o ônus das remoções.

“Através das propagandas oficiais e da mídia em geral, o poder público tem prometido uma ‘revolução nos transportes’, construindo as vias Transcarioca, Transolímpica e Transoeste (todas BRTs), e o metrô Lagoa-Barra (alongamento da linha 1) – todos ligados à realização da Copa e dos Jogos olímpicos. Por outro lado, a população clama por serviços de transporte de massa em outras direções e para outras regiões da cidade. Ou seja, enquanto hoje o serviço de transporte coletivo oferecido à população se configura como caro, precário e insuficiente para  a demanda existente, o cenário que se desenha para o futuro é o de investimentos em transporte que, ao invés de atenderem à demanda existente, tornam possível a ocupação de áreas vazias ou pouco densas, visando e promovendo a valorização imobiliária e a expansão irracional da malha urbana”, analisa o documento do Comitê Popular. O dossiê também aponta para uma forte concentração dos investimentos na cidade do Rio de Janeiro, em detrimento das outras 20 cidades que compõe a área metropolitana da capital; dentro da capital, os investimentos estão maciçamente direcionados à Barra da Tijuca e à zona sul, as áreas mais nobres do Rio.

Destaca-se também os constantes aumentos das tarifas de transporte.

Trabalho

Tido como um dos grandes fatores legitimadores da realização dos megaeventos, o impacto da Copa e das Olimpíadas no trabalho é analisado pelo dossiê do Comitê Popular.

O primeiro aspecto apontado pelo comitê é que nas obras ligadas aos megaeventos é comum ocorrer a chamada precarização do trabalho. Prazos exíguos, omissão de fiscalização pelos órgãos públicos competentes, o contexto de exceção que permite licitações feitas a toque de caixa, além das pressões exercidas por órgãos como o COI e a FIFA ajudam a criar este cenário. Só o Maracanã, aponta o dossiê, já passou por duas paralisações relacionadas a condições de trabalho.

A repressão ao comércio informal também se agravou no contexto dos megaeventos, afirma o Comitê. Segundo documento da Streetnet International, articulação de coletivos de vendedores informais de todo o planeta, há 60 mil vendedores ambulantes trabalhando no Rio de Janeiro em risco por conta da realização dos jogos. Os ambulantes não poderão se beneficiar do contexto da Copa e das Olimpíadas, uma vez que estão proibidos de trabalharem próximos aos locais vinculados às competições. “Também está prevista a repressão, com prisão e apreensão de mercadorias, de qualquer pessoa que comercialize material que faça referência aos símbolos dos eventos e de seus patrocinadores. Nessa mesma direção, está proibida a venda de qualquer souvenir dos eventos aos turistas produzido pelos trabalhadores informais. Ou seja, só poderão vender mercadorias com símbolos dos eventos as empresas licenciadas pela FIFA e pelo COI”, diz o texto. Isto está inclusive garantido pelo artigo 11 da Lei Geral da Copa (12.663/2012).

Esporte

“O futebol no Brasil está vivendo um momento bastante complicado. Os estádios históricos estão sendo destruídos para renascer em forma de centros de consumo e turismo, por vezes com jeito de shopping-center. Os ingressos dos campeonatos nacionais e estaduais estão cada vez mais caros, fora do alcance do torcedor ‘tradicional’. A média de público nos estádios está em plena queda”, analisa o dossiê do Comitê Popular.

A concessão do Maracanã, com a consequente demolição de praças esportivas essenciais como o Parque Aquático Júlio Delamare, o Estádio de Atletismo Célio de Barros e a consolidação do projeto olímpico na Barra da Tijuca são os principais fatores contestados pelo dossiê.

A chamada elitização do público do futebol também é destacada pelo dossiê. “Percebe-se um decréscimo de 732.160 torcedores nos estádios da primeira divisão do campeonato brasileiro de futebol, entre 2011 e 2012, o que representa uma queda de 13%. Ao mesmo tempo, os custos dos ingressos subiram 9% e a arrecadação geral aumentou em 3%. Esses números podem indicar que menos brasileiros têm acesso aos estádios. Isso pode estar ocorrendo em função das obras, em andamento nos grandes estádios visando a Copa do mundo nas principais cidades do país, como é o caso do Rio de Janeiro”, aponta o documento.

Segundo o Dossiê, é possível analisar esse contexto como o de imposição de um modelo de futebol empresarial. Nele “estimula-se a venda do espetáculo aos ‘clientes’, que vão aos estádios para ter uma experiência de entrenimento e não uma participação ativa, identitária e afetiva com o evento. Sem dúvida, os números indicam que os que frequentam os estádios desembolsam cada vez mais dinheiro”.

Além disto, destaca-se também a destruição do legado do Pan-2007 pelo projeto das Olimpíadas de 2016 como ocorreu com o Velódromo, o Parque Aquático Maria Lenk e, mais recentemente, o estádio do Engenhão.

Meio Ambiente

O documento aponta que, apesar do discurso oficial afirmar veementemente a preocupação ambiental, na prática ocorre o inverso. A construção dos corredores viários Transcarioca, Transolímpica e Transoeste são alguns exemplos.

No caso do primeiro projeto, por exemplo, o dossiê critica o aterramento da lagoa de Jacarepaguá. Estavam previstos, para mitigar o efeito do aterramento, dois programas pelo estado do Rio: o Programa de Monitoramento da Fauna Existente e o Programa de Compensação Ambiental. Nenhum deles foi realizado.

Segurança Pública

“No Rio de Janeiro, que vem servindo de laboratório no tema da segurança pública, defende-se a necessidade de medidas extraordinárias de segurança. Mas cabe perguntar o que está sendo segurado, como, onde, e quais serão os efeitos de curto, médio e largo prazo das medidas que estão sendo adotadas”, pontua o dossiê.

Os fatos de a segurança durante os jogos ser feita por agentes privados contratados pela FIFA, bancados com dinheiro público, de o governo brasileiro pretender investir R$ 80 milhões em câmeras de vigilância nos estádios e não haver garantias de que as imagens coletadas pela FIFA sejam apagadas depois do evento, são criticados. O dossiê também vê essas ações como pretexto para aprofundar a mudança do modelo de segurança pública para o predomínio da segurança privada.

