Pública » Últimas Reportagens http://www.apublica.org AGÊNCIA DE REPORTAGEM E JORNALISMO INVESTIGATIVO Wed, 19 Jun 2013 18:44:17 +0000 pt-BR hourly 1 http://wordpress.org/?v=3.5.1 Copyright © Agência Pública - Centro de Jornalismo Investigativo Independente 2011 viana.natalia@gmail.com (Pública) viana.natalia@gmail.com (Pública) http://apublica.org/wp-content/plugins/podpress/images/powered_by_podpress.jpg Pública http://www.apublica.org 144 144 Just another WordPress site Pública Pública viana.natalia@gmail.com no no Por que protestam contra a Copa http://www.apublica.org/2013/06/por-protestam-contra-copa/ http://www.apublica.org/2013/06/por-protestam-contra-copa/#comments Wed, 19 Jun 2013 18:37:35 +0000 admin http://www.apublica.org/?p=4550 Custo x Legado

 Foto: Tasso Marcelo / AFP

Já foram gastos 27,4 bilhões de reais na Copa e a previsão atual é de custo total de 33 bilhões, uma quantia que se aproxima do total do orçamento federal em educação para este ano: 38 bilhões de reais. Uma priorização de recursos que a população questiona nas ruas, assim como a concentração do dinheiro público na construção de estádios, em muitos casos, como em Manaus e Cuiabá, “elefantes brancos” sem futuro aproveitamento.

Além disso, as obras de mobilidade urbana – apresentadas pelo governo como o principal legado para as cidades-sede – atualmente orçadas em 12 bilhões de reais – privilegiam os acessos viários para carros (viadutos, alargamentos de avenidas) e a rota aeroportos-hoteis-estádios que não é necessariamente a prioritária para a mobilidade urbana no cotidiano das cidades. Um exemplo claro é Itaquera, onde as obras reivindicadas pela comunidade foram suspensas enquanto se investe a todo vapor nas obras de acesso ao estádio. Promessas em investimento em transporte público, como a construção do metrô de Salvador e o Monotrilho da linha Ouro em São Paulo foram retiradas da Matriz de Responsabilidades (o orçamento federal para a Copa) e o transporte público chegou a ser prejudicado no Rio de Janeiro, onde os moradores e comércio sofrem com a falta do tradicional bondinho – que não circula desde 2011 – depois de um acidente denunciado pelos moradores como resultante de um projeto equivocado de modernização (que teve de ser refeito e ainda não está pronto)

Por fim, as obras de mobilidade urbana são as principais responsáveis pelas remoções de comunidades, ameaças ambientais e perda de equipamentos públicas.

 

Remoções violentas e Demolições indesejáveis

 Foto: Reuters

 

Os movimentos sociais contabilizam 170 mil pessoas ameaçadas ou já removidas e/ou recebendo indenizações de 3 a 10 mil reais, para os que comprovam a propriedade do lote, e bolsas-aluguel de menos de 1 salário mínimo para os demais. Não raro os despejos são feitos de forma violenta, sem transparência nem diálogo entre poder público e moradores.  No morro da Providência no Rio de Janeiro, por exemplo, as pessoas descobriram que seriam expulsas quando suas casas apareciam marcadas, sem nenhuma negociação prévia.

Além das casas, os moradores perdem também suas comunidades, em alguns casos centenárias, amigos, vizinhos, tradições. Via de regra são enviados para longe de suas raízes e cotidiano e perdem a infraestrutura urbana dos bairros mais centrais, caso por exemplo, da ameaçada comunidade da Paz, em Itaquera, São Paulo. As indenizações recebidas são muito menores que os preços de aluguéis e imóveis nos bairros atingidos pelas obras da Copa, forçando a ida para longe também dos que podem decidir seu rumo. A especulação imobiliária em torno dos estádios e melhorias feitas para tornar a cidade mais atraente para os turistas expulsam moradores que seriam beneficiados pela evolução, dos morros  Rio de Janeiro à zona leste de São Paulo, agravando o problema extenso de carência de moradias nas grandes cidades brasileiras.

O patrimônio social e cultural também foi prejudicado, como mostrou a expulsão de representantes das etnias indígenas que ocupavam o antigo Museu do Índio, no Rio de Janeiro,reconhecido pelos antropólogos como marco da relação entre indios e brancos no Brasil, o histórico estádio do Maracanã foi descaracterizado por uma reforma que já custou 1,2 bilhões aos cofres públicos e acompanhado da destruição de equipamentos públicos esportivos, como o ginásio Célio Barros para construir estacionamentos e acessos viários em torno do estádio.

 

Legislação de exceção para cumprir as exigências da FIFA


Foto: Getty Images

Desde que o Brasil fechou o acordo com a FIFA, o governo vem criando leis por Medidas Provisórias para assegurar os interesses da FIFA e de seus parceiros (Lei Geral da Copa), permitir que Estados e Municípios se endividem além do exigido pela Lei de Responsabilidade Fiscal para investir em obras da Copa, abreviar licenciamento ambiental e dispensar licitações.

Alguns exemplos do prejuízo que essa legislação traz para a população:

- as zonas de exclusão: a FIFA estabelece uma área em um raio de até 2 quilômetros em volta do estádio -  a zona de exclusão -  como seu território. Ali controla a circulação de pessoas, a venda de produtos, fiscaliza o uso de marcas que considera suas – o próprio nome do evento Copa 2014 e o mascote, entre outros –  protege a exclusividade de venda dos produtos de seus patrocinadores – da cerveja ao hamburger – e se encarrega da segurança. Segundo a ONG Streetnet, na África do Sul 100 mil ambulantes perderam a fonte de renda durante a Copa e situação semelhante  – caracterizada como violação ao direito ao trabalho e perseguição por trabalhar em espaço público – está prevista no Brasil onde mais de mil ambulantes já perderam postos de trabalho por causa das obras da Copa, principalmente em Belo Horizonte, Brasília, Cuiabá, Fortaleza e Porto Alegre

isenções fiscais, exceções legais: a criação de punições e tipificação de crimes para proteger os interesses da FIFA e seus parceiros – que pune por exemplo, quem utiliza símbolos da Copa para promover eventos em bares e restaurantes ou que fere a exclusividade das marcas da FIFA – é um dos  abusos permitidos pela Lei Geral da Copa, que também isenta de impostos uma série de entidades e indivíduos indicados pela FIFA prejudicando as receitas do país que arca até com toda a responsabilidade jurídica em acidentes/incidentes, danos e processos, incluindo o pagamento dos advogados da FIFA e parceiros.

- obras estaduais e municipais faraônicas e/ou contra os interesses da população: o caso mais gritante é da construção de um Aquário em Fortaleza , sem laudo arqueológico e com diversas falhas no EIA-Rima, a um custo superior a 280 milhões de reais enquanto o Ceará vive uma de suas piores secas. Em São Paulo, no Rio de Janeiro, Salvador e outras cidades-sede os governos estaduais e municipais também participam do investimento em dinheiro público em estádios que serão posteriormente explorados pela iniciativa privada . Em Natal, a construção do estádio põe em risco as dunas, e em Recife uma área até então preservada está sendo completamente alterada para instalar equipamentos relacionados à Copa, como hotéis e centros de apoio ao estádio.

superfaturamento, custos elevados e desvios de recursos públicos: as sete maiores empreiteiras do Brasil – que são também as principais doadoras de recursos eleitorais para os principais partidos e políticos – beneficiaram-se da Lei 12.462/2011 RDC – Regime Diferenciado de Contratações Públicas – para determinar preços, aumentá-los através de cláusulas e aditivos frequentemente justificados pelo ritmo das obras e pela reformulação de projetos equivocados. O TCU já comprovou irregularidades na arena Amazonas, na reforma do Maracanã, na construção do estádio em Brasília, no aeroporto de Manaus. O Ministério Público do Distrito Federal entrou com ação contra superfaturamento e outras irregularidades no VLT de Brasília.

 


Violação ao direito à informação e à participação política

Imagem: divulgação ANCOP

Os movimentos sociais denunciam no Dossiê de Violações de Direitos Humanos que também o direito à informação e à participação nos processos decisórios são “atropelados por autoridades FIFA, COI e comitês locais” porque “projetos associados à Copa e às Olimpiadas não são objeto de debate público”. A falta de informações e debate sobre os projetos, que não raro desrespeitam os planos diretores aprovados nas câmaras municipais, que atingem comunidades e bairros é denunciada por movimentos sociais em todas as cidades-sede. Associações de moradores também se queixam de audiências públicas pró-forma e da inexistência de mecanismos mais eficazes para a participação da sociedade nos projetos que atingem suas casas, bairros, cidades.

 


Recrudescimento da violência policial e dos seguranças da FIFA

Foto: Pedro Kirillos / OGlobo

O orçamento da área de segurança da Copa prevê investimentos de R$ 1,8 bilhão do governo federal. O Ministério da Justiça declara ter investido 562 milhões de reais até agora e o Ministério da Defesa, a 630 milhões de reais para gastos relativos ao evento. Por um total de 49,5 milhões, o governo federal fechou a compra de milhares de armamentos não-letais da empresa Condor – a mesma que forneceu as bombas usadas contra manifestantes – da Turquia às capitais brasileiras– para a Copa das Confederações, em andamento, e a Copa do Mundo de 2014

O contrato, com vigência até 31 de dezembro de 2014, prevê o fornecimento de 2,2 mil kits não-letais de curta distância (sprays de pimenta, granadas lacrimogêneas com chip de rastreabilidade, granadas de efeito moral para uso externo e indoors e granadas explosivas de luz e som); 449 kits não-letais de curta distância com cartuchos de balas de borracha e cartuchos de impacto expansível (balas que se expandem em contato com a pele, evitando a perfuração); 1,8 mil armas elétricas para lançamentos dardos energizados  (as pistolas “taser”), e mais 8,3 mil granadas de efeito moral, 8,3 mil granadas de luz e som, 8,3 mil granadas de gás lacrimogêneo fumígena tríplice e 50 mil sprays de pimenta. Dentro dos estádios e na zona de exclusão a segurança é privada, escolhida e orientada pela Fifa mas paga pelo governo federal. Nas recentes manifestações no Rio de Janeiro e em Belo Horizonte a quantidade  de equipamentos e munição chamou a atenção, exatamente por já estar sendo usado o material de segurança da Copa das Confederações.

Além da legislação de exceção abordada no item anterior – que inclui a tipificação de novos crimes para proteger marcas e exclusividade dos parceiros da FIFA e a zona de exclusão – o PL 728/2011, no fim de sua tramitação, inclui a tipificação do crime de “terrorismo”, algo que não existe na nossa legislação desde a ditadura militar, e prevê penas duras para quem promover “o pânico generalizado” . Para os movimentos sociais, o texto do projeto, bastante vago, pode criminalizar as manifestações desde que essas sejam enquadradas como causadoras de pânico generalizado.

 

Elitização dos estádios e dos ingressos para os jogos da Copa

Foto: Heuler Andrey / AGIF/AFP

 

As reformas nos estádios brasileiros para seguir as recomendações da FIFA reduziram ou extinguiram lugares populares nos estádios, ampliando a área de camarotes e lugares marcados, principalmente no Maracanã e no Mineirão, que perderam quase 50% da capacidade. Como resultado, o preço dos ingressos subiram mesmo nos jogos comuns – passando de 40 a 60 reais cobrados nas arquibancadas para preços mínimos de 160 reais no Maracanã, por exempo.

Quanto aos ingressos para a Copa 2014, enquanto 200 mil pessoas assistiram a partida final contra o Uruguai em 1950 no Maracanã, apenas 74 mil ingressos serão colocados à venda para a final no mesmo estádio em 2014. Em 1950, 80% dos ingressos eram populares (arquibancada e geral) extintas para dar lugar a assentos alcochoados nas área Vips.

A FIFA também impôs padrões de comportamento aos torcedores completamente avessos à cultura da alegria e da participação da torcida brasileira de futebol, com platéia sentada, sem as coreografias, as baterias percussivas, o baile das bandeiras a que estamos acostumados.


Incremento ao tráfico e violência contra mulheres, adolescentes e crianças

Foto: blog O Povo

Fortaleza, Natal e Salvador estão entre os principais destino do turismo sexual, que traz homens para o país em busca de mulheres, travestis, adolescentes e crianças, o que deve se agravar com a Copa. O Esplar, ONG que trabalha com mulheres cearenses e participa da Articulação dos Comitês Populares da Copa, lançou em parceria com a Fundação Heinrich Boll, um folheto informativo em um DVD para chamar a atenção para o esperado aumento do turismo sexual na Copa. Segundo a advogada Magnolia Said, que coordenou a produção desse material, já se detectou um aumento de tráfico interno (do interior para as capitais do Nordeste) de mulheres e adolescentes por causa dos preparativos da Copa do Mundo. Reportagem da agência Pública também detectou o trânsito de travestis de Fortaleza para São Paulo para colocar próteses de silicone em troca de trabalho gratuito para as cafetinas que bancam as cirurgias.

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Andrew Jennings: Continuem vaiando! http://www.apublica.org/2013/06/andrew-jennings-continuem-vaiando/ http://www.apublica.org/2013/06/andrew-jennings-continuem-vaiando/#comments Tue, 18 Jun 2013 19:25:04 +0000 admin http://www.apublica.org/?p=4546

Aos meus queridos amigos dos Comitês Populares, com quem me reuni no ano passado; aos jornalistas e estudantes com quem conversei naquela mesma semana; e a todos que estão nas ruas protestando.

Oscar Niemeyer ficaria tão orgulhoso da noite passada! Foi a união da arte com a ação política! Aquele lindo Congresso construído por ele, decorado e aprimorado por uma nova geração de radicais no telhado, pedindo mudanças, o fim da corrupção e o fim da cooperação com a gananciosa máfia da Fifa.

