Buscar
Reportagem

Em Fortaleza, plebiscito do Acquário volta à pauta depois de protestos

Três anos depois do governo anunciar a criação de um aquário de 258 milhões de reais em Fortaleza, a população da capital cearense está perto de dizer se quer ou não a obra

Reportagem
5 de julho de 2013
09:00
Este artigo tem mais de 13 anos

Nos adicione como fonte preferencial no Google.

A Câmara de Vereadores de Fortaleza aprovou na última quarta-feira, por 31 votos a favor e apenas um contrário, o requerimento nº 3003/2013, que coloca em regime de urgência o projeto de decreto legislativo 0028/12. Este projeto estabelece a criação de um plebiscito para a população da capital cearense dizer “sim” ou “não” à continuidade da construção do Acquário Ceará.

Apesar de comemorado por diversos movimentos sociais, o plebiscito pode não chegar em boa hora. Aprovado o regime de urgência, o projeto tem de ser votado pelos vereadores de Fortaleza em até cinco sessões ordinárias da Câmara. Assim, a apreciação do projeto aconteceria no dia 13 de agosto, o que pode ser tarde demais para deter o prejuízo.

“Se já houver muito dinheiro liberado para o Acquário, pode ser pior para os cofres públicos a paralisação da obra”, diz o promotor do Ministério Público de Contas do Tribunal de Contas do Estado do Ceará (TCE-CE), Gleydson Alexandre. Segundo ele, ainda falta uma avaliação do TCE para saber se é mais prejudicial aos cofres públicos paralisar ou não as obras, que estão a cargo da Secretaria de Turismo do Estado do Ceará (SETUR). Segundo o Tribunal, já há R$ 285,7 milhões contratados para a obra e desse valor R$ 47,6 milhões já foram pagos pelo governo cearense – e 16,67% do aquário foram construídos até agora. A intenção do governo cearense é que ele esteja  pronto em 2014 para aproveitar os turistas da Copa, o que já resultou em uma contestada dispensa de licitação e em um processo de licenciamento com falhas graves como mostrou a primeira reportagem sobre o tema feita pela Pública.

Enquanto o Ministério Público tenta fazer os cálculos antes de tomar uma posição, os movimentos sociais que denunciaram a obra milionária e discutível desde o início querem apressar a realização do plebiscito. Com esse objetivo, o movimento Quem Dera Ser um Peixe, em parceria com o Comitê Popular da Copa de Fortaleza, articulou-se com a Associação de Surfistas de Fortaleza, a Caravana da Periferia e outros movimentos em defesa da Praia de Iracema, local da construção do Acquário, para planejar uma ocupação da Câmara de Vereadores nessa sexta-feira às 9 horas da manhã.

“Quanto mais essa votação é adiada, mais difícil fica a paralisação das obras. A nossa luta é para que isso seja votado ainda neste mês, independente de recesso. É um tema urgente porque envolve dinheiro público”, diz a historiadora Andréa Saraiva, do movimento Quem Dera Ser um Peixe.

Foi deste movimento, aliás, que partiu a ideia do plebiscito popular. Após algumas reuniões, os militantes do Quem Dera contataram o vereador João Alfredo (PSOL) para que o parlamentar propusesse o plebiscito na Câmara. Em 19 de abril de 2012, o vereador apresentou o projeto de decreto legislativo que convoca o plebiscito. “Desde 2012, temos um projeto de Decreto Legislativo que prevê um plebiscito para consulta popular. O que é prioridade em um Estado como o nosso, com problemas graves na área da saúde, da educação e de segurança?”, questionou o parlamentar durante a votação do requerimento de urgência, do qual também é autor.

Outros 17 parlamentares assinaram o requerimento de urgência. Na semana passada, o próprio governador do Ceará, Cid Gomes (PSB) declarou não se opor ao plebiscito. “Se há questionamentos, eu não tenho problema nenhum em colocar isso numa decisão de plebiscito. Eu penso que a maior parte vai ser a favor e não tenho nenhum problema em submeter isso. Se forem contra, eu terei toda a humildade”, afirmou.

E se o povo disser não?

O único vereador que se posicionou contra o requerimento, Carlos Mesquita (PMDB), não pediu vistas do processo. A Pública não conseguiu contato com o vereador mas segundo seu assessor, Paulo Ângelo, o parlamentar é contrário ao Acquário Ceará por entender que o Estado tem “outras prioridades”.

“Neste momento o vereador avalia que a obra tem que continuar. Já há contratos firmados, que têm que ser honrados. Já há dinheiro pago pelos cofres públicos, a obra está chegando a um quinto de execução”, argumenta Ângelo. “Se o plebiscito passa e o povo vota contra o Acquário, o que vai se fazer com o dinheiro investido? É uma incoerência”, diz o assessor.

O vereador João Alfredo rebate os argumentos. “Ele está querendo ser mais realista que o rei. Se o próprio governador deu declarações favoráveis ao plebiscito, quer dizer que ele vê que haja a possibilidade de fazê-lo sem danos ao erário. Até agora, só há um buraco ali, podemos fazer outro tipo de obra pública, como uma praça, por exemplo”, avalia. Para o propositor do plebiscito, ainda é possível reverter a obra e renegociar os contratos ou o governador se oporia à sua realização.