“Como um experimento para controlar as massas e extirpar ameaças, os megaeventos deixarão um saber governamental sobre as novas configurações da cidade. Esse saber não é neutro ou despolitizado, mas contextualizado dentro de um complexo cultural que identifica ameaças particulares que são socialmente construídas. A montagem do aparelho para proteger os interesses associados aos megaeventos pode ser adotada e utilizada para proteger os mesmos interesses pós-evento”, afirma o Comitê.

Informação e participação

O Comitê destaca ainda a negligência com respeito ao direito à informação e participação popular nos assuntos de interesse público durante os preparativos da Copa. Como exemplo, cita as remoções ocorridas nas comunidades Vila Harmonia, Recreio II, Restinga, Sambódromo, Campinho e Metrô-Mangueira. Todas as comunidades foram avisadas das remoções de suas casas algumas horas antes do despejo. E diz que não houve apresentação de justificativas plausíveis em grande parte das remoções nem os detalhes dos projetos foram publicados.

No aspecto orçamentário aponta também falta de transparência. “A divulgação de aumento de gastos frequentemente ocorre muito tempo após ter sido efetuado e, mesmo assim, nem todos os valores são publicados. No caso da preparação para os Jogos Olímpicos, há apenas uma estimativa inicial de orçamento constando no dossiê de candidatura, mas os gastos poderiam efetivamente alcançar quase o dobro dessa estimativa, segundo depoimento do presidente da Autoridade Pública Olímpica, em 2012.”

Orçamento e Finanças

O dossiê chama atenção para o valor total de investimentos para a realização da Copa do Mundo no Rio de Janeiro, que já sofreu um aumento de 95% tendo como base os valores da Matriz de Responsabilidades. Os R$ 2,2 bilhões previstos inicialmente tornaram-se quase R$ 4,2 bilhões. E contesta a informação de que os Jogos Olímpicos e Paralímpicos do Rio de Janeiro em 2016 custarão cerca de US$ 12,5 milhões, elencando 21 projetos municipais ligados, ao menos no discurso, às Olimpíadas cuja soma de orçamento alcança nada menos do que R$ 22,6 bilhões.

“Chama atenção o fato das decisões relativas a esses investimentos não passarem por uma ampla discussão democrática, envolvendo todos os segmentos sociais, colocando em pauta o projeto de cidade que está construído”, conclui o documento, criticando, mais uma vez, a concentração de investimento público em áreas nobres.

O blog Copa Pública é uma experiência de jornalismo cidadão que mostra como a população brasileira tem sido afetada pelos preparativos para a Copa de 2014 – e como está se organizando para não ficar de fora.

 

]]>
http://www.apublica.org/2013/05/rio-viola-direitos-humanos-copa-do-mundo-2014-olimpiadas-megaeventos/feed/ 0
Pública Indica – 14-05-2013 http://www.apublica.org/2013/05/publica-indica-14-05-2013/ http://www.apublica.org/2013/05/publica-indica-14-05-2013/#comments Tue, 14 May 2013 15:06:45 +0000 admin http://www.apublica.org/?p=4248 http://www.apublica.org/2013/05/publica-indica-14-05-2013/feed/ 0 My Dear Henry http://www.apublica.org/2013/05/dear-henry/ http://www.apublica.org/2013/05/dear-henry/#comments Tue, 14 May 2013 15:00:52 +0000 admin http://www.apublica.org/?p=4243 No dia 22 de agosto de 1975, o ministro de Relações Exteriores do Brasil, Antônio Azeredo da Silveira, escreveu mais uma longa carta para seu colega Henry Kissinger, que havia meia década ditava a política externa americana. As dezenas de cartas trocadas entre os dois são carregadas de um afeto pouco comum em correspondências diplomáticas, e Silveira sempre as iniciava com um “Meu querido Henry”. Nessa carta, porém, o embaixador brasileiro deixa clara sua admiração.

Apesar de não podermos nos dar ao luxo de prazeres puramente intelectuais, eu quero te dizer, candidamente, que a franca e honesta troca de cartas tem sido, entre os problemas desconcertantes que nos afligem, uma fonte de satisfação no meu trabalho como ministro brasileiro das relações exteriores. 

Saudações afetuosas, Antônio

A carta marcava o fim de uma longa e próxima aliança entre os governos dos EUA e do Brasil – selada pela relação pessoal entre Kissinger e Silveira – que incluir articulações em diversos temas. Pouco depois de se conhecerem, em 1974, os dois se uniram refrear a volta de Cuba à OEA (de onde for a expulsa em 1962) como queriam países como México, Venezuela e Colômbia. O Brasil servia, na visão do secretário americano, como linha de apoio à sua política em relação a Cuba. Conseguiram, assim, moderar os países mais ansiosos por comercializar com a ilha comunista, protelando por um ano o fim do embargo na OEA, que impunha a proibição a qualquer país-membro de manter relações com Cuba.

Nas dezenas de documentos constantes da Biblioteca de Documentos Diplomáticos dos EUA, ou PlusD, do WikiLeaks, sobre o assunto, o governo brasileiro se mostra ainda mais radical do que os EUA, em relação à questão cubana; teve de ser convencido pelo próprio Kissinger a ter uma postura mais maleável nas negociações. A correspondência de 1975, Silveira defende medidas mais duras contra Cuba, chegando a repreender o amigo pelo fim das restrições de comércio entre subsidiárias de empresas americanas com Cuba.

A medida era vista pelo governo brasileiro como uma mudança de postura dos Estados Unidos – dentro da política de deténte, de amenização das tensões da guerra fria – que seria prejudicial à América do Sul. “Para nós, as questões fundamentais são, nesta ordem: 1) Se Cuba não constitui mais uma ameaça para a segurança dos outros membros do Tratado [do Rio, que estabelece a defesa recíproca dos membros da OEA], deixando de intervir diretamente ou indiretamente nos seus assuntos internos 2) Se Cuba está disposta a cooperar com outros países do sistema internamericano, adotando firmes compromissos nesse sentido”.