As fotos dessa ocupação respeitosa foram vistas mundo afora. E são mais do que fotos novas. Elas mandam um sinal ao resto do mundo: você não precisa mais sofrer pagando impostos que são roubados por políticos corruptos e empreiteiros tortos, que distribuem esse dinheiro aos cartolas internacionas e à guarda avançada do capitalismo McDonalds, Coca-Cola, Visa e Castrol, que vêm tomando de assalto o seu país.

A mensagem era clara: nós repudiamos veementemente os lucros ultrajantes com a Copa do Mundo e a não-aplicação desses recursos em necessidades sociais básicas.

A resposta de Dilma e de Aldo Rebelo foi dar apoio à violência policial contra as pessoas que foram às ruas nas cidades brasileiras.

Eu acabei de ler as 676 páginas da CPI coordenada por Aldo Rebelo em 2001, para investigar a corrupção de Ricardo Teixeira na CBF, os acordos íntimos com a FIFA e a notória manipulação do contrato com a Nike, que vendeu o futebol que era do povo à fabricante de calçados dos EUA.

A raiva de Rebelo contra a máquina era muito clara.

Onde estava Aldo Rebelo ontem? Ele estava… Na favela? Ou explicando aos torcedores que ele não teve outra escolha a não ser deixar que os contratos fraudulentos com as construtoras fossem executados? Talvez ele estivesse se encontrando e simpatizando com a causa das famílias removidas por especuladores que lucraram com a Copa do Mundo?

Não. Rebelo preferiu a companhia do inimigo. Ele foi escolhido como palestrante principal durante uma conferencia no Copacabana Palace organizada pela voz do mercado internacional, o Financial Times. Apresentado como ‘aquecimento para o ritmo da política e dos negócios do futebol em Copacabana’, Rebelo abraçava seu novo camarada, companheiro de discurso na noite, Sepp Blatter.

Junto deles havia patrocinadores, empreendedores do futebol nacional e mundial, e o grupo cativo de parasitas que se alimentam dos jogos do povo, e o chefe incrivelmente rico da Copa de 2022 no Qatar. E claro, a Globo.

Como o poder mudou o camarada Rebelo. O que houve com a raiva de Rebelo?

Será que Rebelo foi visto nas ruas do Rio, tentando impedir o roubo do Maracanã, que pertencia ao povo? Não ouvi nada a respeito.

Será que Rebelo protestou contra a construção de luxuosos camarotes que reduziram o espaço do Maracanã a torcedores comuns? Esses camarotes estão sendo vendidos a preços exorbitantes para membros da comunidade internacional de negócios.

Outra imagem clara do que tem sido feito no Brasil são as fotografias de dois anos atrás que mostram o chefão da FIFA, Jérôme Valcke, abraçado a Ricardo Teixeira, no Rio. Teixeira é visto como um corrupto, suspeito de envolvimento em casos de propinas com as construtoras dos estádios da Copa. E Valcke não é bobo. Ele fez o maior barulho sobre a necessidade do Brasil por esses novos estádios. Onde estão os policiais federais? O trabalho começou, lentamente, em São Paulo mas precisa ser espalhados por todas as doze cidades-sede.

Em dezembro do ano passado, em São Paulo, quando as plateias começaram a me aplaudir depois das palestaras, eu as interrompi. “Não! Me vaiem”, exigi! “Treinem para quando chegar a hora do Blatter. Me vaiem. Mais alto! Mais alto ainda!”

E, essa semana, vocês vaiaram. A prática leva à perfeição.

Continuem vaiando, camaradas. Continuem vaiando Blatter e os ardilosos da FIFA seja lá onde eles aparecerem durante a Copa das Confederações.

Tirem os ladrões das ruas, dos hotéis, das extravagantes celebrações regadas a champanhe e, principalmente, tirem eles dos futuros elefantes brancos que vão se tornar os estádios.

Vaiem e assobiem quando as limousines deles chegarem, vaiem nos camarotes VIPs, vaiem tão alto que impeça o início dos jogos, que o apito do juiz não seja ouvido.

Forcem o Blatter e a FIFA a deixarem os estádios. Tirem a FIFA da Copa do Mundo.

E depois disso? Direcionem sua raiva para reclamar seu país de volta e tirar de cena os seus próprios trapaceiros.

 

Leia mais: Como eu ajudei o FBI a investigar a FIFA 

Leia mais: Qual o papel do chefão da CBF no assassinato de Vladimir Herzog?

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Que Copa é essa? http://www.apublica.org/2013/06/copa-e-essa-rio-de-janeiro-protestos-riots-megaeventos-popular/ http://www.apublica.org/2013/06/copa-e-essa-rio-de-janeiro-protestos-riots-megaeventos-popular/#comments Tue, 18 Jun 2013 12:00:00 +0000 Ciro Barros http://www.apublica.org/?p=4537 Na chegada ao Rio de Janeiro, era impossível falar de outro assunto com o taxista. Em cada canto, esquina e ponto da cidade, a publicidade oficial estampava o logo da Copa das Confederações e dava boas-vindas aos turistas. No dia seguinte, domingo, era dia de México e Itália e o motorista falava sobre a Seleção Brasileira, criticando o atacante Hulk – que “o Felipão insiste em botar em campo”-, enquanto eu me preparava para cobrir outro tipo de evento: a “Copa Popular Contra as Remoções”, campeonato de futebol entre moradores de comunidades atingidas pelas obras da Copa, organizado pelo Comitê Popular da Copa e das Olimpíadas do Rio de Janeiro.

Todos com quem eu conversei – dos turistas gringos aos brasileiros – queriam saber dos jogos, dos craques, dos gringos, das baladas do Rio. Falar sobre remoções parecia destoar da festa, mas era pra isso que eu estava ali.

A Copa Popular

Alguns minutos depois das nove horas da manhã do sábado, dia 15 de junho, eu já estava no Quilombo da Gamboa, espaço de atividades culturais no bairro da Gamboa, na zona portuária do Rio. Choveu muito durante todo o dia, entre pancadas, garoas e agora um cinza nublado, mas mesmo o público – entre 100 e 200 pessoas – compareceu na quadra surrada de futebol society, os tapetes de grama sintética em desnível.

Nas paredes, muitas faixas. “Porto Maravilha para quem?”, questionava uma delas em alusão ao projeto Porto Maravilha, de “revitalização da região portuária”, como define o poder público. “Estradinha: área de risco ou de rico?”, “SMH: Secretaria de Habitação ou Remoção?”, “Não às remoções”, “Brasil: economia verde, Copa vermelha de sangue”, protestavam outras.

Além de meios de comunicação nacionais, como a TV Record e o Portal Terra, havia repórteres estrangeiros, como do jornal britânico “The Guardian”. Os rapazes estavam conseguindo o que queriam: atenção para os problemas das comunidades afetadas.

Os jogos começaram com a partida do campeonato feminino entre Indiana-Nova Geração e Criciúma Providência.  Além dos atletas, representantes das comunidades davamentrevistas aos jornalistas, como Maria do Socorro, da Indiana, que mostrava um álbum de fotografias para denunciar a situação de sua comunidade.

“O que está nos segurando naquele lugar é uma liminar que ainda impede a remoção, e a minha divulgação”, acredita ela, que faz uma peregrinação entre encontros populares e atos públicos pela comunidade. “Temos o futebol aqui, temos lazer, mas podemos divulgar a nossa tristeza. As comunidades que estão aqui, umas estão vendo a luta das outras”, disse, Socorro, enquanto um repórter canadense pedia uma entrevista.

A Indiana está “em área de risco”, segundo a prefeitura, sem apresentar nenhum laudo técnico. Após muita luta e uma ação junto à Defensoria Pública, os moradores conseguiram uma liminar que impede a remoção das famílias até que a Prefeitura apresente esse laudo. Na semana passada, em decorrência de outra ação, essa do Ministério Público, foi apresentado um laudo de “baixo risco”, realizado entre 1996 e 2010, e obviamente conhecido pela Prefeitura do Rio.

Em quadra, era possível admirar o desempenho dos jovens moradores do Indiana. Os domínios de bola, numa quadra dura em que a bola quicava muito, eram quase sempre muito bem executados. Os toques de bola pelo alto lembravam as “petecadas” das praias cariocas mas o jogo era levado a sério, com torcida, reclamações com o juiz, cobranças entre companheiros de equipe, empenhados em vencer a partida.

Entre as mulheres, o destaque foram as finalistas: os times das comunidades Salgueiro e da Providência. As garotas dos dois times jogam juntas no Criciúma, time que disputa torneios de futebol de salão na Associação de Futebol Feminino, e para o jogo das comunidades formaram as equipes Criciúma-Salgueiro e Criciúma- Providência. Com apenas seis meses, o time já foi campeão municipal – e invicto. O técnico do Criciúma, Eduardo Tacto, de 29 anos, era só alegria.

“Ao fazer um campeonato entre comunidades, também lutamos contra o preconceito, então seria um absurdo não ter times femininos. Tenho muito orgulho das meninas. Elas estão levando a sério e o resultado está aí: fizemos a final entre o nosso time”, disse.

Capitã do Criciúma-Salgueiro, equipe campeã, a estudante de massoterapia Aline França, de 24 anos, comemorou mais do que o título. “O campeonato serviu para mostrar que a gente tem que estar sempre unido. Tem que se ajudar bastante, eu soube de muita gente aqui que estava perdendo as suas casas. Se a gente não juntar, não vai para frente”, disse Aline, ressaltando que a partir daquele dia iria “se mexer mais e lutar pela comunidade”.

No masculino, só deu Morro da Providência. A comunidade, ameaçada pelas supostas obras de melhoria do projeto “Morar Carioca” da Prefeitura do Rio, emplacou seus dois times na final: o Verdão-Providência e o Criciúma-Providência. Em uma partida disputada a sério – os dois goleiros fizeram defesas milagrosas – o Verdão levou a melhor, ao vencer por 2 a 0 (gols de Matheus e João Marcos).

“Ser campeão é bom, mas jogar contra os amigos é melhor ainda. A Providência foi campeã aqui hoje!”, comemorou Matheus, autor do primeiro gol. “É muito gratificante representar a comunidade”, disse o também campeão João Marcos, artilheiro da Copa Popular com cinco gols marcados.

Entrevistados apaixonados

“Cada favelado é um universo em crise”, diz uma letra dos Racionais MC’s, que voltava à minha cabeça a ouvir cada entrevistado, ansioso por falar. Vitor Lira, de 31 anos, morador do Morro Santa Marta, na zona sul carioca, mostra as marcas na sobrancelha esquerda, fruto de agressão da polícia, segundo o rapaz negro e magro que diz ter ido à Copa Popular “só para prestigiar”. Ele é guia de turismo do “Tour Santa Marta”, uma cooperativa de turismo criada pelos moradores do morro que busca “mostrar um pouco da realidade da favela, o ponto de vista de quem vive o dia a dia ali, e não só a vista”, explica, o também estudante de curso técnico na área de turismo.

“Sou morador do pico do Santa Marta e desde janeiro de 2011 convivemos com a ameaça de remoção porque a Prefeitura alega que estamos em área de risco. Já fizemos um contra-laudo com engenheiros que comprova que ali não é área de risco e que só precisa de algumas obras de contenção”, conta. “Mas por que eles querem essa área? Essa área dá vista para Lagoa Rodrigo de Freitas, Ipanema-Leblon, Arpoador, Copacabana, Urca, Ponte Rio-Niterói, então tirando essas pessoas de lá é possível fazer qualquer tipo de empreendimento privado para se fazer o que eles chamam de embelezamento da cidade”, acredita ele.

Ele se orgulha da família há cinco gerações no Santa Marta na mesma medida em que se indigna com a situação de ameaça. “Acho muito estranho que esse processo de remoção todo venha a acontecer depois da chegada da UPP. Agora que eu não convivo mais diariamente com balas cruzando a minha casa, eu tenho que ir pra Triagem, um lugar bem afastado, para os brancos chegarem?”, revolta-se.

“É muito difícil morar em comunidade no Rio de Janeiro”, concorda Luan Santos, de 21 anos, desempregado e atleta do Cruzeiro-Providência. “E agora tem essas obras de melhoria que são melhoria só pra quem é de fora, pra quem tá lá eu não vejo nada, só vejo ameaça dos meus amigos e da minha família de perder a sua casa”, diz.

A zona portuária, onde se realiza o Copa Popular, também abriga diversas comunidades ameaçadas de remoção pelas obras do Porto Maravilha, como lembrou o mestre de cerimônias, Marcelo Edmundo, da CMP (Central de Movimentos Populares) que disse ter “imitado o Marin” ao colocar uma medalha no bolso durante a premiação. “É um exemplo de luta, um contraponto à Copa das Confederações e do Mundo, que estão trazendo tanto sofrimento a todos aqui”, afirmou.

Uma grande roda de funk promovida pela APAFUNK (Associação de Profissionais e Amigos do Funk) fez a confraternização final com três MC’s cantando funks carregados de críticas sociais. “Quem é você para falar dos meus erros, tu não me conhece não sabe quem sou/A luta que tive, a fome que minha família passou/Aonde tava você na hora do perrengue, porque você não tava lá seu doutor? A sociedade hoje fala de mim mais ninguém me ajudou”, dizia uma das letras.

Domingo no Maracanã

No dia do jogo Itália e México, o protesto começou lá pelas duas da tarde na Estação São Cristóvão de metrô e trem, que fica à beira das rampas de acesso ao Maracanã, tomada por faixas com dizeres como “Da Copa eu abro mão, quero dinheiro para saúde e educação”, “Basta” e o já célebre “Copa pra quem?”. Embaixo da passarela da estação, que fica sobre as avenidas Maracanã e Castelo Branco, os manifestantes entoavam cantos e palavras de ordem trazidas também dos recentes protestos contra o modelo de transporte público que se espalharam pelo Brasil. Saúde e educação também apareciam nas reivindicações.

A  massa, a essa altura com cerca de mil manifestantes segundo a imprensa, tentou fazer dois movimentos para alcançar o Maraca, onde os torcedores chegavam para ver o jogo entre Itália e México, pela segunda rodada da Copa das Confederações, mediante o pagamento de ingressos que variam entre R$ 57 e R$ 228.