“Mas quero deixar claro que o plebiscito foi proposto em abril de 2012 e ele não foi apreciado antes por uma série de fatores: falta de disposição da Casa, falta de uma mobilização popular maior contra a obra, etc.”, afirma João Alfredo, que credita às manifestações de rua contra obras faraônicas da Copa o atual questionamento sobre o Acquário. “As manifestações na Copa das Confederações trouxeram essa reivindicação de volta”, avalia, lembrando que a grave seca no Estado torna ainda mais questionável um investimento dessa magnitude em um aquário.

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Leia também

A Transposição, um projeto dos tempos do Império

|

Cíclicos como as secas no Nordeste, projetos de combate à falta d'água surgem e desaparecem há mais de três séculos

A falência moral da FIFA

|

Encastelados em um centro de convenções na zona sul de São Paulo, dirigentes do futebol mundial apoiam Joseph Blatter às vésperas da Copa mais controversa da história

Notas mais recentes

Locais de votação alterados e abstenção: estigma afasta eleitores da Maré das urnas


Fim da escala 6×1 vai a votação no Senado, mas aliados de Flávio tentam barrar


Mulheres são maioria das vítimas de violência política, mesmo sendo minoria das candidatas


Senado deve avaliar PEC do fim da escala 6×1 no Plenário após primeiro turno das eleições


Aposta online: 12 dos 17 parlamentares da Bancada das Bets seguem mais 4 anos no Congresso


Leia também

A Transposição, um projeto dos tempos do Império


A falência moral da FIFA


Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Assine nossas newsletters
Fique por dentro

Artigos mais recentes

Meta bloqueia conteúdos políticos pró-Lula e contra Flávio acusando terrorismo e nudez

|

Ministério Público Federal abre investigação contra a empresa e X por violação à liberdade de expressão

Um jumento na filarmônica

|

Contrabaixista na Europa volta ao Recife e reencontra crianças de projeto social que o iniciou na música há 20 anos

Em foto, Eduardo Bolsonaro aparece cercado de apoiadores da extrema direita na festa de gala da Hispanic Heritage

Eduardo Bolsonaro vive noite de celebridade na festa da extrema direita nos EUA

|

Ao som de “La Bamba” e “Macarena”, festa teve clima de vitória de Flávio Bolsonaro e ingressos de R$ 15 mil a R$ 50 mil

A misoginia de diálogos de Vorcaro e CEO que expôs atrizes: “Mulher não pode fazer isso”

|

CEO da Globo demitido hoje fez comentários machistas sobre Deborah Secco e Sabrina Sato, e chamou prefeita de vaca

Líder da oposição no Senado, senador Rogério Marinho (PL-RN) durante entrevista

Chefe da campanha de Flávio Bolsonaro esteve no Senado mas não votou na 6×1

|

Rogério Marinho (PL-RN) fez uma reunião de 3h, se encontrou com aliados e saiu sem falar com a imprensa

Daniel Vorcaro, do Banco Master, e Fred Kachar, do Grupo Globo

A linha direta de Vorcaro dentro do Grupo Globo: “Quer que peça pra corrigir?”

|

Vazamento de mensagens do ex-banqueiro a Fred Kachar expôs interferências editoriais e levou à demissão do executivo

Montagem feita por IA com imagens do presidente Lula e do candidato Flávio Bolsonaro

Meta barra mais conteúdos pró-Lula e progressistas que pró-Flávio, aponta levantamento

|

Levantamento documentou mais de mil casos de restrições e banimentos nas plataformas em outubro

Plenário do Senado Federal durante sessão que votou PEC do fim da Escala 6x1

Fim da escala 6×1 é a maior mudança na jornada do trabalhador brasileiro desde 1988

|

Com 75 votos a favor e um contra nos dois turnos de votação, PEC aprovada garante dois dias de descanso a trabalhadores

Um quarto dos senadores que apoiam a PEC da Flexibilidade tem antepassados escravocratas

|

Levantamento da Agência Pública no Projeto Escravizadores mapeou famílias de mais de cem políticos brasileiros

Tropa do Esquadrão de Polícia Montada que atua no entorno dos estádios de futebol, passam por instrução, na sede de Itapuã em Salvador.

No meio do caminho tinha uma norma – o que explica mortes causadas por policiais da Bahia

|

Instrução normativa de 2019 dificultou investigação de policiais militares; estado é onde as polícias mais matam

Integrantes da Bancada Indígena do Congresso Nacional, Sônia Guajajara (à esquerda) e Célia Xakriabá (à direita)

Bancada indígena diminui no Congresso e lideranças se preparam para desmonte e retrocesso

|

Representantes do movimento indígena citam risco às demarcações, imposição do Marco Temporal e aparelhamento da Funai

Colagem com frames de vídeos de Lula nas redes sociais

Do susto ao mutirão: como a campanha de Lula tenta virar o jogo nas redes e nas ruas

|

Campanha tenta virar o jogo com nova abordagem nas redes, atos pelo Brasil e engajamento de influenciadores e artistas