Desde o início de 1974, países latinoamericanos crescentemente descontentes com o embargo imposto dentro da OEA ameaçavam retomar relações comerciais, e com isso enfraquecer o Tratado do Rio. Em julho, Washington recebeu a notícia de que Colômbia e Venezuela estavam discutindo a adoção de uma medida unilateral em relação à Cuba. Em resposta, o chanceler da Costa Rica, Gonzalo Facio, iniciou uma empreitada em prol de uma reunião da OEA para levantar o embargo. Estava em jogo o esvaziamento do tratado do Rio, e portanto da própria OEA.

E os russos estavam cansados de Cuba

Por trás da iniciativa venezuelana estava, segundo contou seu próprio presidente, Carlos Andres Perez, a mão da União Soviética, que queria “se livrar do peso” de suprir petróleo a Cuba. “O que a URSS quer é parar de enviar o seu petróleo para Cuba e fazer com que a Venezuela se torne o principal fornecedor”, disse Perez em uma conversa privada com o embaixador dos EUA, Robert McClintock.

Segundo ele, os russos haviam traçado três possibilidades para essa estratégia. “Uma delas é engajar o governo espanhol, que mantém relações econômicas lucrativas com Cuba, sugerindo que o petróleo da Venezuela seja transferido para Cuba via Espanha, e os soviéticos completem a quantidade enviando o seu petróleo diretamente para a Espanha”. Outra opção seria estabelecer uma refinaria com petróleo venezuelano na antiga Ioguslávia, que seria exportado refinado para Cuba. “No entanto, a manobra mais fascinante dos soviéticos descrita pelo presidente Perez é a crescente pressão sobre Castro para que ele se reintegre ao sistema interamericano (…) suspendendo o bloqueio economico”, relatou o embaixador McClintock no dia 22 de julho.

É nesse momento que Kissinger se volta para o Brasil. No dia seguinte, pediu a seu embaixador em Brasília, Hugh Crimmins, que marcasse “uma reunião urgente” com Silveira. “Fatos recentes nos levam a esperar um desafio iminente e sério à manutenção das sanções na OEA”, escreveu Kissinger. “Conforme nosso acordo de ficar em contato com o governo brasileiros sobre esse assunto, queremos compartilhar nossas avaliações sobre a situação e consultá-los sobre novos passos”. Reiterando que a posição dos EUA “não havia mudado”, escreve: “Nossos objetivos imediatos são dois: A) Suspender qualquer defecção unilateral das sanções e B) Evitar qualquer reunião formal multilateral para tratar do assunto neste momento. Se necessário, podemos indicar que não vamos nos opor a uma reunião do conselho permanente da OEA para debater a questão das sanções a Cuba no final do ano – no fim de novembro ou dezembro”.

O americano apostava, com razão, que o governo Geisel não engoliria uma vitória diplomática de Fidel Castro. Não errou. O próprio Silveira explicaria que o pesadelo dos militares brasileiros era a volta de Cuba à OEA – o Brasil não queria de forma alguma restabelecer laços com o país. Silveira achava que “a real grande questão – readmissão ao sistema, com todos os seus problemas e implicações, não está recebendo atenção”, relatava o embaixador Hugh Crimmins em 30 de outubro. Ele mesmo já havia explicado em outro desapacho que, para os militares brasileiros, a discussão sobre o fim do embargo estava andando “com demasiada rapidez”. O assunto havia sido discutido no Conselho de Segurança Nacional em agosto, revitalizando, segundo Crimmins, “a linha mais dura, ou pelo menos mais cautelosa, do Ministério de Relações Exteriores sobre Cuba”.

A estratégia de Kissinger de não confrontar publicamente a empreitada agindo contra ela sorrateiramente e aproveitando-se do sentimento brasileiro foi bem-sucedida. No final do ano, como queriam os americanos, a questão foi levantada na reunião da OEA em Quito (de 8 a 12 de novembro) e os pró-Cuba foram derrotados na votação. Durante os meses que precederam a reunião, Kissinger manteve estreito contato com Silveira, através de cartas, encontros pessoais e da visita de um enviado especial a Brasília, o subsecretário para temas interamericanos Harry Shlaudeman.

Inteligência intuitiva”

Segundo o historiador Mathias Spektor, autor do livro “Kissinger e o Brasil”, Kissinger costumava brincar com seu colega brasileiro: “Você temuma inteligência intuitiva de primeira classe. Eu tenho uma inteligência analítica de primeira classe e uma inteligência intuitiva de terceira”.

Os dois se conheceram em 16 de abril de 1974, pouco depois de Silveira assumir o Itamaraty a convite do general Geisel, que assumia a pesidência do Brasil. No primeiro encontro, o americano soltou uma provocação, sua marca registrada: “Eu tive dificuldades com seu predecessor porque ele sempre falava de Cuba comigo. Qual é a sua opinião?”. “O senhor vai ter uma surpresa”, respondeu Silveira. “Cuba (…) é um problema de segurança do Estados Unidos. É uma ponta de lança contra vocês (…) Nunca mais vou falar de Cuba com o senhor, é o senhor quem vai querer falar de Cuba comigo’”. Segundo Mathias Spektor, trinta anos depois, Kissinger ainda repetiria que Silveira fora “incrivelmente brilhante” naquele dia.

Pouco depois, enviaria a primeira carta pessoal.

Caro Antônio,

Quero dizer-lhe quanto apreciei encontrá-lo e as nossas valiosas conversas… Tenho firme convicção de que devemos manter estreito contato em toda gama de assuntos de relevância para nós dois. Valorizo, mais do que sou capaz de demonstrar, a fraqueza com a qual você discutiu vários problemas comigo, incluindo a questão cubana, e você pode contar com igual fraqueza da minha parte… Escreverei para você novamente, de tempos em tempos, e anseio por dar continuidade à nossa estreita relação pessoal, que teve início tão auspiciosamente na semana passada, em cooperação.