Primeiramente, o grupo tentou avançar pelo viaduto Oduvaldo Cozzi, que dá acesso à entrada do estádio mas foi barrado pelos policiais. Tentou o acesso pela rua General Canabarro, mas recuou novamente diante da presença da polícia. Por volta das 15h, apareceu um aparato de segurança impressionante: Polícia Civil, Militar, Tropa de Choque, Guarda Municipal, Força Nacional.

O tumulto começou depois de um policial lançar um spray (que mais parecia um extintor) em direção aos manifestantes. A partir daí começou uma verdadeira chuva de bombas, tanto as de gás lacrimogêneo quanto as de efeito moral. Era difícil respirar, a reação de fuga foi instantânea e o corre-corre em direção à passarela quase causou um desastre.

Após esse primeiro embate, uma manifestante passou por mim e disse que estava havendo outra aglomeração, desta vez, na Quinta da Boa Vista, do outro lado dos trilhos. Quando cheguei, vi os manifestantes, já em número bem reduzido, gritando, levantando cartazes e às vezes sentando-se no chão. Pou depois dos manifestantes cantarem o hino nacional diante do Choque, houve o primeiro estouro. Em um movimento espontâneo, todos viraram-se para correr em direção da Quinta, um parque onde as famílias curtiam o domingo de clima ameno que logo se tornou caótico. Havia muitos homens, bombas, helicópteros. Os policiais vestiam roupas que nunca tinha visto, pareciam ninjas, super-heróis ou qualquer coisa assim.

Corri para o parque na esperança que ali dentro, por estar misturado aos “cidadãos de bem”, como se diz por aí, não correria risco. Ledo engano. Em poucos instantes, vi três cápsulas de gás caírem a menos de um metro das minhas costas. A correria foi ainda maior.  Já havia policiais dentro do parque e ouvi até mesmo de um deles que uma bomba quase o atingiu.

Alguns manifestantes tentaram se juntar a uma festinha de criança que acontecia ali  para se proteger, mas os pais ensandecidos gritavam “Rala daqui! Sai fora!”. Encontrei uma família meio perdida por ali, e fiquei junto deles. João Vicente, o pai da família que me abrigou, estava revoltado. “Isso é um absurdo! Pra que isso! Por que a minha enteada é obrigada a ver isso? Isso é um excesso”, dizia, apontando para os fuzis dos policiais. Relativamente protegido, vi as bombas caírem no parque até que poucos manifestantes foram negociar a saída da Quinta da Boa Vista.

O jogo já acabara, não fazia nem ideia de quem tinha ganhado. A estudante Cecília Souza, de 23 anos, me mostrou o braço completamente inchado, e com uma marca nítida da bala de borracha. Disse que estava de costas quando levou o tiro. Passei por alguns policiais que ironizavam os manifestantes que iam embora. “Ué, já correram? Vão embora de metrô, não era por isso que vocês tavam reclamando”, disse um deles.

Segundo a PM, seis manifestantes foram detidos. A corporação também afirmou que encontrou seis artefatos explosivos pelos policiais sendo um deles um coquetel molotov e que um soldado do 4º Batalhão da PM ficou ferido.

As fotos dessa reportagem foram feitas por André Mantelli

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Copa das Confederações? Não, das remoções! http://www.apublica.org/2013/06/copa-das-confederacoes-nao-das-remocoes/ http://www.apublica.org/2013/06/copa-das-confederacoes-nao-das-remocoes/#comments Wed, 12 Jun 2013 12:00:31 +0000 admin http://www.apublica.org/?p=4501 Às nove horas da manhã do próximo sábado, dia 15 de junho, um evento promovido pelo Comitê Popular da Copa e das Olimpíadas do Rio de Janeiro pretende se opor ao entusiasmo que circunda a chegada da Copa das Confederações.

Sete horas antes de o Brasil estrear contra o Japão na competição da FIFA, que será uma “prévia” para a Copa do Mundo de 2014, outra bola vai rolar no Quilombo da Gamboa (Rua da Gamboa, 345) na zona oeste da capital fluminense. Trata-se da “Copa Popular – Contra as Remoções”, um torneio de futebol disputado entre comunidades que sofrem com as remoções no Rio – desde comunidades já removidas até comunidades que, em algum momento da preparação para os megaeventos, sofreram ameaças de remoção.

“Escolhemos o dia 15 porque é o dia da estreia da Copa das Confederações e estamos em busca de manifestações mais criativas”, diz a jornalista Paula Paiva Paulo, integrante do Comitê Popular. “Atos a gente já faz bastante, eles são importantes, mas queríamos algo um pouco mais criativo”. O Comitê também vai distribuir materiais com informações sobre as comunidades a quem comparecer ao evento.

No dia da Copa Popular, também será lançado o mascote popular da Copa, que será o Saci. Ao contrário do mascote oficial da Copa – que só pode ser estampado por comerciantes autorizados pela FIFA – o Saci, que será disponibilizado em copyleft para que os comerciantes, principalmente os populares, possam usar à vontade.

Comunidades participantes

Até agora, já há dez equipes confirmadas para a Copa Popular. Serão duas equipes masculinas do Morro da Providência, comunidade que fica na região central do Rio; uma da Muzema, comunidade da zona oeste da cidade; um da Estradinha, situada em Botafogo; um time da Indiana, comunidade que fica no bairro da Tijuca, e outro da Vila Autódromo, que fica em Jacarepaguá. Haverá também quatro equipes femininas: além de Providência e Indiana, haverá boleiras do Morro Santa Marta e do Salgueiro.

Roberto Marinho, de 37 anos, morador do Morro da Providência, foi o responsável por amealhar participantes da sua comunidade. “Foi difícil, porque o pessoal que não está envolvido nas remoções fica com medo de participar de qualquer coisa”, conta. Apesar disso, reuniu dois times de moradores diretamente envolvidos nas remoções –e aposta na experiência das equipes para conquistar o caneco do torneio. “Esse pessoal já joga junto faz um tempo, alguns deles jogaram a Copa das UPPs e quando eu contei o espírito da coisa, eles gostaram. Eles vão poder jogar futebol e mostrar a situação em que estão vivendo”.

Na Muzema, o presidente da Associação de Moradores Leandro Corrêa, de 32 anos, diz que o pessoal “está animado”: “Eu achei legal a ideia porque é um modo de unir o útil ao agradável, ou melhor, ao desagradável porque se trata de uma remoção, né”, brinca. Para Maria do Socorro, da Indiana, o teor político está também na reunião. “Vai ser bom porque várias comunidades ameaçadas vão poder conversar e se unir. A luta tem que ser de todos que estão nessa situação”, afirma.

Muita história pra contar

Confira abaixo um pequeno perfil de algumas dessas comunidades, e saiba como elas foram marcadas pela avalanche das remoções. Segundo o dossiê “Megaeventos e Violações de Direitos Humanos no Rio de Janeiro”, só na capital carioca cerca de 11 mil pessoas podem ser removidos por conta de intervenções urbanas ligadas à Copa das Confederações, à Copa do Mundo e às Olimpíadas de 2016.

Morro da Providência – Localizado na região portuária do Rio de Janeiro, o local é um pedaço da história do Brasil. Considerada a primeira favela da cidade, o morro foi ocupado por remanescentes da Guerra de Canudos nos últimos anos do século 19. O local, antes chamado de Morro da Favela, teria dado origem, inclusive, ao nome “favela”.

O drama da comunidade começou, ironicamente, com o Programa Morar Carioca, criado em julho de 2010 pela prefeitura, e que faz parte do planejamento para a Copa. Estão previstas a abertura de vias, a implantação de um teleférico, um plano inclinado e a espaços para visitação turística. Mas, segundo os moradores, não houve informações claras sobre os impactos e nem envolvimento da comunidade na discussão do projeto. A Prefeitura do Rio diz que 380 famílias terão que ser removidas por estarem em áreas de risco e outras 291 famílias sairão para dar lugar ao teleférico e ao plano inclinado. A Defensoria Pública do Rio de Janeiro conseguiu a paralisação das obras em outubro do ano passado, pela ausência do EIA/RIMA e a falta de informação dos moradores. A Prefeitura conseguiu depois continuar as obras, mas as remoções estão suspensas.

Algumas casas, porém, já foram marcadas com spray com a sigla da SMH para serem removidas. Os moradores rebatizaram a sigla para “Sai do Morro Hoje”.

Muzema – Situada próxima ao Itanhangá, Barra da Tijuca, zona oeste do Rio de Janeiro, a comunidade já tem mais de 30 anos e está ameaçada de remoção por conta das obras de dragagem de um canal próximo. Porém o córrego já passou outras vezes por canalização e, nas etapas anteriores, a remoção não foi necessária, segundo os moradores.

Indiana – No mesmo lugar desde 1957, a comunidade Indiana, situada na Tijuca, foi símbolo da postura dúbia da Prefeitura do Rio. Em 16 de janeiro de 2012, os moradores receberam a visita do então secretário de Habitação, Jorge Bittar, que prometeu obras de melhoria para a região; duas semanas depois, representantes da prefeitura voltaram à comunidade para dizer aos moradores que deveriam aceitar a oferta de apartamento do programa Minha Casa Minha Vida na região de Triagem, longe da Indiana, ou o “trator passaria por cima por ser área de risco”, segundo conta a membro da comissão de moradores da Indiana, Maria do Socorro.

Junto com a Defensoria Pública, em outubro, os moradores entraram com uma ação contra a Prefeitura pedindo a apresentação de um laudo técnico que comprovasse a situação de risco. Em 10 de dezembro de 2012, foi expedida uma decisão favorável a comunidade cobrando a paralisação imediata das remoções (já em curso) e a retirada do entulho. Até agora, cerca de 110 famílias já foram removidas, algumas delas contempladas com unidades habitacionais do Minha Casa Minha Vida em Triagem. Outras 510 querem ficar. Em 9 de maio deste ano, o Ministério Público apresentou um laudo da própria secretaria de habitação do Rio afirmando que a região era de “baixo risco” e não seria necessária a remoção.

 

 

 

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A revoada dos passaralhos http://www.apublica.org/2013/06/revoada-dos-passaralhos/ http://www.apublica.org/2013/06/revoada-dos-passaralhos/#comments Mon, 10 Jun 2013 20:11:59 +0000 admin http://www.apublica.org/?p=4455 O maior orgulho de Vera Saavedra Durão foi ver a filha virar jornalista. Isso porque ela própria, Vera, dedicou 35 anos à profissão, com a garra de quem cumpre uma missão. “Você quer que as informações sejam publicadas da melhor forma possível, que aquilo ali venha a público. A gente se entrega”, diz Vera. “Se minha filha seguiu o mesmo caminho é sinal de que ela viu valor nisso”.

A jornalista, hoje com 65 anos, abraçou a reportagem com a mesma paixão que lutou contra a ditadura, como militante da Vanguarda Revolucionária Palmares (VAR-Palmares), onde foi companheira de Dilma Rousseff. Ficou dois anos na prisão; quando saiu, atuou como repórter de Economia nos então principais jornais do país – O Globo, Jornal do Brasil, Gazeta Mercantil, Folha de S. Paulo.

Em 2000, fez parte da equipe que fundou o jornal Valor Econômico, onde ficou por 13 anos. “No início eu cobria muito tudo, o empenho era muito grande para manter o jornal, com furos, afinal ele precisava se firmar. A gente fazia muita coisa”, lembra Vera, que traz dessa época a lembrança de uma úlcera duodenal sangrante, que surgiu quando fazia uma cobertura particularmente tensa para o Valor. “Perdi dois litros de sangue, e eu nem sabia, até que caí desmaiada. Eu me alienei tanto naquela cobertura, me estressei muito”, conta a jornalista, respeitada por sua competência e dedicação pelos colegas e fontes.

No dia 24 de maio passado, Vera foi demitida sumariamente, junto com mais de 20 colegas do Valor, jornal que pertence ao Grupo Folha e às Organizações Globo. “Fui apanhada de surpresa, não podia imaginar que eu podia entrar numa lista negra, para ser cortada de uma maneira tão brusca”. A surpresa foi ainda maior porque acabara de vir à tona que ela fora alvo de espionagem da empresa Vale S.A., segundo denúncia de um ex-gerente de segurança, caso ainda investigado pelo Ministério Público do Rio de Janeiro. Mas Vera, que estava de férias, nem chegou conversar com a direção do jornal sobre a denúncia. “O jornal não teve contato comigo sobre isso. Mandei email para a chefia para conversar sobre isso, mas acabou a gente não conversando porque eu fui demitida”, conta.

“Depois de 13 anos trabalhando para engrandecer o jornal achei que teria direito a um período sabático e não a uma demissão”, diz ela. “O meu raciocínio sobre os meus direitos era o da minha classe, que é a dos jornalistas, dos que ‘carregam o piano’, e não dos acionistas, donos do jornal, que querem ver o resultado imediato do nosso trabalho”. Vera lembra de uma fonte empresarial que lhe dissera, em 2005, que merecia um bônus já que por causa de uma série de reportagens suas, o Valor passou a ser lido no Japão. “Eu disse que jornalista não tinha bônus, só ônus”.

Enquanto Vera ainda tenta digerir a demissão na sua casa do Rio de Janeiro, a mil quilômetros dali Flávio José Cardoso, de 51 anos, atende clientes de um belo restaurante à beira mar na ponta de Sambaqui, em Florianópolis. Há quatro anos, ele escrevia os editoriais do jornal mais lido de Santa Catarina, o “Diário Catarinense”, com 40 mil exemplares diários. Hoje, é garçom.