Saudações afetuosas, Henry.

Nascia um vínculo pessoal que teria enorme importância para as relações Brasil-Estados Unidos. Para Mathias Spektor, Kissinger reafirmava o “desejo do governo americano de manter relações ‘especialmente próximas’ com o Brasil”, mas “insistia num arranjo, de facto, sem publicidade e sem manifestações públicas de alto perfil”. A chave era a amizade com Silveira.

No final de setembro de 1974, a relação entre os dois estaria mais estreita do que nunca. Em meio aos conchavos para impedir o fim do embargo a Cuba na OEA, Silveira viajou para os EUA, onde foi recebido pelo presidente Ford e se reuniu com Kissinger duas vezes – no Departamento de Estado, para um almoço oficial, e em Nova York, para um encontro informal.

Sra Kissinger e Sra Silveira se conhecem

Siliveira se referiu ao encontro em uma carta de 16 de outubro.

Meu querido Henry, desta vez você não estará em posição de me culpar por não responder as suas cartas. Eu recebi a sua mensagem (…) e estou muito grato. Aprecio muito a sua atenção em escrever para mim em meio ao trabalho preparatório para sua viagem ao Oriente Médio. Meus parabéns pelo sucesso alcançado, o que para mim jamais é uma surpresa”, escreveu, acrescentando: “Quero agradecer pela sua generosidade em me receber em Nova York no dia 23 de setembro. Minha esposa apreciou profundamente conhecer a Sra Kissinger, charmosa como sempre. Eu, da mesma maneira, considero como altamente recompensadora a troca de visões que tivemos naquela ocasião, e a franca e abrangente conversa que tivemos no almoço no Departamento de Estado, no dia 28 de setembro, foi particularmente útil.

Em resposta, Kissinger escreveu: “Querido Antônio: Muito obrigada pela sua resposta à minha carta. Você foi, como sempre, gracioso e direto. Nosso encontro de 23 de setembro em Nova York foi realmente muito agradável. Nancy e eu gostamos muito de conhecer a Sra Silveira. Nós dois esperamos ansiosamente retomarmos nossos contatos no próximo ano”.

Naquele almoço, ficou decidido que as consultas sobre a questão cubana deveriam ser mais frequentes e diretas. Kissinger explicou que, se era inevitável uma mudança na OEA, “seria mais fácil que os EUA seguissem uma maioria” em vez de mudar de posição. Manteriam, assim, silêncio sepulcral. Ele reforçou ainda que queria acompanhar o Brasil no assunto. “Nós não iremos além de nos abster”, disse Kissinger. “Os EUA querem seguir a liderança brasileira nessa questão”. Silveira respondeu que o Brasil também se absteria, mas reiterou o tema era “de importância doméstica no Brasil, obnde há grupos opostos ao reconhecimento de Cuba”. Horas depois, Kissinger prepararia o presidente Ford para se encontrar com Silveira da seguinte maneira: “Os brasileiros são bem-comportados. Eles estão mostrando suas garras um pouco, mas são bons amigos. Diga-lhe que o Brasil é um país-chave e que vamos coordenar nossa política com eles”.

Tramando juntos

Manobrando com o Brasil nos bastidores, Kissinger conseguiu esvaziar a proposta de queda das sanções na OEA. Na reunião em Quito, entre 8 e 12 de novembro, Uruguai, Paraguai e Chile votaram contra o fim do embargo, seis (inclusive EUA e o Brasil) se abstiveram, e doze votaram a favor – dois a menos do que os 2/3 necessários. A manobra americana foi questionada com uma intervenção emocionada do chanceler colombiano, Enrique Gaviria, segundo um documento diplomático sobre uma reunião a portas fechadas.

Gaviria, de maneira bastante emocional, questionou o silêncio da delegação americana”, descreve cinicamente o assessor direto de Kissinger, o subsecretário de Estado Robert Ingersoll. “Eu respondi que ficamos em silêncio em público porque não queríamos passar a impressão de tentar influenciar outras posições”, relata, no documento diplomático. “E reforcei que os EUA foram criticados no passado por influenciar outras delegações em reuniões similares e, por essa razão, adotaram essa posição. Então disse que os EUA iriam se abster em qualquer proposta, e acrescentei que achava que a nossa posição era conhecida por todos”.

No dia seguinte, logo depois depois da votação final, Silveira encontrou-se com Ingersoll durante 20 minutos no hall de conferência. Ambos comemoravam. “Silveira expressou sua satisfação com os resultados, embora tenha dito que não falaria isso em público. A conferência foi mal preparada pelos que a convocaram”. Kissinger, que falara com Ingersoll naquela manhã, concordava. “A reunião veio antes do tempo”. Silveira comentou ainda que todos os ministros apreciaram a “nova” postura americana de deixar os governos latinoamericanos “expressar suas visões” e tomar posições”. “O importante, ele disse, era forçar Castro a negociar em vez de lhe dar o que ele quer em uma bandeja de prata”.

Levaria ainda oito meses para que as sanções a Cuba na OEA fossem suspensas, em julho de 1975, permitindo a qualquer país do continente comercializar com a ilha – e 35 anos antes que Cuba fosse convidada a se reintegrar à OEA, com a revogação oficial do ato de expulsão. Quando finalmente, em 3 de junho de 2009, a OEA decidiu convidar Cuba a se reintegrar à organização, o governo de Raul Castro rejeitou a proposta. “Cuba não pediu nem quer retornar à OEA, cheia de uma história tenebrosa e entreguista”, escreveu o governo cubano em um comunicado.

Leia mais: Desfecho de caso Elbrick irrita Kissinger           

Leia mais: Conheça o PlusD, a Biblioteca de Documentos Diplomáticos do WikiLeaks

Leia mais: Para justificar assistência militar à ditadura, EUA diziam que tortura era exceção

Leia mais: Ligações perigosas: a DEA e as operações ilegais da PF brasileira

 

]]> http://www.apublica.org/2013/05/dear-henry/feed/ 0 Pública Indica 13-05-2013 http://www.apublica.org/2013/05/publica-indica-13-05-2013/ http://www.apublica.org/2013/05/publica-indica-13-05-2013/#comments Mon, 13 May 2013 17:49:36 +0000 admin http://www.apublica.org/?p=4237 http://www.apublica.org/2013/05/publica-indica-13-05-2013/feed/ 0 “Vou bombar para cobrar mais na Copa” http://www.apublica.org/2013/05/vou-bombar-para-cobrar-mais-na-copa/ http://www.apublica.org/2013/05/vou-bombar-para-cobrar-mais-na-copa/#comments Fri, 10 May 2013 12:00:54 +0000 admin http://www.apublica.org/?p=4233 Muito antes de Fortaleza ser confirmada como cidade sede da Copa do Mundo de 2014, as travestis Carla e Luana*  já trabalhavam nas imediações da imponente Arena Castelão, área histórica de prostituição na cidade. Nas avenidas que rodeiam o estádio e em algumas ruas que adentram os bairros pobres da região, elas, as colegas e prostitutas dividem as calçadas e os clientes em busca de programas que custam de 5 a 50 reais.

Durante a tarde de uma segunda-feira quente e seca, típica de abril nordestino, quando acompanhei o trabalho do pessoal da Associação Barraca da Amizade (ONG que há 26 anos atende e acolhe crianças e adolescentes em situação de rua e desde 2009, a pedido das meninas e meninos, também desenvolve um trabalho de combate a exploração sexual) o movimento não era tão grande – duas prostitutas e três travestis se esgueiravam pelas poucas sombras oferecidas pelos muros altos de uma grande empresa, perto de uma rotatória, fugindo do calor. Carla e Luana descansavam em casa de uma noitada de diversão. Sem cafetinas a quem prestar contas, as duas podem fazer seu horário de trabalho. As que estavam na pista, eram abordadas pelos educadores da Barraca, que distribuem preservativos e gel lubrificante como forma de redução de danos e de aproximação.

“Hoje, além das mulheres e adolescentes, trabalhamos com 30 travestis aqui da área, levando insumos, marcando exames nos postos de saúde, oferecendo cursos profissionalizantes e atendendo a algumas demandas delas. Há pouco tempo nós conseguimos, após articulação com orgãos oficiais, a transferência de um médico que fazia piadas homofóbicas com as travestis de um posto de saúde da região. Esses resultados ajudam a fortalecer essa confiança no nosso trabalho” explica Paulinha, como a assistente é carinhosamente conhecida entre as travestis. Por confiarem em Paulinha, Carla e Luana abriram as portas de sua casa próxima à Arena e me receberam para falar sobre suas expectativas e medos com a chegada da Copa e também sobre um fenômeno que têm crescido com a aproximação do megaevento na cidade:

A viagem do silicone

“Eu vou agora em julho para São Paulo botar silicone no peito, 450, 500 ml em cada. Também vou bombar de novo [por mais silicone industrial no corpo]: bunda, quadril, perna e joelho. Aí na Copa eu vou cobrar mais” diz Carla, 25 anos, que há 10 se prostitui no entorno do Castelão, apontando para as partes do corpo que pretende aumentar. “O silicone industrial dói demais, você fica pra morrer! A mulher injeta e vai fazendo uma massagem para ele espalhar. Mas é a dor da beleza, né?” Ela afirma que foi para a “pista” com 15 anos porque quis, assim como a amiga Luana, de 22 anos, que diz ter começado a fazer programas aos 17 também por opção. “Eu fui uma das primeiras a chegar aqui no Castelão. Hoje a coisa está feia, tem muita postituta fumando pedra e isso queima nosso filme. Ao mesmo tempo que a gente espera que a Copa aumente o movimento, tem medo que a polícia queira limpar a área. Você acha que o prefeito vai querer mostrar isso para os gringos?” pergunta. “Mas a gente é atrevida, se me tirarem daqui vou para ali!” Sua deficiência visual parece não atrapalhar o trabalho ou seus planos e nunca é mencionada. “Peitão e bundão chamam a atenção aqui. Em São Paulo não, porque as mariconas sabem que trava que é muito bombada, é mais rodada, preferem as com carinha de menino. Mas aqui no Ceará quem tem peitão é mais procurada” diz entre um comentário e outro sobre a reprise da novela que está passando na televisão.

Luana, que já foi para São Paulo colocar as próteses, explica como funciona: “Tem as cafetinas que levam a gente, pagam a passagem e a operação em uma clínica clandestina. Deve sair uns dois mil reais para elas. Aí ela cobram o dobro ou o triplo e mais uma diária de 30 a 50 reais para a gente morar na casa delas e a gente vai trabalhando para pagar. Trabalha muito, muito mesmo”.

Carla acrescenta: “Eu já fui fazer programa em São Paulo. É bom porque você ganha mais, mas por outro lado você tem que trabalhar de qualquer jeito, mesmo se estiver doente, não importa. Ninguém vai te dar um remédio. Eu já vi umas travestis apanharem de pau de uma cafetina”.

Segundo as duas, o movimento entre as cidades aumenta a cada dia: “Só essa semana, fiquei sabendo de quatro que foram. Mês que vem sei de mais cinco. É muita travesti botando peito” diz Luana. Ela conta que pagou três mil reais por suas próteses de cerca de 400 ml porque era conhecida da cafetina e que ficou oito meses trabalhando em São Paulo para pagar a dívida. Muitas acabam não voltando porque viram dependentes químicas da cocaína – que ajuda a aguentar o trabalho intenso e é mais acessível na cidade – e não conseguirem pagar suas dívidas. Uma delas fugiu da casa onde estava e neste momento está desaparecida, como me contaria depois Marcela, que conheci já em São Paulo.

Lídia Rodrigues, outra educadora da Barraca da Amizade, conta que algumas travestis chegam a fazer de 30 a 40 programas por dia em São Paulo e que os educadores têm percebido que este trânsito para a capital paulista está se intensificando: “Não dá para afirmar que é somente por causa da Copa, mas elas sabem que virão muitos turistas e muitos homens para a área. Ao mesmo tempo a gente tem medo de uma higienização massiva. Provavelmente o termômetro disso vai ser a Copa das Confederações”.