A guinada em sua vida começou em 2010, quando mudou o editor-chefe do jornal. Ele deixou de ser editor de Opinião e foi “promovido” a subeditor de Geral, seção que inclui de polícia a comportamento. “Passei a editar também o caderno Mundo, sozinho. Depois de um tempo, me colocaram para escrever matérias especiais todos os dias”. Além das reportagens e da edição, ele passou a fazer a diagramação, montar tabelas, procurar fotos. Se antes trabalhava das 13h às 19h, passou a ficar no mínimo 12 horas dentro do jornal, todos os dias – e estava sempre atrasado. “O trabalho que estava fazendo era para ser resolvido por oito ou dez pessoas. Entrava às 13h e saía a 1h, 2h da manhã, todos os dias. Não parava para comer; comia um salgado, enquanto digitava”. Isso quando o editor não falava, em alto e bom som para todo mundo ouvir, coisas como “Eu já te expliquei isso. Uma pessoa com um neurônio entende”.

Flávio aguentou a situação por um ano. “Isso leva o indivíduo a um nível de estresse que ele começa a se achar incompetente para executar as tarefas que faz há 20 anos”. Durante esse período, teve lesões nos tendões das mãos e na córnea, porque usa lentes de contato e ficava muito tempo exposto ao computador e ao ar condicionado. “Quando voltei de licença por causa da lesão, o editor-chefe teve a cara de pau de dizer que eu inventei a doença!”. Entrou com um processo contra o Diário. Hoje, embora seja garçom, colabora com uma revista especializada em economia. E não largou o jornalismo – ainda.

As histórias de Vera e Flávio não são exceção entre os jornalistas brasileiros; o que é raro é algum deles vir a público denunciar essa situação. Acúmulo de tarefas, assédio moral, hora extra não-remunerada, insegurança sobre o próprio futuro são males que infestam a indústria das notícias no Brasil. Embora sejam fruto de decisões empresariais que já duram alguns anos, nos últimos meses a situação se agravou com diversos grandes cortes de pessoal – os chamados “passaralhos”.

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Uma ave que acaba com tudo

Passaralho é um jargão agressivo para as demissões em massa nos meios de comunicação. Remete a pássaros, revoadas de algo que destrói tudo por onde passa. De março a maio de 2013, eles passaram sobre redações grandes como Estadão, Valor Econômico, Folha de S. Paulo e já sobrevoam a editora Abril, a maior do país, além de atingir a maioria dos jornalistas em redações menores, como Brasil Econômico e Caros Amigos. Isso, somente dentre as empresas sediadas na cidade de São Paulo. No estado inteiro houve demissões no jornal A Tribuna, o maior da região da Baixada Santista, e na Rede Anhanguera de Comunicações (RAC), que domina as regiões ao redor de Campinas, Ribeirão Preto e Piracicaba.

Considerando apenas os jornalistas registrados em carteira e somente na cidade de São Paulo, foram registradas 280 demissões homologadas de janeiro a abril desse ano, 37,9% a mais que no mesmo período de 2012, quando foram registradas 203 homologações por conta de demissões. Ou seja, tudo indica que 2013 será pior que o ano passado, quando mais de 1.230 jornalistas foram demitidos de redações no Brasil. Os motivos, em geral, foram “reestruturações”, que nada mais são que novas formas de organizar o trabalho usando menos pessoas e mais tecnologia.

“É um ponto fora da curva”, diz Paulo Totti, que, com quase 60 anos de jornalismo, também foi vítima do corte no Valor. Totti usa a expressão para explicar que, na indústria do jornalismo, os trabalhadores mais experientes são descartados facilmente e substituído por recém-formados – o oposto do que acontece em outras áreas. “Em nenhum outro ramo da economia se vê atitudes semelhantes. Os administradores têm a preocupação de manter a sua mão-de-obra qualificada”, diz Paulo, que sempre cobriu economia, e com excelência. Em 2006 foi vencedor Prêmio Esso, o mais respeitado do jornalismo brasileiro, com uma série sobre a economia chinesa. Meses antes de ser demitido, havia se oferecido para fazer oficinas com cada uma das editorias do Valor, para ajudá-las a melhorar a qualidade dos textos. “Há, claro, uma certa surpresa, já que a demissão não decorre de uma maior ou menor dedicação ao trabalho. Mesmo um jovem fica meio intranquilo quanto ao seu futuro. Pior: se o cara desempenhar bem suas funções, ele pode ter um aumento de salário, e esse aumento causa a sua demissão”.

Aonde os donos de jornais querem chegar?

Paulo Totti, que no momento considera a única opção que lhe foi dada pelo jornal – virar colaborador freelancer – compartilha um receio que se espalha nas redações com a mesma rapidez que o voo dos passaralhos. “Temo que isso esvazie o conteúdo do jornal. E esse é o sentimento de todo corpo de gente que integra o setor redação em todos os jornais brasileiros”, explica ele. “Não sabemos bem aonde os donos dos jornais querem chegar. A decisão no Valor, por exemplo, partiu da pressão de pessoas que integram o conselho administrativo do jornal, representantes dos acionistas. Nenhum deles tem no seu currículo alguma passagem pelo jornalismo”.

Os cortes de pessoal se devem a um investimento milionário em um serviço de informações financeiras em tempo real, o Valor Pro. Esse investimento começou a ser feito há cerca de três anos, quando os funcionários foram avisados que a redação seria unificada. “Fomos avisados de que nos dois anos seguintes ninguém teria aumento salarial. Ao mesmo tempo, todos teriam que escrever para as três plataformas: tempo real, site e impresso”, diz um jornalista que sobreviveu ao último corte no jornal e que prefere não se identificar. Segundo o repórter, o clima da redação está ruim; além do trauma provocado pelas demissões, sobrou excesso de trabalho para todos. “O site, que antes era cuidado por cada editoria, agora é alimentado por pessoas de um ‘mesão’ digital, que não tem muita familiaridade com alguns assuntos. No impresso, a cada dia está uma briga por espaço e o número de páginas está sendo reduzido”.

Também a Folha de S Paulo anunciou uma reestruturação na última semana, com o fim do caderno “Equilíbrio” e o reagrupamento de outros cadernos em três núcleos de produção. O número de jornalistas demitidos foi de 24. A direção comunicou à ombundsman, Suzana Singer, que “as redações do futuro deverão ser cada vez mais enxutas, assim como o produto impresso”. Entre os demitidos estão nomes do porte de Andreza Matais, ganhadora do Prêmio Esso de jornalismo 2011 pela série que demonstrou o enriquecimento do então ministro da Fazenda, Antonio Palocci. “Aos que acreditam que o jornalismo de qualidade faz bem à democracia resta torcer para que a travessia dê certo”, resumiu Suzana Singer, em artigo na Folha.

A Pública falou com um dos jornalistas cortados do Grupo Folha, da área de cultura, que pediu para não ser identificado. “Ao chegar à redação um dos colegas comentou que haveria corte e, cerca de 20 minutos depois, fui chamado para ser avisado de que seria desligado da empresa. A justificativa? Corte de gastos. Tinham de ter uma meta x de gastos, e a minha saída ajudaria a atingir tal meta”.

“Eu tenho pena de quem ficou e de quem está entrando no jornalismo”, diz, com certa serenidade, o repórter fotográfico Lula Marques, premiado jornalista da sucursal de Brasília da Folha de S. Paulo. No dia 1º de abril, ele acordou comemorando o aniversário de 26 anos de jornal. À tarde, foi comunicado que estava demitido. “Me falaram que eu estava ganhando muito, mais que o editor de fotografia de São Paulo, que meu nome estava na lista há dois anos e que não dava mais para me segurar na empresa”. Desde novembro de 2011 – quando a empresa cortou 10% dos seus jornalistas – os cortes, discretos e sem alardes, são constantes na Folha. Tanto, que Lula diz que já estava preparado. “Saí com um equilíbrio emocional bom, porque já estava me preparando para isso. Nos últimos dois anos, as pessoas que estavam com o salário lá no alto foram todas embora. Sabia que um dia ia chegar minha vez”.

Tensão na Abril

Era sexta-feira, dia 7 de junho, quase no final do expediente, e o clima no prédio da editora Abril S.A, zona oeste de São Paulo, estava pesado por conta dos rumores de um grande corte, previsto desde a  morte do presidente do grupo, Roberto Civita, em 26 de maio. “Olha, está muito tenso e é uma tensão diferente. Eu já vivi outras demissões coletivas, mas antes era assim: os diretores das redações estavam plenamente por dentro de quantas pessoas deveriam ser cortadas de cada revista, enquanto os ‘peões’ estavam morrendo de medo. Agora não, ninguém sabe de nada direito, nem os diretores”, disse à Pública uma jornalista, que também pediu não ser identificada por medo de represálias.

Pouco depois, seis executivos foram demitidos, junto ao anúncio de que o grupo passaria por uma “reestruturação”, com agrupamento de unidades de negócios, reduzidas de dez para cinco. O objetivo, segundo a empresa, era a “racionalização dos recursos”. Há boatos de que 11 revistas deixarão de circular – entre elas nomes lendários como Playboy, Capricho e Contigo. É a senha para o passaralho. “Deve acontecer na próxima semana”, diz a mesma jornalista. “Eu acho que, se na semana que vem já anunciarem qual revista vai ser cortada, o clima vai melhorar. Não saber o que vai acontecer que é estranho. A gente faz piada o tempo todo, tipo, estou me matando pra fazer esse editorial de moda e se a revista acabar amanhã…”

“Entre os jornalistas, nesse momento o clima é de intranquilidade aguda”, diz Paulo Zocchi, diretor jurídico do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo e que trabalha na redação da revista Quatro Rodas, da editora Abril. “Tá todo mundo morrendo de medo. Na minha redação, que é de uma faixa etária um pouco mais velha, tá todo mundo falando: ‘vamos ver se segunda-feira vamos estar aqui’”. A jornada dupla de Paulo – na revista e no sindicato – está ainda mais atribulada desde as últimas demissões. Toda vez que corre um boato de demissão, o sindicato é acionado, e pede uma reunião de emergência na empresa, para negociar.

Foi o que aconteceu em abril, na negociação com o Estado de São Paulo – de desfecho inesperado. O Estadão anunciara a redução da quantidade de cadernos diários para apenas 3, a extinção do caderno Link, sobre tecnologia, e do caderno de Negócios. Ao mesmo tempo, passou a privilegiar as plataformas digitais, com o lançamento do novo aplicativo do Estadão, adaptável a qualquer dispositivo móvel.  Segundo conta Paulo Zocchi, na quinta-feira, dia 4 de abril, ele recebeu uma ligação avisando sobre boatos de demissão em massa no Estadão. “Hoje, a redação tem 250 jornalistas. O boato era de que 100 seriam demitidos na segunda ou na terça-feira da semana seguinte”. O sindicato solicitou uma reunião de emergência com a direção do Estadão, mas o jornal não respondeu e começou a demitir já no dia seguinte, sexta-feira. No total, foram 31 demitidos.

“Na sexta-feira, 12 de abril, fizemos uma assembleia na empresa, e desceram 90 pessoas. O objetivo era reverter todas as demissões. Até que uma das trabalhadoras demitidas disse que não queria ser reintegrada”, lembra ele, revelando sua surpresa. No fim da assembleia, em que estavam 14 dos 31 demitidos, nenhum deles queria voltar a trabalhar no Estadão. “As pessoas se sentiram descartadas, afetadas emocionalmente de uma forma tal que elas não queriam voltar”.

Um dos demitidos, repórter com cerca de cinco anos de profissão, não disfarça sua revolta. Segundo ele, os rumores de cortes eram constantes no jornal, espalhando um “clima de terrorismo”: “O jornal esperava que os jornalistas continuassem a manter a quantidade e a qualidade de trabalho com menos pessoas, impossível. Jornalistas acumularam funções e a qualidade, como os leitores puderem observar, caiu”. Ao ser demitido, ele foi procurado por um dos diretores, “para deixar claro que eu não estou sendo demitido pela sua falta de competência, que é uma questão de corte de gastos”, lembra. “Querem que você não se revolte e não sai baixo astral, que saia feliz e tranquilo. Te apoiam, mas dizem: ‘vai lá’”.

Como a maioria dos jornalistas demitidos, ele prefere não se identificar publicamente. Quase nenhum dos entrevistados, principalmente os mais novos, quiseram se expor. “Sabe como é, o mercado é muito pequeno e eu posso ter dificuldade para conseguir trabalho”, diz um deles.

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Do Sul ao Norte do Brasil

Na ilha de Santa Catarina, o nome do passaralho é mais poético: chamam de “barca”, como aquela, dirigida por Caronte, que levava as almas ao inferno, ou Hades, na mitologia grega. A última barca do Diário Catarinense, o maior jornal do Estado, aconteceu no dia 21 de março e levou cerca de 20 profissionais da redação. Poucas pessoas souberam. A divulgação mais ruidosa do caso foi um e-mail do jornalista Célio Klein anunciando, aliviado, sua demissão após 25 anos de casa. Nela, ele se diz alegre por ter saído do jornal, mas expressa “profundo pesar pela situação”: “É muito grave e difícil não se ver outra saída que não a de abrir mão do trabalho do qual se gosta e ao qual se dedicou a maior parte da vida”. A carta prossegue: “Em uma empresa de comunicação, questionar, alimento do jornalismo, não é permitido. Em uma empresa de comunicação que tem a educação como bandeira, que implica justamente pensar de forma autônoma, pensar não é permitido. Em uma empresa de comunicação que exalta a democracia, vende a diversidade de opiniões, a participação dos leitores como case de ação, de sucesso, divergir não é permitido”.

Semanas depois,  em abril, o jornal “A Crítica”, no Amazonas – um veículo da RCC (Rede Calderaro de Comunicação), que tem filiadas à Rede TV!, ao SBT e à Record. – demitiu aproximadamente 15 pessoas, entre repórteres, editores e fotógrafos do jornal impresso e do site. A repórter especial Elaíze Farias, vencedora do prêmio Imprensa Embratel 2013, foi uma das cortadas. “A justificativa oficial é de que o jornal acabou com esse cargo”, diz ela. “Não sei quais foram os critérios”.

Com quase 20 anos de experiência, Elaíze dedicou metade deste período a produções de reportagens sobre questões sociais e ambientais da região. Ela lembra de uma das últimas reportagens que fez, sobre um casal de índios matis que estava sendo acusado de tentar cometer ‘infanticídio’ contra seu filho doente em Manaus – o que foi completamente desmentido por eles. “Para conseguir entrevistar este casal, me desloquei de lancha pelo rio Solimões (uma hora) de Tabatinga até outro município, Benjamin Constant, e dali peguei um táxi-lotação (meia hora), viajando pela estrada até Atalaia do Norte, onde os índios matis estavam. Fiz o retorno de carona, na moto de um indígena, porque não havia mais táxi disponível entre Atalaia e Benjamin, até novamente voltar a Tabatinga. E precisava chegar antes das cinco da tarde, pois as lanchas que fazem a travessia do rio em Benjamin operam até neste horário. Ou seja, foi um gasto extra que precisei utilizar. Depois de uma jornada de oito dias, voltei a Manaus. Bom, é assim que se faz jornalismo na Amazônia”.

Para ela a maior preocupação é ter que deixar de realizar reportagens como essa. “Fiquei muito frustrada por, após a minha saída, estes temas terem ficado parados, na minha própria gaveta de pautas. Elas continuam guardadas, para quando eu tiver algum espaço e logística para viabilizar”.

Sobre o silêncio que cerca as demissões, Elaíze diz: “No geral, a notícia das demissões ficaram restritas ao boca-a-boca e às redes sociais – eu, por exemplo, fiz um comunicado pelo Facebook e por e-mail aos meus amigos, companheiros de luta, organizações sociais e fontes”, comenta. “Hoje se fala muito nas crises dos jornais impressos e na sua dificuldade de se adaptar aos novos tempos e às notícias publicadas nos portais de internet. O enigma é: a mídia vai se conseguir se reinventar, se ressignificar, para continuar sobrevivendo? Cabe a todos nós, os que estão dentro e os que estão fora das redações, passar a refletir”, acredita.

Para o pesquisador José Roberto Heloani, da FGV, a esperança é a de que os jornalistas comecem a ter maior consciência e maior interesse nessas questões. “É isso que chamo de luz no fim do túnel. E isso vai fazer com que as pessoas comecem a perceber que a saída não é individual. A saída é coletiva”. Neste ano, em São Paulo, houve pelo menos quatro casos de organização de jornalistas contra demissões: “O Vale” e “Bom Dia”, de São José dos Campos; do “Jornal da Cidade de Jundiaí”; do “Brasil Econômico”; e a dramática greve da pequena redação de “Caros Amigos”, que se autodenomina “a primeira à esquerda” que terminou com demissões e ações na Justiça (veja box).

O jornalista Audálio Dantas, que presidiu o Sindicato dos Jornalistas de São Paulo na época do assassinato de Vladimir Herzog e foi o primeiro presidente da Federação Nacional dos Jornalistas, tem uma avaliação mais pessimista. “Por mais que se lute, o panorama dos meios de comunicação concentrado em poucas mãos contribui para que as lutas sejam enfraquecidas”, diz Audálio, que considera a regulação da propriedade dos meios de comunicação essencial no debate sobre o futuro da profissão: “Há a necessidade de se regular, porque nós temos esse fenômeno: o sujeito faz o trabalho para o veículo impresso, a empresa faz uma adaptação do mesmo texto e o trabalho de um profissional é aproveitado em quatro meios”.

Nesse cenário, ele diz, não há mais distinção entre bons profissionais e medianos. “Antes os grandes jornais tinham esses cuidados de preservar os bons jornalistas. Hoje, não se distingue os profissionais e vão todos no mesmo diapasão”, observa Dantas, que identifica um ciclo vicioso para a profissão: para aproveitar o rendimento máximo – em termos quantitativos – as empresas mantêm o jornalista dentro da redação, fazendo matérias por telefone e por e-mail, o que resulta em um número maior de matérias, mas de pior qualidade.  “A grande vítima, depois do jornalista, é a apuração. A qualidade da informação, que é o que garante historicamente a credibilidade, está prejudicada”.

Para os mais jovens, porém, a sensação é de que as mudanças são ainda mais profundas, como diz o jovem profissional, recém demitido do Estadão: “A justificativa [de cortes de papel e demissões] é a financeira. Se você acompanha o jornal, deve ter percebido que as editorias enxugaram, algumas sumiram… O jornal inteiro ficou menor. A sensação, dentro e fora da redação é de que o jornal está apenas adiando o seu fim”.

Desrespeito também nas pequenas redações

Tão comum é a precarização do trabalho do jornalista, que ela chega a redações grandes e pequenas, de todos os espectros ideológicos. Em março deste ano, a Revista Caros Amigos – na qual trabalharam, no passado, as duas diretoras da Pública – protagonizou uma dramática greve. Os 11 profissionais grevistas abriram uma página no Facebook, que chegou a ter mais de 1500 apoiadores; mas, ao cabo de 3 dias, todos foram demitidos pelo atual proprietário Wagner Nabuco. Os funcionários protestavam contra a ameaça de uma redução de parte da equipe ou redução dos salários. “O dono comunicou que iria fazer um corte de 50% dos custos da redação, o que significaria a demissão de metade da redação”, diz o ex-editor Hamilton Octavio de Souza. Também queriam direitos trabalhistas, como contratação formal no regime CLT. Em entrevista ao portal Sul 21, Nabuco mostrou-se indignado com as reivindicações. “Não tem carteira assinada porque ninguém entrou aqui com essa promessa. Foram crescendo devagar na empresa, muitos começaram como estagiários. A folha de pagamento da redação nunca foi tão alta, era maior que a do departamento comercial. Nunca me falaram que eu era um patrão ruim. Que instrumento eu utilizei para mantê-los acorrentados e explorados ao máximo? Por acaso coloquei um 38 na cabeça de alguém?”.

Após uma tentativa de negociação, mediada pelo Sindicato dos Jornalistas, os demitidos decidiram entrar com ação judicial contra a empresa. Gabriela Moncau, uma das jornalistas demitidas da Caros Amigos, explica que nove dos onze profissionais desligados da empresa estão se organizando para mover uma ação reivindicando os direitos mínimos trabalhistas, negados no momento da demissão, o que deve ocorrer em breve.

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Existe uma crise nos impressos? Nada a declarar, respondem os jornais http://www.apublica.org/2013/06/existe-uma-crise-nos-impressos-nada-declarar-respondem-os-jornais/ http://www.apublica.org/2013/06/existe-uma-crise-nos-impressos-nada-declarar-respondem-os-jornais/#comments Mon, 10 Jun 2013 20:11:11 +0000 admin http://www.apublica.org/?p=4484 “O argumento das empresas depende do interlocutor”, diz Paulo Zocchi, do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo. “A gente chega numa negociação de campanha salarial, e os jornais sempre dizem que o negócio está indo mal. Mas para o público externo eles falam que está indo muito bem”. Presente em diversas das negociações referentes à atual revoada de passaralhos – demissões em massa de jornalistas – Zocchi descreve que até tem quem admita, na sala de negociações, que o discurso é duplo. “Os caras falam: ‘O que você quer que a gente fale pro mercado? Mas cá entre nós, está indo mal’. É dificílimo saber com detalhes a situação real das empresas”, diz Paulo.

Os mesmos jornalistas que trabalham no dia-a-dia por transparência em todos os setores da sociedade ficam no escuro quando se trata da indústria em que trabalham. “Eu acho tudo muito estranho, pois, ao mesmo tempo em que acontecem esses passaralhos, somos informados, por meio de mensagens internas, que o número de venda de jornais aumentou, que o site bateu recorde etc. Ou seja, algo está fora da ordem, não!?”, resume um jornalista do Grupo Folha, recentemente demitido, que prefere não ter seu nome revelado.

De fato, enquanto anunciava o corte de 24 funcionários, a Folha culpou o “fraco desempenho da economia e seu reflexo na publicidade” pelas demissões; mas dois anos atrás o Grupo Folha celebrava ter triplicado seu faturamento na primeira década deste século, chegando a R$ 2,7 bilhões em 2010 – com um lucro, antes de impostos, de R$ 600 milhões no mesmo ano.

“A situação econômica da Folha é boa, a empresa não tem dívidas”, comentou, na sua coluna, a ombudsman Suzana Singer. Na Abril, a reestruturação – e os cortes, que podem atingir centenas de funcionários – vieram apenas dois meses depois da empresa exibir sua saúde financeira, anunciando receita líquida de R$ 2,98 bilhões em 2012, sendo R$ 1,03 bilhão proveniente de publicidade. A empresa também investiu na área Abril Educação, que absorveu marcas como Ática e Scipione, e o sistema Anglo Vestibulares.

Em seu site, a Associação Nacional dos Jornais (ANJ) também se apresenta otimista: “Publicidade em jornais brasileiros deve aumentar 5% em 2013”, anuncia. “Apesar do pequeno crescimento do PIB em 2012, os investimentos em publicidade em jornal no Brasil devem aumentar 5%, conforme as previsões da Warc, um centro de pesquisa voltado ao levantamento das tendências do mercado publicitário mundial”. Usando outra fonte, a pesquisa Inter-Meios, uma iniciativa do jornal Meio & Mensagem com “os principais meios de comunicação do Brasil”, a ANJ mostra por A mais B que os anúncios em jornais têm aumentado ano a ano – foram de R$ 3,36 bilhões em 2011 para R$ 3,38 bilhões em 2012.

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Procurada pela Pública, a ANJ disse que não comenta casos específicos de demissões – e, sobre a famigerada crise nos meios, limita-se a indicar as otimistas análises de seu site. O diretor do Estadão disse que não se pronunciaria sobre o assunto; a Folha de S. Paulo e o Valor Econômico também foram procurados mas não responderam até o fechamento da matéria. Apenas o diretor da Editora Trip – uma editora de médio porte – Paulo Lima, conversou abertamente com a reportagem sobre as 19 demissões ocorridas em sua empresa.

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Mas afinal, o que está acontecendo?

A inglesa Susy Young, diretora de estatísticas do centro de pesquisas britânico Warc, é uma das vozes mais confiáveis quando se trata de receita publicitária. Entusiasta do aumento de publicidade – que, em escala mundial, está concentrada na Ásia e na América Latina, contra uma decadência na Europa e nos EUA – ela verifica que não houve queda na publicidade de impressos, mas uma perda de espaço para outros setores. “Em 2012, o que nós previmos foi um crescimento modesto em gastos de anúncios para jornais e revistas. Mas previmos também que os meios impressos iriam perder em termos de fatia, nos gastos publicitários gerais”.

O fato é que, embora digam aos quatro ventos que a crise dos jornais não chegou ao Brasil, os conglomerados estão vendo os anúncios migrarem – de maneira irreversível.

“Existe a crise”, diz – em off – um alto executivo da indústria editorial. “O que não se sabe é dividir entre o que é estrutural e o que é conjuntural”. Embora a circulação dos jornais continue crescendo um pouco – o aumento foi de 2,7% em 2012– ela está sendo “puxada” pelos jornais populares como o Extra, do Rio, e Super Notícias, de Belo Horizonte. Já a circulação de revistas caiu 4,6% em 2012. Quanto à questão “conjuntural”, os jornais reclamam do fraco desempenho da economia – já que, em tempos de crise, os anunciantes recorrem à TV para se livrar dos seus produtos em estoque mais rapidamente. Não que isso seja uma novidade no panorama brasileiro.

“Hoje continua fazendo sentido investir em impressos. Agora, se tiver uma migração de publicidade mais agressiva, é algo que vamos ter que pensar daqui a um tempo”, diz o executivo.  Para ele, a internet, “ao mesmo tempo que democratizou o acesso à informação, está tirando parte do financiamento das publicações, das empresas de comunicação”.

O grande problema são os anúncios online – daí a velha bronca da indústria de notícias com o Google, que tem faturado uma grande parte da publicidade na internet. A briga é feia, e levou alguns dos maiores jornais do país a retirarem seu conteúdo da busca do Google News, exigindo o pagamento de “royalties”. Aos poucos, estão voltando.

Outros sites de buscas diretas de carros ou imóveis, por exemplo, também acabaram pulverizando um mercado que antes era concentrado nas mãos dos poucos grupos de comunicação.

Internet superou jornais entre os anunciantes

Segundo um relatório do IAB Brasil (Interactive Advertising Bureau), a receita publicitária da Internet superou a dos jornais no primeiro trimestre de 2012, tornando-se a segunda mídia com maior receita publicitária no Brasil, depois da TV. Embora uma boa parte desses anúncios vá parar nos grupos de comunicação tradicionais – como no portal UOL, o maior da América Latina, que pretence ao Grupo Folha –, outra gigantesca fatia vai para os sites de busca.

Os dados da IAB apontam que, do total de R$ 4,57 bilhões arrecadados em 2012, R$ 2,2 bi foram investidos em publicidade display (como banners) e R$ 3,82 bilhões em ferramentas de busca – esse último modelo de anúncio cresceu 39%, sendo o que mais cresce nos últimos dois anos.

“Os anúncios em impressos irão decrescer, mas os digitais vão aumentar”, diz Susy. “Olhando os dados de nossas previsões, vejo que o total de ganhos de anúncios com a internet vai superar os meios impressos (jornais e revistas) em 2014”. Mas ela faz uma ressalva: “É difícil falar em termos de declínio de anúncios de jornais, já que muitos deles também têm uma presença digital” – e, portanto, também estão lucrando com a proganda online, mesmo que seja menos que o Google. .

Em resumo, diz o executivo, “o que está acontecendo no mundo é o mesmo que tá acontecendo no Brasil”.

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Queda mundial no número de jornalistas empregados

E o que está acontecendo no mundo é claro: os jornais têm optado por reduzir a mão de obra, aumentar a carga de trabalho e, assim, manter os lucros. Segundo a ASNE, Associação Americana de Editores de Notícia, em 2012 havia 40,6 mil jornalistas empregados em redações nos EUA; o número é o menor desde que o levantamento anual passou a ser feito, em 1973, quando havia 43 mil jornalistas empregados. “É um risco que a indústria corre”, diz o executivo, ao ser perguntado sobre o impacto dessas demissões no produto.