Tráfico de Pessoas

Lívia Xerez, coordenadora Estadual do Núcleo de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas da Secretaria de Justiça e Cidadania do Estado do Ceará diz que, apesar do discurso das travestis de que fazem a viagem por vontade própria, a situação pode ser considerada sim como tráfico de pessoas.“Por mais que elas não denunciem ou achem que estão indo porque querem, o protocolo de Palermo define o tráfico de pessoas como ‘o recrutamento, o transporte, a transferência, o alojamento ou o acolhimento de pessoas, recorrendo à ameaça ou uso da força ou a outras formas de coação, ao rapto, à fraude, ao engano, ao abuso de autoridade ou à situação de vulnerabilidade ou à entrega ou aceitação de pagamentos ou benefícios para obter o consentimento de uma pessoa que tenha autoridade sobre outra para fins de exploração’. Neste caso, elas seriam as vítimas e os aliciadores os criminosos” explica, referindo-se ao protocolo da ONU contra o Crime Organizado Transnacional, que foi ratificado pelo governo brasileiro em 2004.

Ainda há muito preconceito e medo por parte das próprias vítimas em denunciar os aliciadores, diz Livia: “Elas são ludibriadas com promessas de uma vida nova, por vezes luxuosa, de ganhar mais dinheiro e por isso não conseguimos chegar. Muitas também têm medo, talvez por sermos um aparelho oficial, de que serão criminalizadas, quando na verdade elas são as vítimas. Por isso ainda não conseguimos provas de que isso têm aumentado por conta da Copa, apesar de termos fortes suspeitas”.

Outro fator que impulsiona o tráfico é a falta de alternativas profissionais para as travestis, explica Lídia: “Nós temos uma parceria com o programa Vira Vida do SESI, que dá cursos profissionalizantes para elas mas, no fim das contas, quantas empresas contratam travestis? Nós trabalhamos com muitos garotos que nem eram travestis, eram apenas homossexuais, mas foram colocados para fora de casa e apareceu uma cafetina que ofereceu dinheiro caso eles se montassem. Para a juventude não existem políticas públicas em Fortaleza como existem para crianças e adolescentes – que ainda assim são escassas. As travestis têm o discurso da emancipação, como se a prostituição fizesse parte da própria identidade de ser travesti. Mas nem todas estariam ali se tivessem outras opções”.

“Me senti como a presidente Dilma”

Marcela*, 22 anos, cabe no exemplo dado por Lídia. Após cursos profissionalizantes e várias tentativas de arrumar um emprego, ela acabou indo para a rua. Quando nos encontramos de manhã em um shopping do centro de São Paulo para conversar, a cearense arrastou todos os olhares masculinos para seu belo corpo, comprado através do esquema citado por Carla e Luana. “Vim para São Paulo em abril do ano passado. Paguei o silicone do corpo em três meses, coloquei mais, paguei em um mês e a prótese do peito quitei em 20 dias” orgulha-se a travesti, que trabalha das dez da manhã às nove da noite com pausa para o almoço, em um cinema pornô do centro da cidade. “Chego a tirar oito mil reais por mês mas trabalho muito e não saio nem uso drogas. Todo o meu dinheiro vai para a minha mãe e para o banco porque quero comprar uma casa”.

Marcela conta que descobriu sua homossexualidade aos 13 anos e que por algum tempo escondeu a opção da mãe e das quatro irmãs. “Eu sentia muito medo de como elas e a sociedade iriam reagir. Mas não tinha outro jeito, era quem eu era. Então contei e elas até que aceitaram bem”. Já o processo de travestilidade foi mais difícil: “ Minha mãe ameaçou me botar para fora de casa, dizia que eu nunca iria arrumar emprego, não aceitou”.

Ela conta que chegou a se prostituir aos 17 anos mas que preferia trabalhar. Conseguiu uma bolsa de estudos através do programa Vira Vida e passou um ano e meio estudando de manhã e fazendo o curso a tarde. “Eu sempre gostei de fazer cursos, estudar, queria trabalhar com carteira assinada, nunca quis fazer programa” lembra. Marcela diz que chegou a arrumar um emprego em uma firma de lingerie, mas que foi mandada embora quatro meses depois porque adoeceu “e o patrão não aceitou os atestados médicos”. Daí em diante, aceitou trabalhar recebendo metade do salário de outros funcionarios de uma empresa mas em determinado momento não pôde mais se sustentar com o pouco que ganhava e não achou mais trabalho: “Todas as portas se fecharam para mim. Não tive outra opção a não ser ir para a rua. Se eu pudesse, escolheria outra vida. Como não posso, me concentro e trabalho muito para poder juntar algum dinheiro para um dia abrir um negócio. Vou ficar velha e ninguém mais vai me querer”.

Vaidosa, maquiada e bem vestida, Marcela conta que hoje paga 30 reais a diária para a cafetina dona da casa onde mora e mais 30 reais a diária do cinema, de onde a cafetina é sócia, mas que pretende sair da casa da aliciadora e alugar um quarto com mais três colegas de Fortaleza para poder atender aos clientes durante a Copa.

“Eu tenho anúncios em sites e também quero ir para a rua na época da Copa. São Paulo estará cheia de gringos e mesmo brasileiros de outros estados, quero aproveitar”. Para ter lucros mais altos, Marcela assume que já fez sexo sem preservativo: “Tem gente que paga o dobro e até o triplo do valor para transar sem camisinha, aí eu acabo fazendo. Estou com medo de fazer o exame [de HIV], mas sei que a saúde vem em primeiro lugar” se contradiz.