Para alguns jornalistas, porém, como Paulo Zocchi, o problema é mais profundo: trata-se da consolidação de um estilo gerencial que privilegia metas ambiciosas e lucros altos. “Estamos vivendo no momento uma certa pressão econômica sobre as empresas. Elas trabalham com um padrão de rentabilidade muito alto hoje, uma rentabilidade de banco. Traçam metas altas e quando ficam abaixo dessa metas está longe de dar prejuízo, mas fazem cortes. Evidentemente isso significa um aumento da exploração do trabalho. Hoje em dia, em relação há 20, 30 anos, o ritmo está muito mais acelerado”. Quando Zocchi consulta os dados da Inter-Meios – os mais confiáveis sobre a indústria – com outros olhos, o que os dados revelam é que “a receita tem aumentado muito mais que o salário dos jornalistas nos últimos 10, 15 anos”.

Para ele, é comum o discurso da indústria atribuir esse novo ritmo à informatização das redações. “É como se isso fosse resultado do avanço da técnica: tem mais tecnologia, é tudo virtual, então se trabalha mais. Na verdade, a empresa se apropria dessa tecnologia que permite unificar funções jornalísticas, e usa isso totalmente voltado para as necessidades dela, para aumentar a rentabilidade. Isso sacrifica as pessoas”.

A voz do dono e o dono da voz

No final de maio, a revista “Trip”, que se destaca por produzir conteúdo jovem, demitiu 19 pessoas, o que, segundo o editor e fundador Paulo Lima, representa menos de 8% do total de funcionários. Foram três jornalistas, quatro da área de publicidade, dois designers, quatro da área de produção de moda e ensaio sensual, e o restante de áreas de apoio, como TI (tecnologia da informação) e almoxarifado. Em entrevista à Pública, ele conta que os cortes foram resultado de uma consultoria realizada pela Falconi Consultores de Resultado, uma das principais consultorias de gestão do país. “Por isso que eu digo que essas demissões tem menos a ver com a crise momentânea e mais com um movimento planejado da empresa”, explica o publisher.

Segundo ele, a Trip cresceu em média 30% ao ano nos últimos 10 anos. “Então, é quase inevitável que você termine um ciclo como esse com algumas questões de ineficiência. Vou dar alguns exemplos: a Trip tem ensaio sensuais femininos, a TPM tem ensaios sensuais masculinos e o site também tem uma sessão de ensaios. A gente tinha em um mesmo núcleo três equipes para fazer ensaios sensuais. É evidente que havia um excesso de pessoas para fazer a mesma atividade”. Essa equipe a que se refere é de produção, já que os fotógrafos já eram terceirizados. Para poupar ainda mais recursos, Lima conta que a empresa centralizou as divisões de revistas e de produtos customizados em um só núcleo. Além disso, ele aposta na terceirização. “A forma de fazer conteúdo está mudando. A tendência, como a gente pode ver recentemente com a Record, é terceirizar a produção e trabalhar com produtores independentes. Acho que é esse o processo que a gente está perseguindo. É adequar a nossa gestão ao nosso tempo”.

O futuro, incerto

A grande maioria dos analistas que tratam do futuro do jornalismo – em especial, nos EUA – fala de “mudança de paradigma”, com o fim da indústria das notícias. Os pesquisadores C.W. Anderson e Emily BelleClay Shirky, da Universidade de Columbia, assumem esse desfecho no relatório “O Jornalismo Pós-industrial: adaptando-se ao presente”:

“Não existe mais uma indústria de notícias. (…) Antes a indústria era mantida pelas condições que determinam o que é uma indústria: métodos similares dentre um grupo relativamente pequeno e coeso de empresas, e uma inabilidade competitiva da produção de todo o resto daqueles que estavam fora deste grupo. Essas condições não são mais verdadeiras”.

Isso não significa, é claro, que o jornalismo em si esteja à beira do precipício. Como diz Paulo Zocchi, a crise ocorre porque, justamente, “o negócio de comunicação está em franca expansão”. “Nada indica, na minha opinião, que o trabalho do jornalista vai acabar. Estamos, em primeiro lugar, lutando para que as condições de trabalho não piorem mais”.

Existe, ao mesmo tempo diversas iniciativas que procuram realizar jornalismo de outras maneiras – como é o caso desta Agência Pública, uma organização sem fins lucrativos – mas, para a maioria dos jornalistas, resta a incerteza de como será o seu próprio futuro. “Eu acho que as pessoas estão vendo que vão ter que se adaptar, mas nem todo mundo, eu inclusive, ainda não sabe exatamente como se encaixar nesta nova realidade. A piada é ‘vou montar um blog e ficar rico’” – brinca uma jornalista da editora Abril que, ainda num cenário de possibilidades restritas, prefere não se identificar para não arriscar seu ganha-pão.

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A pior profissão do mundo http://www.apublica.org/2013/06/pior-profissao-mundo/ http://www.apublica.org/2013/06/pior-profissao-mundo/#comments Mon, 10 Jun 2013 17:55:43 +0000 admin http://www.apublica.org/?p=4463 Todo ano, o site americano CareerCast.com elenca uma lista de 200 profissões, classificando-as da melhor à pior a partir de cinco critérios: ambiente de trabalho, salário, nível de estresse, exigência física e condições de contratação. Pois bem. Em 2013, após alguns anos figurando entre as dez piores, a profissão de repórter de jornal chegou ao fundo do poço, ficando em 200◦ lugar na lista, atrás de lenhador, militar e trabalhador de fazenda de gado.

A pesquisa, que não tem lá muito critério científico, é mais um sinal da percepção de que a indústria do jornalismo impresso está em crise no mundo. Segundo levantamento da Associação Mundial de Jornais e Publishers, que reuniu dados de 90% das publicações no mundo, os jornais encerraram o ano passado com queda de 0,9% na circulação e de 2% na receita publicitária.

Um relatório recente do instituto Tow Center, da Universidade de Columbia, constata que se “anunciantes nunca tiveram interesse em apoiar agências de notícias”, a relação entre as receitas de publicidade e salários de jornalistas sempre esteve em função da capacidade das editoras de extrair lucro. Mas, para os pesquisadores do Tow Center, se isso funcionou bem no século 20, não funciona mais. Nos EUA, a receita publicitária tradicional, base do financiamento do jornalismo desde de 1830 começou a cair em 2006 – exatamente na época em que começaram as chamadas “integrações impresso-online” no mercado de notícias.

Aqui no Brasil, os veículos de grande porte negam que haja crise, mas ao menos no que se refere ao trabalho do jornalista, a decadência é inegável – e verificável. Lançada em 7 de abril, dia do jornalista, a pesquisa “Quem é o jornalista brasileiro?”, realizada pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), em convênio com a Federação Nacional dos Jornalistas – FENAJ, analisou características demográficas, políticas e do trabalho dos profissionais de jornalismo, a partir de uma enquete respondida por 2.731 pessoas. Constatou que 45,1 % dos jornalistas trabalham mais de 8 diárias e a maioria da categoria – quase 60% – tem renda de até cinco salários mínimos, o que equivale a R$ 3.110,00 (em valores de 2012, ano de realização da pesquisa).

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Conforme reiteram os sindicatos, a rotina dos trabalhadores dos jornais é de pelo menos 10 horas por dia, sem contar os plantões. No caso do Diário Catarinense, por exemplo, os repórteres, diagramadores e redatores começaram a registrar entrada e saída do trabalho apenas em março de 2011, mas os editores e subeditores são contratados em condição de “emprego de confiança” com horário flexível, ou seja, não batem cartão. Em termos práticos, como eles têm de fazer a pauta para o dia seguinte e fechar o jornal, acabam trabalhando entre nove e 11 horas por dia, sem receber remuneração pelas horas extras.

Dos jornalistas atuantes na mídia, 59,8% possuem carteira assinada. Outros dados demonstram como variadas formas de contratação têm sido adotadas. Ao somar o número de freelancers (11,9%) com os jornalistas que possuem contrato de prestação de serviços (8,1%) e os que firmaram contrato de pessoa jurídica, os PJs (6,8%), são 26,8% de todos os trabalhadores de mídia. O percentual de freelancers em atuação na mídia é duas vezes maior que o de freelancers fora da mídia.

Tem mais: segundo a pesquisa da UFSC, a maioria dos profissionais é composta por mulheres de até 30 anos, e é justamente esse grupo que integra a menor faixa salarial da categoria; as mulheres são minoria em todas as faixas superiores a cinco salários mínimos. Apenas 8% dos jornalistas têm mais de 50 anos.

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Propriedade cruzada, trabalho dobrado

Seis em cada dez jornalistas que trabalham na mídia, em veículos de comunicação e produtoras de conteúdo, por exemplo, exercem sua profissão em meios impressos, setor mais afetado com as recentes demissões, embora muitas vezes publiquem textos também nas publicações online ou em agências de notícias de propriedade do grupo que edita o jornal.

Trata-se da continuação de uma política adotada pela indústria de notícias na última década. Os grandes conglomerados aproveitam a condição de ter propriedade cruzada de vários veículos de comunicação e vão “convergindo” também os processos de trabalho.

Os donos de jornais – em um processo de “sinergia” – integraram as redações de modo a eliminar a separação entre trabalhadores do online e do impresso, economizando custos com recursos humanos enquanto adquiriam novas tecnologias de organização de dados, captação e edição de vídeos e de transmissão das informações para desdobrar o conteúdo em tablets e celulares, por exemplo. O mesmo corpo de jornalistas, arrochado pelas demissões, tem de produzir conteúdo nos mais diferentes formatos para o impresso e para a internet. Diagramadores e editores de arte estão sendo treinados para produzir infográficos animados e layout para o papel e para a internet; os repórteres-fotográficos agora têm que fazer cursos de técnicas de filmagem e edição de vídeos. É a chamada “redação convergente”.

“O processo de digitalização facilitou muito. Porque eu vou pagar R$ 2.000,00 em uma viagem se eu posso pagar R$ 100,00 em uma foto?”, observa o repórter-fotográfico Lula Marques, recém-demitido pela Folha, explicando por que a nova organização atinge especialmente os fotógrafos. É uma raridade encontrar algum veículo que contrata formalmente esses profissionais da imagem. O trabalho deles costuma ser substituído pelo conteúdo de agências ou pelo acúmulo de tarefas do repórteres de texto, que passam também a fazer imagens – ainda que, muitas vezes, com qualidade inferior.

A “Pejotização”

José – o nome é fictício – trabalhou no Grupo Estado por quatro anos sem registro em carteira e chegou à função de editor-assistente. “Entrei como frila na Agência Estado para cobrir férias e, em 2004, entrei no Estadão. Fiquei quatro anos lá, trabalhando diariamente sem registro em carteira, como frila fixo. Nenhum documento, nenhuma nota, nenhum contrato que provasse que eu trabalhei lá”.
Se o leitor é profissional de outra área, saiba que “frila fixo”, figura muito utilizada nas redações, é um funcionário que trabalha como contratado, como subordinação e horário fixo, mas sem benefícios trabalhistas, como o registro em carteira. José tentou negociar a contratação dele durante todo esse período, no qual houve pelo menos três trocas de chefia. Nunca foi contratado. “Toda vez que trocava de chefe, eu tinha que renegociar”, conta, explicando que a situação acabou por se tornar insustentável. “Eu era bem avaliado pelas chefias e continuava sendo um colaborador, sem nenhum direito trabalhista”. Saiu de lá para uma empresa de outro ramo da comunicação. Ofendido com a maneira como foi tratado, José procurou o advogado do sindicato, que o orientou a processar o jornal. “Eu tinha horário para entrar e para sair, tinha um computador com meu login e senha. Mas precisava de testemunhas, o que era mais difícil”. O caso ainda segue na Justiça.

Segundo o advogado trabalhista Kiyomori Mori, a forma mais comum de precarização do trabalho de jornalistas é o contrato de indivíduos através de empresas individuais – que eles são obrigados a abrir – como Pessoa Jurídica (PJ), caso de José. Além disso, nos contratos PJ, muitas empresas tentam se proteger de ações trabalhistas colocando cláusulas de multa, explica Mori: “Se o contrato for levado para a Justiça do trabalho, o contratado tem de indenizar a empresa com R$ 300 mil”, exemplifica. “Por isso, quem entra na Justiça, tem de pedir a nulidade do contrato firmado com a empresa antes de tudo”, alerta o advogado.

No final do ano passado, o Sindicato dos Jornalistas do Estado de São Paulo entrou com uma ação contra a editora Abril no Ministério do Trabalho pela “pejotização” dos funcionários. “A empresa não negociou com o sindicato, mas reduziu praticamente os ‘frilas fixos’, contratando 120 deles. A gente apurou, indo de redação em redação, que foram dispensados entre 30 e 40”, diz Paulo Zocchi, do Sindicato de Jornalistas de São Paulo.

Aos 53 anos, com 28 anos de jornalismo, Paulo, que trabalha na mesma editora Abril, faz parte de um “pequeno extrato” de colegas que têm mais de 50 anos. “Você tem uma quantidade gigantesca de jovens na faixa do 20 e tantos e 30 anos, aqui na Abril. O que acontece? Com o tempo a empresa vai simplesmente substituindo. Não é uma demissão em massa, é uma rotatividade mais difícil do sindicato impedir que aconteça”, diz, qualificando a profissão de “ingrata”.

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Frustração e saúde abalada

A precarização do ambiente de trabalho chega a afetar seriamente a saúde dos profissionais de comunicação, como atesta o pesquisador da Universidade de Campinas (Unicamp) José Roberto Heloani, que desde 2002 investiga os problemas de saúde no ambiente de trabalho do jornalista. Ele diz que nos últimos dez anos a situação só piorou. Sua terceira pesquisa sobre o assunto, que está em vias de conclusão, traz um panorama soturno: entre 2002 e 2013, a pesquisa apontou maior tendência depressiva nos jornalistas e uso de medicamentos lícitos e ilícitos para amenizar a angústia. Roberto também identificou um fenômeno chamado “naturalização do assédio”.

Ele cita o “pescoção”, nome que se dá a uma jornada de até 14 horas seguidas nas sextas-feiras, para o fechamento da edição de sábado e de domingo. Para os sindicatos, a jornada é ilegal, já que o máximo permitido por lei a qualquer categoria são dez horas diárias. O “pescoção” não é remunerado e, em alguns casos, o funcionário também tem que trabalhar no sábado. Isso significa também o desrespeito ao intervalo de 11 horas entre uma jornada de trabalho e outra, garantido pela CLT. Na maioria das vezes, a tarefa é encarada com naturalidade pelos jornalistas, simplesmente como parte da profissão.

“A gente tem visto uma grande dificuldade de compreender pescoções e plantões como uma coisa ruim. As pessoas encaram como se fosse natural”, diz o pesquisador. Segundo ele, os profissionais desse setor têm, em média, um final de semana livre por mês. Isso leva ao rompimento de relacionamentos e problemas com a família, além de uma situação muito comprometedora de estresse patológico e exaustão, que é quando a pessoa tem a sensação de que o sofrimento não vai acabar mais. “Grande parte dos profissionais entra nesse sistema com a esperança de que o sofrimento acabe no curto prazo. Quem aguenta, tenta aceitar que o sofrimento faz parte da profissão e o que é preciso aceitá-lo como se fosse natural”. Segundo ele, a ausência de vínculo formal e as poucas possibilidades de esse cenário se reverter aumentam a situação de insegurança e, consequentemente, as chances de perturbações psíquicas. “Não existe possibilidade de, ao mudar de emprego, essa situação melhorar”.

A idealização da profissão seria outro problema peculiar da profissão de jornalista. “O jornalismo é uma profissão que tem um certo glamour, que, no imaginário da população, ainda tem algo de heroico. Então, no primeiro choque com a realidade, normalmente já no estágio, o profissional tem um certo desencantamento que depois, quando ele começa a trabalhar, vira frustração. Isso é um problema sério. Essa frustração é resultado de um conflito entre a fantasia e o mundo real do trabalho. Não é à toa que alguns, depois de se formar, poucos meses ou anos, vão para outra profissão”.

Para aliviar a tensão, muitos dos que ficam consomem cada vez mais álcool e ansiolíticos, como calmantes. “O aumento do consumo de álcool e drogas foram significativos em relação à última pesquisa, realizada em 2005”, diz o pesquisador. “É comum começar com álcool. Quando aumenta a tolerância à bebida, ou seja, o efeito relaxante fica menor, a pessoa começa a beber cada vez mais até um ponto que começa a usar medicamentos para insônia ou algum ansiolítico. Só que, assim como aumenta a tolerância ao álcool, aumenta a tolerância ao ansiolítico. E o profissional também abusa do medicamento. Paralelamente, ele começa a sentir os efeitos colaterais da medicação, como falta de concentração e depressão. Com isso, ele começa a tomar antidepressivo. Resultado: nessa lógica de tomar entorpecentes, muitos trabalhadores começam a partir para psicofármacos, como cocaína, para poder trabalhar. No começo, o uso da droga melhora a memória, raciocínio e o vigor físico para uma rotina de 12 horas de trabalho por dia. Mas, tal como outra medicação, a pessoa começa a criar tolerância e os efeitos ‘bons’ começam a ser mais fracos. É aí que a pessoa se afunda”.

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“Quanto mais adianto a obra, mais perto fico de ser removido” http://www.apublica.org/2013/06/quanto-mais-adianto-obra-mais-perto-fico-de-ser-removido-copa-do-mundo-copa-2014-direitos-humanos-itaquera-polo-corinthians/ http://www.apublica.org/2013/06/quanto-mais-adianto-obra-mais-perto-fico-de-ser-removido-copa-do-mundo-copa-2014-direitos-humanos-itaquera-polo-corinthians/#comments Fri, 07 Jun 2013 12:00:33 +0000 Ciro Barros http://www.apublica.org/?p=4438 “Aquele primeiro bar ali é do Jaílson, procura ele lá que você vai achar”, me disse, de dentro de seu próprio bar, apontando para a direita, o motorista Pedro Fortunato, o Seu Pedro, figura notória da Comunidade da Paz, em Itaquera, zona Leste de São Paulo. O relógio marcava 17h20, mas a noite já ensaiava aparecer às margens do córrego do rio Verde quando chego ao bar indicado, uma birosca típica de favela, que  toca alto um pagode romântico dos anos 1990 – enquanto estive ali, além dos pagodes de Belo, Alexandre Pires e Revelação, ouvi o rap dos Racionais MC’s e Sabotage.

O comércio que complementa a renda do operário é simples: chão de terra batida, iluminação de uma única lâmpada (a energia vem de uma “gambiarra”, assim como a água), um pequeno balcão ao fundo, algumas poucas pessoas bebendo e jogando sinuca. Encontro os olhos claros de Jaílson atrás do balcão. Ele me estende a mão calejada pelo trabalho braçal e nem me deixa me desculpar pelo atraso, diz que tinha acabado de chegar também.

Jaílson ainda veste as calças amarelas com faixas refletoras de luz e botas grossas, o uniforme usado na construção civil. A Copa do Mundo, decidida por engravatados em escritórios de Genebra, o transformou numa contradição ambulante: o operário mora na comunidade vizinha ao estádio, ameaçada de remoção exatamente pelas obras em que trabalha. Ele é encarregado da “armação”, passa o dia montando armações metálicas para receber concreto nos canteiros das obras viárias do futuro estádio do Corinthians e do Polo Institucional de Itaquera, colado ao estádio, que contará com uma FATEC, uma ETEC, uma biblioteca, unidades do corpo de bombeiros e da PM e um parque linear.

Idealizado na gestão de Gilberto Kassab (PSD), o projeto da prefeitura de São Paulo foi incluído nas obras da Copa e apresentado como um legado do mundial para a cidade. O prazo para a conclusão das obras, meados de 2014, angustia os moradores da Comunidade da Paz que, como Jaílson, não sabem o que será feito deles depois.

“Me bate uma tremenda revolta, cara. Acho uma tremenda falha e erro do ser humano”, ele diz de modo assertivo, direto, olhos nos olhos. A voz seca, a expressão sisuda parecem encarar o sofrimento com naturalidade. Penso em Fabiano, protagonista de Vidas Secas, acostumado a se conter diante da face dura que a vida lhe mostrou. Como o personagem de Graciliano Ramos, Jaílson se sente massacrado a ponto de duvidar de sua condição humana: “Me sinto tratado como lixo, como um animal”, resume.

Ironicamente, o terreno que hoje abriga o bar de Jaílson, na frente de sua casa, já foi um lixão. “Conforme vai adiantando aquela obra, eu vou me afastando do lugar em que eu criei os meus filhos. Pra mim não é fácil porque eu sei que quanto mais adiantar aquela obra, mais rápido eu vou ser expulso de lá. Mas tem que fazer né? Eu preciso do trabalho, preciso colocar comida na mesa para os meus filhos, não tem jeito, tem que fazer uma coisa sacrificando outra”, consola-se.

A epopéia de Jaílson da Bahia a São Paulo

Jaílson, aliás, nem é o primeiro nome dele. Seu nome completo é Cícero Jaílson Ponciano da Silva. Tem 39 anos e é baiano do município de Paulo Afonso, que fica a 460 km de Salvador e acaba de romper a barreira dos 100 mil habitantes, segundo o último censo do IBGE. O segundo nome pegou, segundo ele, desde menino.

Em 1996, aos 22 anos, Jaílson veio tentar a sorte em São Paulo como tantos conterrâneos. “No início, catei reciclagem. Normal, um serviço digno como outro qualquer, mas era uma maratona, tem que acordar muito cedo pra encher o saco, a carroça de coisas. Depois, fui trabalhar de pedreiro, melhorando a vida, conhecendo outras pessoas, conhecendo São Paulo mesmo, que eu não conhecia nada. Daí comprei esse lugarzinho aqui e mandei buscar a minha família”, relembra.

Ele estava há dois anos em São Paulo, quando nasceu na Bahia a primeira filha, Wesleane, hoje com 15 anos – a mulher, Maria José Vieira, ainda vivia lá. Ele trabalhava como pedreiro e enviava dinheiro para a família, enquanto se estabelecia na Comunidade da Paz, cujo nome oficial é Miguel Inácio Curi II. Foi o irmão, José Domingos, morador da comunidade vizinha, a Miguel Inácio Curi I, que lhe avisou que havia espaço em uma antiga área da COHAB abandonada, onde brotavam alguns barracos, perto dali. Ele construiu a casa com as próprias mãos.

“Quando eu cheguei, tinham poucos barracos e era só mato, eu sou um dos fundadores daqui”, gosta de repetir, com certo orgulho. O local é estratégico: fica a poucos metros da estação de metrô Corinthians-Itaquera, inaugurada em 1988, que também abriga um shopping e um terminal de ônibus e oferece uma boa infraestrutura pública, essencial para famílias de baixa renda. Num raio de 2,5 km há oito escolas municipais de ensino infantil, duas escolas municipais de ensino fundamental, sete escolas estaduais de ensino fundamental e médio, 12 creches, uma biblioteca, duas MOVAs (Movimento de Alfabetização de Jovens e Adultos), quatro AMAs e uma UBS.

Somando o que ganha no bar, no trabalho no canteiro de obras, e a indenização que a Previdência Social lhe paga por conta da paralisia cerebral do segundo filho, Wesley, de 11 anos. Jaílson ganha 2.500,00 reais por mês para sustentar quatro pessoas.

Gato, cachorro, peixinhos: o mundo de Wesley em risco

Wesley, o filho caçula, foi o principal motivo para que Jaílson se decidisse a viver com a família em São Paulo. “Até que hoje está melhor, mas mais para trás, na Bahia, era muito difícil para arrumar tratamento”, comenta, referindo-se ao garoto que ficou o tempo todo próximo do pai, durante a entrevista realizada na salinha da casa, atrás do bar.

Basta olhar para Wesley para perceber que ele precisa de cuidados em tempo integral, o que parece ainda mais difícil em um barraco de favela. As dificuldades motoras não o impedem porém, de sorrir e brincar com os animais da casa: o gato Buritama, um cachorrinho que ainda não tem nome, presente de um colega de obra e os peixinhos no aquário. “Ainda não consegui vaga na escola especial para ele”, lamenta Jaílson.

Dois episódios recentes marcaram profundamente a família. Um deles no Hospital Santa Marcelina, próximo à Comunidade da Paz, há uns dois meses atrás, como ele conta. “Eu precisava marcar uma consulta pra ele [Wesley] na fonoaudióloga e a moça queria agendar a consulta para 2022. Consulta com dez anos de antecedência? E eu precisando para ontem?! Ela ficou querendo discutir, eu saí fora. Não tenho o documento disso porque na hora eu fiquei louco, era para eu ter marcado a consulta para eu ter uma prova. Mas foi o que aconteceu”, diz.

O outro episódio ocorreu quando Jaílson saía de uma reunião na comunidade para buscar um sobrinho seu, de 18 anos. “Queria trazer ele para essa reunião, estávamos falando sobre fazer um campinho num terreno próximo, para a molecada ter onde jogar uma bola aqui perto e o terreno não ser usado pros nóias fazerem o que não devem”, conta. Antes da reunião, porém, Jaílson tinha passado no bar, recebido uma lista de compras da esposa e o dinheiro reservado para elas. Estava com uma quantia razoável em mãos porque também tinha descontado o cheque de pagamento da obra e a indenização do filho. Ou seja, estava com quase toda a renda mensal na carteira.

Foi quando cruzou com uma viatura da ROTA (Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar), divisão da Polícia Militar paulista, tristemente famosa pela violência, em especial na periferia. “Parado aí, vagabundo”, ouviu dos policiais. Sacou a carteira para mostrar os documentos. “Aí eles: ‘e esse monte de dinheiro aí na sua carteira, você diz que é trabalhador?’ Começaram a rir da minha cara. Aí eu: ‘esses 510 aqui é do meu filho que é aposentado, eu tenho um bar ali, esse outro dinheiro é do bar, tô até com a lista aqui do que eu vou comprar, e esse outro dinheiro é meu salário, do meu trabalho. Aí tinha um deles meio de canto que falou: ‘beleza, deixa o rapaz ir embora’. Eu fui embora e desceu lágrima nos olhos na hora. É difícil você trabalhar a vida inteira, ralar, para chegar o cara e vim chamar você de vagabundo. Eu não sou contra eles chegarem aqui e abordarem é o trabalho deles. Mas que nos tratem como cidadãos”, questiona. “É um negócio muito estranho, não consigo entender: os caras não dão resposta para a gente [sobre o que vai acontecer com a comunidade], e a resposta que eles dão é soltar a polícia aqui, mandar vir atrás de todo mundo”, reflete.

‘Faço questão de mostrar minha situação’

Jaílson diz fazer questão de alertar seus colegas de trabalho para a situação contraditória em que está. “Me perguntam: ‘você mora aonde?’ Eu moro na comunidade ali que vai ser removida com essa obra aqui. Faço questão de falar”, afirma. “Eu faço isso para ver se alguém fala com os grandões lá que estão lá dentro e me dá a oportunidade de eu falar com eles”, explica. O que ele gostaria de dizer?, pergunto. “Eu falaria para eles que justiça social não se faz expulsando o ser humano de dentro da sua casa sem dar opção. Expulsa como se fosse um animal, um qualquer, um excluído da sociedade. E eles queiram ou não queiram, a gente é parte da sociedade”, analisa.