Após a Copa, Marcela pretende ir para a Europa, ganhar em euro. “Já falei com uma pessoa que leva travestis para lá. Ela cobra 10 mil reais para passar a gente”. Pergunto se ela não tem medo. “Que nada, é a mesma coisa daqui, só que ganhando em euro”. Voltar para Fortaleza, só mesmo de férias, como foi há poucos meses: “Nossa, me senti uma celebridade lá, me senti como a presidente Dilma! Todo mundo vinha falar comigo, ver como eu mudei, até as pessoas que falavam mal de mim viram que eu conquistei”. Com o dinheiro arrecadado na Copa mais o que pretende conseguir na Europa, Marcela pretende aproveitar o sucesso para aí sim voltar para o Ceará e abrir seu negócio. Um salão de beleza ou uma loja de roupas, porque adora moda. Olhando para o relógio, ela se despede. É hora de voltar para o cinema.

*Os nomes foram trocados para segurança das personagens

 O blog Copa Pública é uma experiência de jornalismo cidadão que mostra como a população brasileira tem sido afetada pelos preparativos para a Copa de 2014 – e como está se organizando para não ficar de fora.

 

 

]]>
http://www.apublica.org/2013/05/vou-bombar-para-cobrar-mais-na-copa/feed/ 0
Doença renal misteriosa da América Central pode estar ligada a agrotóxicos http://www.apublica.org/2013/05/doenca-renal-misteriosa-da-america-central-pode-estar-ligada-agrotoxicos/ http://www.apublica.org/2013/05/doenca-renal-misteriosa-da-america-central-pode-estar-ligada-agrotoxicos/#comments Thu, 09 May 2013 12:00:22 +0000 admin http://www.apublica.org/?p=4224 Uma doença renal misteriosa que atinge camponeses em El Salvador e outros países da América Central mobiliza os ministérios de saúde da região. No dia 27 de abril, foi assinada em El Salvador uma declaração conjunta qualificando o combate da doença como de alta prioridade para a saúde pública e definindo uma série de ações nesse sentido.

Nos últimos dois anos, o Center for Public Integrity tem denunciado um tipo raro de doença renal crônica (DRC) que está matando milhares de camponeses da costa do Pacífico da América Central, do Sri Lanka e da Índia. Cientistas ainda não desvenderam completamente a causa desse mal, ainda que provas recentes apontem metais pesados tóxicos contidos em pesticidas como potenciais culpados.

Depois de anos sem iniciativas oficiais dos Estados Unidos e de outros lugares, a declaração feita em San Salvador reconheceu formalmente – pela primeira vez – a existência da doença e os grupos que afeta: “comunidades agrícolas socialmente vulneráveis ao longo da costa do Pacífico na América Central”, assinala a declaração aprovada pelo Conselho de Ministros da Saúde da América Central. E acrescenta: “É predominante entre homens jovens e tem sido associada a ambientes tóxicos e fatores ocupacionais de risco, desidratação e hábitos nocivos para a saúde renal”.

Entre ações anunciadas estão a realização de estatísticas mais detalhadas da DRC, o desenvolvimento de planos regionais e nacionais para investigar e tratar a doença e a promoção de medidas regulatórias mais fortes para o uso de agrotóxicos.

Um mal que afeta os pobres

A declaração representou uma grande vitória para El Salvador e sua ministra da saúde, a Dra. Maria Isabel Rodriguez. Essa senhora de noventa anos, um metro e meio de altura e os olhos cobertos por enormes óculos, tem sido a força motriz que catapultou a doença da obscuridade para um reconhecimento formal como principal ameaça à saúde pública na região.

“Essa é uma doença de pessoas pobres”, diz Rodriguez. “Uma doença de pessoas que trabalham nos campos e tem condições de vida muito ruins”.

O resultado marcou uma reviravolta nos Centros dos Estados Unidos para Controle e Prevenção de Doenças (CDC, na sigla em inglês), que em 2011 ajudaram a derrotar um esforço de El Salvador para declarar prioridade ao tratamento da doença. O CDC diz agora que dedicou “centenas de milhares” de dólares para apoiar a investigação sobre a doença, criou uma força-tarefa multidisciplinar interna na América Central, e se comprometeu a ajudar no financiamento de uma pesquisa nacional em El Salvador para medir a relevância de doenças crônicas, incluindo a DRC.

“Nós temos o compromisso de dar apoio para acompanhar e fortalecer as investigações dos ministérios de saúde,” diz Dr. Nelson Arboleda, o diretor do CDC para a Região da América Central.

A conferência de San Salvador também marcou um limiar na cooperação internacional para o combate a essa doença misteriosa. Após anos de luta de pesquisadores na América Central tentando estabelecer uma ligação entre enfermidade semelhante na Ásia, o Sri Lanka enviou uma delegação oficial para El Salvador e pediu que a América Central considerasse os resultados das pesquisas e as políticas de combate à doença no país asiático como modelos para ações futuras na América Central.

“Nós temos provas clínicas, bioquímicas e histopatológicas o suficiente para dizer que se trata da mesma doença,” afirma Channa Jayasumana, representante do Sri Lanka na conferência que aconteceu em El Salvador.

No Sri Lanka, de acordo com um relatório oficial, mais de 8 mil pacientes estão recebendo tratamento por DRC de causa desconhecida, um número que representa apenas uma fração da quantidade de pessoas afetadas pela doença, que fica em estado latente até seus estágios avançados. Mais de 16 mil homens morreram de falência renal na América Central de 2005 a 2009. As mortes anuais mais que triplicaram desde 1990, de acordo com análise dos dados coletados pela Organização Mundial de Saúde. Em El Salvador, a DRC se tornou a principal causa de mortes hospitalares entre os homens adultos.

Resultados toxicológicos semelhantes entre os continentes

Um debate acirrado dominou a conferência de dois dias que culminou na assinatura da declaração. A questão central era se havia provas suficientes para declarar que a doença está ligada a agrotóxicos e da necessidade derestringir o seu uso para combatê-la. El Salvador apresentou os resultados oficiais de um estudo em curso, realizado em conjunto com a Organização Pan-americana de Saúde, sugerindo que os pesticidas e fertilizantes que contém metais pesados pdem ser a principal causa da doença. Testes de meio ambiente, com amostras do solo e da água de um vilarejo fortemente afetado pela DRC, Ciudad Romero, registraram a presença de altos níveis de cádmio e arsênico, metais pesados tóxicos aos rins. No estudo, dos 42 moradores de Ciudad Romero que sofrem de DRC, todos relataram aplicar pesticidas sem nenhum equipamento de proteção.