Corintiano (“Mais essa né?”), fã de futebol que “bate sua bolinha de vez em quando, quando dá tempo”, Jaílson diz que nunca mais verá uma Copa do Mundo da mesma maneira. E que a lembrança da saída de sua casa, que ele dá como certa, será eterna: “Que vai sair, vai, não tenho dúvida”, afirma. Também acha que a Copa será um fiasco dentro e fora de campo. “A gente não tem transporte, infraestrutura nenhuma. Aeroporto também não tem. E o mais evidente: essa seleção que a gente tem aí. Acho que se eu montar um time aqui na favela é melhor do que essa seleção aí”, afirma, dizendo que a Paz é um celeiro de craques.

Em maio do ano passado, quando aconteceu um corte de luz suspeito na Comunidade, venceu a desconfiança inicial e se uniu aos movimentos populares de Itaquera e ao Comitê Popular da Copa para lutar pela comunidade: “A gente sempre ouviu muito boato, de que vai sair, não vai sair… Quando o pessoal chegou aqui, a gente achou que o pessoal queria se aproveitar da situação da gente”, diz, acrescentando que o movimento está crescendo, se unindo a outras comunidades, e que a mudança da gestão municipal pode mudar a situação.

Na saída da casa de Jaílson, deparo com o Salmo 91, da Bíblia, enquadrado na parede. “Mil cairão ao teu lado, e dez mil à tua direita, mas não chegará a ti”, diz o versículo sete do Salmo 91. O trecho é simbólico: esse é o número de pessoas que podem ser removidas pelas obras da Copa só no Rio de Janeiro. Resta saber se a devoção ao salmo o livrará do mesmo destino.

O blog Copa Pública é uma experiência de jornalismo cidadão que mostra como a população brasileira tem sido afetada pelos preparativos para a Copa de 2014 – e como está se organizando para não ficar de fora.

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Bomba brasileira na pele turca http://www.apublica.org/2013/06/gas-lacrimogeneo-brasileiro-utilizado-pela-policia-na-turquia/ http://www.apublica.org/2013/06/gas-lacrimogeneo-brasileiro-utilizado-pela-policia-na-turquia/#comments Wed, 05 Jun 2013 11:00:04 +0000 admin http://www.apublica.org/?p=4424 Em 2012, quando a inscrição “Made in Brazil” estampava projeteis de gás lacrimogêneo usados contra manifestantes pró-democracia no Bahrein e ativistas denunciavam inclusive a morte de um bebê supostamente vítima do gás brasileiro, o Ministério das Relações Exteriores anunciou que iria averiguar se houve alguma irregularidade na exportação. Porém, um ano depois, o Itamaraty informa que apenas observa o caso, sem conduzir investigações ou tomar medidas. Em resposta indignada, um ativista americano-saudita Rasheed Abou-Alsamh, autor da denúncia, escreveu: “O Itamaraty deve achar que somos ingênuos”.

Na ausência de restrições à exportação de armas não-letais, o mesmo gás, fabricado pela empresa Condor SA, do Rio de Janeiro, é agora empregado pela polícia da Turquia na repressão aos crescentes protestos contra o governo de Recep Tayyip Erdogan, que se espalharam por mais de 60 localidades em todo o país, deixando centenas de feridos e estimativas de 2 mil pessoas presas.

A Anistia Internacional confirma o uso de gás lacrimogêneo brasileiro durante as manifestações – que se iniciaram após um protesto pacífico contra a derrubada de 600 árvores na Praça Taksim, em Istambul. A professora americana Suzette Grillot, que está em Ankara, fotografou um dos projeteis brasileiros utilizadas pela polícia. “Um membro do nosso grupo encontrou a cápsula na noite de ontem (3 de junho) em Ankara”, relatou à Agência Pública.

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Professora americana fotografou um dos projeteis de gás lacrimogêneo brasileiros utilizados pela polícia turca. Imagem: Suzette Grillot

O gás lacrimogêneo brasileiro vem sendo usado desde o começo dos protestos, em 31 de maio, em Istambul. “Naquele dia, havia apenas um grupo pequeno de ambientalistas. A polícia invadiu o parque às 5h da manhã enquanto essas pessoas dormiam nas barracas. Os policiais queimaram barracas e atacaram os manifestantes com gás lacrimogêneo”, conta um participante do movimento Occupy Gezi, que preferiu não se identificar por medo de represálias. “Os policiais deveriam atirar os projeteis de gás para cima, mas eles miram nas pessoas. Alguns perderam a visão por serem atingidos diretamente (pelos projeteis), outros são atingidos nos braços e pernas. Existem centenas de vídeos mostrando efeitos do gás: lágrimas, náusea, vômito, dificuldade em respirar”.

O escritório de Direitos Humanos da ONU pediu à Turquia que conduzisse uma investigação independente sobre a conduta das suas forças de segurança em relação aos protestos. “Estamos preocupados com relatos de uso excessivo de força por agentes legais contra manifestantes”, disse a porta-voz do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Cecile Pouilly.

Armas “não-letais” que, sim, matam

A cápsula fotografada pela americana Suzette Grillot é o resto de um projétil lacrimogêneo de longo alcance (GL 202) produzido pela Condor, líder em produção deste tipo de arma na América Latina. O projétil chega a uma distância média de 120 metros e tem a capacidade de passar por cima de obstáculos como muros e barricadas “para desalojar pessoas e dissolver grupos de infratores da lei”, segundo descrição da própria fabricante. No entanto, a Condor explica, no seu site, que a má utilização dos projéteis pode causar danos sérios à saúde – e até a morte.

Outra foto tirada pelos manifestantes mostra uma granada lacrimogênea de movimentos aleatórios (GL 310), também conhecida como “bailarina”. Ao tocar o solo, a bomba salta e faz movimentos em diversas direções, espalhando o gás por uma grande área e evitando assim que o “alvo” a jogue de volta, em direção às forças policiais. O site da empresa explica que, em contato com materiais inflamáveis, a granada pode gerar chamas.

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Na foto divulgada pelos manifestantes, aparecem as armas GL 310 e Gl 202 da Condor (1º e 3º itens da esquerda para direita). O 2ª armamento da esquerda para direita é da Nonlethal Technologies, companhia dos Estados Unidos que é a principal exportadora de armas não-letais para a Turquia, ao lado da brasileira Condor.

Além dos projeteis de longo alcance e da granada “bailarina”, a Condor produz sprays de gás lacrimogêneo e pimenta, bombas de fumaça, balas de borracha e pistolas elétricas incapacitantes, conhecidas como “taser”. A Condor é a única empresa brasileira que vende esses equipamentos para o governo da Turquia, conforme divulgou sua assessoria de imprensa. Em 2011, a empresa já havia confirmado a venda de armamento para países árabes, embora tenha negado a venda direta para o Bahrein. Entre seus clientes estava o governo dos Emirados Árabes Unidos, que enviou tropas de apoio ao governo baremita.

Em abril deste ano, a Condor assinou mais um contrato com o governo dos Emirados Árabes, no valor de US$ 12 milhões, para o fornecimento de 600 mil unidades de munições não-letais. O acordo foi anunciado durante a Laad, a maior feira de defesa e segurança da América Latina, realizada no Riocentro em abril.

Em maio, empresas de armas foram à Turquia com apoio do governo brasileiro

Menos de um mês antes do início dos protestos na Turquia, o governo brasileiro apoiou um encontro de empresas de armamento nacionais com compradores estrangeiros em Istambul. Durante a mostra Internacional de Defesa IDEF 2013, realizada entre 7 e 10 de maio, a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex Brasil) e a Associação Brasileira das Indústrias de Materiais de Defesa e Segurança (Abimde) – cujo vice-presidente, Carlos Frederico Queiroz de Aguiar, é presidente da Condor – montaram um vistoso estande no pavilhão do Brasil.

Na parte que coube à Condor, uma vitrine estampava variados projéteis metálicos, granadas e latas de sprays coloridas, iguais àqueles que seriam utilizados poucas semanas depois nas ruas do mesmo país. Sob o nome da empresa, em um letreiro vermelho, também foram expostos a granada “bailarina” e “diversas soluções em defesa” - segundo o jargão da indústria – como 13 tipos de munições incapacitantes de 40 x 46mm para lançadores.

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Estande da empresa Condor em pavilhão brasileiro na Turquia em maio de 2013. Alguns dos itens expostos são os mesmos que seriam utilizados contra a população em menos de mês depois.

Questionada sobre o incentivo à Condor e a outras empresas brasileiras na Turquia, a Apex não respondeu à reportagem da Pública até o momento de publicação. De acordo com o jornal turco Sozcu, o ministro de Comércio Hayati Yazici informou que nos últimos 12 anos, o país importou 628 toneladas de gás lacrimogêneo e spray de pimenta sobretudo do Brasil e Estados Unidos. O valor das importações chegou a US$ 21 milhões.

Em fevereiro deste ano, a Abimde já havia participado de outra feira de armamento, dessa vez em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos. Novamente, a Condor participou do evento como a única empresa brasileira produtora de armas não-letais.

E no Brasil… Armas não-letais são questionadas pelo MPF

O Brasil assinou no último dia 3 de junho o Tratado sobre Comércio de Armas (ATT, em inglês) na Organização das Nações Unidas (ONU). Segundo o texto, que visa a eliminação do comércio de armas para genocidas, terroristas e crime organizado internacional, “será regulado o comércio de armas convencionais estabelecendo critérios para a exportação e trazendo mais transparência às transferências”. Considerado um grande avanço para um país que evita a transparência quando se trata de venda de armas brasileiras – o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior se nega a divulgar números das empresas que exportam armas, por exemplo – o tratado não tem definições específicas sobre comércio de armas não-letais.

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Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior se nega a divulgar dados de empresas brasileiras que exportam armas.

Os produtos da Condor são vendidos para mais de 40 países. Mas enquanto a Apex incentiva a exportação para países como Turquia e Emirados Árabes, o uso das mesmas armas não-letais é questionado pela justiça brasileira. Em novembro do ano passado, a Procuradoria Federal dos Direitos dos Cidadãos decidiu investigar as consequências para a saúde do uso dessas armas dentro do país. A pedido da organização Tortura Nunca Mais, de São Paulo, foi criado um grupo de trabalho (GT) composto por representantes dos Ministérios da Justiça, Defesa, Saúde e da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, além das Polícias Federais, Estaduais e Guardas Municipais, para acompanhar Projetos de Lei sobre o tema. Isto porque não existe uma norma nacional para balizar condutas e garantir o uso adequado de tais armamentos.

O GT também deve realizar estudo comparativo dos programas de treinamento policiais e estudos sobre as consequências para a saúde das pessoas alvejadas, em especial, por armas que utilizam eletrochoque e componentes químicos. “Nossas polícias estão usando este tipo de armas supostamente não-letais de maneira ostensiva”, diz Wilson Furtado, do Tortura Nunca Mais-SP. “O policial, em vez de deter a pessoa, atira e pronto, atingindo principalmente jovens que estão protestando”.

O grupo pede uma legislação que discipline e regulamente os armamentos não-letais, definindo os tipos de armamentos autorizados e normas para compra, controle e uso, além de mecanismos de informação aos cidadãos.

Condor, vendendo Brasil afora

As armas não-letais da Condor são amplamente usadas por polícias em todo o país – e pelo Governo Federal. Programas federais compram tais armas, por exemplo, para as UPPs no Rio de Janeiro e para forças policiais de 12 Estados envolvidos no programa “Crack, É Possível Vencer” – incluindo pistolas de choque, as “tasers”, e sprays de pimenta. Apenas para os megaeventos Copa das Confederações e Copa do Mundo de 2014, o Brasil já destinou R$ 49 milhões para a Condor.

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Gás lacrimogêneo exportado para a Turquia também foi comprado pelo Governo Federal para utilização durante a Copa do Mundo 2014 e as Olimpíadas.

Em abril de 2012, segundo o Portal da Transparência, o Governo Federal gastou R$ 1,5 milhão na compra de munições não-letais da Condor para uso do Exército na “garantia da lei e da ordem dos complexos do Alemão e da Penha”. Entre os itens adquiridos estavam 1125 granadas explosivas de luz e som (GL 307), 500 granadas multi-impacto pimenta (GM 102) e 500 granadas fumígenas, 29,5 mil cartuchos de bala de borracha e 700 granadas lacrimogêneas de movimentos aleatórios (GL -310) – a mesma usada contra os manifestantes na Turquia.

Em junho, foi a vez do governo comprar armamentos da Condor para a segurança da Rio+20, num total de R$ 1,3 milhão. Entre os eles mais de 900 sprays de pimenta, 1,3 mil granadas lacrimogênea tríplice, 870 granadas explosivas de luz e som e 5 mil cartuchos calibre 12, com projétil de borracha.

Até na Copa – pela bagatela de R$ 50 milhões

Por um total de 49,5 milhões, o Governo Federal fechou a compra de milhares de armamentos não-letais da empresa Condor – a mesma que forneceu as bombas usadas contra manifestantes na Turquia – para serem usados pelas polícias de todas as cidades-sede durante a Copa das Confederações de 2013 e a Copa do Mundo de 2014.

O contrato com a Condor S.A. Indústria Química, assinado em 26 de novembro de 2012 e com vigência até 31 de dezembro de 2014, prevê o fornecimento de diversos tipos de armamentos, como 2,2 mil kits não-letais de curta distância, contendo sprays de pimenta e de espuma de pimenta, granadas lacrimogênea com chip de rastreabilidade, granadas de efeito moral para uso externo e indoors e granadas explosivas de luz e som; além disso, 449 kits não-letais de curta distância com cartuchos de balas de borracha e cartuchos de impacto expansível – balas que se expandem em contato com a pele, evitando a perfuração.

Além disso, o contrato inclui a compra de 1,8 mil armas elétricas para lançamentos dardos energizados – as pistolas “taser”, 8,3 mil granadas de efeito moral, 8,3 mil granadas de luz e som, 8,3 mil granadas de gás lacrimogêneo fumígena tríplice e 50 mil sprays de pimenta.

Leia aqui a íntegra do contrato.

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