Da amostra nacional de 46 pacientes com DRC, 96% relatou o uso de pesticidas, e exames médicos desses pacientes revelaram sintomas adicionais, tais como deficiência de reflexos e danos às artérias dos membros inferiores, o que sugere envenenamento tóxico.

As descobertas da pesquisa em El Salvador coincidem com as do Sri Lanka. Um estudo oficial realizado pelo Ministério de Saúde do Sri Lanka, este em parceria com a Organização Mundial de Saúde, registrou níveis elevados de cádmio e arsênico contidos em agrotóxicos e nas amostras de meio ambiente coletadas na região endêmica. O estudo encontrou os mesmos metais pesados nas amostras de urina, cabelo e unhas dos pacientes. O Sri Lanka também encontrou resíduos de diversos pesticidas na urina de muitos dos pacientes afetados.

Desde a publicação desse relatório, o governo do Sri Lanka impôs uma proibição de quatro pesticidas de uso comum na região endêmica. Rodriguez, ministra da saúde de El Salvador, também espera banir os mesmos pesticidas que as pesquisas ligam à epidemia.

Outros pesquisadores, porém, questionaram o peso das provas apresentados nesses trabalhos. Em El Salvador, os níveis de arsênico e cádmio acima dos permitidos foram encontrados em proporção diferente em locais diversos de Ciudad Romero – o que, segundo os críticos, enfraquece as provas de contaminação generalizada. O país ainda precisa concluir os testes toxicológicos que irão determinar se os metais pesados encontrados no sangue, urina ou amostras de tecidos de pacientes com DRC vieram realmente dos pesticidas tanto no Sri Lanka como em El Salvador. Apesar do paralelo contundentes os relatórios dos dois países, em mais de uma década de pesquisas, nenhum estudo cuidadosamente revisado estabeleceu uma ligação definitiva com agrotóxicos.

“Ainda não existe uma conexão causal direta,” diz o Dr. Ramon Trabanino, um nefrologista salvadorenho que publicou dois dos primeiros estudos que demonstram a presença da doença. “Eu acho que isso tudo é política. Eles querem algo para julgar a culpa.”

A polêmica surgiu na parte final da conferência científica. O debate foi concluído por Rodriguez, que apresentou uma defesa enérgica das descobertas salvadorenhas.

“O que foi apresentado aqui é um fato científico, e vou defendê-lo com minhas unhas,” disse ela, levantando as unhas pintadas de vermelho e levando o salão às risadas.

Agrotóxicos muito usados no mundo

Dois produtos químicos, em particular, entraram na mira dos pesquisadores tanto em El Salvador quanto no Sri Lanka, o 2,4-D e o glifosato. 2,4-D é um herbicida comum usado para controlar ervas e o glifosato é o ingrediente ativo do herbicida mais popular do mundo, o Roundup. Ambos são usados no mundo inteiro, inclusive em inúmeras áreas não afetadas por essa forma estranha de doença renal crônica.

Os testes com pacientes em El Salvador, na Ciudad Romero — a comunidade contaminada por metais pesados — revelou que 100% e 75% dos pacientes, respectivamente, relataram usar 2,4D e glifosato. No Sri Lanka, resíduos de ambos os produtos foram encontrados em amostras de urina de alguns pacientes doentes.

O glifosato foi desenvolvido pela Monsanto, mas a patente expirou e agora várias empresas vendem os produtos com esse componente. A Monsanto afirma que atualmente vende produtos com glifosato no Sri Lanka, mas não confirma se eles também são vendidos na América Central.

Dr. Daniel Goldstein, um membro sênior do setor científico na Monsanto, diz que o “glifosato não causa falência renal”. Ele diz que estava ciente das descobertas do Ministério da Saúde no Sri Lanka e que o glifosato contém fósforo, um elemento cuja similaridade molecular com o arsênico pode resultar em pequenas quantidades de subproduto de arsênico, que não ameaçam a saúde humana. Mas a “plausibilidade da relação é praticamente nula” entre o glifosato e a epidemia de doença renal no Sri Lanka, segundo Goldstein.

A Dow Chemical, que desenvolveu o 2,4-D, não respondeu às perguntas feitas pelo Center for Public Integrity. Como o glifosato, a patente da produção expirou e outras empresas também fabricam pesticidas que contém o 2,4-D.

De acordo com a Agência de Proteção do Meio Ambiente, quantidades excessivas de glifosato e de 2,4D na água potável podem causar danos aos rins. Mas ainda não foram feitas muitas pesquisas sobre outros tipos de exposições e efeitos em longo prazo em seres humanos.

“Estou chocada com o quão pouca [pesquisa] existe sobre os efeitos em seres humanos,” diz a Dra. Stephanie Seneff, uma pesquisadora cientista sênior do Instituto de Tecnologia de Massachussetts (MIT). Seneff publicou um estudo que levanta preocupações sobre a variedade de possíveis efeitos à saúde para aqueles que se expõe por muito tempo ao glifosato.

Cientistas das equipes de pesquisa de El Salvador e do Sri Lanka também suspeitam que os aditivos tóxicos dos pesticidas, ou combinações perigosas de produtos químicos, podem trazer riscos adicionais à saúde além daqueles apresentados pelos produtos.

Em uma entrevista em San Salvador, Rodriguez reagiu com surpresa à colocação da Monsanto de que o glifosato não ameaça os rins. “Ah, Monsanto!” disse ela, com um olhar de consternação. “São eles que irão enfrentar a gente”.

Colaborou Anna Barry-Jester. Essa reportagem foi apoiada pelo Stabile Center for Investigative Journalism, da Universidade de Columbia. Leia aqui a original, em inglês.

]]>
http://www.apublica.org/2013/05/doenca-renal-misteriosa-da-america-central-pode-estar-ligada-agrotoxicos/feed/ 0